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Brotéria, Fevereiro de 2016

29.02.16

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Jornal de Letras, 11 Novembro 2015

18.12.15

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DEZ NOTAS

 

Enquadra-se o último romance de José Luís Peixoto (JLP), Em Teu Ventre, em dez notas literárias, que se intentam constituir como âncoras de leitura:

 

  1. MEMÓRIA HISTÓRICA: um dos mais importantes elementos enquadradores do romance é constituído pela história de Fátima e pela multiplicidade da sua hermenêutica religiosa e ateia. Como é possível escrever sobre Fátima sem cair na repetição do "já dito", do "já sabido", do "já conhecido"? Como elevar a um patamar estético a biografia dos Pastorinhos e a hierofania das Aparições? JLP solucionou estas questões optando, de um modo original, primeiro, por não ceder à facilidade do realismo; segundo, postado num equilíbrio de cortar a respiração em cada capítulo - por respeitar as Aparições sem as envolver no dilema maniqueísta entre verdade e falsidade (cf. epígrafe de Alain Badiou); terceiro, por apostar no lirismo como manto envolvente da narrativa, espiritualizando-a;

 

  1. BÍBLIA: texto-matriz alimentador do romance. É um texto-arca, um texto-fonte para o autor, que com ele dialoga continuamente na sua obra, como já sucedera em Nenhum Olhar, Uma Casa na Escuridão, e Cemitério de Pianos. Texto inspirador, no plano da expressão, que sustenta o estilo bíblico da intervenção de Deus como narrador, um Deus que, no romance, ganha o estatuto ficcional do ser do texto e não como transposição religiosa verdadeira;

 

  1. NARRATIVA COMO TELA: o romance evidencia-se como uma tela visual, cinematográfica, na qual as imagens avulsas da vida de Lúcia e da sua família e os acontecimentos principais, com exceção do relato das Aparições, se vão sucedendo, descritas liricamente como fluxos de consciência, fantasmas da realidade, criando a ilusão da verosimilhança. Não se trata de uma imaginação solta, liberta da realidade, vogando indefinidamente num mundo só seu, mas de um universo modelado pela diferente realidade acontecida. Pode-se, com facilidade,, criar um texto para teatro a partir de monólogos de Lúcia e sua mãe, Maria. Assim, o leitor não está perante um texto absolutamente fidedigno em relação ao sucedido, mas do que o autor (não o narrador) concebeu como uma das hipóteses do que poderia ter sucedido;

 

  1.  NARRADOR: narrador clássico e narrador múltiplo e diferenciado segundo as perspetivas individualizadas das personagens, Deus, Lúcia e Maria. Deus: narrador sentencioso, atemporal, universal, judicativo; Lúcia, narradora inocente (fala com animais e objetos); Maria, narradora múltipla (há pelo menos três figurações diferentes de Maria) emotiva e sofrida, exemplo cultural paradigmático da Mulher/Mãe;

 

  1.  ESTILO: lírico, indubitavelmente, integrado no habitual do autor. Palavras enquadradoras de sentimentos (qualidade de estesia, analisada por Luís Carmelo em A Luz da Intensidade), cultivando uma percepção ou sensualidade emotiva, que desperta no leitor uma comoção estética. Todo o parágrafo parece nascer da primeira frase, como se esta fosse a única e as seguintes seus desdobramentos, explorando-a descontinuamente, não deixando de impor, no entanto, um ritmo sintáctico contínuo e harmónico, fortemente musical. Todo o romance parece ser um cruzamento de "monólogos" pelos quais se dá conta de fluxos de consciência narrativos de Deus, Lúcia e Maria, Padre, Jacinta, Francisco, emoldurados pelo ato de narração clássica;

 

  1. TEMPO: 1917, Fátima, casa e aldeia de Lúcia demarcam uma temporalidade específica. Porém, o estilo lírico-poético, assemelhando-se ao ritmo de união de versos num poema, eleva o primeiro nível de temporalidade a uma beleza estética intemporal. Melhor dito, atemporal, que condiciona a leitura da ação e do enredo particulares a um modo de expressão universal. Tanto se está em casa de Lúcia, com a panela do almoço ao lume, como se reflete, sobretudo nos versículos sentenciais de Deus, sobre a criação do mundo, a liberdade, o destino e a angústia humana;

 

  1.  ESPAÇO: Serra d'Aires, Fátima. Tal como, ao longo do romance, o tempo se abstratatiza e atemporaliza, assim o espaço profano se metamorfoseia em espaço sagrado por via do acontecimento hierofântico das Aparições, no entanto nunca narrado, apenas sugerido pelos seus efeitos (Maria da Capelinha, multidão, intervenção do padre ou senhor prior...). O estilo lírico combina com a mundividência do espaço sagrado, a hierofania das Aparições com a sacralidade territorial das revelações. No final, anuncia-se, por intermédio do afã de Maria da Capelinha, a instauração do sagrado através da elevação de uma capela;

 

  1.  MEDO E ESPANTO: segundo Rudolfo Otto (A Ideia do Sagrado, 1917) e do seu conceito de "Numinoso", não se pode falar de sagrado sem que duas categorias emirjam espontaneamente: a de tremendum e a de fascinans. Encontramo-las em Em Teu Ventre subordinadas à descrição da emoção, do medo como sentimento que tanto desperta o pavor do desconhecido quanto atrai pelo maravilhoso. Desorientada, narcotizada por se sentir privilegiada pelo acontecimento, e ambicionando "tocar" (ter direto contacto) com os Pastorinhos, a multidão é atravessada pelo duplo sentimento de medo e espanto: violenta a casa de Lúcia (pp. 137 ss.), ameaça esta (pp. 56-57) e constrange Jacinta e Francisco (pp. 145 ss.);

 

  1. IDOLATRIA: este duplo sentimento de medo e espanto sagrados gera uma onda de veneração e adoração entre a multidão: curiosidade infantil, rogos e preces (pp. 139-141), novos vestidos e coroas de flores para Lúcia e Jacinta (p 156); deferência pelo estatuto de Lúcia como intermediária entre o profano e o sagrado (p 157). São os movimentos iniciais de idolatria que converterão doravante Fátima num local de oração e penitência para milhões de portugueses;

 

  1. HINO À MÃE: É, indubitavelmente, a grande personagem de Em Teu Ventre. A mãe de Lúcia, síntese e símbolo da mulher portuguesa sofredora, resignada, protetora da filha e socorro da família, não se amotina, não se revolta, nem quando o marido a procura a desoras, protesta angustiosamente, desorientada: contra Lúcia, presumindo que esta mente, ou quando Lúcia brinca fingindo ser Nossa Senhora (pp. 129 130); contra o destino que assim a fez mulher como um ser humano de segunda categoria; contra a fatalidade que a marcou como mãe de uma vidente; contra o silêncio que se ergue em torno do clamor das mães. Os últimos versículos da fala de Deus no romance retratam a Mãe do Céu, que é a mãe da Humanidade, a mãe de todos, e, portanto a mãe de Lúcia. A Mãe singular une-se à Mãe cósmica em forma de laço que tudo une, o Amor de Mãe, a Esperança dos Homens.

Belíssimo romance, um dos melhores de José Luís Peixoto. Acabámo-lo de ler e não queríamos que tivesse acabado. É o melhor elogio que se pode fazer a um livro e a um autor.

 

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Correio Braziliense, 15 dezembro 2015

16.12.15

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Correio Braziliense, 8 dezembro 2015

10.12.15

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Jornal de Letras, 11 Novembro 2015

21.11.15

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Jornal i, 14 Novembro 2015

14.11.15

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A obra de José Luís Peixoto é, como todos os trabalhos que essa pequena palavra designa, uma construção em transformação permanente. De livro para livro vai-se diversificando e criando pontos de ligação que dão forma ao conjunto. 

Prova disso é o lançamento quase simultâneo do livro “Em Teu Ventre” e do de viagens e receitas culinárias, “A Viagem do Salmão”, feito em parceria com o chefe Henrique Sá Pessoa. Mas dos dois é o primeiro que tem dado que falar. Depois de “Dentro do Segredo – Uma Viagem na Coreia do Norte” e de “Galveias”, o escritor lança-se num novo território, apresentando uma reflexão sobre um tema que seria difícil antever. “Em Teu Ventre” fala sobre as aparições de Fátima, entre Maio e Outubro de 1917, cruzando a dimensão histórica dos acontecimentos com outras questões que acabam por revelar traços de identidade mais profundos e colectivos. É também uma reflexão sobre Portugal, o país que leva consigo para onde quer que vá, seja para a Coreia do Norte, para o olhar que lança sobre o mundo que observa e regista no seu iPhone, seja para os seus livros ou para o contacto com o outro.

Quando estava a ser fotografado foi abordado por uma leitora. É algo que lhe acontece com frequência?

Acontece com alguma frequência, porque a minha exposição é grande a diversos níveis, e é quase sempre positivo. Para mim também é uma alegria. Acho que é um sinal de que a comunicação foi efectiva e isso parece-me que em certa medida é um dos objectivos de quem escreve: que aquelas palavras cheguem a alguém e despertem alguma coisa.

Mas muitos escritores, porque já se expõem através da escrita, evitam por vezes esse tipo de contacto. Não parece ser o seu caso.

Eu já fui tímido, mas fui deixando essa timidez num lugar que preservo dentro de mim, porque as circunstâncias que procurei levaram-me a entender a escrita como algo que tem uma outra dimensão e que não se abstém do contacto directo com as pessoas, que para mim acaba por acontecer aos mais diversos títulos. Mais que na rua, normalmente acontece nas apresentações dos meus livros.

E o que lhe costumam dizer quando o abordam?

Normalmente, quando as pessoas se me dirigem é para falar sobre aspectos daquilo que escrevi e de alguma posição que tomei em relação a alguns assuntos, e eu encaro isso como um sinal de generosidade dessas pessoas, porque partilharem isso comigo carrega uma boa energia e dá-me alento para continuar o meu trabalho.

Pelo que percebi, também procuram conhecer as novidades literárias, o que anda a fazer. Agora tem este livro, “Em Teu Ventre”, lançado recentemente e baseado nas aparições de Fátima. Porque decidiu tratar este tema?

Pelos constrangimentos que o próprio tema oferece. Entendi-o como um desafio e a delicadeza do tema requereu uma atenção redobrada e estratégias para conseguir construir o livro que queria fazer, sem sucumbir a questões que a meu ver desvirtuavam a minha proposta. Ao mesmo tempo é a atracção por uma história fascinante, que tem uma repercussão imensa não só no século xx português, mas dentro de uma certa vivência católica no quotidiano de milhares de pessoas. Pareceu-me que é uma história em relação à qual existe uma versão, que é a mais disseminada apesar de bastante imperfeita, e que muitas vezes ignora uma série de circunstâncias e dados reveladores, porque para lá do seu aspecto de crença e fé também tem uma dimensão histórica que é muitíssimo importante e que hoje em dia, na maior parte dos aspectos, é inequívoca. Foi esse lado que me seduziu. Ao mesmo tempo também senti que toda esta história me dava condições interessantes para tratar uma questão que está entre as grandes questões da natureza humana e que é a maternidade. E aí as questões da nossa origem, da nossa identidade mais profunda.

No livro, paralelamente à narrativa, vai aparecendo de resto uma voz materna...

Sim, e aparece também um outro narrador
que acaba por cruzar esses dois planos,
o da religiosidade e o da maternidade,
e que tem essa forma em versículos

e também está dividida em capítulos, como
na Bíblia, e que de certa forma ali se apresentaria como um narrador…

Deus?

É assinalado como sendo Deus, o que por um lado é curioso porque também revela outra figura que está ali indirectamente e que é a do próprio criador do texto. Existe também uma mãe, que de certa maneira se apresenta como a mãe do autor, porque fala para quem está a escrever e comenta aquilo que está a ser escrito, muitas vezes com alguma dureza e sentido crítico, e que pretende representar a mãe que sempre permanece em nós e fiscaliza os nossos gestos, as nossas ideias.

E que muitas vezes é incompreendida, como o livro também mostra.

Sim, mas a partir de certa altura acaba por se desdobrar num paradoxo porque é sempre uma voz criada pelo próprio autor. Nunca é efectivamente a voz da mãe, e isso tenta exprimir um pouco a questão que é a relação com os progenitores, seja ela qual for, mas também o quanto essas figuras têm uma dimensão que é supra-humana e transcendente. Quando nascemos as nossas mães já estavam cá, habituámo-nos a que elas nos garantissem uma quantidade de coisas no momento em que éramos indefesos e não tínhamos possibilidade de as garantir. Só mais tarde começamos a perceber que as nossas mães são humanas e têm outra dimensão para lá daquilo que é mais evidente para nós, porque há muitos aspectos dessas vidas que normalmente escapam aos filhos mas existem e é importante ter em consideração se as quisermos amar como elas são, como mulheres e como pessoas.

“Em Teu Ventre” também não procura julgamentos sobre os acontecimentos e realça-os sob o olhar das crianças, com ênfase em Lúcia.

Isso tem a ver com essa escolha de tratar o assunto pelo seu lado histórico. Obviamente, há sempre um aspecto interpretativo daquilo que são factos, mas depois também existem os próprios factos. Por muito que olhemos para as crianças e possamos ver-lhes características já adultas, a verdade é que eram crianças e de uma idade bastante tenra. Ao mesmo tempo, também me parece que interessante trazer alguma clareza sobre aquilo em que não há dúvidas, porque quanto à fé não me parece que haja argumentos que sejam absolutamente inquestionáveis e permitam dizer que as aparições foram ou não efectivas. Isso terá sempre de ser uma escolha que parta da sensibilidade de cada um, da forma como vê o mundo e das questões do transcendente e do divino. Estamos a referir-nos a acontecimentos que tiveram lugar numa época que não testemunhámos, o que temos são relatos e relatos que, contrariando a natureza, põem as coisas nesse ponto. A minha forma de lidar com isso no livro foi não descrever esses momentos, porque ao descrevê-los iria sempre tomar partido. E neste caso vou tendo as minhas próprias convicções e sensibilidades mas não me parece interessante estar a impô-las aos outros. Ao fazê-lo iria mutilar o livro da sua intenção principal, que é fomentar a reflexão sobre um assunto que está presente com muita frequência mas é pouco aprofundado e ao longo do tempo foi ganhando diversas conotações.

Este era um tema de que se falasse em sua casa, em família?

Não é um assunto particularmente próximo por essa via, embora a minha educação tenha sido toda católica. Andei na catequese, fiz a primeira comunhão, tive sempre contacto com esse mundo. Mas sinto que, em relação a esta história em particular, a forma como ela me foi contada quando era criança ainda é aquela que se utiliza para a contar à maioria dos adultos hoje em dia. Uma versão infantil e infantilizada, algo grosseira, que distorce elementos importantes da história real. Enquanto adultos que nos interessamos por conhecer a realidade que nos rodeia, é importante que exista uma tentativa de a contar de uma forma mais realista. Obviamente, isto é um livro de ficção, não é um manual histórico sobre esses acontecimentos, mas sinto que existe também uma certa procura de realismo. Fiquei muito contente por perceber que os católicos e as instâncias católicas mais ciosas desta história, de um modo geral, têm aceitado que se trata de uma reflexão.

Como tem sido o feedback da Igreja a este livro?

Não tive uma reacção exacta por parte de nenhuma hierarquia, mas tive alguns sinais que me deixaram muito contente. A primeira apresentação do livro foi feita em Fátima e na presença de figuras bastante ligadas ao culto mariano e até com algumas responsabilidades. Ao mesmo tempo, a primeira entrevista sobre este livro foi para a Rádio Renascença, a emissora católica portuguesa. E isso deixa-me muito contente. Em nenhum momento quis que este livro fosse uma provocação ou agressão à fé em relação a Fátima ou à Igreja. Houve até alguns aspectos que mostram isso, um deles tem a ver com as fontes que escolhi para seguir e construir esta narrativa.

 

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Rascunho, Setembro 2015

21.09.15

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O Estado de S.Paulo, 7 Maio 2015

19.06.15

(texto abaixo)

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Em busca de um lugar para a dor e de sentido

 

José Luís Peixoto lança "Morreste-me", breve ficção sobre a morte de seu pai

 

Em 1996, o português José Luís Peixoto tinha 21 anos e estudava para ser professor de inglês e de alemão. Não sonhava que ganharia o Prêmio José Saramago, para jovens autores, e que em poucos anos construiria uma carreira literária internacional respeitada. Mas a morte de seu pai naquele ano, depois de um sofrido tratamento de saúde, e a experiência de voltar, de fato ou em pensamento, à casa da infância, vazia, mudaria seu destino. Nascia, ali, um escritor – não que ele tivesse consciência disso quando começou a escrever o que se tornaria, depois, Morreste-me, que só agora ganha edição no Brasil.

Foi então com esta narrativa em que o filho conversa com o pai “impossivelmente morto”, enquanto relembra os últimos momentos vividos em casa ou no hospital e fala sobre o presente, ou seja, o regresso “a esta terra cruel. A nossa terra, pai. E tudo como se continuasse”, que Peixoto estreou na literatura.

José João morreu em janeiro. José Luís começou a escrever sobre sua perda em maio. Achava que se tratava apenas um texto, mas ao terminar sentiu que tinha mais a dizer – e continuou. “Cada frase foi escrita com muita dificuldade. Lembro-me de passar muito tempo diante da folha e, no fim do dia, ter duas, três frases, não mais”, conta. Encerrado o processo que durou um ano, ainda não considerava que estava diante de um livro. “Foi só mais tarde, quando percebi que nunca poderia escrever algo que se lhe comparasse, que me apercebi do quanto se tratava de um texto único. Então, decidi publicá-lo.”

O primeiro capítulo saiu no suplemento juvenil do Diário de Notícias, em 1997. Depois, a versão integral seria incluída na Colectânea de Textos Jovens Criadores 98. Em 2000, Peixoto bancaria uma edição de autor porque não queria que a obra precisasse da aprovação de nenhum editor – e eles vieram com o tempo. Nesses 15 anos, foram 20 edições em Portugal, o que representa cerca de 80 mil exemplars vendidos. Morreste-me foi lançado também em françês, espanhol, catalão, inglês, italiano e croata. “Este livro tem se mantido sempre por demanda dos leitores. Não sou capaz de fazer uma avaliação fiel dos resultados, mas creio que tem muito a ver com a identificação que as pessoas que já perderam alguém encontram nessas páginas. Além disso, hoje em dia, não é fácil encontrar livros que não tenham medo de falar sobre a morte”, comenta.

Peixoto não teve medo de mergulhar nesse luto, de se apresentar menino diante de sua dor e de se mostrar homem diante da situação do pai: “Pai que nunca te vi tão vulnerável, olhar de menino assustado perdido a pedir ajuda. Pai, meu pequeno filho”. O autor tampouco tem medo de encarar esta sua primeira obra. Em 2012, ele fez uma leitura integral de Morreste-me e emocionou o public que lotou a Casa de Cultura de Paraty, numa programação paralela à Flip. E, desde a semana passada, viaja pelo País para divulgar o lançamento. Hoje, ele participa de dabate com a escritora Paula Fábrio, cujo próximo romace, Ponto de Fuga (título provisorio), tem temática similar.

Voltar ao livro, diz o autor, continua o emocionando. “Por mais tempo que passe, nunca me consigo alhear daquilo que aquelas palavras transportam. Ainda assim, essa relação está em constante mudança. Hoje, muitas vezes, quando digo “pai” sou eu o pai ou, às vezes, esse pai são os meus filhos. O amor, no entanto, é o mesmo. “ Um ano depois de perder o pai, nasceu João, o primogenitor de Peixoto. André, o caçula, tem 10 anos.

Para o autor, escrever, pensar e falar sobre a morte é, em primeiro lugar, uma forma de contribuir para uma reflexão sobre a vida e prestar atenção em temas fundamentais como o tempo e o amor, entre outros. “Vida e amor”, ele responde, é o que o interessa na literatura. “Para mim, a literature é cartografia invisível. Por meio dela, tentamos encontrar sentido, referências para não nos perdermos do essencial. Ela dá proporção, equilibra a memória, limpa o pensamento”, completa.

Depois de Morreste-me, Peixoto lançou Nenhum Olhar, venceu o Prêmio José Saramago e resolveu assumir que era escritor. Lançou, ainda, entre outros, Uma Casa na Escuridão, Cemitério de Pianos e Livro. “Existe um antes e um depois muito claros marcados pela escrita desta obra. Essa mudança acompanha a grande alteração que aconteceu na minha vida com a morte do meu pai. Ainda fico impressionado ao lê-lo e ao constatar como ele condensa muitos dos temas essenciais daquilo que tenho desenvolvido no que escrevo. Sinto muita alegria por ter escrito este livro nessa idade. Foi uma ajuda enorme e permitiu que me organizasse e clarificasse aquilo que me importa”, diz.

Nascido em 1974, em Galveias, Peixoto é um dos principais autores portugueses de sua geração. “ Tenho muita pena que o meu pai nunca tenha imaginado que, um dia, eu me tornaria escritor. Sempre que alcanço alguma realização com meus livros, sinto sempre essa falta”, confessa. E, a certa altura do livro, o narrador diz: “Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas palavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou”.

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La Marseillaise, 30 Mai 2015

16.06.15

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BSC News, 25 mai 2015

07.06.15

JOSÉ LUÍS PEIXOTO: UNE MAGNIFIQUE ODE A LA FIGURE DU PÈRE

 

Par Nicolas Vidal

 

José Luis Peixoto est devenu indéniablement l'une des grandes voix littéraires du Portugal. L’auteur a commencé comme journaliste et critique littéraire, parallèlement à une écriture poétique soutenue pour laquelle il a remporté plusieurs prix à l’aube de l’an 2000 et a connu un succès retentissant en 2001 avec son recueil A Criança em Ruinas. Puis ce fut une suite ininterrompue de parutions littéraires - romans et pièces de théâtre - jusqu’à la parution de La mort du père, écrit entre 1996 et 1997 puis publié en France en 2013 par les Editions Grasset.

José Luis Peixoto entretient un lien très fort avec ses racines et son rapport à la figure paternelle. C’est d’ailleurs le cas dans plusieurs de ses ouvrages tant l’auteur portugais reste très attaché à cette thématique.La mort du père est un petit objet littéraire d’une puissance incroyable, cristallisant le réceptacle d'une maîtrise littéraire de haut vol. Le narrateur revient dans la maison familiale après la mort de son père. Voilà le temps du souvenir et de l’absence où la terre d’origine est désormais «cruelle», où le père n’est plus, tout autant que ce qu’il représentait. En réalité, c’est un chant littéraire qui porte les louanges du père et de la dramaturgie de l’absence. Le fils revient sur les derniers instants de son géniteur à l'heure où la pudeur de ce dernier tente de minimiser son imminente disparition « Tu t’éloignais par les couloirs chargés de gris et d’éclairage morne, tu t’éloignais : alors, la sensation terrible que tu ne reviendrais jamais. » La mort du Père étudie avec talent les sentiments les plus durs et l’impuissance face à la mort dans ce rapport au père et ce qu’il induit pour un fils : la perte de repères et la disparition d’une figure qui a construit et qui a transmis « Oui, papa, tu as réussi. Tu as tout réussi. Tu m’as donné ce que j’ai. Tu m’as construit, tu as construit l’espoir dans tout ce que tu touchais».

Au-delà du rapport paternel, ces quelques milliers de mots choisis et agencés avec soin invitent à une formidable réflexion sur le rapport que nous entretenons avec le deuil, la mort et l’absence. Bluffant. La Mort du Père est un formidable chant d’hommage autant qu’il est un recueil poétique merveilleux parce qu’il touche, secoue et remue en vous ce qui se sent sans pouvoir se formuler. Un grand livre qui fera date.

 

 

La mort du père
José Luis Peixoto
Editions Grasset
10 euros - 64 pages

 

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