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La Repubblica, 10 Abril 2004

05.04.14

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Sol online, 04 Dezembro 2012

04.04.14

As sombras e a luz de José Luís Peixoto

 

Luís Osório


Estive em Galveias, o lugar onde uma rua tem o seu nome e as pessoas lhe tocam como se tocassem em si próprias. Não é uma forma de dizer ou de pintar as palavras, é a mais pura das verdades, eu vi.

 

Na Rua José Luís Peixoto estava um cão a âfalarâ ao fundo. Um homem foi ao seu encontro e da placa, perguntou-lhe se era mesmo aquele que partira para a grande cidade, para o mundo. Era ele, o do nome no cimento, o escritor com quem almocei a sós, pela primeira e última vez, quando dirigia um jornal e ele tivera um enorme sucesso com o seu Morreste-me, livro em que viajou ao interior de uma memória em ferida, a do seu pai morto quando estava em idade de vida. Creio que acabara de lançar o Nenhum Olhar, romance em que partiu dos lugares da juventude, os dessa Galveias que o moldou e lhe deu tudo o que precisava fê-lo como Saramago que, apesar de ribatejano, escreveu o Levantado do Chão. Saramago por convicção ideológica, Peixoto por urgência de si próprio.

 

Almoçámos no desaparecido restaurante Paris, conversámos de circunstâncias, fiz-lhe um convite para ser cronista, o trivial. Eis que, dez anos depois, encontrámo-nos na terra onde tantos vivem cismados como se, em permanência, armassem exércitos de sombra e de luz. Contou-me dessas cismas: «Quando alguém aqui se suicida há sempre quem diga não ter ficado surpreendido porque ele ou ela andavam cismados». A cisma não se explica, habita a intimidade do Alentejo, habita também o escritor, pressinto-o nas suas palavras, nas que escolhe para matar e nascer, pressinto-o.

 

Na encosta de uma colina do alto alentejano, rodeada de duas barragens onde o silêncio é ensurdecedor, Galveias é José Luís Peixoto. Na escola primária, mais de quarenta miúdos esperaram a sua visita, receberam-no com gritos, fizeram-lhe perguntas. A ele e à velha professora que o ensinou a ler e a contar.

 

Perguntas sem ponto de interrogação no fim, opiniões que esperavam apenas pela sua concordância. âConheceu o meu pai, não conheceu Foi aqui nesta sala que aprendeu como estou a aprender, não foi Nos países que visitou tem saudades daqui, não temâ. Esperava que perguntassem pelos piercings cravados só no lado direito. Pelas tatuagens que vivem à superfície e são marca de água, pensei que perguntassem pelo óbvio, mas não Os miúdos perguntaram sem perguntar, como o fizeram também os velhos e os amigos de infância e juventude. Uma entoação de ponto de interrogação, sem ponto de interrogação se a frase fosse escrita.

 

Retórica que não é bem amor, talvez mais uma alma colectiva, uma identidade. Não tenho o talento de explicar, é como se no caminho de regresso, tivessem vindo com ele e com uma parte de todas as crianças, amigos de infância e os velhos que visitou no lar. As flores que lhe deram, o desenho oferecido por uma criança que o pintou e o colocou ao seu lado, como se fosse também um bocadinho seu filho e José Luís Peixoto um pai que, de uma maneira ou de outra, estará sempre presente. Afinal ele é a prova de que tudo é possível a professora primária bem lhes repetiu naquela manhã: «O José Luís era tão ou mais irrequieto do que vocês, ninguém lhe dava descanso à perna».

 

O cão a âfalarâ ao fundo da rua baptizada com o seu nome é importante nesta história. Cismei à minha maneira que o era porque, de todos por quem passámos nas Galveias, talvez fosse mesmo o único para quem o escritor não passava de mais um, igual aos outros.

 

Não lhe disse destes pensamentos. Viemos à conversa todo o caminho com uma câmara a gravar, talvez um destes dias essas imagens possam ser vistas falou-me de Portugal, da palavra Amor, a única que ficaria se por ventura de todas as outras tivesse de abdicar. Estranha forma de vida que o fez, ainda assim e sem contradição, aproximar-se das vísceras das guitarras em distorção, dos sons pesados e de sombras, do que é gótico e parece mais afastado da luz de que se diz pródigo Di-lo sem dizer quando escreve cartas de afecto aos professores, quando escreveu ao pai o que talvez tenha sempre ficado calado, quando inventou palavras de poema para a mãe que é a casa que conhece, a casa que a maioria de nós conhece. Quando se diz optimista também. A luz e a sombra. Porventura a explicação para metade da sua cara estar âtatuadaâ e a outra estar limpa sombras e luz, morte e vida, pessimismo e optimismo, cisma e esperança.

 

Falou-me também das viagens, deste último livro (Dentro do Segredo), quase jornalístico, um quase no país dos mistérios e das sombras, uma Coreia do Norte por onde pôde caminhar e ver com os olhos das suas obsessões, inquietações e sonhos. Ou do seu primeiro livro infantil, A Mãe que Chovia, um longo poema de amor à sua própria mãe, que tão orgulhosa ficou quando a rua foi inaugurada com o nome do filho nascido no Setembro do ano da queda do Estado Novo. Rua José Luís Peixoto, onde um quase jovem como ele lhe fez perguntas retóricas e um cão ladrou da sua justiça.

 

 

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El País, 3 Maio 2014

04.04.14

Hijos de la revolución del 74

Nietos literarios de Saramago y Lobo Antunes, los novelistas portugueses que rondan los 40 años se alejan del realismo comprometido

La crisis que ha arrasado Portugal, dicen, está demasiado cerca para ser materia narrativa

 

Desumanização, la última novela del exitoso Walter Hugo Mãe (Saurimo, Angola, 1971), uno de los nuevos narradores portugueses más premiados, transcurre en Islandia.Para onde vão os guarda-chuvas(Adónde van los paraguas), el libro que ha consagrado a Afonso Cruz (Figueira da Foz, 1971), se sitúa en un impreciso Pakistán algo fantasmagórico que a veces parece sacado de un cuento de Las mil y una noches. Son dos ejemplos de las más novedosas propuestas de la notable generación actual de escritores lusos que copa los galardones y se hace con los lectores. Algunos los acusan de escapistas. Otros recuerdan su vocación internacional y su suprema libertad de narrar lo que les dicte el alma.

Rondan la cuarentena. Nacieron, pues, en los años setenta y comenzaron a publicar a principios de siglo. Ahora eclosionan. Tienen éxito. No es raro que en la Feria del Libro de Lisboa alguno de ellos tenga una cola de centenares de seguidores a la espera de su firma. Pertenecen a una generación que no vivió la Revolución de los Claveles o que la vivió siendo muy niños. De hecho, es el primer grupo de escritores portugueses liberado por completo del amarre de la memoria de esa casi mitológica fecha, el 25 de abril de 1974, que lo significa todo para Portugal y que sirve de frontera entre el pasado y el presente del país. “No se sienten vinculados a nada, nacieron libres”, asegura la escritora y editora Maria do Rosário Pedreira, responsable del descubrimiento de buena parte de estos escritores. “Durante la dictadura, y mucho tiempo después, Portugal se debatió entre el neorrealismo y el existencialismo. Hasta Lobo Antunes ySaramago. La generación posterior a ellos también consideraba que debía escribir, por así decir, comprometida. Pero estos nuevos autores no. Les caracteriza, precisamente, la falta de necesidad de estar comprometidos, su riqueza de estilos, su mayor preocupación formal, el haber estudiado fuera, el haber vivido hasta tarde en casa de sus padres. Y, literariamente, han sido capaces de recoger las cartas de Lobo y Saramago, barajarlas y repartirlas de nuevo”, añade.

Esta especialista, sin ser muy tajante con las fechas, data el impreciso nacimiento de este grupo en 2001 con la publicación de Nenhum Olhar(traducida al español por Nadie nos mira), de José Luís Peixoto(Galveias, 1974), una narración que transcurre en una aldea del Alentejo profundo, pero con resonancias alegóricas y hasta bíblicas, con una potencia simbólica que la aleja del realismo. Años después, la publicación de la muy premiada Jerusalén, de Gonzalo M. Tavares(Luanda, Angola, 1970), tal vez el autor más internacionalmente reconocido de este pelotón de nuevos narradores, confirmó el advenimiento de un nuevo modo de narrar. La novela describe una sola y alucinada noche de varios personajes que transitan por una ciudad extraña de Centroeuropa. El mismo Tavares acaba de publicar en la traducción al castellano de Viaje a la India (Seix Barral. Versión de Rosa Martínez Alfaro), una novela en verso que narra un viaje a Oriente desde Lisboa.

José Luís Peixoto nació en una pequeña aldea del Alentejo y reivindica para sí —y para su país— tanto su pasado rural como su moderno futuro cosmopolita. Recuerda la visita a los pueblos de su infancia de las denominadas, entonces, “bibliotecas itinerantes”, y de cómo ellas fueron su primer contacto con los libros. Pero también asegura que su generación fue la primera que gozó de una oportunidad clave: “La de escoger caminos específicos y únicos”.

La pobreza es terrible, pero no creo que la literatura sea la mejor manera de reflexionar sobre lo muy contemporáneo

Este escritor, que acaba de publicar un libro de viajes que describe su paso por Corea del Norte, tituladoDentro do Segredo, reconoce que los escritores portugueses encuentran dificultades para mirar hacia su propio país: “Tal vez sea porque Portugal tiene un problema para verse a sí mismo. No sabemos si somos pequeños o grandes. Si somos grandes porque tuvimos un imperio o si somos pequeños porque nos dice latroika lo que tenemos que hacer”. Pero añade que esa tendencia empieza a quebrarse: su última novela, titulada Livro, narra la sufrida inmigración portuguesa al París de los años sesenta y setenta. Y recuerda el caso de la exitosa novela O Retorno, de la escritora Dulce Maria Cardoso, que cuenta el drama de 500.000 personas obligadas a regresar a Portugal de golpe, procedentes de las antiguas colonias lusas, principalmente Angola y Mozambique. No eran del todo portugueses, porque muchos habían nacido en África; pero tampoco eran angoleños o mozambiqueños por completo: de hecho se les expulsó de la tierra en que habían nacido una vez se declaró la independencia. Solo les quedó regresar a una metrópoli con la que no contaban y que no contaba con ellos. La misma Dulce Maria Cardoso, nacida en Angola en 1964, que vivió hasta los 10 años en Luanda, fue uno de ellos, y su obra, más que ajustar cuentas con la historia o los gobernantes o los políticos de entonces, lo hace —generosamente, sin señalar a los buenos y a los malos— con ese tiempo suyo de la infancia, muchos años después. Los personajes sienten nostalgia por una patria perdida irremediablemente, Angola, pero también por la madre patria idealizada que no aguantó el cara a cara y en la que, a pesar de todo, tuvieron que refugiarse. Todo esto está contado con realismo, ritmo e inteligencia por un adolescente listo, amedrentado, extrañado, espabilado, ligón y valiente, que ve su mundo tambalearse sin que a su lado se levante otro fiable.

El éxito de la novela de Cardoso (varias ediciones, miles de ejemplares vendidos, multitud de artículos sobre el asunto) indica la necesidad de Portugal por este tipo de historias-espejo, pero la escritora confesó a este periódico hace tiempo que había necesitado todos estos años para poder abordar seriamente el asunto.

Peixoto sostiene que, a pesar de su atmósfera onírica, en todos sus libros habla de Portugal. “Incluso cuando me voy a Corea y describo Corea, escribo de Portugal, del negativo de Portugal. Es cierto que en los años noventa, el país quiso dejar atrás su imagen de tierra atrasada. Pero esa mujer de negro que aún habita en nuestras aldeas no es una extraña para nosotros. Es la madre de nuestra madre: es nuestra abuela”.

Y sin embargo, muchos echan en falta que este puñado de escritores modernos, atentos a la realidad, implicados en las redes sociales y en los periódicos, amigos entre ellos, no se impliquen más en el tema por excelencia que hoy por hoy atraviesa Portugal: la crisis económica que lo ahoga todo o casi todo y que hace que los portugueses vivan cada día un poco peor. “Es cierto que estamos viviendo un momento terrible. Por la pobreza que se ve y por el desempleo. Y yo estoy muy afectado, claro, como todos. Pero no creo que la literatura sea la mejor manera de reflexionar sobre lo muy contemporáneo. Aún no ha llegado la novela de la crisis, pero llegará”, dice Peixoto. “Son muy creativos, muy artistas. Se preocupan más de su historia que de la historia. Pero están dotados para cambiar de blanco. Y no me extrañaría que lo hicieran”, añade Maria do Rosário Pedreira.

Clara Capitão, la directora editorial de Alfaguara en Portugal, coincide también en ubicar esta crisis demoledora demasiado encima del momento actual, demasiado presente, para que sirva de material literario. “Pero eso no quita para que este grupo de escritores no se muestre muy crítico con las políticas de austeridad y con la situación del país. Escriben en periódicos y en revistas, y ahí son muy activos, como son muy activos, por ejemplo Peixoto o Hugo Mãe, en sus cuentas personales de Facebook”, añade. Capitão recuerda, por otra parte, que uno de los libros más reconocidos de esta generación, La máquina de hacer españoles, de Walter Hugo Mãe, no deja de ser una reflexión sobre el modo pesimista de ser portugués, escrita con el sello personalísimo y melancólico del autor. Esta editora asegura que, sea como fuere, es una generación de escritores jóvenes muy traducidos fuera de Portugal, que se consideran nietos por igual de José Saramago y de António Lobo Antunes.

Lisboa es como Londres o Madrid: los mismos muebles de Ikea, la misma gente que lleva las mismas zapatillas…

Afonso Cruz, como otros muchos escritores de esta generación, no es solo narrador, sino ilustrador, dibujante de películas, de dibujos animados, pintor y músico, entre otras cosas. Vive con su familia en un pueblo perdido del Alentejo remoto, cerca de la frontera con España, pero viaja a menudo por todo el mundo y ha pasado buena parte de su vida viajando. Su último libro, el rotundo Para onde vão os guarda-chuvas le ha reportado un buen puñado de lectores además de un conjunto de buenas críticas. Es un relato extemporáneo, extraño, largo, de 600 páginas divididas en capítulos muy cortos: narran la pérdida de un hijo por parte de un vendedor de alfombras de un país parecido al Pakistán contemporáneo a manos de un pelotón de soldados norteamericanos pagados por un mafioso. Un hindú aconseja al vendedor de alfombras que para restañar la pena que le hunde en la depresión debe adoptar un hijo… de nacionalidad norteamericana. En la casa del comerciante, en una mezcla algo esquizofrénica, residen, además del comerciante y del hijo adoptivo, un primo derviche mudo y sin pelo y una hermana loca por conseguir un marido que le regale un par de zapatos de tacón de aguja. A todo esto hay que añadir parábolas orientales, asesinatos, relatos realistas de la explotación de niños, y decenas de golpes de humor y de rabia. “La idea viene de la respuesta que Gandhi le dio a un hindú que le preguntó qué podía hacer después de que un musulmán le matara a su hijo. Gandhi le respondió que adoptara un niño musulmán. Es una manera de superar eso de ojo por ojo y diente por diente”, dice Cruz. El escritor, en una cafetería céntrica de Lisboa procedente de su pueblo, de paso hacia Macao asegura que, en su opinión, las causas aparentemente lejanas no están en realidad tan lejos: “No puedo jerarquizar el valor de las vidas humanas. Eso de que valen más las que están más cerca, no va conmigo. Y un problema en Pakistán o en Irak también es un problema aquí. No solo lo son los desempleados de Portugal, sino los esclavos de África o de Oriente Próximo”. Para Cruz, el mundo se ha estrechado, las ciudades han dejado de ser particulares y únicas, y han pasado a ser todas muy parecidas, perdiendo en el camino su propia identidad: “Por eso es difícil definir lo que es Portugal. Porque Lisboa es parecida a Londres o Madrid, con los mismos muebles de Ikea, con la misma gente que lleva las mismas zapatillas, que come casi lo mismo. Después de haber viajado tanto, la portugalidad pasa a ser menos importante”, añade.

João Tordo (Lisboa, 1975) es autor ya de siete novelas, de temas muy diferentes. Alguna de ellas, como Anatomia dos Mártires, aborda precisamente la aparente abulia o indiferencia política de su propia generación. Por un lado se confiesa tan portugués “como de cualquier otra parte”. De hecho, ha vivido en Londres y en EE UU y, como sus compañeros de generación, viaja mucho. Así, sus novelas se localizan tanto en Portugal como en cualquier otra parte. Pero también asegura que solo comenzó a comprender su propio país cuando residió fuera de él: “Somos un pueblo que se lamenta del pasado y que tiene miedo del futuro. Y eso nos impide ver el presente”. Y añade: “Jamás vi tanta pobreza a mi alrededor, tantas tiendas cerradas. Lisboa, con sus restaurantes y sus turistas, constituye tal vez un oasis. Pero más allá de la crisis económica, lo que me asusta más es una suerte de crisis espiritual. Nuestro Gobierno solo habla de números, nuestros gobernantes son solo contables. Y este discurso aplastante nos impide, otra vez, ver el presente. Es como si viviéramos con unas orejeras de burro. Tal vez tengamos la obligación de volver a ser escritores comprometidos”.

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Revista Caixa Azul, 2011

04.04.14

José Luís Peixoto / "Escrever é recordar de olhos abertos"

 

“Abraço”, o novo trabalho do escritor, chegou ontem às livrarias. Um conjunto de memórias que comemoram dez anos de escritos do autor. “É um livro que pretende ser positivo”, diz

José Luís Peixoto chega tranquilo. Mãos nos bolsos, sorriso terno e um punhado de histórias para contar, tantas que a entrevista teve de ser cortada a metade, porque o tempo passou, e chegou a hora do escritor seguir para o Porto para apresentar o mais recente livro, “Abraço”, nas Quintas de Leitura. Uma apresentação de dois dias, em moldes diferentes, para um livro que comemora dez anos de escrita. Um conjunto de recordações a partir de textos que José Luís Peixoto publicou nos mais diversos sítios desde 2001. Ao contrário do que se possa pensar, “Abraço” não é um livro de crónicas. Os textos são ligados por um fio, que lhes dá princípio, meio e fim.

 

Podemos dizer que este é um livro de memórias. Das suas.
Sim. Tudo se fica a saber nesse livro, ele conta a minha vida ao pormenor. Para mim não é de maneira nenhuma... [Pausa]. Para mim estamos aqui a conversar, não há nada off the record. Alguém que publica um livro destes não tem off the record.

Ao longo do livro há vários abraços descritos. O que significa este livro?
Este livro não é um depósito de textos ou uma limpeza da gaveta. Este é, efectivamente, um livro. Organizá-lo foi uma tarefa complicada, deixei de fora mais do que o dobro do seu tamanho [657 páginas].

São dez anos.
Estes são os textos que considero válidos.

Válidos?
Que merecem continuar a ser lidos. Queria um livro que tivesse uma narrativa e unidade interna. Tê-lo conseguido é um dos meus maiores orgulhos.

É por isso que não o assume como livro de crónicas?
Tenho alguma dificuldade em entender o género crónica. É útil e felizmente temos uma boa tradição de espaço para crónicas na imprensa, na medida que permite ao autor ter um contacto mais corrente com o leitor, uma vez que os romances demoram muito a escrever. Quem escreve até beneficia porque evolui a sua escrita. Mas em termos do conceito literário de crónica já tenho duvidas, na medida em que tudo é crónica. Até a ficção é crónica de alguma coisa, daquilo que conhecemos, que vivemos, do que somos. Neste livro existe um fio autobiográfico que acaba por fazer, sem erro, que o consideremos como livro de memórias. No entanto fiz questão de incluir textos ficcionais que nem sempre são óbvios para quem lê.

Porque mesmo em ficção a sua escrita é autobiográfica?
Todos os textos têm sempre presente tanto a autobiografia como a ficção. Isto é paradoxal, mas faz parte. As palavras que utilizamos e a forma como estruturamos as narrativas, são o reflexo do que somos. Se por um lado nunca podemos descrever aquilo que desconhecemos, também é verdade que ao passarmos essas experiências pelo nosso filtro, retiramos-lhe a imparcialidade absoluta. Há, portanto, um carácter tendencioso e em certa medida, ficcional.

Algumas interpretações podem não ser agradáveis. Convive bem com isso?
Convivo e procuro-as de uma forma feroz. De alguma forma este carácter tão autobiográfico do “Abraço” é um reflexo da minha necessidade de me pôr em causa de cada vez que escrevo. Se escrever algo em que as pessoas acreditam, é positivo. Mesmo que isso faça com que as pessoas tenham uma visão negativa de mim, enquanto personagem. O leitor não é indiferente à ideia que possa ter do autor. Muitas vezes chego a intimidades bastante constrangedoras, mas que são uma experiência.

Já aconteceu escrever coisas e depois de uma interpretação do leitor, desvendar outras em relação ao que escreveu?
Muitas vezes há coisas que me são mostradas sob uma luz que não tinha considerado. Mas nunca sobre mim próprio. Não me conheço totalmente, mas em relação aos leitores tenho consciência que aquilo que eles podem construir sobre mim é uma personagem. E uma personagem é sempre menor que uma pessoa. Mas admito que este livro dá muitas pistas sobre mim, vai ser difícil contar histórias, sem me repetir, a quem ler o livro. As minhas histórias estão todas aí [aponta para o livro].

Recriou três conversas para o dividirem três partes -uma como seu filho mais novo, a segunda como mais velho e a última consigo próprio. Qual a dose de realidade e de ficção?
Há ficção claro, as conversas não aconteceram naqueles moldes, mas são pilares do livro. A primeira é muito importante porque aparece no início, quando se lançam pressupostos do que vai ser o livro. No fim da conversa com o André [novo] chegamos à resposta: “Porque o amor”. Esse é o grande centro do livro. É um livro com muito afecto, que pretende ser positivo e fazer bem.

Não é uma escrita dura e crua como estamos habituados.
Nem pensar. O início é tranquilo porque é infância, alentejana e feliz, quase com um olhar saudoso. Há momentos mais difíceis no livro, mas sinto que o balanço foi feito. Olho para este livro e percebo que a minha vida tem sido gratificante. As experiências dolorosas fizeram-me crescer e sinto-me privilegiado.

Estão presentes várias relações familiares e de amizade. No entanto parece que é dedicado aos seus filhos?
Não tenho dúvidas que os meus filhos são os meus maiores feitos. Percebi que poderia ser não apenas uma forma de estruturar o livro, mas poder dizer-lhes: “Isto é o que eu sou”.

É uma carta aberta aos seus filhos?
Pode ser. Espero que muitas pessoas possam ler o livro, mas em última análise, no futuro, os destinatários são os meus filhos. A paternidade sempre esteve presente em tudo aquilo que escrevi. Primeiro como filho e aos poucos como pai. Sempre me trouxe muitas questões e me fez saber mais sobre mim. Percebi melhor o meu pai. Quando escrevi o último romance [“Livro”] percebi que de alguma forma o meu pai era eu. Quando nasci ele tinha todo aquele tamanho porque já cá estava. Mas depois eu fui pai. Não sei como dizer... [pausa]

Tomou o lugar dele?
No sentido em que os meus filhos me viam como eu o via a ele. Então havia um desfasamento porque sou uma pessoa com fragilidades, defeitos e múltiplas questões. Claro que imaginar os meus filhos a ler alguns dos textos causa-me algum pudor. E isso já não acontece se pessoas que não conheço os lerem. É a tal coisa que falava antes de me pôr em causa com verdade.

Neste caso com as pessoas próximas.
É fundamental humanizarmo-nos, espero que o livro consiga fazer isso. Mitificamos demasiado as pessoas, tanto políticos, como personalidades. Parece-me um sinal de desconhecimento.

Num dos textos diz que deseja que não exista pudor na relação pai/filho. Como era com os seus pais?
Acho que sim. Os meus pais são de outra geração, um nasceu nos anos 30 e outro nos 40, e cresceram num meio em que as relações entre pais e filhos eram diferentes. Sempre os tratei por “você”, não pela via Cascais, mas por um certo distanciamento e respeito. Não estou a criticá-los, acho importante que os pais sejam pais, mas há limites que devem ser limados.

Há três ilustrações no livro. Fale-nos delas.
Dizem respeito a um texto específico. A primeira são as notas da 1ª classe. Dizem que sou “irrequieto e falador”. Pensei chamar assim este livro, é algo que me define um pouco. A segunda é uma entrevista, um pouco radical, à banda que tive aos 18 anos, Hipocondríacos. A última é um autógrafo do Saramago dirigido a José Luís Pacheco, havia muita gente que me chamava assim.

Por falar na banda. A música está muito presente na sua vida e era acérrimo frequentador do Luxe da Bica. Ainda?
Já fui mais, tenho uma vida muito agitada, mas hoje em dia não passa por aí. Acho que já não vou ao Lux há três anos, e à Bica há uns meses. Aproveito o tempo para escrever e ler. Como viajo muito, gosto de sair à noite fora de Portugal. Mas aqui vou a muitos concertos. Por exemplo [começa a procurar qualquer coisa no bolso], já tenho comigo um porta-chaves [mostra] que dá para guardar tampões para os ouvidos. Ou seja, já é de outra maneira. Já me preocupo em ficar surdo. [risos]

Tem feito letras para músicos e o próximo CD do Jorge Palma tem uma letra sua.
Isso é um feito. Quando fizer a contabilidade da minha vida vou dizer: “Eh pá, fiz uma letra para o Jorge Palma. Fantástico!” A música tem estado presente na minha vida de uma forma diferente e espero que permaneça. Também fiz letras para os Da Weasel, para fadistas e grupos dos mais diversos, até de metal.

Ainda ouve heavy metal?
Claro, sempre esteve presente. Às vezes sinto que o metal é uma vocação. Não sei definir, exactamente, porque é que o género me fala tão profundamente. Comecei a ouvir com 11 anos.

O que lhe trouxe a infância no Alentejo?
Estrutura. Trouxe-me a minha visão do mundo e como encarar o tempo. Não é uma questão pequena. Diz-se que a fotografia é feita com luz. A escrita é feita com tempo. Não tenho dúvidas.

Por um lado, o Alentejo e Natureza, por outro, a imagem de escrever num lugar escuro, janelas fechadas. Como é feito este equilíbrio?
Escrever é um momento em que se olha para dentro, é, muitas vezes, recordar com os olhos abertos. Não é fundamental ter um grande apelo do exterior, uma grande paisagem, não ajuda à escrita. Distrai.

Tem uma relação obsessiva com a escrita?
Sim, quando estou envolvido na escrita de um romance faço coisas com menos frequência: tomar banho, comer, cortar as unhas [mostra as unhas compridas]. As pessoas próximas sabem que fico ausente. São momentos solitários, mas bons.

Foi pai do João aos 22 anos e o seu pai tinha falecido um ano antes. Como é que se fez esta mudança?
Foi um momento determinante e teve uma repercussão imensa no que escrevo. Foi o momento em que escrevi os meus primeiros livros. O “Morreste-me”, o “Nenhum Olhar”, que nascem dessa constatação de ter terminado uma idade, que para mim era tudo. E ter começado outra de uma forma abrupta e para a qual eu não estava totalmente preparado. Daí que essas questões da paternidade estejam sempre presentes. Os pais são o passado que nós conseguimos compreender.

Qual a mensagem global do livro?
O centro é o amor, mas existem outros temas: a escrita é um tema muito importante, as viagens, a interrogação sobre o meu próprio lugar no mundo. Sinto que é um livro que pretende ser apaziguador.

Reconfortante.
É uma boa palavra. Tenta ser aquilo que um abraço é. Que se oferece sem reservas e que não pede nada em troca.

É a mensagem mais importante para os seus filhos?
Sim. Quando se encontra alegria e prazer em dar, somos ricos.

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Sol online, 17 de Dezembro 2012

04.04.14

José Luís Peixoto: 'É difícil avaliar a felicidade dos outros'

 

 

17/12/2012 09:54:00
Se há lugares que poucos conhecem, a Coreia do Norte é um deles. Apesar do hermetismo, recebe alguns turistas por ano, em viagens organizadas acompanhadas por guias locais. Ninguém pode estar sozinho. José Luís Peixoto participou numa viagem desse tipo. Consigo levava a intenção de escrever um livro sobre um dos países mais mal conhecidos do mundo. Dentro do Segredo (ed. Quetzal) já está nas livrarias.

como surgiu a ideia de ir à coreia do norte?

tenho viajado bastante. a partir de certa altura impôs-se a escrita de viagens. o centro temático do que escrevi até aqui é o que me é próximo. se quisermos encontrar uma região que se associe à minha obra é o alentejo, onde nasci e cresci. quis procurar experiências, temáticas e cenários diferentes. a coreia do norte era diferente de forma extrema. esperava encontrar algo que me fizesse reflectir, que abanasse o meu mundo.

mas entre o alentejo e a coreia do norte há uma panóplia imensa de opções.

sempre tive interesse na realidade de países como a coreia do norte. e não é como se saísse de uma aldeia no alentejo e fosse à coreia do norte. há duas semanas acabei um ciclo de viagens: num mês fui ao brasil, macau, canadá e índia. o livro está ligado à minha experiência. não há a certeza da verdade, é um país enganador, com muitos jogos de espelhos, ilusões, alucinações, que fazem com que se duvide do que se vê e do que nos é contado.

receava a viagem. não partilhou onde ia. porquê?

existem ideias feitas e preconceitos em relação ao país que não sabia se deveria desmontar porque não tinha a certeza da sua validade. e fiquei mais receoso quando, em dezembro do ano passado, morreu kim jong-il, o líder incontestado e único da coreia do norte, o que colocou o país numa grande indefinição. achei que podia haver necessidade de provar algo à ordem internacional. para um estrangeiro, isso tanto pode ser uma vantagem como uma desvantagem.

fala-se de reféns…

em japoneses desaparecidos, que terão sido sequestrados pela coreia do norte, que o rejeita. mas há sinais que a incriminam.

não podia levar material impresso. mas decidiu levar o dom quixote.

foi um risco calculado. não é directamente subversivo, o que poderia ser uma atenuante. e era em português. receia-se que se tente fazer alguma espécie de proselitismo, religioso ou político. alguns já o tentaram, o que trouxe situações desagradáveis.

deixou o telemóvel à entrada do país. isso fez-lhe bastante impressão. porquê?

era um símbolo. habituámo-nos a estar sempre contactáveis. quando isso se perde, fica a insegurança.

assinou um papel em como não escreveria nada, o contrário da sua intenção.

não era viável esconder que escrevia livros. assumi-o desde o início. mas fiz saber que não era jornalista. ou não ia ou assinava o papel. assinei-o contrariado, achando que não teriam direito de, depois, me impedirem de dizer o que vi. quando cheguei fui averiguar qual a validade do documento em termos legais. não é muita. há um valor superior: a liberdade de expressão.

qual foi a sua primeira grande impressão ao chegar?

a constatação de lá estar, que nunca dei por garantido. houve um momento em que a agência me enviou um e-mail a dizer: ‘não podemos garantir que o percurso que se pensou fazer seja feito. pode desistir agora’. foi perturbador. estava em causa não só a viagem como a intenção de escrever um livro.

a viagem foi organizada por uma agência de viagens chinesa. é a única forma de lá entrar como turista?

não, existem agências na holanda, frança e china. só que as viagens são mais curtas, de cinco dias. não há turismo de massas. fui com um grupo de 20 pessoas que, numa parte da viagem, teve de ser dividido. não havia possibilidade de sermos hospedados todos em certas cidades. e as estradas não suportavam veículos onde fôssemos todos.

sublinha várias vezes ser contra todos os regimes totalitaristas e ditatoriais. por que sentiu essa necessidade?

achei importante. li muito sobre a coreia do norte e muitas coisas faziam a apologia do país e do regime. mas é um regime violento, cruel, que merece a nossa condenação, por mais interessante que seja avaliar um extremo a que uma sociedade pode chegar, avaliar um extremo a que a natureza humana pode chegar, sob a perspectiva da crueldade e da prepotência e da submissão.

diz que a coreia do norte não é um regime comunista. porquê?

não tenho nenhuma intenção de desculpabilizar as ditaduras comunistas que não são, em aspecto nenhum, melhores do? que quaisquer outras. sou contra todos os tipos de ditaduras. há um livro sobre a coreia do norte, que cito, de um senhor chamado myers, sobre a sua ideologia. confirmando o que li com o que vi, é sobretudo nacionalista e racista.

em que sentido?

promove tudo o que é coreano e a raça coreana em detrimento das outras. os inimigos, como o japão ou os estados unidos, são demonizados a partir de uma perspectiva racial. as ditaduras ditas socialistas sempre fizeram uma distinção entre a população e os seus dirigentes. no caso da coreia do norte, até as crianças americanas são representadas como facínoras. o único país, dos inimigos declarados da coreia do norte, em que existe uma distinção clara entre a população e os dirigentes é a coreia do sul, em que os dirigentes são retratados como fantoches ao serviço dos eua ou do japão, mas a população é vista como irmã, algo que foi separado artificialmente mas que um dia se reunirá. parece-me que no momento em que as coreias foram divididas e que kim il-sung começou a organizar o país, foi empurrado pela ordem internacional para esse lado. o mundo estava dividido, tinha de encontrar uma forma de sobreviver. havia uma guerra, precisava de apoio. veio desse lado.

os princípios do socialismo não estão lá?

são aplicados mas creio que são uma forma de organização, não um valor ideológico.

mas há a percepção de que é um país comunista. tivemos a polémica de o pcp não o condenar.

ainda existe um mito em relação a isso. o pcp não apoia o regime da coreia do norte. foi próximo, mas que já não é.

o que mais o surpreendeu na viagem?

tive uma margem de liberdade maior do que imaginei. existem algumas bolsas de descanso. as pessoas riem-se com gosto. dançam e cantam. e as trocas de afecto são muito mais visíveis no quotidiano da coreia do norte do que aqui.

teve contacto com o quotidiano das pessoas? percebeu, por exemplo, como se casam?

os casamentos são livres. as pessoas casam-se com quem querem. mas há coisas que entram em consideração para essas escolhas, como a posição social. o que também acontece aqui. é o normal. namoram e casam. e o estado garante-lhes uma casa.

uma casa?

tem muito que se lhe diga. morar-se na capital só está acessível a alguns, a uma elite. e tudo é definido pelo estado: onde moram e em que condições.

o estado está presente em tudo?

sim. a roupa é fornecida pelo estado, a comida também, quase não há comercio.

e há igualdade de género?

teoricamente sim, mas as mulheres têm papéis muito definidos, atribuídos por questões tradicionais, relacionadas com os filhos.

aqui também.

sem dúvida. já morreram 36 mulheres este ano [vítimas de violência doméstica].

é comum, por exemplo, encontrar mulheres no exército?

sim. na construção civil e no exército. mas os papéis são bem definidos.

as pessoas não sabem que há outro mundo. pareceram-lhe felizes?

é muito difícil avaliar a felicidade dos outros. muitas vezes não depende do quanto se tem. mas acredito que é muito difícil ser feliz passando fome, como me pareceu acontecer nalguns lugares daquele país. esse aspecto é determinante: o facto de se desconhecer completamente aquilo que é o mundo exterior, ou o facto de se ter uma ideia do mundo exterior que não é a real e que coloca a coreia do norte como o país mais desenvolvido do mundo, que leva as pessoas a crerem-se privilegiadas.

acredita-se mesmo nisso?

penso que sim. não circula qualquer cultura no país, excepto a propagandística, a promover a coreia, os valores da coreia, a obediência e o respeito pelos líderes.

como são vistos os americanos na coreia do norte?

toda a gente acha que os americanos os invejam e que são forças do mal, que são intrinsecamente maus do ponto de vista moral, enquanto os coreanos são intrinsecamente bons e vistos como um povo escolhido. muitas vezes mostram-nos coisas acreditando que nós ficamos impressionados. mas temos que empregar uma certa diplomacia. não podemos questionar aquilo que nos é dito, não podemos discordar quando nos dizem que os líderes são extraordinários, não podemos debater isso.

como foi viver duas semanas assim?

houve duas partes. quando começou a chover, o país, que é bastante cinzento, tornou-se mais cinzento ainda. a primeira parte vivi-a com entusiasmo pela descoberta. a segunda com muito cansaço.

qual o momento de transição?

o aspecto do clima foi importante, coincidiu com uma altura em que estive quatro dias fora da capital que foram muito penosos. fomos para regiões onde não iam estrangeiros. via-se uma pobreza muito grande. estive em países africanos com muita pobreza, na costa do marfim, na índia. mas aquela pobreza é diferente, não é assumida, tenta-se esconder. aguenta-se com grande estoicismo mas há sinais muito duros.

como quais?

no caso das crianças ou dos velhos, a sua grande fragilidade. percebe-se que estão mal alimentados, estão mal vestidos para aguentar as temperaturas nesses lugares a norte onde neva.

impressionou-o mais que a pobreza da índia?

sim, é acompanhada de toda a opressão de um mundo que está fora do mundo, da ignorância do que existe fora dali.

achou que era tudo um teatro?

é frequente quererem impedir-nos de olhar em volta, dizerem-nos: ‘tens que olhar nesta direcção’. houve momentos em que, se fosse aceitável, nos teriam vendado. havia coisas que não queriam que víssemos. a justificação era que não queriam que se visse a pobreza. mas muitas vezes essa pobreza não era assim tão evidente. não se podia fotografar ou filmar em movimento. e mesmo em certos lugares havia restrições. às vezes nem havia nada de muito chocante a acontecer. noutros aspectos assiste-se mesmo à encenação e é até um pouco triste.

por exemplo?

em pyongyang, há a loja n.º 1 e a loja n.º 2. são armazéns com produtos chineses, a maior parte deles impossíveis de encontrar noutros lugares da coreia do norte. não há lá ninguém além dos trabalhadores. e é-nos dito que são lojas normais e que são aquelas as lojas onde as pessoas vão comprar o que precisam. é tão evidente que isso não é verdade que chega a ser deprimente.

conta que viu numa fábrica uma senhora fingir fazer experiências químicas...

é patético. uma mesa, no meio de uma sala, completamente vazia, com uma balança de pesos e uma senhora a misturar um pó branco com água não é o mesmo que estar a fazer experiências.

a viagem pesou-lhe?

tudo era estranho, diferente, específico. uma visita à coreia do norte é muito menos uma visita de fruição dos sentidos do que do intelecto. é uma visita muito intelectual. a natureza é fascinante, mas o que mais individualiza o país é a sociedade.

viaja por gosto ou pela profissão?

na maior parte dos casos tem que ver com a apresentação de livros meus e a participação em festivais literários no estrangeiro. depois de escrever este livro num tão curto espaço de tempo fiquei com vontade de estar mais tempo em casa e escrever mais. mas as viagens, sendo concorrentes com a escrita, também a alimentam.

está a escrever um novo livro?

estou a pensar nisso. as ideias que tenho vindo a desenvolver são para um romance. a escrita já começou há algum tempo, não no papel, mas na cabeça e nos projectos.

e a literatura de viagens, é para continuar?

tenho vontade de fazer mais viagens como esta, igualmente imprevisíveis e que, dependendo das características do lugar, me permitirão outras formas de escrita e outras formas de retratar a própria experiência. mas não quero dizer quais são.

os destinos serão novamente ditaduras?

não sei, ainda não está totalmente definido. mas tenho vontade de que este livro seja o início de uma série, mesmo que sem periodicidade definida. e vai ser.

tem uma legião de fãs no facebook e no instagram. por que lhe interessam tantos as redes sociais?

é uma forma excelente de comunicar. há um grande número de pessoas a seguir o que faço por essa via, alimento muito essas redes. coloco textos, muito material do que faço e dos meus interesses. e descobri a fotografia através do instagram. nunca tive, nem tenho, a intenção de ser fotógrafo. mas neste livro tenho uma fotografia tirada por mim na capa. algo que nunca esperei que acontecesse.

tem milhares de seguidores. é uma forma de chegar a novos leitores?

sim. e coloco lá textos que são publicados em lugares que não têm um acesso muito óbvio, às vezes fora de portugal, textos que publico na imprensa, entrevistas como esta.

rita.s.freire@sol.pt

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Diário de Notícias, 24 de Dezembro de 2012

04.04.14

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Time Out, 26 de Dezembro 2012

04.04.14

José Luís Peixoto

Entrevista, Livros

Em Abril deste ano, José Luís Peixoto viajou para a Coreia do Norte. Assistiu à festa do centenário de Kim-Il-Sung, visitou fábricas, museus e o mundo rural do país mais repressivo do mundo. A Mariana Correia de Barros falou sobre a experiência.
Porquê a Coreia do Norte?
Para ser sincero, ainda estou à procura das razões mais profundas dessa escolha. Sendo um país extremo, com características tão duras, também me interrogo. É uma pergunta de auto-análise. Responder é responder sobre mim próprio. Às vezes são desafios que coloco a mim mesmo. Quando assim é, depois a realização também é muito importante.

E já sabia que ia escrever um livro? 
Tinha uma boa suspeita de que isso podia acontecer. Sei que aquilo que me toca, normalmente me motiva para escrever e também supunha que uma viagem destas pudesse justificar, para mim, um livro. 

Qual é a grande diferença entre escrever um livro de viagens e um de prosa? 
O mais útil para mim foi a prática que tenho, há mais de 10 anos, de crónica. Aqui tratava-se, à partida, de dar conta daquilo que eu tinha visto. Nas condições em que tinha viajado. Sendo, por isso, também fiel a todos os dados concretos dessa experiência. O que é bastante diferente de um texto de ficção ou poesia onde, se calhar, aquilo que dita a verdade do que se escreve é o próprio texto. Aqui nunca poderia fugir do documental. É um livro que tem muito que ver com jornalismo. Como a crónica, que também é um género que nasce do jornalismo. 

Foi difícil distinguir a realidade da ficção?  
Já ia preparado, porque sabia as condições em que ia viajar. Não ia entrar clandestino no país, nem sequer a minha intenção, em nenhum momento, foi de recolher informações que me fossem vedadas. Sabia que as informações e tudo aquilo que é dado a ver a um visitante nas minhas condições são uma fachada propagandística. No entanto, também tive oportunidade de assistir às imperfeições desse cenário e por isso aquilo que às vezes interpretava de uma maneira, acabava por ser uma mistura do que via, do que me era dito, do que eu imaginava em função de outras informações que já tinha. 

Qual o episódio que mais o marcou? 
Foi nos festejos do centenário de Kim-Il-Sing, onde me misturei no meio da população. Já estava cansado de tanto tempo a ser apontado e colocado à margem. Mas houve outros, como a visita a um lugar que só começou a receber estrangeiros no ano passado. Estávamos rodeados de crianças e num episódio de avanços e recuos, consegui dar um aperto de mão a uma delas. Elas lembraram-me documentários sobre órfãos na Coreia do Norte que vivem em condições muito difíceis. Ali as crianças são o último reduto de várias coisas muito humanas, como ter alguma espontaneidade.

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Psí Víno, Czech Republic 2010

02.04.14

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Apresentação do "Cemitério de Pianos", Janeiro 2007

02.04.14

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Por Arcângela Oliveira (professora de JLP no ensino primário)

02.04.14

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