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Jornal i, 14 Novembro 2015

14.11.15

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A obra de José Luís Peixoto é, como todos os trabalhos que essa pequena palavra designa, uma construção em transformação permanente. De livro para livro vai-se diversificando e criando pontos de ligação que dão forma ao conjunto. 

Prova disso é o lançamento quase simultâneo do livro “Em Teu Ventre” e do de viagens e receitas culinárias, “A Viagem do Salmão”, feito em parceria com o chefe Henrique Sá Pessoa. Mas dos dois é o primeiro que tem dado que falar. Depois de “Dentro do Segredo – Uma Viagem na Coreia do Norte” e de “Galveias”, o escritor lança-se num novo território, apresentando uma reflexão sobre um tema que seria difícil antever. “Em Teu Ventre” fala sobre as aparições de Fátima, entre Maio e Outubro de 1917, cruzando a dimensão histórica dos acontecimentos com outras questões que acabam por revelar traços de identidade mais profundos e colectivos. É também uma reflexão sobre Portugal, o país que leva consigo para onde quer que vá, seja para a Coreia do Norte, para o olhar que lança sobre o mundo que observa e regista no seu iPhone, seja para os seus livros ou para o contacto com o outro.

Quando estava a ser fotografado foi abordado por uma leitora. É algo que lhe acontece com frequência?

Acontece com alguma frequência, porque a minha exposição é grande a diversos níveis, e é quase sempre positivo. Para mim também é uma alegria. Acho que é um sinal de que a comunicação foi efectiva e isso parece-me que em certa medida é um dos objectivos de quem escreve: que aquelas palavras cheguem a alguém e despertem alguma coisa.

Mas muitos escritores, porque já se expõem através da escrita, evitam por vezes esse tipo de contacto. Não parece ser o seu caso.

Eu já fui tímido, mas fui deixando essa timidez num lugar que preservo dentro de mim, porque as circunstâncias que procurei levaram-me a entender a escrita como algo que tem uma outra dimensão e que não se abstém do contacto directo com as pessoas, que para mim acaba por acontecer aos mais diversos títulos. Mais que na rua, normalmente acontece nas apresentações dos meus livros.

E o que lhe costumam dizer quando o abordam?

Normalmente, quando as pessoas se me dirigem é para falar sobre aspectos daquilo que escrevi e de alguma posição que tomei em relação a alguns assuntos, e eu encaro isso como um sinal de generosidade dessas pessoas, porque partilharem isso comigo carrega uma boa energia e dá-me alento para continuar o meu trabalho.

Pelo que percebi, também procuram conhecer as novidades literárias, o que anda a fazer. Agora tem este livro, “Em Teu Ventre”, lançado recentemente e baseado nas aparições de Fátima. Porque decidiu tratar este tema?

Pelos constrangimentos que o próprio tema oferece. Entendi-o como um desafio e a delicadeza do tema requereu uma atenção redobrada e estratégias para conseguir construir o livro que queria fazer, sem sucumbir a questões que a meu ver desvirtuavam a minha proposta. Ao mesmo tempo é a atracção por uma história fascinante, que tem uma repercussão imensa não só no século xx português, mas dentro de uma certa vivência católica no quotidiano de milhares de pessoas. Pareceu-me que é uma história em relação à qual existe uma versão, que é a mais disseminada apesar de bastante imperfeita, e que muitas vezes ignora uma série de circunstâncias e dados reveladores, porque para lá do seu aspecto de crença e fé também tem uma dimensão histórica que é muitíssimo importante e que hoje em dia, na maior parte dos aspectos, é inequívoca. Foi esse lado que me seduziu. Ao mesmo tempo também senti que toda esta história me dava condições interessantes para tratar uma questão que está entre as grandes questões da natureza humana e que é a maternidade. E aí as questões da nossa origem, da nossa identidade mais profunda.

No livro, paralelamente à narrativa, vai aparecendo de resto uma voz materna...

Sim, e aparece também um outro narrador
que acaba por cruzar esses dois planos,
o da religiosidade e o da maternidade,
e que tem essa forma em versículos

e também está dividida em capítulos, como
na Bíblia, e que de certa forma ali se apresentaria como um narrador…

Deus?

É assinalado como sendo Deus, o que por um lado é curioso porque também revela outra figura que está ali indirectamente e que é a do próprio criador do texto. Existe também uma mãe, que de certa maneira se apresenta como a mãe do autor, porque fala para quem está a escrever e comenta aquilo que está a ser escrito, muitas vezes com alguma dureza e sentido crítico, e que pretende representar a mãe que sempre permanece em nós e fiscaliza os nossos gestos, as nossas ideias.

E que muitas vezes é incompreendida, como o livro também mostra.

Sim, mas a partir de certa altura acaba por se desdobrar num paradoxo porque é sempre uma voz criada pelo próprio autor. Nunca é efectivamente a voz da mãe, e isso tenta exprimir um pouco a questão que é a relação com os progenitores, seja ela qual for, mas também o quanto essas figuras têm uma dimensão que é supra-humana e transcendente. Quando nascemos as nossas mães já estavam cá, habituámo-nos a que elas nos garantissem uma quantidade de coisas no momento em que éramos indefesos e não tínhamos possibilidade de as garantir. Só mais tarde começamos a perceber que as nossas mães são humanas e têm outra dimensão para lá daquilo que é mais evidente para nós, porque há muitos aspectos dessas vidas que normalmente escapam aos filhos mas existem e é importante ter em consideração se as quisermos amar como elas são, como mulheres e como pessoas.

“Em Teu Ventre” também não procura julgamentos sobre os acontecimentos e realça-os sob o olhar das crianças, com ênfase em Lúcia.

Isso tem a ver com essa escolha de tratar o assunto pelo seu lado histórico. Obviamente, há sempre um aspecto interpretativo daquilo que são factos, mas depois também existem os próprios factos. Por muito que olhemos para as crianças e possamos ver-lhes características já adultas, a verdade é que eram crianças e de uma idade bastante tenra. Ao mesmo tempo, também me parece que interessante trazer alguma clareza sobre aquilo em que não há dúvidas, porque quanto à fé não me parece que haja argumentos que sejam absolutamente inquestionáveis e permitam dizer que as aparições foram ou não efectivas. Isso terá sempre de ser uma escolha que parta da sensibilidade de cada um, da forma como vê o mundo e das questões do transcendente e do divino. Estamos a referir-nos a acontecimentos que tiveram lugar numa época que não testemunhámos, o que temos são relatos e relatos que, contrariando a natureza, põem as coisas nesse ponto. A minha forma de lidar com isso no livro foi não descrever esses momentos, porque ao descrevê-los iria sempre tomar partido. E neste caso vou tendo as minhas próprias convicções e sensibilidades mas não me parece interessante estar a impô-las aos outros. Ao fazê-lo iria mutilar o livro da sua intenção principal, que é fomentar a reflexão sobre um assunto que está presente com muita frequência mas é pouco aprofundado e ao longo do tempo foi ganhando diversas conotações.

Este era um tema de que se falasse em sua casa, em família?

Não é um assunto particularmente próximo por essa via, embora a minha educação tenha sido toda católica. Andei na catequese, fiz a primeira comunhão, tive sempre contacto com esse mundo. Mas sinto que, em relação a esta história em particular, a forma como ela me foi contada quando era criança ainda é aquela que se utiliza para a contar à maioria dos adultos hoje em dia. Uma versão infantil e infantilizada, algo grosseira, que distorce elementos importantes da história real. Enquanto adultos que nos interessamos por conhecer a realidade que nos rodeia, é importante que exista uma tentativa de a contar de uma forma mais realista. Obviamente, isto é um livro de ficção, não é um manual histórico sobre esses acontecimentos, mas sinto que existe também uma certa procura de realismo. Fiquei muito contente por perceber que os católicos e as instâncias católicas mais ciosas desta história, de um modo geral, têm aceitado que se trata de uma reflexão.

Como tem sido o feedback da Igreja a este livro?

Não tive uma reacção exacta por parte de nenhuma hierarquia, mas tive alguns sinais que me deixaram muito contente. A primeira apresentação do livro foi feita em Fátima e na presença de figuras bastante ligadas ao culto mariano e até com algumas responsabilidades. Ao mesmo tempo, a primeira entrevista sobre este livro foi para a Rádio Renascença, a emissora católica portuguesa. E isso deixa-me muito contente. Em nenhum momento quis que este livro fosse uma provocação ou agressão à fé em relação a Fátima ou à Igreja. Houve até alguns aspectos que mostram isso, um deles tem a ver com as fontes que escolhi para seguir e construir esta narrativa.

 

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Arcadia, Abril 2013

01.09.15

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Un antídoto desde la muerte

José Luís Peixoto, uno de los escritores con mayores ventas en Portugal, podría estar a un paso de convertirse en una figura imprescindible del panorama literario contemporáneo.

 


José Luís Peixoto casi muere la tarde que quedamos de encontrarnos. “Ha sido el peor accidente de mi vida. No entiendo cómo nadie salió lastimado. Mi carro quedó en pérdida total. Con eso te digo todo”, me dijo por teléfono esa noche cuando explicó por qué no pudo llegar a la entrevista que teníamos programada.

El accidente fue en la autopista que lleva del suburbio de Cascais a Lisboa. Una de las llantas hizo un movimiento anómalo en una curva y el escritor perdió el control del vehículo. “Luego choqué contra otro auto, comencé a dar trompos, y así, dando vueltas, fui a dar al otro lado de la autopista. Es el tipo de accidentes en los que alguien muere”, dijo al día siguiente, cuando finalmente pudimos encontrarnos.

Entonces se me vino a la mente un episodio de Te me moriste, su primer libro, que Peixoto comenzó a escribir pocos meses después de la muerte de su padre: “Me enseñabas. Serio, porque seria era la lección, me señalabas cada paso con la vista y decías mete la primera, coge bien el volante, ve soltando el embrague. Tus gestos, la forma de tus manos al tomar el volante; la forma de mis manos, el volante, mis gestos. Las cosas y yo se mecen, se dislocan todas”.

Te me moriste es un poema en prosa hipnotizante, con imágenes caleidoscópicas, que permeó de alguna u otra manera casi toda la conversación que Peixoto y yo sostuvimos en el café Vértigo: un lugar que como tantos en Lisboa juega con la frontera entre vanguardia y tradición. Nuestra mesa era una antigua máquina de coser, los asientos eran de hierro y nos rodeaban colores densos: violeta en telas de colgadura, verde oliva en las paredes, piso de madera oscura. Olía a té.

“Lo comencé a escribir a los veintiún años y fue en una situación muy personal, muy intensa, que fue la muerte de mi padre”, dijo este escritor de treinta y ocho años, que publicó la edición portuguesa de Te me moriste en el año 2000. En agosto del 2012 se imprimió su decimosegunda edición.

“Ese libro marcó todo. Lo que escribí después siempre fue un camino que parte de ahí. No estaba escribiendo una confesión. Tenía ideas literarias importantes. Lo digo sin modestia pero con sinceridad, aunque la fuente de donde llegaban las palabras venía directamente de una experiencia que para mí era muy transformadora como persona. Ese texto yo lo considero un libro a pesar de ser tan corto, por la importancia que tiene en la construcción de mi obra”.

Y su obra es desafiante, tanto para el lector como para los límites entre narrativa y poesía, pasado y presente, la vida y la muerte. Peixoto diluye estas fronteras meciendo al lector en anáforas, y su prosa desencaja el velo que separa a un mundo del otro haciendo que ceda, ceda, por la insistencia con que repite ciertas palabras.

“Una parte grande de lo que escribo tiene esa preocupación, de recordar que vamos a morir. Es tan importante hablar de eso, porque vivimos en sociedades donde hoy en día la muerte es más tabú que cualquier otra cosa; más que el sexo, que está en todas partes. Sin la muerte, la vida perdería sus cualidades más elementales. Es la muerte la que marca el tiempo. Sin muerte no tendríamos consciencia de la existencia del tiempo”.

“Disculpa, hoy estoy un poco esotérico”, me dijo.

 

Una carrera en ascenso

Fue José Saramago, su mentor, quien le insistía en que se preocupara por su obra: “Es algo que tuve mucha oportunidad de hablar con él. Fue la persona que siempre me dijo: presta atención a la obra, hay que construir una obra, y yo siempre tuve esa idea desde el principio”.

Es un escritor sorprendentemente prolífico. En los trece años que han transcurrido desde la publicación de Te me moriste, José Luís Peixoto ha lanzado cuatro novelas, tres libros de cuentos, tres de poesía, uno de crónicas, otro que reúne cuentos y una obra de teatro, y su último libro, Dentro del secreto: un viaje a Corea del Norte. En este, narra a manera de crónica el viaje que hizo hace un año al hermético país asiático.

No he visto un libro similar a Dentro del secreto, porque casi nadie ha hecho un viaje turístico a Corea del Norte. El de Peixoto fue por una oportunidad única: la conmemoración del centenario del nacimiento de Kim Il-sung, el padre de la nación. El tour se llamaba Kim Il-sung 100th birthday Ultimate Mega Tour (Ultimate Option). Tal cual.

El valor del libro es algo que en otra aproximación habría sido una debilidad: Peixoto no es un experto en Corea del Norte, sencillamente se obsesionó con el país como cualquiera lo haría con un hobby. Así, mientras recorre Pyongyang y sus alrededores en el Ultimate Mega Tour, al describir este secreto geográfico, político y social, su voz está tan extrañada como lo estaríamos nosotros.

Fue lanzado en noviembre del 2012 y desde entonces no ha dejado de estar en la lista de los diez libros más vendidos en las principales librerías portuguesas: “Yo no imaginaba que fuera a tener tanta repercusión comercial. En Portugal todos hablan de la crisis económica y Corea del Norte es una realidad muy lejana. Pensé que iba a generar interés entre la prensa, pero no entre los lectores, y felizmente me engañé”, dijo Peixoto.

En sus novelas, la columna vertebral de su obra, la evolución de una madurez literaria es clarísima. Nadie nos mira (2000) está compuesta por las historias entrelazadas de personajes que se desgastan y erosionan en una aldea rural de la región natal de José Luís Peixoto, el Alentejo. La segunda novela, Una casa en la oscuridad (2002) es una historia de horror en torno a la relación de un hijo con su madre. Cementerio de pianos (2006) experimenta con un estilo que recuerda a Antonio Lobo Antunes, porque el espacio-tiempo narrativo se define según la memoria subjetiva, caprichosa y no siempre fiable de sus protagonistas, entre los cuales el principal es Francisco Lázaro, el célebre corredor olímpico portugués que falleció en 1912, mientras participaba en los juegos Olímpicos de Estocolmo.

Finalmente, Libro, publicada en Portugal en el 2010, es la mejor lograda. Reúne las obsesiones habituales de Peixoto, y las lleva en otra dirección. La primera parte toma como escenario el familiar espacio aldeano del sur de Portugal, pero en pocos capítulos nos arroja sobre una historia de amor desencontrado en los barrios de inmigrantes portugueses y en las bibliotecas de París. Luego, en la segunda parte, la novela se canibaliza en un juego que podría describirse con el tipo de palabra compuesta que entusiasmaba a los críticos literarios de finales de siglo XX (metaliteratura, postnarrativa).

Por desgracia, lo más probable es que pasen años antes de que en América Latina se puedan leer sus novelas, pues su distribución está atascada en España. La editorial que las imprime en español, Aleph, hace tirajes tan bajos y con miras a suplir únicamente el mercado español, que el viaje intercontinental multiplica el precio de sus libros.

“Es un poco triste. Es una situación que tengo que revisar porque si mis novelas llegan a México, Argentina, Colombia, es con precios horribles. Estuve una vez en la Feria de Guadalajara y su valor era tan alto que yo le dije a las personas que robaran los libros, y fue muy bueno porque robaron como treinta libros”, dijo Peixoto riendo.

El problema no es solo de Peixoto. España, además de ser el mercado de habla hispana más importante para los escritores portugueses, también impide una distribución más amplia de sus libros. Las editoriales de autores que no tienen el renombre internacional de Saramago o Lobo Antunes, compran los derechos de distribución en español para todo el mundo pero solo imprimen para España.

“Cuando se trata de autores grandes, España ayuda mucho porque las editoriales que los distribuyen tienen sedes en América Latina, pero cuando son autores menos conocidos España es una barrera”, dijo Peixoto.

Pero habrá una excepción con motivo de esta Feria del Libro, y se venderá un libro doble editado en Colombia, que reúne dos de sus obras: Te me moriste y Antídoto.

 

Antídoto desde la muerte

José Luís Peixoto tiene pinta de rockero y Antídoto es el libro en el que más se permite mezclar su gusto por la música con su voz literaria. Antídoto en realidad es dos obras paralelas. Una es el libro que se reedita con motivo de la Feria del Libro, y el otro es el disco que lanzó, también en el 2003, la banda de metal más famosa de Portugal: Moonspell.

“Tuvimos que confrontar a los fans de heavy metal, que se quedaron sorprendidos con la ligación a un escritor, y también con las personas del medio literario, que no imaginaban que un escritor se fuera a ligar con un grupo de metal”, dijo Peixoto. “Curiosamente creo que el prejuicio del lado de la literatura fue más fuerte”.

Cada uno de los diez cuentos que compone Antídoto corresponde a una de las canciones del disco de Moonspell, aunque los dos son plenamente independientes. “Hay lectores que gustan de mis cuentos, que si escucharan las canciones que inspiraron a algunos de ellos, quedarían horrorizados”, dice Peixoto con una sonrisa.

Los cuentos tienen un ambiente oscuro y algunos juegan con ser poemas en prosa. Su hilo conductor es el miedo, la pérdida y el aislamiento. Sus personajes son mujeres sobrenaturales que no tienen piel que cubra su cuerpo, aldeanos desencantados de la vida, dioses nocturnos; y también está, omnipresente, la muerte, ese fenómeno que para José Luís Peixoto constituye el antídoto contra la desmemoria y la incomprensión del paso del tiempo.

 

 

http://www.revistaarcadia.com/impresa/especial/articulo/un-antidoto-desde-muerte/31580

 

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O Globo, 24 Março 2012

22.04.15

José Luís Peixoto: a desmistificação de um escritor

 

Fenômeno na Europa, autor português lança ‘Livro’ no Brasil e confirma ida à Flip

 

Ele tinha 25 anos quando publicou seu primeiro livro, “Morreste-me”, um monólogo sobre o luto, dirigido ao pai que perdera. A edição de autor, com letras pequenas para economizar páginas, foi feita para os amigos ou, se tanto, para ser vendida em consignação. No mesmo ano (2000), lançou “Nenhum olhar”, pelo qual levaria o Prêmio José Saramago, dado a jovens autores.

Doze anos e mais de dez livros depois, José Luís Peixoto, considerado um dos mais importantes escritores portugueses contemporâneos, voltará em julho à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) — onde esteve pela primeira vez em 2005 — para uma inédita leitura integral daquele primeiro despretensioso trabalho, que acabou tendo mais de 20 edições. O Brasil será só uma das paradas na maratona em que se transformou a rotina desse autor de 37 anos, que hoje trabalha a divulgação simultânea de três obras: “Livro”, de 2010, que chega ao Brasil agora, pela Companhia das Letras; “Abraço”, publicado em Portugal no fim de 2011; e seu primeiro infantil, “A mãe que chovia”, que estará em abril nas livrarias portuguesas. Em comum, o tom biográfico que levara ao extremo em “Morreste-me”.

'Livro' (Companhia das Letras) é lançado no Brasil“Livro”, embora menos melancólico, começa falando de solidão, ao descrever o tristíssimo abandono de um menino de 6 anos, para mais tarde entrar na trama em que de fato se apoia: a emigração de portugueses para a França nos anos 1960, vivida pelos pais de Peixoto. Uma segunda parte ajuda a explicar o título — voltando-se para si própria, a obra dá voz ao narrador da história inicial, chamado Livro, um personagem que confunde para depois esclarecer. Na entrevista abaixo, Peixoto fala sobre “Livro”, considerado seu trabalho mais maduro, e explica como concilia a intensa agenda de viagens com a rotina solitária de escritor.

 
Em “Livro”, o objeto do título conduz a narrativa e é tratado com reverência. Isso é um reflexo da importância do livro em sua vida?

Sendo escritor, os livros são objetos que, necessariamente, me dizem muito. Também por isso, dar esse título a um romance foi algo que me trouxe um acréscimo grande de responsabilidade e que, por si só, demonstra bem a ambição depositada na concepção dessas páginas. O título fez parte das ideias fundadoras do romance. Assim, existem múltiplos fatores a contribuírem para o título, um deles é esse objeto que vai atravessando a narrativa. E que, no fundo, contém tantas vidas.


Você já declarou que há em “Livro” experiências da sua família que o excluíam. Como foi o processo de pesquisa?

Os meus pais foram emigrantes para a França e regressaram a Portugal pouco antes de eu nascer. Passei a infância a ouvi-los falar com as minhas irmãs de tudo o que tinham vivido e que me excluía. Assim, desenvolver esse tema foi escrever sobre um tempo anterior a mim que, no entanto, não está completamente desligado de mim. Até porque percebi que aquilo que define a minha geração em Portugal é sobretudo o que não vivemos. Não vivemos a revolução, a ditadura, a guerra colonial, a emigração em massa. Ao escrever, percebi que esse aparente desprendimento podia ser uma vantagem, uma vez que me permitia escrever sem constrangimentos sobre temas que, ainda hoje, não são fáceis para os portugueses (e talvez por isso não existam outros romances a deterem-se diretamente neste tema que afetou milhões de portugueses). Assim, servi-me da minha experiência pessoal como alguém que nasceu numa pequena cidade do interior (Galveias) para descrever a vida pobre dos anos 1940, 50 e 60; servi-me de tudo o que ouvi sobre a emigração ilegal para a França nos anos 1960 e de tudo aquilo que pude ler.


As críticas a “Livro” que o narrador tece são uma defesa prévia das que poderiam surgir? Como lida com a crítica?

Não. A crítica ao próprio livro é uma forma de a narrativa se dobrar sobre si e criar uma espécie de nó que, nesse momento, tem a função de aprofundar a autorreferencialidade, um mecanismo importante a partir de certa altura do livro. Hoje, com quatro romances, três livros de poesia e quatro volumes de narrativa publicados, lido bem com a crítica. Interessa-me bastante a análise que fazem do que escrevo e, sempre que posso, leio.

As transformações causadas pelos e-readers contribuem para essa relação nostálgica com o livro? Você é um usuário de leitores eletrônicos?

Há uma reflexão no romance acerca do objeto livro e daquilo que o define. Será o livro um objeto ou o sentido daquilo que diz? Por vezes, leio livros em formato eletrônico, mas prefiro o convencional. Ainda assim, o que mais me preocupa não é a mudança. O que me incomoda é que traga alterações à forma de ler. Creio que isso já se sente. Espero que a leitura continue por anos a ser a imersão num mundo, e não um saltitar fragmentado, com déficit de atenção, ansioso por informação dita “útil”.

Você interage com os leitores por meio de ferramentas como o Facebook. Isso muda sua maneira de trabalhar?

Tudo aquilo que influencia a minha vida terá influência na minha maneira de trabalhar. O contato com as pessoas que leem o que escrevo é algo que acaba por ser bastante marcante. Procuro esse contato. Acredito na desmistificação do escritor e, ao mesmo tempo, acredito no papel principal que o leitor tem na construção da obra. Sem leitor, o texto é como aquela árvore que, no enigma zen, cai na floresta. Será que faz barulho? Meu palpite é que não.

As declarações recentes do secretário português Francisco José Viegas sobre a necessidade de alterações na reforma ortográfica causaram polêmica no Brasil. Na sua opinião, Portugal deve ou não respeitar o acordo?

Esse é um assunto que me interessa muito pouco. Os desafios que a escrita me coloca não são ao nível da ortografia. No Portugal contemporâneo, há assuntos mais importantes a debater. Continuo a escrever com a ortografia de sempre. Em algumas publicações onde colaboro, já se adotou a nova ortografia, permito que corrijam os textos, pouco me importa. Não sou agarrado ao “c” antes do “t”. Ainda assim, nos livros, onde tenho o poder de decisão, mantenho a ortografia original.

Como vê o futuro de Portugal? Há risco de a emigração em massa, um dos principais temas de “Livro”, voltar a ser um problema?

A emigração já é uma realidade em Portugal. Sobretudo entre os jovens, há muita gente a procurar noutros países o que não encontra aqui. Esse é um aspecto que me preocupa bastante. Não creio que seja assim que o país se reconstruirá. Somos um país com mais de oito séculos de história porque, nos momentos mais críticos, o povo português tem sido capaz de defender os seus interesses.

Você é um escritor-viajante, sempre ocupado com a promoção dos livros pelo mundo. Como concilia as viagens e o tempo para escrever?

Um ano após a publicação do meu primeiro romance começaram a surgir traduções dos meus livros. Depois, ganhei o Prêmio José Saramago, tive mais uma série de reconhecimentos e os meus livros começaram a ser publicados em muitos países. Hoje, tenho romances em 20 idiomas. Esse reconhecimento faz com que surja um grande número de convites para encontros ou leituras públicas. Tento organizá-los em dois períodos. Assim, há ocasiões em que faço muitas viagens e há outras em que fico em casa, a escrever e a pensar. Creio que as viagens e a escrita se alimentam: as viagens são-me úteis para a escrita, porque me permitem conhecer novas realidades, aumentar a minha visão do mundo, relativizar aquilo que poderia tomar proporções desmedidas; e a escrita é-me útil para as viagens na medida em que as proporciona e me ajuda a prestar a atenção devida aos detalhes de cada lugar. Ao mesmo tempo, é para mim muito gratificante chegar a países pela primeira vez e encontrar já muitos leitores. Na semana passada, fiz quatro apresentações na região da Bretanha, na França e, depois, uma leitura e duas apresentações em Luxemburgo. Já estive também em algumas das maiores feiras literárias do mundo, como a Flip. E fiz palestras em grande parte das universidades mais prestigiadas. Nada mau para um menino que nasceu numa pequena cidade do interior, com cerca de mil habitantes, e que viveu lá até os 18 anos.

Como será sua participação na Flip?

Farei uma leitura de “Morreste-me”, o primeiro livro que publiquei, em maio de 2000. Trata-se de um livro fundamental para mim. Escrevi-o após a morte do meu pai e trata, justamente, do amor entre filho e pai. É um texto curto, com cerca de 40 páginas, e, apesar de ser um livro de prosa, utiliza uma linguagem muito próxima da poesia, o que ajuda a condensação desse tema tão intenso. Esta será a primeira vez em que farei uma leitura completa desse livro. Acredito que será um momento muito intenso e espero ter a oportunidade de partilhá-lo com um grande público apaixonado pelas palavras. Tenho essa expectativa, porque já conheço a Flip e sei o quanto é especial o público que a frequenta.

E quais são os autores brasileiros que chamam a sua atenção?

Posso citar Guimarães Rosa ou Clarice Lispector como nomes que me marcaram de forma indelével ou, na contemporaneidade, Milton Hatoum e Bernardo Carvalho. Mas ficam a faltar muitos outros. A literatura brasileira passada e presente é muito rica.

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Sol, 6 novembro de 2014

24.02.15

Vestido de negro e ouvinte de música pesada era olhado com estranheza pelos habitantes de Galveias, a vila alentejana onde nasceu há 40 anos. Desde então, José Luís Peixoto mudou-se para Lisboa, onde fez a faculdade, participando activamente nos movimentos estudantis, e começou a escrever. Recebeu o Prémio Saramago em 2001 pelo seu primeiro romance, 'Nenhum Olhar', e tornou-se um dos mais destacados e bem-sucedidos autores da sua geração. Conhece meio mundo, por onde tem viajado com os livros e em reportagem mas regressou às origens e acaba de lançar 'Galveias', o seu quinto romance

 

Desde 2010, com 'Livro', que não publicava um romance. Acaba de lançar 'Galveias', sobre a terra onde nasceu. Como surgiu?

Penso muito em termos de romances. Tenho outros projectos pelo meio mas os pilares do que faço são os romances. E quatro anos tem sido o tempo entre eles. O tema aqui tratado já o foi noutros livros e textos que escrevi. Tem que ver com a região e com a vida de uma pequena comunidade rural. Realidade que estava presente tanto em Livro como em Nenhum Olhar, mas de forma diferente, com outra perspectiva e outras cores, porque o tema central era outro. A partir de certa altura surgiu a ideia de fazer algo diferente: nomear e concretizar. O título talvez tenha sido a minha primeira ideia. Depois veio o resto. Galveias tenta ser universal sendo particular. Tudo é nomeado. Foi fazer o caminho inverso. Em Nenhum Olhar nem o Alentejo nem Portugal são nomeados.

 

Lançou o romance em Galveias. Como foi a reacção das pessoas?

Óptima. Galveias é um local pouco noticiado, as pessoas gostam de ver as referências que lhe faço. Com um livro que lhe é exclusivamente dedicado, com Galveias no título, esse impacto foi maior. O lançamento foi um momento inesquecível para mim. Foi muito tocante ver todas as pessoas que constituem o mundo da minha infância e adolescência ali reunidas. E foi tocante fazer o que tinha antecipado enquanto escrevia o romance: oferecê-lo a Galveias. É um livro com a ambição de poder ser lido por qualquer pessoa em qualquer lugar. Mas vai sempre ser lido de maneira diferente ali, pelas pessoas que conhecem as ruas e as gentes.

 

Como foi crescer em Galveias?

Na adolescência não foi fácil. Na infância foi um enorme privilégio. Tinha total liberdade, todas aquelas ruas e campos estavam disponíveis para brincar. E eu utilizava-os com os meus amigos. Tinha acesso a experiências que hoje são difíceis de ter, como o contacto com a natureza. Naquele tempo íamos roubar fruta e os donos ficavam zangados e perseguiam-nos. Hoje a fruta cai das árvores sem que ninguém a colha. Os donos pedem às pessoas para a levar. Na altura os campos não tinham vedações. Hoje estão todos vedados. Entrávamos em qualquer propriedade e fazíamos todo o tipo de brincadeiras. O meu pai era carpinteiro e tinha uma serração de madeiras. Fazíamos brinquedos com pedaços de madeira e andávamos por lá. No Verão podíamos andar na rua até tarde, sem supervisão. Hoje, mesmo em Galveias, os pais vão levar as crianças à escola. Eu ia sozinho desde os seis anos.

 

Começa o livro dizendo que é filho do Peixoto da serração e da Alzira Pulguinhas. Era assim que era conhecido?

Essa é uma pergunta muito vulgar: 'De quem és filho?'. Hoje sou eu que a faço quando vou lá porque não conheço as crianças (ainda há algumas, ainda existe escola). Às vezes até lhes consigo identificar as parecenças mas, para as identificar, pergunto de quem são filhas. Era uma pergunta que me faziam muitas vezes. Uma resposta que também podia ser dada a essa pergunta seria: eu sou filho de Galveias.

 

Passava os dias com os seus amigos ou com os seus irmãos?

Tenho duas irmãs mais velhas, uma com mais oito anos, outra com mais 13 anos. Elas já eram crescidas, eu era um rapaz. Brincava com os amigos das ruas onde vivia. Nessa altura as ruas estavam cheias de crianças. Mesmo cheias. Jogávamos à bola na rua com as balizas feitas de pedras ou num campo com uma árvore no meio, a Azinhaga do Espanhol, que hoje já tem casas.

 

O mundo descrito no livro era o seu?

Sim. Nessa altura quando saía em excursão se alguém de fora me perguntava de onde eu era, respondia que era das Galveias, convencido de que toda a gente conhecia Galveias. Não tinha outro mundo. Até que na adolescência começou a custar-me estar lá, tinha perspectivas e interesses muito distantes daquela realidade. Desde o início da adolescência que tenho grande vocação para a música pesada. E nessa altura fiz uma banda chamada Hipocondríacos. O que foi chocante para as pessoas de lá. E comecei a deixar crescer o cabelo, a minha mãe tinha um desgosto de eu ter o cabelo comprido. Eu tinha que lidar com os olhares dos velhos nas carroças quando ia para os ensaios com a banda, com a guitarra eléctrica… Hoje percebo que se não tivesse sido assim tudo teria sido diferente e o interesse pela escrita talvez nunca tivesse surgido.

 

Porquê?

Porque um dos aspectos fundamentais de uma infância e de uma adolescência em Galveias é a aprendizagem do tempo. Foi dela que veio a disponibilidade, a contemplação, a reflexão. Noutro lugar seria diferente. Mas, já se sabe, é sempre assim: se o passado não tivesse acontecido como aconteceu, o presente seria de outra maneira.

 

Onde fez o liceu?

Em Ponte de Sor, a 12 km. Foi uma abertura para outro mundo, ainda que com diferenças grandes em relação ao que é a vida em Lisboa. Mesmo na Escola Secundária não passava de meia dúzia o número de pessoas que escutavam música pesada. Fui criando o meu espaço e habitando esse espaço de interesses que faziam parte do meu pequeno mundo, como a música, a literatura e as artes em geral.

 

Cresceu numa casa com livros?

Em comparação com as casas dos meus amigos, a minha casa tinha livros. Estamos a falar de casas onde não existia nenhum livro. Nenhum. E, se existiam, eram os da escola. Na minha casa existiam alguns livros, não só por interesse dos meus pais, mas pelas minhas irmãs mais velhas. Por influência delas comecei a ter muito interesse por livros e fui lendo o que havia. A minha mãe tinha algumas colecções que conseguiu quando a sua irmã trabalhou na Bertrand. E mais tarde ia à biblioteca itinerante da Gulbenkian. O que foi uma grande libertação, porque tinha acesso a muitos livros. Escolhia com apoio da minha irmã e do bibliotecário, que era o meu dentista, em Abrantes, e que me dava sugestões avançadas para a minha idade, como poetas portugueses contemporâneos, como Nuno Júdice e Herberto Helder.

 

Que idade tinha quando os leu?

Onze, doze anos. Na altura também tive uma grande enfatuação pela Florbela Espanca, uma autora que me dizia muito porque era muito dramática, muito trágica e, ao mesmo tempo, se referia ao Alentejo. Era a minha realidade. Também sentia grande empatia pelo Urbano Tavares Rodrigues e outros autores do neo-realismo. Eram os livros que eu tinha em casa para ler. Aquele que considero o primeiro livro que li foi os Esteiros, do Soeiro Pereira Gomes.

 

Vestido de negro, cabelo comprido, fã de heavy metal, agarrado aos livros. Era olhado com estranheza?

Completamente. Foi uma boa aprendizagem para a vida. Enfrentar os olhares dos colegas na Escola Secundária deu-me calo para lidar com os olhares dos outros. Até tenho uma certa necessidade adolescente de provocar e enfrentar esses olhares. Confesso que me dá prazer, até por ser tão fácil provocá-los… Uma pequena coisa como um piercing ou uma tatuagem já é impressionante. Como se tivesse importância.

 

As pessoas referiam-se a si como o escritor dos piercings e das tatuagens. Isso já mudou?

Sim. Hoje ter piercings ou tatuagens é comum. Não é assim tão subversivo quanto isso. É uma coisa minha. Fiz os primeiros piercings aos 25 anos, as tatuagens aos 30. E tenho vontade de fazer mais.

 

Aos 18 anos entra na Universidade Nova, em Lisboa. Foi um grande choque?

Foi. Se bem que eu já estava a preparar isso. O 12.º ano foi o ano em que eu mais estudei e me apliquei. Não queria perder a possibilidade de entrar na faculdade. E sempre pensei em Lisboa, era o exemplo que eu tinha das minhas irmãs. Uma estudou na Faculdade de Letras, outra no Técnico. Cresci a vir visitá-las. E quando vim para Lisboa já tinha relações aqui estabelecidas por via da banda. Tínhamos gravado duas demotapes e trocávamos cassetes com outras bandas punk e hardcore da zona de Lisboa. Fiz grandes amizades. E aprendi muito, era uma área que privilegiava o 'faça você mesmo'. Em Galveias gravámos duas cassetes e distribuímo-las internacionalmente. Trocávamo-las pelo correio. Tínhamos um sistema em que reaproveitávamos os selos infinitamente… Existiam publicações ligadas a esse pequeno mundo. Anos depois ainda chegavam pedidos de cassetes da Polónia, da Suíça, do Brasil, dos EUA, da Escandinávia…

 

 

Era guitarrista?

Sim. O que atesta um pouco a qualidade da banda: eu não sei tocar guitarra.

 

E escrevia as letras das canções?

Algumas, partilhava isso com o vocalista. Eram letras simples, reivindicativas, politizadas, contra ou a favor de algo. Tive um empenhamento político forte e radical. Estava ligado a grupos anarquistas.

 

O que fazia?

Todo o tipo de coisas. Existia um movimento estudantil forte, com uma grande contestação ao financiamento do Ensino Superior. Se não estou em erro, as propinas passaram de 1.400 escudos para 40 contos anuais. Envolvi-me muito nisso e entrei na Associação de Estudantes. Participava activamente em todos os movimentos do associativismo estudantil, manifestações, cartazes, publicações, panfletos. Com dois amigos, criei uma associação chamada MATA, um movimento anti-tradição académica, que se insurgia contra as praxes. Propúnhamos alternativas e éramos bastante interventivos. Conheci pessoas pelas quais, ainda hoje, tenho uma admiração imensa. Algumas continuaram na área da política, como o Rui Tavares, outros são jornalistas.

 

E a escrita?

Ia publicando os meus textos no DN Jovem e, na faculdade, coordenava o suplemento literário da revista da associação de estudantes. E escrevia. A escrita estava já completamente entranhada na minha vida. Mas não tinha expectativas de vir a ser um escritor profissional. Ainda estava na faculdade quando comecei a escrever o meu primeiro livro, o Morreste-me, embora só o tenha publicado quatro anos depois.

 

Nesse livro fala sobre a morte do seu pai, figura muito presente na sua obra…

Ele tinha acabado de fazer 57 anos e eu 20. Durante três anos estivemos à espera de que ele morresse, os médicos tinham-lhe dado apenas três meses de vida. 'Morreste-me' marca a minha idade adulta na escrita e acompanha a entrada na idade adulta na vida. Mas a relação com o meu pai é complexa, tem muitas nuances, que noutros livros também estão presentes, mesmo quando não são evidentes.

 

Ao acabar a faculdade foi dar aulas?

Sim. Tive o meu primeiro filho quando acabei o curso e fui dar aulas. Primeiro na Lousã, depois perto de Oliveira do Hospital. Depois dei aulas em Cabo Verde um ano. Foi lá que acabei de escrever o meu primeiro romance, 'Nenhum Olhar', na Cidade de Praia. Com 'Morreste-me' ganhei o prémio dos Jovens Criadores. E fui participar numa Bienal de Jovens Criadores da CPLP em Cabo Verde. Foi impressionante e quis voltar para dar aulas. Fui e encontrei logo um lugar para dar aulas com estatuto de professor cabo-verdiano. Foi um ano muito intenso. Dava dois horários completos, 50 horas semanais, a turmas a partir do 10.º ano, com mais de 40 alunos, com um alto nível de maturidade. Muitos já eram pais. Não existia o desafio nem a provocação constante que se sente nas escolas portuguesas. Os alunos tinham consciência de que estar ali era uma oportunidade.

 

Foi a primeira experiência fora do país?

Sim, nunca voltei a estar tanto tempo sem vir a Portugal. Quando voltei tinha o meu primeiro romance escrito e a convicção de que o queria publicar. De forma humilde comecei a enviar o livro pelo correio para editoras. Felizmente foi lido pela Maria do Rosário Pedreira, que estava na Temas e Debates a formar uma colecção de autores portugueses. O 'Nenhum Olhar' foi um dos primeiros livros dessa colecção. Teve uma recepção impressionante ao nível da crítica e um ano depois ganhou o Prémio Saramago. E iniciou-se este caminho.

 

Tudo isso surpreendeu-o?

E ainda surpreende. Fiquei assoberbado com o que estava a acontecer. Eram muitas solicitações e eu gosto de dizer que sim. Foi muito mais do que estava à espera. Hoje, quase 15 anos depois, já faço uma melhor gestão de tudo.

 

Como foi lidar com o sucesso?

Estava a experimentar com responsabilidades associadas. Tinha uma peça de teatro com estreia marcada no teatro da Bastilha, em Paris, e nunca tinha escrito uma peça de teatro. Músicos pediam-me letras e eu nunca tinha escrito uma letra. No ano passado convidaram-me para escrever um guião ['Entre As Mulheres'] e passados poucos meses estava a passar na RTP. Exige sangue-frio. Mas não tenho razão de queixa. Todo este caminho tem sido feito de privilégios. Só posso estar grato por tudo o que me tem acontecido. A situação em que me encontro é incrível e muito melhor do que alguma vez poderia ter imaginado. Posso escrever os livros que quero. Tenho leitores com vontade de os ler. Viajo com esses livros e encontro leitores em lugares que nunca imaginei. É fascinante.

 

Deixou de dar aulas ao primeiro livro?

Sim. No princípio de uma forma arriscada, colaborava apenas nalguns meios da imprensa. Mas a partir do momento em que recebi o Prémio Saramago, um prémio monetário substancial, criei a possibilidade de conquistar um espaço profissional. Mas trata-se de um percurso independente, não tenho uma entidade patronal. Tive de o construir. Hoje os meus livros são bem recebidos em Portugal e noutros países, o que me permite viver deles. Mas nas Galveias, onde as pessoas não conhecem outros escritores, e mesmo fora, as pessoas pensam que, economicamente, a minha vida é muito mais desafogada do que realmente é. Acham que quem aparece na televisão tem uma vida que corresponde a esse glamour. Essa não é a realidade. Nem para mim, nem para muita gente. Posso garantir a educação e a vida dos meus filhos e a minha própria. O que já não é mau, se pensarmos que isso vem da escrita, área que a maioria das pessoas deste país não está habituada a valorizar economicamente.

 

Em que sentido?

É constante o número de solicitações e pedidos para fazer as mais determinadas tarefas sem qualquer espécie de pagamento. E se alguém falar nisso é logo tido como um mercenário. Como se os canalizadores ou os polícias não recebessem pelo seu trabalho. Ir falar a algum lado sobre um tema escolhido por outros não é propriamente um prazer. É trabalho. Tal como escrever sobre um tema que me propõem. Mas ainda ontem escrevi dois textos nessas condições. E tenho muitos lá em casa à espera de serem escritos.

 

E por que aceita?

Porque nem tudo é dinheiro. Há muitos trabalhos que não são remunerados mas que recompensam ao nível de satisfação. Este ano participei num projecto que consistiu numa grande exposição no aeroporto de Lisboa, em parceria com o ilustrador Hugo Makarov. Tivemos trabalho, estivemos várias vezes no aeroporto e, no entanto, não fomos remunerados. O que é que ganhámos com isso? O prazer de saber que aquele trabalho é visto por milhares de pessoas que nunca iriam contactar com nada do que fazemos. Se estivermos a falar de convites de escolas e bibliotecas, então aí não há nenhuma espécie de remuneração. Fica o prazer.

 

Foi dos primeiros autores em Portugal a ter a cara num cartaz publicitário. Há quem diga que é um fenómeno de marketing. Isso incomoda-o?

Não. Cada um tem direito à sua opinião. Mas a minha obra fala por si própria. Fico surpreendido com os milhares de exemplares que os meus livros vendem. E os meus livros são intrinsecamente anticomerciais, na medida em que pela sua estrutura, tema e trabalho não têm nada que ver com thrillers ou literatura de fácil absorção. Portugal, em função da sua tradição, tem hábitos de leitura com uma certa elevação. O país deu um imenso salto em termos de educação nestas décadas. Temos uma classe média intelectual com um excelente nível e que não deve nada a ninguém, avalia por si e faz a sua leitura. Naturalmente que tenho a minha confiança e auto-estima muito elevada em relação à qualidade do que faço porque os meus livros têm críticas altamente elogiosas no suplemento Babelia do El País, no Times Literary Supplement, no Guardian, no Independent, na Folha de São Paulo, no New York Times, no Le Monde, no Figaro, no La Repubblica. O meu último romance foi finalista do Prémio Femina, em França, um dos mais prestigiados prémios para autores estrangeiros na Europa. E ainda não tinha 40 anos quando isso aconteceu. Não tenho nada a provar.

 

É um meio literário pequeno, o português?

Não. Queixamo-nos das nossas dimensões mas são elas que nos salvam. Existe coesão, tem um tamanho humano. É como Lisboa em comparação com outras cidades do mundo. É uma grande cidade à nossa escala mas tem uma dimensão humana, não é São Paulo, não é Deli. O meu trabalho integra-se na literatura portuguesa contemporânea, tenho consciência dela. Mas acho que quem escreve tem de manter distanciamento desse meio, envolver-se é criar uma teia de relações que não ajuda a algo fundamental: a independência e isenção. O grande compromisso tem que ser com a literatura. Não com o meio literário.

 

Está traduzido em 19 idiomas. O seu livro mais traduzido é o 'Nenhum Olhar'. Há uma universalidade naquele Alentejo?

Há um certo paradoxo. Acho que quanto mais se especifica, quanto mais se fala do que é nosso, mais tocamos no que também é dos outros. Com o 'Nenhum Olhar' tive oportunidade de assistir a um aspecto fascinante: o carácter transnacional da ruralidade. A ruralidade do Alentejo tem muitas especificidades, como a roupa tradicional. No entanto, a ruralidade da Roménia, com as suas especificidades, tem elementos muito semelhantes. Ou a ruralidade da Índia. Ou do Brasil. Ou dos EUA. Há aspectos que têm quer ver com questões que estão para lá dessa roupagem: há uma maior proximidade com a natureza, o céu está mais presente, as estações do ano estão mais presentes, a morte está mais presente. Uma pequena comunidade em Portugal partilha imensas características com uma pequena comunidade na China. Há aspectos que têm que ver com a nossa natureza. Esse é o centro da literatura, que trata aquilo que não muda. A literatura diz:isto já era assim e vai continuar a ser assim.

 

 

Vai levar 'Galveias' ao mundo...

Já está a ser traduzido para búlgaro. Vou receber um olhar de grande surpresa. Falar deste livro na Escandinávia convoca, para aquelas pessoas, uma realidade muito exótica. No Brasil faz sentido, conheço pessoas de lá que o leram e o entenderam à luz da sua realidade. É fantástico. Diz muito sobre a relação entre os dois países.

 

É no Brasil que tem a maior parte dos leitores fora de Portugal?

Os países onde os meus livros são mais lidos, fora de Portugal, são o Brasil, a Espanha, a Itália e a França. Depois há fenómenos, um livro que inexplicavelmente funciona bem num certo lugar. A primeira edição do Nenhum Olhar, nos EUA, vendeu logo 40 mil exemplares. Claro que nos EUA os números são diferentes. Para nós 40 mil exemplares é imenso, nos EUA não, os bestsellers ultrapassam o milhão de exemplares. Mas para um autor de quem nem conseguem pronunciar o nome…

 

Passa metade do ano a viajar, com os livros e para a Volta ao Mundo. Como é este salto de Galveias para o mundo?

Vejo Galveias com um olhar mais limpo do que se vivesse lá. O olhar é fundamental para um escritor. Tem de estar afinado e limpo. A riqueza da viagem dá-me património para traçar contrastes. Nessa medida acho que escrevo e vivo melhor. Viajar e ver outras realidades ajuda-me a sentir grato pelo que tenho.

 

Mas neste seu romance decidiu não retratar a realidade actual. Por que decidiu situar a acção em 1984?

Uns aspectos já não condizem com o presente, outros mantêm-se. Uma das razões que me levou a escolher 1984 foi justamente a de suscitar essa comparação. Parece-me que o presente perde. O romance fala de um tempo em que Galveias tinha crianças, esperança, perspectivas de futuro. Hoje essa não é a realidade do interior de Portugal, com escolas a fechar e infra-estruturas essenciais a deixarem de existir. Além disso, quis mostrar um interior que não fosse estereótipo de si próprio.

 

Em que sentido?

Em 1984 a realidade local já era tocada por elementos do mundo urbano. Não retrato um lugar em que todas as personagens andam de burro ou de carroça ou em que todas as casas são brancas… A realidade não é essa, é um lugar onde as personagens andam de motorizada, vêem telenovelas, há casas forradas de azulejos. O interior não pode ser um parque temático onde temos a expectativa de encontrar imagens rústicas e idílicas ou que, então, não nos interessa. E 1984 foi um momento próximo de uma viragem na vida do interior, com a entrada de  Portugal na CEE e tudo o que daí adveio. Além disso, em 1984 eu tinha dez anos, ao escrever pude recorrer à minha memória para caracterizar personagens, espaços e situações.

 

Não perguntou coisas à sua mãe?

A minha mãe é a minha grande fonte na escrita de um romance como este, tem uma memória melhor do que a minha e, apesar de o presente do romance se situar em 1984, há várias histórias que vêm dos anos 60 e outros períodos que não vivi. Mas trata-se de um romance muito ligado à minha experiência. Há elementos que ainda hoje são assim, como a ligação à terra das personagens e alguns constrangimentos sociais que nas pequenas povoações ainda existem. E há os aspectos ligados à vida de uma pequena comunidade, como as pessoas se conhecerem todas umas às outras, o que origina uma maior valorização do indivíduo mas também uma certa fiscalização da vida uns dos outros. O livro tenta retratar um pequeno mundo que pode ser transposto até para a vida nas cidades em Portugal. As cidades portuguesas também são compostas por comunidades onde estas formas de relação são replicadas, na medida em que se tratam pessoas que, elas próprias ou na geração anterior, chegaram deste meio e trouxeram esta forma de se relacionar. Por isso sinto que estas Galveias são, em certa medida, um pequeno Portugal.

 

O livro fala sobre muitas personagens e as suas histórias. São reais ou imaginadas?

A história de um lugar é a história das pessoas que o compõem. O lugar está presente porque estão lá as pessoas, que são quem o formou, quem o constitui e de quem a vida nesse espaço depende. As histórias têm múltiplas fontes. Algumas podem ter essa raiz autobiográfica. Mas o que cose todas estas personagens é ficcional, faz parte de uma intenção efabulatória de construir um objecto narrativo.

 

O que lhe disseram as pessoas, estavam com medo de se verem retratadas?

Não, não é a primeira vez que menciono Galveias, fica sempre claro que são textos ficcionais. Sinto que, tendo em conta a situação em que está Galveias neste momento, existir alguém que se lembre de apontar o foco para ali e mostrar aquela realidade é visto com bons olhos. Porque a sensação de quem está lá é a de que existe um esquecimento e um abandono daquela parte do país. Isto é o que eu posso dar a Galveias. O próprio facto de estarmos aqui a falar sobre essa realidade é importante. É uma forma de convidar as pessoas a conhecerem o espaço. Esta é uma questão nacional. Estamos a deixar o país evoluir de uma forma desequilibrada e mais cedo ou mais tarde vamos pagar essa opção.

 

Não há futuro em Galveias?

Eu quero acreditar que existe. Mas se as coisas continuarem como estão Galveias vai extinguir-se. No ano passado morreram 40 pessoas e nasceram duas. E passam-se muitos anos em que não nasce ninguém. Mas há sempre muita gente a morrer porque é uma população envelhecida. Desde 1984, a população de Galveias passou para metade, de 2 mil para mil pessoas. Se não se fizer nada vai continuar a diminuir. Há outros lugares do país à beira de ficar sem ninguém e outros que já não têm ninguém. O caminho que está a ser seguido não traz futuro. Nem tem futuro. Mas quero acreditar que se pode reverter isso. Galveias é um lugar com séculos de história. É mais velho que Nova Iorque. Espero que possa retomar o seu caminho. Porque também é um lugar com orgulho de si próprio, com cultura, com identidade. Este livro é, ele próprio, uma afirmação de identidade. Diz às pessoas: eu sou daqui, eu sou isto. E recusa o complexo em relação ao nosso passado e à nossa identidade rural, isolada da Europa e menos cosmopolita. Essa identidade é uma parte fundamental do que somos. E é uma riqueza. Estou optimista. Há uma geração que já não é tão tocada por esses complexos que recupera essa tradição, actualizando-a e dando-lhe novas roupagens.

 

Que relação têm os seus filhos com Galveias?

Passo lá algumas temporadas com eles. E tento-lhes mostrar e explicar como era a minha infância ali, como era a minha vida. A minha vida de hoje é radicalmente diferente. E a vida deles também.

 

Imagina-se a regressar a Galveias?

É difícil. Tenho a certeza de que quero sempre viver em Portugal. Mas com a vida que tenho agora, feita de muitas viagens, não me é fácil viver em Galveias. A relação é eterna. Mas agora não consigo imaginar isso a acontecer. Talvez no futuro.

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Diário de Notícias, 15 outubro 2014

21.10.14

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Visão, 2012

15.05.14

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Diário de Notícias, 15 Novembro 2012

15.05.14

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Correio da Manhã, 2011

14.05.14

 Correio da Manhã - Apesar de ‘Abraço' ser formado por crónicas isoladas pode ser lido como um romance, dada a continuidade que passa. Foi fácil a articulação?


José Luís Peixoto - Para mim, o que foi mais difícil e o maior desafio na construção deste livro foi justamente a selecção dos textos e a sua organização. No momento em que me propus a transformar todo o material que tinha - que eram dez anos de publicações em revistas e jornais - não era muito evidente como ia pegar naquilo e dar a forma que eu queria. Encontrar um fio narrativo, uma sequência lógica que permitisse criar um livro e não num simples arquivo.

 

- Houve então uma intenção de criar uma sequência.

- Sim. E a estrutura do livro é próxima da árvore, no sentido em que tem um tronco com diversas ramificações. Esse tronco, a partir do qual tudo vai derivando, é uma sequência autobiográfica, o que faz com que o livro seja, em certa medida, um livro de memórias. Desde a minha primeira memória, até episódios muito recentes da minha vida. Tudo acaba por assentar em três pilares, que são três idades: os seis, os 14 e os 36 anos. De certa forma quis que isso fosse sugerido por um texto que é o primeiro e que está fora dessa estrutura. É um texto em que falo dos meus filhos. As idades de seis e 14 são as dos meus filhos e 36 a minha própria idade quando terminei o livro.

 

- Há uma crónica em que se fala do acto de se expor e não se ver problema nisso. Não há, portanto, receio de partilhar a intimidade? 

- Não, este livro entra muito profundamente na intimidade. Há textos que estão muito nesse âmbito. Não vejo motivo para as pessoas se surpreenderem com a intimidade. Não se está a revelar nada que não seja da esfera do humano. Chorar, por exemplo, toda a gente chora... As coisas consideradas mais íntimas toda a gente as faz. Daí este título, ‘Abraço', ser tão afectivo.

 

- E caloroso.

- Sim, porque é humano. É algo que é transmitido de uma pessoa para a outra. E isso é algo de precioso. Parece quase um slogan, mas enquanto estava às voltas com a organização deste livro, pensei no que era mais importante para mim. Por um lado, estava restringido pelo que tinha, por outro o que queria dizer e dar aos outros. A conclusão que cheguei é que queria fazer alguma coisa sobre o que é mais importante para mim. São os meus filhos. Há aquela palavra sobre-utilizada, que talvez o seja devido à sua importância, que é o amor. O primeiro texto do livro, em que o meu filho mais novo me vai perguntando sucessivos ‘porquês?' a partir de uma afirmação simples. A resposta final acaba por ser "Porque o amor, filho." No fundo é isso: quando penso naquilo que é efectivamente importante para mim, e coloco uma lupa em cima disso, e quando penso no que faz ficar de consciência tranquila de dar aos outros vai sempre dar ao amor.

 

- O livro assenta muito nos conceitos ‘família', ‘paternidade', ‘amor', ‘morte'...

- Às vezes, para mim, também é importante dizer aos leitores que sou uma pessoa. Os autores muito facilmente podem ser desumanizados, apesar de fazerem algo de tão humano como a escrita. A relação entre o leitor e o autor é bastante distante, porque se processa através das palavras e através de um meio que não privilegia o contacto directo.

 

- O seu estilo contraria isso.

- Tento aproximar-me e dizer às pessoas que aquilo que faço é o que elas fazem. É o que toda a gente faz. Até a Rainha de Inglaterra.

 

- Por outro lado, fala-se de Facebook, fala de uma tampa de caneta esquecida num bolso ou de uma rapariga na esplanada. Há aqui um elogio das coisas simples?

- Sim. E do presente e do prosaico. A soma disso acaba por ser a nossa vida. Isso faz-me pensar na importância destes textos para mim.

 

- E revê-se em todos eles? Até nos mais antigos?

- Neste livro, dos textos que publiquei nas mais diversas publicações, os que não estão neste livro são os que considero que não têm validade. Esta é a escolha daqueles que merecem ser lidos no futuro. Um livro como este corre o risco de ser subvalorizado por não ser um romance nem um texto inédito. Tenho muita pena se isso acontecer e vou fazer de tudo para que tal não aconteça. Sinto que se há algo que a mim me dá uma imagem do que foi o meu trabalho de escrita nos últimos dez anos é este livro. Quais foram os meus interesses, os meus temas... Há inúmeras situações, personagens, lugares dos meus romances que se percebem aqui de onde vêm. Para mim, este livro é tão importante quanto os restantes. Não é um repositório, um caixote, uma gaveta.

 

- É, portanto, um livro de balanço de uma década?

- Exactamente. Precisava de organizar tudo o que tinha. Não no sentido de organizar os papéis que tinha lá em casa, mas organizar a minha cabeça e para poder ter novas ideias. É muito importante tirarmos do nosso sistema o que temos para termos novas ideias. Precisava de fazer o balanço de todas estas questões para avançar com novas ideias.

 

- O ‘Abraço' é o fechar de um ciclo? 

- Sim, este novo livro fecha um ciclo. Não porque abandone alguns temas que, se calhar, não tenho completamente resolvidos, mas também por fico com uma noção muito mais clara do que me falta dizer.

 

- Um tema que tem sido muito focado na sua obra e, obviamente, retratado neste livro, são as suas raízes, na Galveias. É um desses temas que nunca ficarão resolvidos?

- No que diz respeito à minha terra e ao Alentejo, ainda só comecei a escrever sobre o tema. Tenho muito para dizer. Há aí uma coisa que me fascina e que faz parte de mim que é a procura de um lugar no Mundo. Falando de tantos temas, este livro fala de viagens, de desenraizamento, de aeroportos, de hotéis. Quanto mais viajo, mais me interrogo sobre o meu lugar e sobre essa ligação quase sagrada que tenho com esse ponto do Mundo onde nasci e cresci e me formei.

 

- Aos 37 anos, tem mais respostas ou mais questões sobre esse lugar?

- Sinto que tenho mais respostas, do que as que já tive. Tenho mais a dizer, mais palavras dentro de mim. No entanto, isso implica que tenha também mais perguntas. Ao mesmo tempo, sinto que há questões para as quais nunca vou ter respostas e isso não me angustia. Pelo contrário: até aceito como um aspecto positivo, porque sei que ter um ânimo permanente, um horizonte é importante... até aos 150 anos! Não há limite para isso. Esse horizonte, essa capacidade de continuar a ser estimulado por perguntas é um elemento inerente de estar vivo.

 

- Considera-se um escritor filósofo?

- Não. Sinto que, em certa medida, a filosofia está presente em todas as formas de expressão e reflexão. Seria um pouco forte pensar isso. Não sendo um filósofo, sinto que há uma filosofia presente naquilo que escrevo. Da mesma maneira que, não sendo músico, existe alguma musicalidade nos meus textos. São elementos inerentes ao discurso.

 

- O ‘Abraço' é o livro certo, de passagem, após o êxito crítico de ‘Livro'?

- Para mim faz sentido. Mais do que enquanto obra, do ponto de vista pessoal. Não consigo escrever um romance por ano. Neste momento da minha vida, não tenho assunto suficiente para escrever um romance por ano. Tendo publicado um romance no ano passado, dificilmente conseguiria ter um romance publicado neste ano.

 

- Não gosta de trabalhar à pressa?

- Não consigo. Sinto, de alguma forma, que o ‘Livro' marcou um momento que também foi um degrau acima daquilo que tinha feito antes. E, de certa forma, um balanço. O ‘Abraço' acaba também por ter esse carácter. É importante resolver algumas questões que estão em mim, para depois seguir em frente.

 

- Apesar disso, a sua carreira literária, nesta última década foi extensa. Além de quatro romances, publicou inúmeras crónicas, peças de teatro e até letras de músicas.

- Este livro acaba por ser também um aspecto fundamental da minha acção. Ao fazê-lo, gosto de pensar que estou a reconhecer a importância a essa produção. Estes textos terão validade, espero eu, dentro de um ano, cinco anos, ou até depois.

 

- A tecnologia veio corromper a leitura? 

- Acredito que a tecnologia não compromete e pode oferecer novas formas de comunicação e novas perspectivas sobre esta área tão antiga que é a escrita. Pessoalmente, tenho interesse em fazer parte dessa procura e não temê-la. A validade de uma forma de expressão é tanto maior quanto mais conseguir resistir às diversas realidades humanas. E a escrita retrata de forma muito presente essas novas formas.

 

- É poeta e este ano o Nobel reconheceu o sueco Tomas Tranströmer. Foi importante para o género literário esta distinção?

- Confesso que não conhecia a obra desse autor. É importante que a poesia continue a ser considerada dentro dos níveis de maior reconhecimento da literatura. A poesia é um género muitíssimo importante e nós, em Portugal, sabemo-lo muito bem. Apesar disso, e tendo em conta o mercado, a poesia é colocada num segundo plano. Às vezes parece-me que há muito mais gente a escrever poesia do que a ler poesia. O que também me parece uma perversão completa.

 

- Lida bem com a entrega de prémios?

- Quem ganha prémios gosta sempre de os ganhar. Também me parece que os prémios e as diversas formas de reconhecimento devem ser relativizadas. Escrever é também uma forma de reflectir sobre nós próprios e sobre o nosso lugar. O olhar que os outros possam ter sobre o nosso trabalho é importante, mas devemos também confiar no nosso próprio olhar. É muito simpático quando os outros nos dizem que gostam, mas não pode ser tudo. Mas é muito bom receber prémios. Normalmente, quem faz um discurso anti-prémios são os que os não recebem.

 

- José Saramago, de quem era admirador, conseguiu receber um Nobel. É possível a língua portuguesa voltar a ser distinguida? Temos mérito para isso?

- Claro que sim. A língua portuguesa, para já, tem um potencial extraordinário, com várias obras, neste e no outro lado do Atlântico, a comprovarem-no. No entanto, não me parece que seja interessante fazermos depender da agenda do Prémio Nobel o valor que damos à nossa própria literatura. Se derem Prémios Nobel a autores de língua portuguesa, à partida, parece-me muito justo, se não derem não será por isso que os autores têm menos mérito. Hoje em dia, receber um prémio como esse depende de múltiplos factores e não apenas da qualidade literária. Aquilo que um autor se deve preocupar, em primeiro lugar, é com a sua obra e com a qualidade do que produz. Ter também a consciência tranquila em relação à mensagem que envia para o Mundo.

 

- Tem sido visto como um nome da nova literatura portuguesa, juntamente com outros autores como valter hugo mãe ou Gonçalo M. Tavares. Que opinião tem sobre o seu trabalho?

- Gosto bastante. São autores muito diferentes, mas há outros nomes de que poderíamos falar, porque também apresentam trabalhos bastante pessoais, no sentido em que não se tratam de autores que, necessariamente, formam um grupo estético. Aprecio bastante e leio. Encontro-os em múltiplas ocasiões e temos oportunidade de falar sobre o que mais nos preocupa e o que mais no interessa.

 

- Não existe rivalidade?

- Não sinto isso, pessoalmente. Na minha opinião, existe efectivamente uma geração porque se trata de um número bastante coeso no que diz respeito à atenção que merece que têm em comum a particularidade histórica de terem crescido depois do 25 de Abril de 1974. As grandes mudanças estéticas ao nível da literatura sempre estiveram ligadas aos seus contextos históricos e a esta geração coube esta característica de termos vivido neste período.

 

- Não é estranho não haver mulheres mais associadas a essa nova geração?

- Isso é incrível. Existem poucas - não digo que não existam nenhumas - e isso será revelador de alguma coisa que não sei muito bem o que é. Curiosamente na poesia têm surgido mais nomes do que na prosa.

 

- O IVA vai manter-se nos 6% ao contrário das outras áreas culturais. Se isso não acontecesse era o fim da indústria?

- Para já, é possível que exista aí o facto de termos um secretário de Estado [Francisco José Viegas] que tem uma sensibilidade ligada à literatura, sendo escritor. Sendo editor também tem, possivelmente, consciência do impacto que teria na indústria editorial a subida do IVA. Um impacto do IVA seria tremendo. A área editorial, hoje em dia, já não é um parente pobre. Existem grupos com poder, que movimentam muito dinheiro e que, inclusivamente, têm uma agressividade que não tinham antes. Nessa medida, considero muito importante. Até porque a escrita é uma área da Cultura que é fundamental na construção de uma política cultural. Nem é necessário ir buscar as vitórias internacionais que a literatura portuguesa teve e tem tido, basta ver o próprio papel que ela tem, em Portugal, aos mais diversos níveis. A literatura portuguesa contemporânea está de muitíssima boa saúde. Tudo o que se fizer para manter esse vigor é positivo. Mas sei que é uma área que sofre muito com a crise.

 

- Tal como Francisco José Viegas, era capaz de aceitar um cargo político?

- Ainda bem que há pessoas que o fazem, mas pessoalmente seria incapaz. Aí está uma coisa que sei que o futuro não me reserva. Aquilo que sempre quis e continuo a querer é ser escritor e escrever livros.

 

- Mas foi associado ao arranque do movimento dos indignados. Foi apenas uma questão cívica?

- Sim. Não vou prescindir das minhas convicções e da minha acção cívica. Em termos de cargos, não me parece que alguma vez me encontre nessa posição.

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Jornal i online, 27 Novembro 2012

14.05.14

José Luís Peixoto.“A Coreia do Norte tem mais de nazismo que de estalinismo”

 

Graças às comemorações do 100.º aniversário de Kim Il-sung, o escritor português conseguiu ir à Coreia do Norte para uma visita rara que deu um livro: “Dentro do Segredo” já está nas bancas

 

Manuel Vicente

 

“Ultimate Mega Tour” foi o nome do pacote que José Luís Peixoto comprou à agência chinesa que organiza viagens à Coreia do Norte assim que a ideia de visitar o país se cimentou. Antes de passar a fronteira (por onde também não passam telemóveis estrangeiros nem livros) para entrar na sociedade mais fechada do mundo, o escritor assinou o compromisso de não escrever nada sobre o país. Mentira piedosa animada por “D. Quixote de La Mancha”, o livro que levou escondido na mala e que esteve para ser o fio condutor de “Dentro do Segredo”.

Acabou por não ser. Mas o relato inédito da experiência – da gastroenterite que apanhou por beber água do poço da casa de infância de Kim Il-sung a nunca ter visto dinheiro a ser usado – vale por si só.

 

Porquê ir à Coreia do Norte?

O grande motivo foi justamente encontrar um desafio que me estimulasse, a possibilidade de ir a um país à partida de tão difícil acesso. E foi uma paixão assim que me permiti ter esse sonho.

 

Antes de ir, morre Kim Jong-il.

A verdade é que – agora ando com esta coisa de dizer “a verdade é”. Ignorar [diz para o gravador]. O que acontece, ou como diriam os tipos dos reality shows ‘É assim’ [risos], na Coreia do Norte a liderança de Kim Jong-il era importantíssima. Aqui em Portugal acredito que a sua morte tenha sido apenas uma curiosidade da política internacional, mas a mim disse--me muito, porque já tinha diligências feitas para ir e a morte pôs o país – e a minha viagem – numa grande interrogação.

 

O que esperava antes de ir?

Tinha tudo a ver com o que lia sobre a Coreia do Norte, existem informações contraditórias sobre a realidade efectiva do país. Havia até coisas que achava que não iam acontecer da forma como aconteceram. Acabei por ser surpreendido pela positiva, porque ia preparado para uma realidade ainda mais fechada. Se bem que, a partir de certa altura – e isso nota-se no livro – comecei a quebrar.

 

Pela falta de ligação ao exterior?

Exacto, e pela opressão que estava sempre presente em todos os momentos, desde que acordava até ao fim do dia.

 

Só a sua mãe e irmã é que sabiam onde ia e no livro diz lamentar não ter podido contar aos seus filhos. São novos?

Um tem 15 anos e é muito interessado em política internacional. E o outro tem oito.

 

Porque decidiu não lhes contar?

Achei que podiam não compreender. Mesmo com o mais velho temi que pudesse perturbá-lo. Associamos a Coreia do Norte a um país que envolve alguns riscos e confesso que, a partir do momento da morte de Kim Jong-il, também senti que podia haver riscos. E a viagem foi feita num momento de tensão em torno do lançamento de um foguete que o Estado norte-coreano dizia estar destinado a pôr um satélite em órbita.

 

Que foi um lançamento falhado.

Mas que foi feito e feito contra os Estados Unidos, que não só avisaram a Coreia do Norte que não o fizesse como ameaçaram com sanções que se vieram a verificar. EUA, Japão e Coreia do Sul temiam que pudessem ser testes nucleares.

 

No livro fala em ameaças latentes aos turistas em caso de desrespeito das regras, que não se concretizaram.

Eram sobretudo decorrentes do medo de cada um e do que cada um tinha lido sobre a Coreia do Norte, nuncaeram efectivas. Embora fosse visível um certo terror no olhar dos guias face a esse desrespeito.

 

Sabia que não podia levar livros?

Soube mesmo já na fronteira.

 

Mesmo assim levou o D. Quixote.

Confesso que, apesar de ir contra as regras, via o D. Quixote como uma infracção menor. Para já, porque era em português, uma língua muito pouco acessível na Coreia do Norte [risos]. Mas também porque é uma obra literária de referência, não é propriamente um texto subversivo ou que possa ser visto como ofensivo, embora seja um livro proibido como qualquer outro, e isso acaba por ser impressionante. É até uma lição, porque aquele país ignora completamente o meu mundo. Nenhuma obra literária de referência está disponível. Todos os livros publicados são propagandísticos. Até refiro isso de passagem no livro, a propósito de uma visita a uma livraria em Pyongyang, a livraria internacional...

 

Onde comprou alguns livros...

Muitos. Mais que os que refiro.

 

Propagandísticos?

Pois [risos]. De biografias dos líderes a outros. Mas achei que o “D. Quixote” faria sentido do ponto de vista do paralelismo. Já tinha lido o livro, mas levei a versão do Aquilino Ribeiro, que nunca tinha lido e que foi editada aqui, curiosamente [pela Bertrand]. Aliás, pedi-lhes essa edição e eles não sabiam para que a queria e depois ficaram surpreendidos ao saber que ela foi à Coreia do Norte e veio. Em certo momento até achei que podia ser interessante escrever este livro estabelecendo um paralelismo com a leitura de D. Quixote. Por outro lado,também quis levá- -lo porque supunha que iria sentir saudades da língua portuguesa e o Aquilino Ribeiro tem todo esse aconchego.

 

No início do livro diz que, enquanto estamos a lê-lo, estará com o seu advogado a tentar reverter o compromisso de não escrever nada sobre a viagem.

No momento em que escrevi essas palavras elas eram reais, quando acabei de escrever o livro já não eram. Mas decidi mantê-las porque achei interessante essa chamada ao presente. Foi angustiante em alguns momentos, mas depois de voltar e já no processo de escrita percebi que poderia fazê-lo.

 

Para já não teve problemas.

Mas se o livro acabar por ser traduzido terá repercussões diferentes. Em Portugal não temos embaixada da Coreia do Norte, mas noutros países existem e é sabido que é através delas que se estabelece o controlo do que é feito fora do país. Vamos ver. Para já estou tranquilo.

 

É interessante quando, a dada altura, começa a aperceber-se da liberdade das crianças em Pyongyang, que contrasta com tudo o resto que descreve.

Sim. A Coreia do Norte tem uma sociedade única, muito repressiva em quase todos os momentos, mas as pessoas têm de viver. E por isso existem escapes que fazem com que a vida seja possível e, em muitos aspectos, até agradável. Sobretudo em Pyongyang, vê-se que a vida decorre de forma serena e agradável. Para já, as pessoas não conhecem o mundo fora da Coreia do Norte e a construção que lhes é apresentada desse mundo é pintada com cores muito negativas. A maioria das pessoas acredita que vive no país mais desenvolvido do mundo. E depois existem efectivamente alguns aspectos da vida social mais ligeiros do que aqui. Quem tem filhos sabe que se os perder de vista durante um minuto a angústia é grande. E na Coreia do Norte isso não se sente dessa forma.

 

Também por ser militarizada?

Sim, acho que se pode fazer esse paralelismo, mas há outras circunstâncias a contribuir para isso, até a própria cultura. Por exemplo o aspecto do trânsito: não há quase nenhum, nem na capital.

 

E nunca se vê ninguém usar dinheiro.

Sim. Além de um conjunto de notas fora de circulação à venda como recordação, que eu por acaso comprei, nunca vi dinheiro a ser usado. Mas houve um momento que optei por não referir no livro porque achei que podia ser… Constrangedor não é a palavra, podia ser algo perigoso...

 

Que momento foi?

Uma pessoa da Coreia do Norte que propôs de uma forma disfarçada que podíamos comprar-lhe notas em circulação. Eu não fiz isso, não as comprei, achei que não valia a pena correr o risco. Não sou coleccionador de notas nem iria fazer nada com elas. Mas é verdade que isso foi uma coisa que me chamou muito a atenção. Lá praticamente não há comércio, é muito escasso, às vezes existem pequenas bancas, a maior parte apenas tabuleiros com coisas em cima, duas ou três peças de fruta, cigarros, garrafas de bebida...

 

Também não há papéis no chão.

Em sítio nenhum. Nem beatas!

 

Mas vêem-se pessoas a fumar.

Sim, os coreanos fumam muito e em todos os lugares. No avião para Pyongyang, no comboio... Como era antes aqui. Os cigarros imagino que não sejam atribuídos pelo Estado, mas a maior parte dos bens, seja comida, seja vestuário, são. Porque não é claramente às lojas que as pessoas vão buscar os alimentos. Já a roupa é muito limitada, a maioria das pessoas tem roupas muito semelhantes, muitas vezes próximas do uniforme militar.

 

O seu grande arrependimento na viagem foi beber do poço de Kim Il-Sung?

[Risos] Sim, sim!

 

Mas não chegou a ir ao hospital.

Não, nunca. Em todos os momentos senti que a má disposição ia passar, como efectivamente passou, mas é irónico que tenha acontecido no poço da casa de infância do Kim Il-sung, A verdade é que isso também mostra como uma visita à Coreia do Norte anda sempre à volta desses temas. Há um momento no livro em que falo do cansaço que sentia ao ouvir o nome dos líderes, porque era permanente. Em todos os momentos. Há um documentário da National Geographic sobre a Coreia do Norte em que uma jornalista acompanhou um médico indiano que foi fazer tratamentos às cataratas de pessoas que tinham cegado e um momento muitíssimo impressionante é quando tiram as vendas às pessoas que foram operadas. A primeira coisa que todos eles fazem é dar graças a Kim Jong-il e dizer que agora felizmente já têm a visão restabelecida para o poder ver e venerar. Isso é, de certa maneira, uma imagem muito poderosa do que é a vivência do culto da personalidade na Coreia do Norte, que ultrapassa tudo o que eu já vi do ponto de vista de cultos, até religiosos. E eu cheguei

há duas semanas da Índia, onde as pessoas acreditam que vão reencarnar.

 

Diz que, ao contrário do que se pensa, a Coreia do Norte não é o último reduto estalinista.

Acho que é o último e o primeiro reduto de algo que terá muito mais a ver com o nazismo do que com qualquer outro regime conhecido, porque existem do ponto de vista ideológico marcas nacionalistas evidentes em todos os aspectos e momentos da vida do país. E depois existe também um discurso racista que diverge bastante do discurso estalinista. Os inimigos do país, como os EUA, eram sempre retratados traçando uma diferença importante entre os líderes e o povo, mas no caso da Coreia do Norte as qualidades negativas são atribuídas tanto aos líderes como à população. Aliás, existem representações de crianças americanas ou japonesas em

que surgem desfiguradas e com um aspecto assassino.

 

O que mudou no seu imaginário do país agora que lá foi e voltou?

Continuo a alimentar esse imaginário, porque há muito que não vi e há muito que só posso imaginar. Mas ao mesmo tempo tornou-se um lugar muito mais concreto. Recordo o olhar das pessoas que lá ficaram e isso traz uma certa dor, parecida com aquela que trago comigo quando visito prisões. A sensação de sair e saber que eles continuam lá.

 

Agora o seu filho mais velho já sabe que o pai foi à Coreia do Norte.

E ficou muito surpreendido e impressionado ao saber que alguns telefonemas que recebeu vinham de lá. Ele pensava que eu estava na China, que já é um lugar distante e misterioso, mas a Coreia do Norte supera esse fascínio. No livro digo que os meus filhos, até os meus netos, um dia vão ter curiosidade de saber como foram estas aventuras e acho que este livro é um bocado isso, um documento do que é a Coreia do Norte e também do que é ser eu, porque vem tudo do interior dos meus pensamentos.

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Babélia, El País, 15 outubro 2011

12.05.14

"LOS LIBROS TAMBIÉN LEEN A LOS LECTORES"

BABELIA, EL PAÍS, 15/10/2011

ENTREVISTA DE SERGIO C. FANJUL 

 

Es una de las figuras en ascenso de la literatura portuguesa. Y Libro lo confirma, Una obra que aspira a convertirse en la novela de referencia de la emigración rural de su país con una estructura interna realista, descriptiva y metaliteraria

 

José Luís Peixoto nació en una brecha de la historia portuguesa. En 1974, después de la Revolución de los Claveles que puso fin a la dictadura de forma pacífica. En su último libro, una novela que se titula precisamente Libro (El Aleph), escribe sobre lo que ocurrió en su país antes de que él naciera. "Es arriesgado", explica, "porque las personas que vivieron aquello todavía viven, y todavía tienen mucha capacidad de contar su propia historia. A la gente de mi generación siempre nos recuerdan las cosas que no vivimos, la dictadura, la guerra colonial, la emigración. Es una generación definida por algo que no vivió, porque nacimos en el momento en que cambió la historia del país".

Hay dos temas que preocupan, y mucho, a Peixoto: el mundo rural portugués y la emigración, que son los dos ejes en torno a los que se desarrolla la novela. "El mundo rural tiene múltiples aspectos en contraste. Uno puede encontrar la ternura más conmovedora, la sencillez, la bondad (una palabra que hoy en día no se utiliza mucho), pero también se encuentra lo contrario de eso, lo despiadado, acciones muy crudas, muy violentas. Me gustó poder crear algo que tuviese los dos lados, con personajes que no fuesen ni buenos ni malos, sino que, simplemente, tienen sus razones para obrar como obran". Los padres de Peixoto fueron emigrantes en París, en una época en que había en la capital francesa un millón y medio de portugueses buscándose el sustento (lo que suponía un 15% de la población del país). Pero el autor nació cuando regresaron y vivió en un pequeño pueblo del Alentejo hasta los 18 años. "El tiempo en el campo tiene una importancia enorme, se marca de formas múltiples: tienes contacto con los nacimientos, las muertes, con el crecimiento, con lo mejor y con lo peor. No debemos apartarnos demasiado de la naturaleza, somos seres naturales".

 

La primera parte de la novela trata, con un lenguaje no falto de lirismo, de las peripecias (lo conmovedor y lo crudo) de unos personajes que, en los años sesenta, viven en un pueblo portugués y se ven obligados a emigrar. "Los portugueses que emigraron hacia Francia lo hicieron en condiciones muy difíciles, pasando ilegalmente, siendo perseguidos en Portugal por la policía portuguesa, en España por la Guardia Civil, y llegando a Francia en una situación que muchas veces era peor que lo que dejaban. Vivían once meses de muchas privaciones en Francia para luego tener un mes de opulencia en Portugal. La crudeza de la novela tiene que ver con la crudeza de la realidad que trata de retratar. Escribí, además, sobre esta emigración específica pero tuve en cuenta todas las migraciones, todas las cuestiones actuales en este aspecto". Durante unos años, Portugal pasó de ser emisor de emigrantes a receptor de inmigrantes, "aunque ahora vuelve a ser un país de emigrantes, en unas condiciones muy distintas, con un nivel cultural distinto. Durante diez años recibimos inmigrantes del este de Europa, de las antiguas colonias, de Brasil, etcétera. En muchos aspectos la experiencia de la emigración no fue suficientemente asimilada hasta el punto de tener presente la perspectiva de los otros, y no se les trató todo lo bien que se debería. La literatura tiene la oportunidad de darte la perspectiva de los otros. Por eso creo en la necesidad de esta novela. Somos nuestra historia y hay que aceptarla para comprender lo que somos hoy".

 

En la segunda parte (que ocupa las últimas 50 páginas), la novela da un giro radical y se adentra abruptamente en lo metaliterario, lo experimental. El narrador se dirige al lector, se reflexiona sobre lo anterior, el estilo se torna más actual. Lo cierto es que ese tránsito tiene algo de shock, y si alguien no llega a la página 200, donde empieza esta parte, se llevará una impresión muy diferente de la obra. "La novela no sería la misma sin esa segunda parte, es un cambio total en la manera de ver lo que ocurrió antes. Sólo podría ser escrita hoy en día: trata de jugar con la literatura, con la narrativa, de una forma eficaz, que tenga algún sentido, desmontándola al servicio de algo más grande. Hay un momento en el que el libro se torna un personaje más, un ser. En muchos momentos me parece que el libro va a leer también al lector, porque eso también ocurre. Sería interesante pensar qué opinión tienen los libros de nosotros", bromea. "Para mí también fue un shock empezar a escribir esta parte, un desafío. De todas formas, no me gustaría escribir una novela en la que estuviera completamente cómodo: las librerías, las bibliotecas, están llenas de libros, cuando nosotros nacimos ya existían miles de libros, mientras hablamos se publican libros. Cuando publicas un libro estás diciendo: 'Aquí hay algo en lo que me parece que vale la pena que inviertan unas horas de su vida".

 

 

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