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O Globo, Dezembro 2016

06.12.16

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O romance “Galveias”, do escritor português José Luís Peixoto, foi o grande vencedor do Oceanos — Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa, antigo Portugal Telecom, que desde o ano passado vem sendo viabilizado pelo Itaú Cultural. Outro romance, “A resistência”, de Julián Fuks, que acabou de ganhar o Prêmio Jabuti como Livro do Ano na categoria ficção, ficou em segundo lugar. A coletânea de poemas “O livro das semelhanças”, de Ana Martins Marques, ficou em terceiro lugar, e o escritor, jornalista e colunista do GLOBO Arthur Dapieve ficou em quarto com o livro de contos “Maracanazo e outras histórias”.

 

Várias rodadas de discussão

O anúncio dos melhores de 2015 foi feito ontem à noite, durante cerimônia de premiação no Auditório Ibirapuera, em São Paulo.

— Neste ano, tivemos um equilíbrio grande entre os dez finalistas, que se dividiram entre quatro romances, quatro livros de poesia e dois de contos. Prova disso foi a reunião do júri, muito difícil. Foram necessárias umas três ou quatro rodadas de discussões, e nem assim chegamos ao consenso. Tivemos que partir para votação mesmo. Mas os jurados estavam muito confortáveis porque, segundo eles, o conjunto dos finalistas era muito bom — disse Selma Caetano, criadora e curadora do prêmio em parceria com o crítico literário Manuel da Costa Pinto.

Dois romances levaram os primeiros lugares da premiação. Misto de memória e realismo fantástico, “Galveias” parte de um fiapo de história, a queda de um meteorito no vilarejo onde Peixoto nasceu, na região do Alentejo, para se desenvolver em uma narrativa que opõe tradição e modernidade. Fuks também garimpou na memória a premissa de “A resistência”, cujo narrador desconfia que seu irmão adotivo seja filho de ativistas desaparecidos no auge da ditadura argentina, em meados dos anos 1970.

Na terceira e na quarta colocações, um livro de poesia e outro de contos. Dividido em quatro partes, “O livro das semelhanças”, da mineira Ana Martins Marques, busca recuperar o mundo e as coisas por meio da palavra. “Maracanazo e outras histórias” reúne cinco contos em que Dapieve percorre diversos temas, que vão da música ao futebol, passando pelo cotidiano do Rio de Janeiro, sempre buscando o lado humano desses universos.

Com R$ 230 mil em prêmios, o Oceanos destina R$ 100 mil para o primeiro lugar, R$ 60 mil para o segundo, R$ 40 mil para o terceiro e R$ 30 mil para o quarto colocado.

Este ano, foram inscritos 740 livros em língua portuguesa publicados no país no ano passado. Os vencedores passaram por três etapas de avaliação, a primeira com 50 semifinalistas e a segunda com 10 finalistas. O júri final, que repetiu a formação do corpo de jurados da fase semifinal, foi formado pela professora e ensaísta Beatriz Resende, pelos escritores Cristovão Tezza, José Castello e Rodrigo Lacerda, além dos poetas Heitor Ferraz Mello e Sérgio Alcides.

 

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O Estado de São Paulo, Dezembro 2016

06.12.16

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Galveias, ambientado na aldeia natal do escritor José Luís Peixoto, ganhou ontem à noite, o primeiro lugar do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa, do Itaú Cultural. O romance fala sobre o choque de um país. Portugal, preso às tradições e à modernidade que assola a sociedade. Na cerimônia, Peixoto dedicou o prêmio à sua aldeia Galveias, “com seus mil habitantes que resistem (com sua cultura), assim como alguns lugares no Brasil”.

O segundo lugar ficou com A Resistência, de Julián Fuks, vencedor do Jabuti na categoria romance e como Livro do Ano de ficção. A poesia em O Livro das Semelhanças, de Ana Martins Marques, e os contos Maracanazo e Outras Histórias, de Arthur Dapieve, também foram contemplados. O escritor disse que a literatura tem sido o compromisso com as palavras e com o passado. Encerrou o discurso com "Fora, Temer" e foi muito aplaudido.

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Em seu segundo ano, o prêmio, que se chamava Portugal Telecom de Literatura e teve 14 edições, recebeu um número recorde de inscrições, 740 entre romances, poesia, contos e crônicas e dramaturgia.

A festa de premiação ocorreu no Auditório Ibirapuera e prestou uma homenagem ao escritor sergipano Antonio Carlos Viana, que antes de morrer em 10 de outubro, aos 72 anos, era um dos dez finalistas com Jeito de Matar Lagartas. O livro havia recebido o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) na categoria Contos/Crônicas.

A curadoria deste ano foi feita pela idealizadora do prêmio, Selma Caetano, e pelo jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto, que dividiram a seleção dos melhores em três etapas. Na primeira, 42 jurados escolheram 50 livros que foram submetidos a outros avaliadores, que chegaram aos 10 finalistas. Um novo júri teve a difícil tarefa de chegar aos quatro livros vencedores.

O total de prêmios em dinheiro do Oceanos este ano foi de R$ 230 mil: R$ 100 mil para o primeiro lugar, R$ 60 mil para o segundo, enquanto o terceiro e o quarto lugares receberam R$ 40 mil e R$ 30 mil, respectivamente (em valores, Oceanos só perde para o São Paulo de Literatura).

Com a divulgação dos ganhadores do Oceanos se encerra a temporada de prêmios literários, que começou em novembro do ano passado com a escolha da APCA, seguido pelo São Paulo de Literatura, do governo do Estado, o da Biblioteca Nacional e o mais tradicional do País, o Jabuti da Câmara Brasileira do Livro (CBL).

 

 

 

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Diário de Notícias, Dezembro 2016

06.12.16

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O livro do escritor português foi considerado o melhor em língua portuguesa editado este ano no Brasil.

O romance Galveias, do escritor português José Luís Peixoto, é o vencedor do prémio literário Oceanos, organizado pelo Itaú Cultural, no Brasil, foi anunciado pelo júri.

Peixoto e os outros três autores distinguidos este ano pelo Oceanos - Prémio de Literatura em Língua Portuguesa, os brasileiros Julián Fuks, Ana Martins Marques e Arthur Dapieve, foram escolhidos pelos curadores do galardão, a investigadora Selma Caetano, especialista na obra de Graciliano Ramos, e Manuel da Costa Pinto, jornalista e mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada, pela Universidade de São Paulo. Os quatro trabalhos vencedores foram apresentados esta noite, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Peixoto recebe um prémio no valor de 100 mil reais, o que corresponde a cerca de 27 mil euros.

Para os críticos que escolheram o romance de Peixoto como o melhor livro do ano, em língua portuguesa, publicado no Brasil, a obra faz "um mergulho no Portugal profundo, rural, com uma narrativa que alinha personagens emblemáticas desse universo arcaico".

No geral, a categoria romance conquistou mais um prémio com A Resistência, do escritor Julián Fuks, que ficou em segundo lugar.

O volume de poesia O livro das semelhanças, de Ana Martins Marques, obteve o terceiro lugar, e Arthur Dapieve colocou-se como quarto vencedor, com os contos de Maracanazo e outras histórias.

Entre os dez finalistas do prémio estava o escritor português, Gonçalo M. Tavares, com o romance Uma menina está perdida no seu século à procura do pai.

Estes finalistas foram escolhidos por um júri, a partir de uma lista de 50 obras semifinalistas, provenientes de um grupo de 740 títulos concorrentes, dos diferentes géneros - poesia, romance, conto, crónica e dramaturgia. Além das obras de José Luís Peixoto e de Gonçalo M. Tavares, estavam também, entre os semifinalistas portugueses, os livros de poesia de Matilde Campilho, Jóquei, e do sociólogo Boaventura Sousa Santos, 139 epigramas para sentimentalizar pedras, e os romances Não é meia-noite quem quer, de António Lobo Antunes, e O pecado de Porto Negro, de Norberto Morais.

No ano passado, o prémio Oceanos, em primeira edição, que sucedeu ao Prémio Portugal Telecom de literatura, foi atribuído ao escritor brasileiro Silviano Santiago, de 80 anos, pelo romance "Mil Rosas Roubadas".

José Luís Peixoto nasceu em 1974, em Galveias, venceu o prémio José Saramago, em 2001, com o romance "Nenhum Olhar", o segundo da sua carreira, incluído na lista do Financial Times dos melhores livros publicados no Reino Unido, em 2007, e recebeu o galardão Salerno Libro d'Europa, em 2013, por "Livro", entre outras distinções. O escritor estreou-se na ficção com "Morreste-me", em 2000, a que se seguiram, entre outros, "Uma Casa na Escuridão", "Cemitério de Pianos", melhor romance estrangeiro publicado em Espanha, em 2007, e "Em Teu Ventre". As suas obras foram ainda finalistas de prémios internacionais como o Femina, em França, Impac Dublin, Irlanda, e o antigo Portugal Telecom, Portugal/Brasil. Em 2012, José Luís Peixoto publicou "Dentro do Segredo, uma viagem na Coreia do Norte", primeira incursão na literatura de viagens.

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La Vanguardia, Novembro 2016

20.11.16

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Galveias es el pueblo donde nació José Luis Peixoto, uno de los escritores clave de Portugal, y también el título de su última obra: una exitosa joya literaria que rescata el universo de las poblaciones rurales antes de la era digital.

Aunque la novela transcurre en los años 80, parecería que estamos en otra era. ¿Es que se perdió aquel mundo rural? ¿Habría que rescatarlo?

Si y no. Por un lado, se perdió, y no hay manera de retener lo que tuvimos. Pero también es cierto que mirar al pasado puede sernos muy útil para decidir hoy y determinar lo que será el futuro. Desde cierta perspectiva, la vida y el ritmo de la ruralidad puede ser una referencia muy útil en el mundo que hoy se plantea, el cual nos trae cuestiones cuya respuesta no conocemos. Estamos haciendo muchos experimentos en distintas áreas que tiene una importancia mayor, me da la impresión, de lo que imaginamos

¿Por ejemplo?

Hablo, muy concretamente, de las redes sociales, Internet, el mundo virtual y la ilusión de proximidad que esas herramientas nos ofrecen

Justo los 80 son los años pre-internet, los de antes del mundo sumamente acelerado en que vivimos. ¿Estamos ganando o perdiendo?

Hay aspectos en que es muy positivo y otros en que resulta por lo menos peligroso y negativo. Siento que existe el peligro de que las relaciones, no sólo entre las personas sino con múltiples aspectos, sean más superficiales. Todo es muy rápido y a la gente a menudo le parece que todo tiene que consumirse y de manera muy rápida. Ocurre claramente con el periodismo. Aunque no se reconozca, existe la idea de que basta con leer los titulares; que la información es solamente la noticia. Y no es cierto. Con frecuencia, la contextualización es tan importante como la noticia. Es sólo un caso, pero hay otros muchos consumos que se realizan tendencialmente de manera muy superficial.

“La vida y el ritmo de la ruralidad puede ser una referencia muy útil en nuestro acelerado mundo”

¿Se refiere a otros ámbitos de la cultura?

Sí. También ocurre con el arte. Por cuenta de esa rapidez y de lo presente que está en nuestra vida todo lo que es visual, no es frecuente que nos detengamos ante una imagen y hagamos una interpretación, una lectura, una absorción. Y, sin embargo, cuanto más tiempo dediquemos a una imagen –me refiero a una imagen artística o con cierta riqueza- más partido le sacaremos. No será lo mismo si la contemplamos dos segundos que si nos paramos diez minutos.

Detenerse diez minutos para contemplar algo nos parece incompatible con nuestro ritmo, problema que no tienen los personajes de su libro

Es que el elogio de la ruralidad es muchas veces, el elogio del tiempo. Lo rural tiene unas características especiales al margen de la parte del mundo de la que hablemos. Una de ellas es la mayor cercanía con la naturaleza, con respecto al mundo urbano. En los pueblos, es la naturaleza la que define el tiempo. La noche y el día, las estaciones del año, la vida de las plantas y de los animales marcan los ritmos en los cuales nos integramos de un modo que, en las condiciones habituales, no nos agrede porque también nosotros formamos parte de la naturaleza y por lo tanto es todo equilibrado.

Una forma de vivir que ya es radicalmente distinta a la nuestra, ¿no?

Claro, porque la manera en que entendemos el tiempo tiene que ver con todo, desde el modo en que respiramos hasta la forma en que disfrutamos los días.

Pues andamos bien. Porque, ¿acaso no estamos perdiendo la ruralidad en toda Europa, en cuyas poblaciones rurales sólo queda gente mayor?

Desde luego. Y una de los objetivos de esta novela es llamar la atención sobre este aspecto. Creo firmemente en la literatura como vehículo de conciencia colectiva. En este caso concreto, creo que está clara mi intención de comunicar y aportar una idea sobre nuestra vida en común. El simple hecho de elegir como tema esa realidad, hoy día ya implica la intencionalidad de que se considere esa forma de vida. En Portugal, como en otros países, el envejecimiento y la desertificación del interior se sienten con intensidad y tristeza. En el año en que se publicó allí la novela, 2014, en Galveias murieron 50 personas y nacieron dos sobre una población cercana a las mil personas. Es una matemática trágica, cruel. Y muy difícil para quien conoce el enorme potencial de vida que existe allí.

“Se vive peor en las grandes ciudades porque se vive peor en los pueblos del interior”

¿Qué hacer?

No podemos dejar la supervivencia de ese mundo sólo en las manos de la gente que vive en esos lugares. Tiene que formar parte de una mirada más amplia que busque el equilibrio entre los territorios. Porque lo que estamos haciendo en Portugal es crear un desequilibrio que llama la atención en un país tan pequeño. No tiene nada que ver la vida en las grandes ciudades del litoral con la de los pueblos del interior, que se están quedando vacíos porque los jóvenes no tienen oportunidades. Lo cual es malo para todos. Se vive peor en las grandes ciudades porque se vive peor en los pueblos del interior.

¿Se refiere a la presión por la migración interior?

Exacto. Como consecuencia de políticas de muy corto plazo, sin visión del mañana ni de nada más allá de las próximas elecciones, en metrópolis como Lisboa surgen suburbios donde vive casi tanta población como en toda la región de Alentejo, que representa un tercio del territorio nacional. La gente no sale del interior por opción sino por necesidad, porque no tienen otro horizonte que recibir el subsidio del paro u otra subvención de las que te permiten vivir pero no tener autoestima y dignidad.

El Galveias de su novela es como un mundo. ¿Quiso hacerlo así o es sencillamente que esas poblaciones forman un universo por sí solas?

Lo que hago con la novela es dar cuenta de Galveias al mundo, y viceversa. El mundo tenía que saber que Galveias existía de esa manera y hoy sigue existiendo. Hay también una invitación a que la gente compare cómo era y cómo es.

Allí el libro habrá tenido un impacto enorme…

Allí la novela es como “la cosa sin nombre” que cae en el primer capítulo (aparentemente, un meteorito). Ver que el nombre sale en el libro, en los periódicos de Portugal… ¡En la televisión! Allí es muy importante, como para mí lo era ponerlo como título.

Los ha situado en el mapa; les ha dado autoestima.

Claro. Es una afirmación de identidad, y eso es vital. Desde el siglo XIX se instaló la idea del provincianismo como algo atrasado, con valores antiguos. Y sin embargo, tal como lo estamos tratando aquí, esos valores son revolucionarios. El hecho de que los hayamos olvidado lo hacen necesarios. Y cuando los traemos de vuelta son increíblemente subversivos. Porque estamos en un tiempo de superficialidad, soluciones instantáneas, de todo lo contrario a esa vida más orgánica, más despacio.

“Con Internet y las redes existe el peligro de que las relaciones sean más superficiales”

Una vida dura, también

Sí, ojo. Una vida con cosas que son difíciles de aceptar y que, en esa especie de ideología que se instaló, ignoramos. Como si fueran a desaparecer por ello. Hablo de la muerte, de la vejez. No porque las rechacemos dejan de existir. Sería mucho más útil y natural que las aceptáramos como vienen. Sería incluso más sabio.

En el pequeño pueblo no puedes mirar hacia otro lado…

Allí, cuando muere alguien es siempre alguien que conocemos. Y lo sentimos, porque en esos lugares la gente mayor tiene aún su puesto; no está en una casa apartada porque no queremos verla ni tener nada que ver con su debilidad y sus problemas. Por supuesto, también hay cosas negativas.

Los odios que crecen

Los odios antiguos y duraderos, por ejemplo, sí.

Portugal y España

Nuestros dos países comparten bajos índices de lectura. ¿A qué lo atribuye?

Tenemos un pasado de dictadura en el que no se valoró la enseñanza. En Portugal eso es muy evidente. En los últimos años del salazarismo el conocimiento y la cultura eran claramente entendidos por el poder como una amenaza. Sin embargo, se nota que hay cambios muy importantes el las últimas décadas. El caso de mi familia es muy paradigmático: mis abuelas no sabían leer o escribir; mis padres tuvieron la oportunidad de estudiar durante 4 años y de aprender a leer y a escribir; yo y mis hermanas estudiamos en la universidad y somos la primera generación de siempre en toda mi familia en tener estudios universitarios. Eso es increíble e importante. Te marca la vida. Para mí, personalmente, es muy fuerte saber que mis abuelos no podían leer y escribir, mientras yo soy escritor.

Los países meridionales también compartimos una distancia cada vez mayor respecto al norte de la Unión Europea. ¿Qué podemos hacer?

Es una pena y un desperdicio que no nos conozcamos mejor entre nosotros. Pero podemos tomar consciencia de lo mucho que compartimos, de lo tanto que pasamos juntos. Hoy, los pueblos están cada vez más lejos de los centros donde se deciden sus vidas. Al mismo tiempo, dejó de ser claro quién toma las decisiones importantes. Las instituciones perderán la cercanía y se volvieran transnacionales. Nosotros, países del sur de la Europa, compartimos una cantidad enorme de características, somos más que simples vecinos. Creo que esa consciencia y una actitud conjunta y concertada pueden hacernos más seguros de nosotros mismos, más fuertes, más felices.

 
 

 

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El Mundo, Novembro 2016

09.11.16

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¿Qué es lo primero que se debe preguntar a un poeta deslizado hacia la narrativa como José Luís Peixoto? Por la música, por qué otra cosa si no. ¿Hay una música relevante en sus relatos? ¿Una melodía reconocible?

"La idea de la música en la prosa está siempre presente para cualquier persona que quiera escribir y, sobre todo, para cualquiera que quiera escribir y tener un control sobre lo que escribe. Lo de control hay que ponerlo entre comillas porque nunca es real. La música es siempre una ambición, está condenada a no cumplirse. Es una de esas palabras como amor o libertad... ¿Que si tengo alguna música en la cabeza para mis libros? Mire, yo ya tengo más de 40 años, escucho música mucho más variada de lo que escuchaba cuando era más joven. Pero hay un secreto en mi vida: siempre he estado muy vinculado al rock... al rock pesado. Sé que seguramente no sea eso lo que esperan los lectores. No sé si la gente que se pueda interesar por mis libros se sentirá un poco asustada con esto del rock pesado".

 

¿Escribe Peixoto como un metalero cuarentón? Bueno. Depende de las expectativas de cada lector, de cada oyente. Galveias la nueva novela del escritor portugués (editado con el sello de Random House) es áspero, polvoriento y escueto, pero también es evocador y dulce. Hay vísceras de perro, olor a azufre, intentos de violación, motos trucadas, prostitutas brasileñas, disparos en la madrugada... Muy en resumen, a lo largo de las 244 páginas del relato se van trenzando las vidas de los habitantes de Galveias, un pueblo del interior de Portugal que existe realmente y que fue el lugar en el que nació y creció Peixoto. "Me fui a los 18 años, a estudiar a Lisboa. Hasta ese momento, no tuve otro sueño que el de irme del pueblo. Después, comprendí la importancia que tiene Galveias en mi vida. Ahora sigo yendo. A mis hijos les gusta, les asombra la libertad de la que gozan cuando van al pueblo. Veo a mis hijos y me parece trágica la falta de libertad que hemos aceptado". Peixoto, se ha contado mil veces, lleva tatuado en el brazo derecho Yoknapatawha, el condado imaginario de William Falkner. Queda todo más claro, ¿verdad?

 

-¿Y por qué llamar a ese pueblo Galveias y no Galveiatawha o cualquier otro nombre inventado?

 

-Para mí, tener una referencia real era muy interesante. Ahora estamos hablando de Galveias y, en este mismo momento hay gente que camina, va a trabajar y sigue con su vida en Galveias. Que sea ficción y que sea realidad, era irresistible para mí.

 

El otro marco de la novela es 1984, el año en el que ocurren los hechos de la novela. "Era una época de inocencia en Portugal. Estaba la gran esperanza de la Comunidad Europea y habían pasado 10 años desde la Revolución de los Claveles. Pero, al mismo tiempo, era una época en la que un pueblo así podía ser retratado encerrado en sí mismo. El protagonista no es el momento histórico, es el pueblo".

 

El relato empieza en enero, con un meteorito que cae en una fina del lugar. ¿Un meteorito? parece el presagio de una sucesión de páginas mágico-tremendistas, como de pueblo manchego en una película de José Luis Cuerda. Sin embargo, Galveias es estrictamente realista. ¿Por qué ese equívoco? "Fíjese que ésta es una novela en la que todo está muy nombrado. Los nombres de las calles, de las personas, de los perros... Lo único que no tiene nombre es el meteorito. Ni siquiera aparece la palabra meteorito, se habla de 'esa cosa', 'esa mierda'. El meteorito funciona así, como una presencia turbia que contrasta con todo el relato. No es un cimiento sobre el que construir un puente. Más bien es una nube".

 

El viaje que empieza con esa nube astral termina con un asesinato. En medio queda un montón de sexo sórdido, nada dulce. "Esta novela tiene una dimensión social y ahí entra la gran diferencia entre el lugar que tienen el hombre y la mujer. Es un tema muy ibérico", explica Peixoto. "Pero, a veces, también hay cierta delicadeza y cierta ternura".

 

Al final, es lo de siempre: en las ciudades nos gusta el campo para pensar en él como una arcadia naíf o como un escenario grotesco. Y ni una cosa ni la otra. "la ruralidad nos ayuda a pensar el punto en el que estamos. El mundo cambia a toda velocidad, más rápido de lo que podemos asumir y nos deja sin referencias. En cambio, en el campo, las referencias están claras, los cambios son naturales y nos parecen justificados y comprensibles. Hoy en día, lo rural es revolucionario".

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Correio Braziliense, 15 dezembro 2015

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Correio Braziliense, 8 dezembro 2015

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O Tempo, 3 maio 2015

05.05.15

(texto abaixo)

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Convidado do Festival de Literatura de Poços de Caldas, que se encerra hoje, o autor português José Luis Peixoto , 40, comenta sobre a sua relação com a escrita e frisa o seu interesse em lidar com temas como a identidade e as relações familiares. Em Belo Horizonte nesta terça (5), ele aqui participa do evento Sempre Um Papo, no Museu das Minas e do Metal, às 19h30.

 

A infância é um tema destacado na Flipoços deste ano. Como você percebe a relação desse unvierso com o seu mais recente livro, “Galveias”?

Esse romance tem muita a ver com a memória da infância. Como já mostra o título, Galveias é o nome da cidade onde eu nasci, na região do Alentejo, no interior de Portugal. Ela tem cerca de um mil habitantes. Lá eu vivi até os 18 anos, quando saí para estudar fora. Para fazer o retrato da vida naquela comunidade, eu recorri muito ao que eu vivi lá. A história está localizada temporalmente em 1984, quando eu tinha 10 anos. Portanto, as minhas lembranças de infância estão ali muito presentes. Agora isso é algo que aparece em muitos livros meus. Desde o primeiro, que se chama “Morreste-me” e que acabou de ser publicado no Brasil. Tenho um outro também de poesia que se chama “A Criança em Ruínas” e que de certa forma fala justamente sobre a forma como a idade nos transforma e como há sempre uma criança dentro de nós, a partir da qual evoluímos, ou seja, ela é quase uma raiz a partir da qual crescemos.

Em “Galveias”, você disse que também homenageia as pessoas daquela cidade e revisita o local, especialmente, a partir da memória. Se compararmos o retrato que faz daquele lugar na ficção com a realidade dela hoje, o que encontramos no texto é a reconstrução de um ambiente que flerta mais com o imaginário?

O interior de Portugal sofreu grandes alterações nos últimos 30 anos e, por isso, a realidade tratada no livro, localizada em 1985, é bastante diferente da contemporânea. Outro aspecto interessante é a diferença e a transformação que sempre existe quando se trabalha um tema ou uma realidade que depois são abordados num formato literário. Em primeiro lugar, existe esse filtro que tudo muda que é a própria memoria. A memória de certa forma é uma narrativa, uma história que contamos a nos próprios e nessa medida todos somos de algum modo escritores. Todos escrevemos a nossa própria memória e para fazer isso partimos de nossa perspectiva e do que conhecemos, o que é sempre imperfeito e é uma das faces da realidade. Mas, por outro lado, existe também a própria transformação de colocar em palavras o que não é constituído apenas por palavras porque a realidade é multidimensional e surge das mais diversas formas. Construir um objeto de palavras que tente dizer aquilo que aconteceu é necessariamente transformar aquilo que aconteceu, é tentar sugeri-lo, por isso existe sempre uma diferença entre esses dois planos.

A questão da ruralidade, que há em “Galveias”, permeia também outros títulos seus, como “Nenhum Olhar” e “Livro”. O que o interesse nessa abordagem?

Eu acho que naquela ruralidade existe alguns elementos que fazem parte da matriz genética da cultura portuguesa e, em alguns aspectos, sinto que naquela imagem de ruralidade existe a condensação de algo que se consegue encontrar mesmo nos sinais mais urbanos do Portugal contemporâneo porque tem a ver com a identidade, com quem somos. Na primeira vez que vim ao Brasil, eu estive em Minas Gerais e a, partir daí, senti que havia uma certa facilidade na comunicação aqui neste Estado, em particular, justamente talvez por essa questão da ruralidade. Embora exista algumas especificidades, esse aspecto compartilha elementos que são trasnacionais. Tem a ver com a ligação e com a proximidade da natureza, com a vida na qual a natureza marca ciclos e marca até um ritmo que muitas vezes condiciona e molda a forma de pensar e ver o mundo, e isso é fundamental.

Em “Morreste-me”, seu primeiro romance, há o foco para as relações familiares e para aspectos relacionados à sua cidade natal, o que se nota em outros livros. A presença dessas memórias íntimas e do diálogo com a sua biografia é uma marca do seu trabalho ficcional?

Quando escrevi o livro “Morreste-me” nem tinha consciência de que estava a escrever um livro. O tema é muito sensível, escrevi esse livro após a morte do meu pai e o romance trata disso, de um filho que perde um pai. Mas muito facilmente aquela história também pode ser transposta para outras perdas porque no fundo é um livro sobre o luto. E é interessante pensar no livro à luz dessa questão da infância porque sinto que é um livro que fala sobre o fim da infância. O momento em que morre o pai e o filho se torna o próprio pai, assume esse papel, ganha esse estatuto de ter que tomar responsabilidade e ser adulto. Quando escrevi esse livro não tinha um projeto de escrita para o futuro, eu era jovem, estava entre os meus 21 e 22 anos. Eu escrevi sobre aquilo que naquele momento me era evidente. O assunto que naquele momento eu não podia fugir. A partir daí, o caminho que eu fiz na escrita acabou por, de alguma forma, sempre se ligar a esses temas. Por uma razão que eu não sei completamente explicar. Embora tenha também tentado de alguma forma me afastar desses temas, como através do meu último livro publicado no Brasil, “Dentro do Segredo”, e que fala de uma viagem à Coreia do Norte. A verdade é que mesmo a escrever sobre a Coreia do Norte, eu percebi que no fundo estava sempre a escrever sobre mim. Ou seja, estava quase a fazer um retrato desses mesmos temas quase que em negativo. Isso tem a ver com aquilo que se tem que dizer, porque é muito importante na hora de se escrever um livro colocar uma pergunta que é essencial, o que é que eu tenho pra dizer. E pra mim aquilo me trouxe sempre garantias que não estava a ser redundante, a repetir de uma forma o que outros já tinham dito antes de mim. A história da literatura é enorme, o patrimônio literário mundial é gigantesco, então, eu sempre quis escrever sobre aquilo que parecia que só eu sabia, e aquilo que só eu sabia é algo muito próximo de mim.

Antes de publicar livros, você tinha uma banda. Em que momento isso muda, e você deixa a música para se tornar escritor?

Eu nunca me considerei um músico. Eu tive uma banda na minha adolescência e há, aliás, uma banda de Belo Horizonte, Sepultura, que para mim é fundamental. Eu a vi em 1991 e foi incrível. Esse sempre foi o meu som. Aqui no Brasil não é muito comum encontrar escritores que preferem esse tipo de banda, como Ratos de Porão, e outras coisas assim. Mas efetivamente na minha adolescência esse tipo de música foi importante como uma afirmação da adolescência e, ao mesmo tempo, foi importante para mim porque vivendo numa pequena cidade do interior de Portugal, em que a realidade toda é rural, ter essa ponte para o mundo fez com que eu também ganhasse uma perspectiva e uma distância sobre essas duas realidades. Ou seja, o fato de eu olhar um pouco de fora toda essa ruralidade fez com que eu conseguisse ver esse lugar de uma forma diferente. Para mim caminhar com a guitarra elétrica por rebanhos de cabras é uma imagem que considero muito especial e tem muito a ver com aquilo que eu vivi ali.

Essa experiência com a música ficou só na adolescência?

Já mesmo depois de ter publicado meus primeiros livros tive alguns projetos ligados à música, mas não como músico. Mas, por exemplo, em 2003 publiquei um livro que se chama “Antídoto” e foi escrito ao mesmo tempo que uma banda, Moon Spell, que é o Sepultura português. Fizeram um disco que tem o mesmo nome do título, e cada tema dele corresponde a um conto desse livro. Isso foi algo muito fora do comum, pois não havia escritores portugueses a ter colaborações com bandas de heavy metal. Desde então, tenho tido vários colaboradores com bandas escrevendo textos para eles, sempre nesse gênero de colaboração, mas sempre como escritor, nunca como músico. Hoje em dia, em Portugal, também escrevo para outros tipo de músicos fadistas, por exemplo. Essa é uma área musical que sempre rejeitei, o fado na minha adolescência, sempre foi uma música que meus pais ouviam, e eu não gostava. Depois, na idade adulta, surgiram esses projetos, então eu fui descobrir o fado e fiquei surpreendido com o quanto a minha ignorância adolescente estava a me privar de um gênero musical incrível e que tem uma riqueza poética tão fascinante. Então, escrevo para muitos músicos portugueses, do fado, ao pop, ao metal.

“Dentro do Segredo” você concebeu a partir de uma viagem à Coreia do Norte, mas o livro não se constitui como um relato jornalístico. Como você percebe as relações que ele revela entre ficção e realidade?

A Coreia do Norte é um país muito fora do habitual, tem um sistema político único e com características que para nós são muito difíceis de aceitar. Ao mesmo tempo, é um país que tem uma realidade cultural e civilizacional bastante diferente da nossa, o que faz com que para um visitante ocidental seja quase  como um mistério por desvendar e interpretar. Ao mesmo tempo, contribui muito para esse mistério o fato de o governo dificultar muito o acesso à informação. Mesmo quando se visita o país, há sempre muita dificuldade de obter respostas, e aquilo que se vê, em muitos casos, são apenas insinuações feitas para nós. Então, por isso aquele livro, que retrata a viagem que eu fiz durante  semanas na Coreia do Norte, acaba por muitas vezes se deparando com essa dificuldade de aquilo que eu estava a ver não ser muito credível como realidade. Mas havia sim a sensação de se estar verdadeiramente dentro de uma ficção construída pelo aparelho de propaganda do estado norte-coreano. Nessa medida esse livro tem uma relação com a ficção, mas eu fiz uma questão que seja também factual e documental. Ou seja, quando faço uma afirmação lá, eu estou convicto de que ela é verdadeira.

Você também escreve poesia. Há características comuns identificadas entre essa seara e a sua prosa?

A minha poesia tem uma ligação muito grande com a minha prosa, em alguns casos isso é muito evidente. Esses temas que falamos aqui, como a família, a identidade geográfica, também estão presentes na minha poesia. Eu sinto, no entanto, que há alguns aspectos que diferenciam os dois segmentos. No meu caso particular, tenho uma perspectiva da poesia em que ela aspira uma certa ideia de pureza e de simplicidade. Curiosamente, muitas vezes, meus versos são mais simples do que  as frases dos meus romances. Há dois livros que foram publicados em 2003, de uma só vez. Um romance que já foi publicado aqui e se chama “Uma Casa na Escuridão” e um livro de poesia que se chama “Uma Casa, Escuridão”. Esses dois livros têm títulos próximos, tratam de temas afins e seguem a mesma estrutura, mas um é independente do outro.

Como você vê o cenário literário contemporâneo do seu país?

Portugal está atravessando um momento de muita vitalidade no que diz respeito a literatura de autores emergentes, embora haja uma boa quantidade de nomes que já ultrapassaram essa posição. São nomes confirmados e dos quais se espera um grande futuro e que boa parte deles são conhecidos aqui também no Brasil e são publicados e bem recebidos aqui. Eu vejo esta geração com muito otimismo e fico contente por fazer parte dela. Sinto que essa riqueza tem um pouco a ver com a herança que recebemos de grandes autores das gerações anteriores e, ao mesmo tempo, tem a ver com aspectos históricos que moldaram essa geração. No meu caso específico, eu nasci em 1974. Este é um ano importantíssimo porque marca o fim de uma ditadura de 48 anos em Portugal. Isso é algo muito importante para a geração atual de escritores. É a primeira que nasceu e cresceu numa democracia, sem censura e todos os entraves que existiam durante o período da ditadura. Acho que esse é um aspecto que realmente trouxe força e, de alguma forma, justifica o surgimento desse número de autores que começaram a publicar no início desse século e que realmente tem recebido um grande reconhecimento em Portugal e fora dali. Por exemplo, Valter Hugo Mãe, Gonçalo M. Tavares, Afonso Cruz, Dulce Maria Cardoso entre outros.

Em relação ao Brasil, há alguns autores com quem você tem uma afinidade maior?

O Brasil é uma fonte que me parece inesgotável de autores. Muitas vezes, em razão da dimensão enorme do país, parece que há até uma certa injustiça no que diz respeito ao reconhecimento mais nacional de alguns deles. Efetivamente, às vezes, encontram-se autores enormes que não conseguem ser lidos fora do seu Estado, e, por isso, cada viagem que faço ao Brasil encontro sempre muitas referências e fontes de inspiração. Mas se vamos falar da literatura brasileira de maneira geral, há autores de dimensão universal que eu realmente não poderia deixar de me referir como é o caso de Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Graciliano ramos e Machado de Assis para citar apenas quatro.

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Sol, 6 novembro de 2014

24.02.15

Vestido de negro e ouvinte de música pesada era olhado com estranheza pelos habitantes de Galveias, a vila alentejana onde nasceu há 40 anos. Desde então, José Luís Peixoto mudou-se para Lisboa, onde fez a faculdade, participando activamente nos movimentos estudantis, e começou a escrever. Recebeu o Prémio Saramago em 2001 pelo seu primeiro romance, 'Nenhum Olhar', e tornou-se um dos mais destacados e bem-sucedidos autores da sua geração. Conhece meio mundo, por onde tem viajado com os livros e em reportagem mas regressou às origens e acaba de lançar 'Galveias', o seu quinto romance

 

Desde 2010, com 'Livro', que não publicava um romance. Acaba de lançar 'Galveias', sobre a terra onde nasceu. Como surgiu?

Penso muito em termos de romances. Tenho outros projectos pelo meio mas os pilares do que faço são os romances. E quatro anos tem sido o tempo entre eles. O tema aqui tratado já o foi noutros livros e textos que escrevi. Tem que ver com a região e com a vida de uma pequena comunidade rural. Realidade que estava presente tanto em Livro como em Nenhum Olhar, mas de forma diferente, com outra perspectiva e outras cores, porque o tema central era outro. A partir de certa altura surgiu a ideia de fazer algo diferente: nomear e concretizar. O título talvez tenha sido a minha primeira ideia. Depois veio o resto. Galveias tenta ser universal sendo particular. Tudo é nomeado. Foi fazer o caminho inverso. Em Nenhum Olhar nem o Alentejo nem Portugal são nomeados.

 

Lançou o romance em Galveias. Como foi a reacção das pessoas?

Óptima. Galveias é um local pouco noticiado, as pessoas gostam de ver as referências que lhe faço. Com um livro que lhe é exclusivamente dedicado, com Galveias no título, esse impacto foi maior. O lançamento foi um momento inesquecível para mim. Foi muito tocante ver todas as pessoas que constituem o mundo da minha infância e adolescência ali reunidas. E foi tocante fazer o que tinha antecipado enquanto escrevia o romance: oferecê-lo a Galveias. É um livro com a ambição de poder ser lido por qualquer pessoa em qualquer lugar. Mas vai sempre ser lido de maneira diferente ali, pelas pessoas que conhecem as ruas e as gentes.

 

Como foi crescer em Galveias?

Na adolescência não foi fácil. Na infância foi um enorme privilégio. Tinha total liberdade, todas aquelas ruas e campos estavam disponíveis para brincar. E eu utilizava-os com os meus amigos. Tinha acesso a experiências que hoje são difíceis de ter, como o contacto com a natureza. Naquele tempo íamos roubar fruta e os donos ficavam zangados e perseguiam-nos. Hoje a fruta cai das árvores sem que ninguém a colha. Os donos pedem às pessoas para a levar. Na altura os campos não tinham vedações. Hoje estão todos vedados. Entrávamos em qualquer propriedade e fazíamos todo o tipo de brincadeiras. O meu pai era carpinteiro e tinha uma serração de madeiras. Fazíamos brinquedos com pedaços de madeira e andávamos por lá. No Verão podíamos andar na rua até tarde, sem supervisão. Hoje, mesmo em Galveias, os pais vão levar as crianças à escola. Eu ia sozinho desde os seis anos.

 

Começa o livro dizendo que é filho do Peixoto da serração e da Alzira Pulguinhas. Era assim que era conhecido?

Essa é uma pergunta muito vulgar: 'De quem és filho?'. Hoje sou eu que a faço quando vou lá porque não conheço as crianças (ainda há algumas, ainda existe escola). Às vezes até lhes consigo identificar as parecenças mas, para as identificar, pergunto de quem são filhas. Era uma pergunta que me faziam muitas vezes. Uma resposta que também podia ser dada a essa pergunta seria: eu sou filho de Galveias.

 

Passava os dias com os seus amigos ou com os seus irmãos?

Tenho duas irmãs mais velhas, uma com mais oito anos, outra com mais 13 anos. Elas já eram crescidas, eu era um rapaz. Brincava com os amigos das ruas onde vivia. Nessa altura as ruas estavam cheias de crianças. Mesmo cheias. Jogávamos à bola na rua com as balizas feitas de pedras ou num campo com uma árvore no meio, a Azinhaga do Espanhol, que hoje já tem casas.

 

O mundo descrito no livro era o seu?

Sim. Nessa altura quando saía em excursão se alguém de fora me perguntava de onde eu era, respondia que era das Galveias, convencido de que toda a gente conhecia Galveias. Não tinha outro mundo. Até que na adolescência começou a custar-me estar lá, tinha perspectivas e interesses muito distantes daquela realidade. Desde o início da adolescência que tenho grande vocação para a música pesada. E nessa altura fiz uma banda chamada Hipocondríacos. O que foi chocante para as pessoas de lá. E comecei a deixar crescer o cabelo, a minha mãe tinha um desgosto de eu ter o cabelo comprido. Eu tinha que lidar com os olhares dos velhos nas carroças quando ia para os ensaios com a banda, com a guitarra eléctrica… Hoje percebo que se não tivesse sido assim tudo teria sido diferente e o interesse pela escrita talvez nunca tivesse surgido.

 

Porquê?

Porque um dos aspectos fundamentais de uma infância e de uma adolescência em Galveias é a aprendizagem do tempo. Foi dela que veio a disponibilidade, a contemplação, a reflexão. Noutro lugar seria diferente. Mas, já se sabe, é sempre assim: se o passado não tivesse acontecido como aconteceu, o presente seria de outra maneira.

 

Onde fez o liceu?

Em Ponte de Sor, a 12 km. Foi uma abertura para outro mundo, ainda que com diferenças grandes em relação ao que é a vida em Lisboa. Mesmo na Escola Secundária não passava de meia dúzia o número de pessoas que escutavam música pesada. Fui criando o meu espaço e habitando esse espaço de interesses que faziam parte do meu pequeno mundo, como a música, a literatura e as artes em geral.

 

Cresceu numa casa com livros?

Em comparação com as casas dos meus amigos, a minha casa tinha livros. Estamos a falar de casas onde não existia nenhum livro. Nenhum. E, se existiam, eram os da escola. Na minha casa existiam alguns livros, não só por interesse dos meus pais, mas pelas minhas irmãs mais velhas. Por influência delas comecei a ter muito interesse por livros e fui lendo o que havia. A minha mãe tinha algumas colecções que conseguiu quando a sua irmã trabalhou na Bertrand. E mais tarde ia à biblioteca itinerante da Gulbenkian. O que foi uma grande libertação, porque tinha acesso a muitos livros. Escolhia com apoio da minha irmã e do bibliotecário, que era o meu dentista, em Abrantes, e que me dava sugestões avançadas para a minha idade, como poetas portugueses contemporâneos, como Nuno Júdice e Herberto Helder.

 

Que idade tinha quando os leu?

Onze, doze anos. Na altura também tive uma grande enfatuação pela Florbela Espanca, uma autora que me dizia muito porque era muito dramática, muito trágica e, ao mesmo tempo, se referia ao Alentejo. Era a minha realidade. Também sentia grande empatia pelo Urbano Tavares Rodrigues e outros autores do neo-realismo. Eram os livros que eu tinha em casa para ler. Aquele que considero o primeiro livro que li foi os Esteiros, do Soeiro Pereira Gomes.

 

Vestido de negro, cabelo comprido, fã de heavy metal, agarrado aos livros. Era olhado com estranheza?

Completamente. Foi uma boa aprendizagem para a vida. Enfrentar os olhares dos colegas na Escola Secundária deu-me calo para lidar com os olhares dos outros. Até tenho uma certa necessidade adolescente de provocar e enfrentar esses olhares. Confesso que me dá prazer, até por ser tão fácil provocá-los… Uma pequena coisa como um piercing ou uma tatuagem já é impressionante. Como se tivesse importância.

 

As pessoas referiam-se a si como o escritor dos piercings e das tatuagens. Isso já mudou?

Sim. Hoje ter piercings ou tatuagens é comum. Não é assim tão subversivo quanto isso. É uma coisa minha. Fiz os primeiros piercings aos 25 anos, as tatuagens aos 30. E tenho vontade de fazer mais.

 

Aos 18 anos entra na Universidade Nova, em Lisboa. Foi um grande choque?

Foi. Se bem que eu já estava a preparar isso. O 12.º ano foi o ano em que eu mais estudei e me apliquei. Não queria perder a possibilidade de entrar na faculdade. E sempre pensei em Lisboa, era o exemplo que eu tinha das minhas irmãs. Uma estudou na Faculdade de Letras, outra no Técnico. Cresci a vir visitá-las. E quando vim para Lisboa já tinha relações aqui estabelecidas por via da banda. Tínhamos gravado duas demotapes e trocávamos cassetes com outras bandas punk e hardcore da zona de Lisboa. Fiz grandes amizades. E aprendi muito, era uma área que privilegiava o 'faça você mesmo'. Em Galveias gravámos duas cassetes e distribuímo-las internacionalmente. Trocávamo-las pelo correio. Tínhamos um sistema em que reaproveitávamos os selos infinitamente… Existiam publicações ligadas a esse pequeno mundo. Anos depois ainda chegavam pedidos de cassetes da Polónia, da Suíça, do Brasil, dos EUA, da Escandinávia…

 

 

Era guitarrista?

Sim. O que atesta um pouco a qualidade da banda: eu não sei tocar guitarra.

 

E escrevia as letras das canções?

Algumas, partilhava isso com o vocalista. Eram letras simples, reivindicativas, politizadas, contra ou a favor de algo. Tive um empenhamento político forte e radical. Estava ligado a grupos anarquistas.

 

O que fazia?

Todo o tipo de coisas. Existia um movimento estudantil forte, com uma grande contestação ao financiamento do Ensino Superior. Se não estou em erro, as propinas passaram de 1.400 escudos para 40 contos anuais. Envolvi-me muito nisso e entrei na Associação de Estudantes. Participava activamente em todos os movimentos do associativismo estudantil, manifestações, cartazes, publicações, panfletos. Com dois amigos, criei uma associação chamada MATA, um movimento anti-tradição académica, que se insurgia contra as praxes. Propúnhamos alternativas e éramos bastante interventivos. Conheci pessoas pelas quais, ainda hoje, tenho uma admiração imensa. Algumas continuaram na área da política, como o Rui Tavares, outros são jornalistas.

 

E a escrita?

Ia publicando os meus textos no DN Jovem e, na faculdade, coordenava o suplemento literário da revista da associação de estudantes. E escrevia. A escrita estava já completamente entranhada na minha vida. Mas não tinha expectativas de vir a ser um escritor profissional. Ainda estava na faculdade quando comecei a escrever o meu primeiro livro, o Morreste-me, embora só o tenha publicado quatro anos depois.

 

Nesse livro fala sobre a morte do seu pai, figura muito presente na sua obra…

Ele tinha acabado de fazer 57 anos e eu 20. Durante três anos estivemos à espera de que ele morresse, os médicos tinham-lhe dado apenas três meses de vida. 'Morreste-me' marca a minha idade adulta na escrita e acompanha a entrada na idade adulta na vida. Mas a relação com o meu pai é complexa, tem muitas nuances, que noutros livros também estão presentes, mesmo quando não são evidentes.

 

Ao acabar a faculdade foi dar aulas?

Sim. Tive o meu primeiro filho quando acabei o curso e fui dar aulas. Primeiro na Lousã, depois perto de Oliveira do Hospital. Depois dei aulas em Cabo Verde um ano. Foi lá que acabei de escrever o meu primeiro romance, 'Nenhum Olhar', na Cidade de Praia. Com 'Morreste-me' ganhei o prémio dos Jovens Criadores. E fui participar numa Bienal de Jovens Criadores da CPLP em Cabo Verde. Foi impressionante e quis voltar para dar aulas. Fui e encontrei logo um lugar para dar aulas com estatuto de professor cabo-verdiano. Foi um ano muito intenso. Dava dois horários completos, 50 horas semanais, a turmas a partir do 10.º ano, com mais de 40 alunos, com um alto nível de maturidade. Muitos já eram pais. Não existia o desafio nem a provocação constante que se sente nas escolas portuguesas. Os alunos tinham consciência de que estar ali era uma oportunidade.

 

Foi a primeira experiência fora do país?

Sim, nunca voltei a estar tanto tempo sem vir a Portugal. Quando voltei tinha o meu primeiro romance escrito e a convicção de que o queria publicar. De forma humilde comecei a enviar o livro pelo correio para editoras. Felizmente foi lido pela Maria do Rosário Pedreira, que estava na Temas e Debates a formar uma colecção de autores portugueses. O 'Nenhum Olhar' foi um dos primeiros livros dessa colecção. Teve uma recepção impressionante ao nível da crítica e um ano depois ganhou o Prémio Saramago. E iniciou-se este caminho.

 

Tudo isso surpreendeu-o?

E ainda surpreende. Fiquei assoberbado com o que estava a acontecer. Eram muitas solicitações e eu gosto de dizer que sim. Foi muito mais do que estava à espera. Hoje, quase 15 anos depois, já faço uma melhor gestão de tudo.

 

Como foi lidar com o sucesso?

Estava a experimentar com responsabilidades associadas. Tinha uma peça de teatro com estreia marcada no teatro da Bastilha, em Paris, e nunca tinha escrito uma peça de teatro. Músicos pediam-me letras e eu nunca tinha escrito uma letra. No ano passado convidaram-me para escrever um guião ['Entre As Mulheres'] e passados poucos meses estava a passar na RTP. Exige sangue-frio. Mas não tenho razão de queixa. Todo este caminho tem sido feito de privilégios. Só posso estar grato por tudo o que me tem acontecido. A situação em que me encontro é incrível e muito melhor do que alguma vez poderia ter imaginado. Posso escrever os livros que quero. Tenho leitores com vontade de os ler. Viajo com esses livros e encontro leitores em lugares que nunca imaginei. É fascinante.

 

Deixou de dar aulas ao primeiro livro?

Sim. No princípio de uma forma arriscada, colaborava apenas nalguns meios da imprensa. Mas a partir do momento em que recebi o Prémio Saramago, um prémio monetário substancial, criei a possibilidade de conquistar um espaço profissional. Mas trata-se de um percurso independente, não tenho uma entidade patronal. Tive de o construir. Hoje os meus livros são bem recebidos em Portugal e noutros países, o que me permite viver deles. Mas nas Galveias, onde as pessoas não conhecem outros escritores, e mesmo fora, as pessoas pensam que, economicamente, a minha vida é muito mais desafogada do que realmente é. Acham que quem aparece na televisão tem uma vida que corresponde a esse glamour. Essa não é a realidade. Nem para mim, nem para muita gente. Posso garantir a educação e a vida dos meus filhos e a minha própria. O que já não é mau, se pensarmos que isso vem da escrita, área que a maioria das pessoas deste país não está habituada a valorizar economicamente.

 

Em que sentido?

É constante o número de solicitações e pedidos para fazer as mais determinadas tarefas sem qualquer espécie de pagamento. E se alguém falar nisso é logo tido como um mercenário. Como se os canalizadores ou os polícias não recebessem pelo seu trabalho. Ir falar a algum lado sobre um tema escolhido por outros não é propriamente um prazer. É trabalho. Tal como escrever sobre um tema que me propõem. Mas ainda ontem escrevi dois textos nessas condições. E tenho muitos lá em casa à espera de serem escritos.

 

E por que aceita?

Porque nem tudo é dinheiro. Há muitos trabalhos que não são remunerados mas que recompensam ao nível de satisfação. Este ano participei num projecto que consistiu numa grande exposição no aeroporto de Lisboa, em parceria com o ilustrador Hugo Makarov. Tivemos trabalho, estivemos várias vezes no aeroporto e, no entanto, não fomos remunerados. O que é que ganhámos com isso? O prazer de saber que aquele trabalho é visto por milhares de pessoas que nunca iriam contactar com nada do que fazemos. Se estivermos a falar de convites de escolas e bibliotecas, então aí não há nenhuma espécie de remuneração. Fica o prazer.

 

Foi dos primeiros autores em Portugal a ter a cara num cartaz publicitário. Há quem diga que é um fenómeno de marketing. Isso incomoda-o?

Não. Cada um tem direito à sua opinião. Mas a minha obra fala por si própria. Fico surpreendido com os milhares de exemplares que os meus livros vendem. E os meus livros são intrinsecamente anticomerciais, na medida em que pela sua estrutura, tema e trabalho não têm nada que ver com thrillers ou literatura de fácil absorção. Portugal, em função da sua tradição, tem hábitos de leitura com uma certa elevação. O país deu um imenso salto em termos de educação nestas décadas. Temos uma classe média intelectual com um excelente nível e que não deve nada a ninguém, avalia por si e faz a sua leitura. Naturalmente que tenho a minha confiança e auto-estima muito elevada em relação à qualidade do que faço porque os meus livros têm críticas altamente elogiosas no suplemento Babelia do El País, no Times Literary Supplement, no Guardian, no Independent, na Folha de São Paulo, no New York Times, no Le Monde, no Figaro, no La Repubblica. O meu último romance foi finalista do Prémio Femina, em França, um dos mais prestigiados prémios para autores estrangeiros na Europa. E ainda não tinha 40 anos quando isso aconteceu. Não tenho nada a provar.

 

É um meio literário pequeno, o português?

Não. Queixamo-nos das nossas dimensões mas são elas que nos salvam. Existe coesão, tem um tamanho humano. É como Lisboa em comparação com outras cidades do mundo. É uma grande cidade à nossa escala mas tem uma dimensão humana, não é São Paulo, não é Deli. O meu trabalho integra-se na literatura portuguesa contemporânea, tenho consciência dela. Mas acho que quem escreve tem de manter distanciamento desse meio, envolver-se é criar uma teia de relações que não ajuda a algo fundamental: a independência e isenção. O grande compromisso tem que ser com a literatura. Não com o meio literário.

 

Está traduzido em 19 idiomas. O seu livro mais traduzido é o 'Nenhum Olhar'. Há uma universalidade naquele Alentejo?

Há um certo paradoxo. Acho que quanto mais se especifica, quanto mais se fala do que é nosso, mais tocamos no que também é dos outros. Com o 'Nenhum Olhar' tive oportunidade de assistir a um aspecto fascinante: o carácter transnacional da ruralidade. A ruralidade do Alentejo tem muitas especificidades, como a roupa tradicional. No entanto, a ruralidade da Roménia, com as suas especificidades, tem elementos muito semelhantes. Ou a ruralidade da Índia. Ou do Brasil. Ou dos EUA. Há aspectos que têm quer ver com questões que estão para lá dessa roupagem: há uma maior proximidade com a natureza, o céu está mais presente, as estações do ano estão mais presentes, a morte está mais presente. Uma pequena comunidade em Portugal partilha imensas características com uma pequena comunidade na China. Há aspectos que têm que ver com a nossa natureza. Esse é o centro da literatura, que trata aquilo que não muda. A literatura diz:isto já era assim e vai continuar a ser assim.

 

 

Vai levar 'Galveias' ao mundo...

Já está a ser traduzido para búlgaro. Vou receber um olhar de grande surpresa. Falar deste livro na Escandinávia convoca, para aquelas pessoas, uma realidade muito exótica. No Brasil faz sentido, conheço pessoas de lá que o leram e o entenderam à luz da sua realidade. É fantástico. Diz muito sobre a relação entre os dois países.

 

É no Brasil que tem a maior parte dos leitores fora de Portugal?

Os países onde os meus livros são mais lidos, fora de Portugal, são o Brasil, a Espanha, a Itália e a França. Depois há fenómenos, um livro que inexplicavelmente funciona bem num certo lugar. A primeira edição do Nenhum Olhar, nos EUA, vendeu logo 40 mil exemplares. Claro que nos EUA os números são diferentes. Para nós 40 mil exemplares é imenso, nos EUA não, os bestsellers ultrapassam o milhão de exemplares. Mas para um autor de quem nem conseguem pronunciar o nome…

 

Passa metade do ano a viajar, com os livros e para a Volta ao Mundo. Como é este salto de Galveias para o mundo?

Vejo Galveias com um olhar mais limpo do que se vivesse lá. O olhar é fundamental para um escritor. Tem de estar afinado e limpo. A riqueza da viagem dá-me património para traçar contrastes. Nessa medida acho que escrevo e vivo melhor. Viajar e ver outras realidades ajuda-me a sentir grato pelo que tenho.

 

Mas neste seu romance decidiu não retratar a realidade actual. Por que decidiu situar a acção em 1984?

Uns aspectos já não condizem com o presente, outros mantêm-se. Uma das razões que me levou a escolher 1984 foi justamente a de suscitar essa comparação. Parece-me que o presente perde. O romance fala de um tempo em que Galveias tinha crianças, esperança, perspectivas de futuro. Hoje essa não é a realidade do interior de Portugal, com escolas a fechar e infra-estruturas essenciais a deixarem de existir. Além disso, quis mostrar um interior que não fosse estereótipo de si próprio.

 

Em que sentido?

Em 1984 a realidade local já era tocada por elementos do mundo urbano. Não retrato um lugar em que todas as personagens andam de burro ou de carroça ou em que todas as casas são brancas… A realidade não é essa, é um lugar onde as personagens andam de motorizada, vêem telenovelas, há casas forradas de azulejos. O interior não pode ser um parque temático onde temos a expectativa de encontrar imagens rústicas e idílicas ou que, então, não nos interessa. E 1984 foi um momento próximo de uma viragem na vida do interior, com a entrada de  Portugal na CEE e tudo o que daí adveio. Além disso, em 1984 eu tinha dez anos, ao escrever pude recorrer à minha memória para caracterizar personagens, espaços e situações.

 

Não perguntou coisas à sua mãe?

A minha mãe é a minha grande fonte na escrita de um romance como este, tem uma memória melhor do que a minha e, apesar de o presente do romance se situar em 1984, há várias histórias que vêm dos anos 60 e outros períodos que não vivi. Mas trata-se de um romance muito ligado à minha experiência. Há elementos que ainda hoje são assim, como a ligação à terra das personagens e alguns constrangimentos sociais que nas pequenas povoações ainda existem. E há os aspectos ligados à vida de uma pequena comunidade, como as pessoas se conhecerem todas umas às outras, o que origina uma maior valorização do indivíduo mas também uma certa fiscalização da vida uns dos outros. O livro tenta retratar um pequeno mundo que pode ser transposto até para a vida nas cidades em Portugal. As cidades portuguesas também são compostas por comunidades onde estas formas de relação são replicadas, na medida em que se tratam pessoas que, elas próprias ou na geração anterior, chegaram deste meio e trouxeram esta forma de se relacionar. Por isso sinto que estas Galveias são, em certa medida, um pequeno Portugal.

 

O livro fala sobre muitas personagens e as suas histórias. São reais ou imaginadas?

A história de um lugar é a história das pessoas que o compõem. O lugar está presente porque estão lá as pessoas, que são quem o formou, quem o constitui e de quem a vida nesse espaço depende. As histórias têm múltiplas fontes. Algumas podem ter essa raiz autobiográfica. Mas o que cose todas estas personagens é ficcional, faz parte de uma intenção efabulatória de construir um objecto narrativo.

 

O que lhe disseram as pessoas, estavam com medo de se verem retratadas?

Não, não é a primeira vez que menciono Galveias, fica sempre claro que são textos ficcionais. Sinto que, tendo em conta a situação em que está Galveias neste momento, existir alguém que se lembre de apontar o foco para ali e mostrar aquela realidade é visto com bons olhos. Porque a sensação de quem está lá é a de que existe um esquecimento e um abandono daquela parte do país. Isto é o que eu posso dar a Galveias. O próprio facto de estarmos aqui a falar sobre essa realidade é importante. É uma forma de convidar as pessoas a conhecerem o espaço. Esta é uma questão nacional. Estamos a deixar o país evoluir de uma forma desequilibrada e mais cedo ou mais tarde vamos pagar essa opção.

 

Não há futuro em Galveias?

Eu quero acreditar que existe. Mas se as coisas continuarem como estão Galveias vai extinguir-se. No ano passado morreram 40 pessoas e nasceram duas. E passam-se muitos anos em que não nasce ninguém. Mas há sempre muita gente a morrer porque é uma população envelhecida. Desde 1984, a população de Galveias passou para metade, de 2 mil para mil pessoas. Se não se fizer nada vai continuar a diminuir. Há outros lugares do país à beira de ficar sem ninguém e outros que já não têm ninguém. O caminho que está a ser seguido não traz futuro. Nem tem futuro. Mas quero acreditar que se pode reverter isso. Galveias é um lugar com séculos de história. É mais velho que Nova Iorque. Espero que possa retomar o seu caminho. Porque também é um lugar com orgulho de si próprio, com cultura, com identidade. Este livro é, ele próprio, uma afirmação de identidade. Diz às pessoas: eu sou daqui, eu sou isto. E recusa o complexo em relação ao nosso passado e à nossa identidade rural, isolada da Europa e menos cosmopolita. Essa identidade é uma parte fundamental do que somos. E é uma riqueza. Estou optimista. Há uma geração que já não é tão tocada por esses complexos que recupera essa tradição, actualizando-a e dando-lhe novas roupagens.

 

Que relação têm os seus filhos com Galveias?

Passo lá algumas temporadas com eles. E tento-lhes mostrar e explicar como era a minha infância ali, como era a minha vida. A minha vida de hoje é radicalmente diferente. E a vida deles também.

 

Imagina-se a regressar a Galveias?

É difícil. Tenho a certeza de que quero sempre viver em Portugal. Mas com a vida que tenho agora, feita de muitas viagens, não me é fácil viver em Galveias. A relação é eterna. Mas agora não consigo imaginar isso a acontecer. Talvez no futuro.

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Time Out, 29 outubro 2014

29.10.14

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