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Gazeta do Povo, Julho 2017

29.07.17

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Viajaste-me

A caminho de Paraty, o premiado escritor português José Luís Peixoto passou por Curitiba para lançar um livro; aqui, ele conversou com a Gazeta.

Lívia Inácio

 

A camiseta de José Luís Peixoto diz que ele ama Macau (é uma daquelas com estam­pa "eu • e o nome da cidade"). "É o único lugar da China onde ainda se fala portu­guês", diz o escritor. A estampa, no entan­to, está em chinês. Se encontrasse uma di­zendo "Eu "Curitiba", ele diz que usaria.

 

A caminho de Paraty, no Rio de Janeiro , o português  passou  pela capital paranaen­se no último dia 24 para o lançamento de "O que dizem os abraços e outras crônicas", editado pela Arte e Letra em colaboração com a Escola de Escrita. Um dos textos é de­dicado a Curitiba. Num evento em que con­versou com o professor da UFPR Guilherme Gontijo Flores, Peixoto tratou também de seu primeiro livro de poemas, "A criança em  ruínas", publicado pela Dublinense.

Nascido em Galveias, pequena aldeia de Portugal com pouco mais de mil habitantes, Peixoto é um escritor respeitado. Sua lin­guagem particular aliada a temas sensíveis como o amor, a morte e a família, tem cha­mado a atenção de críticos do mundo todo e rendido vários prêmios ao autor. O primei­ro veio quando ele  tinha  apenas 27 anos, o José Saramago, em 2001, por "Morreste­-me" (um título lindo, em que se refere ao pai). Em 2016, seu romance "Galveias" ven­ceu o Oceanos.

Peixoto, que estudou inglês e alemão e chegou a lecionar, tem um denso currícu­lo literário que vai de romances e livros de poesia a trabalhos não ficcionais, como "Dentro do Segredo - Uma viagem na Coreia do Norte", de 2012. O português também já escreveu para crianças. Seu mais recente tí­tulo infantojuvenil, "Todos os Escritores do Mundo Têm a Cabeça Cheia de Piolhos", foi publicado no ano passado.

Peixoto veio ao Brasil para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que termina neste domingo (30). Em en­trevista à Gazeta do Povo, o autor fala so­bre família e Curitiba.

 

 

Por que a família é um te­ma tão presente para você?

Há certos temas que mesmo que tentemos evitá-los acaba­mos sempre por trabalhá-los. No meu caso, claramente, a família é um desses assun­tos.Está presente desde o meu primeiro livro "Morreste-me". Para mim, falar de família é um pretexto para falar sobre o amor, a identidade, o pas­sado, o lugar de onde chegamos e sobre o lugar que so­mos capazes de construir com a nossa vida.

 

Você chegou a dizer que não classifica "Morreste­-me", seu primeiro livro, co­mo um romance . Em que gênero você o encaixa?

Fujo o quanto posso de clas­sificá-lo. Acho que é um texto com características que escapam à maioria dos gêneros. É em prosa, mas tem uma ligação muito for­te com a poesia. É muito breve, mas acaba por ter certa dimensão que tam­bém o aumenta para lá do seu número de páginas.

 

Você acaba de lançar uma coletânea editada e publica daem Curitiba com uma crônica dedicada à cidade. Qual sua relação com a ca­pital paranaense?

Essa é minha segunda vez em Curitiba, tive a oportu­nidade de andar pela cida­de e, por isso, tenho uma relação muito imediata com ela. Viajei para outros luga­res do Brasil, mas Curitiba é um Brasil especial, é um Brasil um pouco diferen­te [de Portugal] e que me surpreendeu muito. O pa­ís, com sua imensa diversi­dade, tem uma identidade forte. Mas aqui descobri re­alidades bem particulares. Fiquei até com curiosidade de conhecer outras cidades do Paraná. Além disso, sin­to que o mais importante das cidades são as pessoas. Então, talvez também tenha sido por isso que estabeleci bons vínculos aqui. Por cau­sa das relações que tenho com as pessoas que conheci.

 

'Apesar de todas as fronteiras visíveis e invisíveis, aqui é esse Brasil sem Copacabana, sem Amazônia, sem acarajé. Porque Brasil também é camisola de lã, carne de onça, empate a zero do Clube Atlético Paranaense na Arena da Baixada. E se for feriado na Ucrânia, haverá muitas casas deste Brasil onde não se esqueceram as danças certas para celebração, onde os trajes tradicionais são usados por gente loura que almoçou picadinho."

Trecho do texto sobre Curitiba, no livro "O que dizem os abraços e outras crônicas", de José Luís Peixoto.

 

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