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The Statesman, May 2017

07.08.17

When death triggers creative grief

 

Death…What does it mean? Each one of us has a different perception of mortality. One such perspective is in Morresteme, penned by noted Portuguese writer Jose Luis Peixoto. The Indian edition of the work, published by Goa 1556 Publishers, is trilingual (Hindi, English and Portuguese).

 

The book was released by the Ambassador of Portugal, Joao da Camara, at Instituto Camoes ~ the Portuguese Embassy Cultural Centre ~ in New Delhi at a literary evening. While the Hindi title of the book is Tum Choor Gaye, the title of the English translation is You Died.

 

The titles draw attention to the crux of the book, which revolves around the passing away of the author's father, and his experiences of dealing with the grief, and coming to terms with the fact.

 

Anil Kumar Yadav, an MPhil student of Portuguese language, is one of the translators of the book into Hindi. When asked about the challenges he faced while executing this project, Yadav candidly remarks, "Since the book talks about a loss and the associated grief, the portrayal of the intense emotions felt, through the medium of words, was definitely a challenge. The second aspect is the unique style of the author, wherein feelings and memories are depicted through the medium of elements in nature. Besides this, some words are strongly associated with the culture of Portugal and carry a lot of depth, because of which intense care, during the translation, had to be taken."

 

Rahul Khari, who teaches Portuguese language at Delhi University, worked intensively on the translation of the book, with Yadav, and seconds the latter as he adds, "Having experienced loss myself, I understand the fact that though it is difficult to translate emotions, sentiments associated with grief are universal and hence easily associated with, irrespective of the language." On a philosophical note, he explains the concept further "The grief may consume you, so much so that you reach the very bottom; however, time is a healer, and slowly, but steadily, one does rise."

 

Peixoto, the author, describes his book as a very personal work, as it deals with very intense and private emotions, which were, actually, enhanced, as he himself stepped into fatherhood a little after the loss of his father. How does he feel the reader will react to the book? His answer is simple, yet very thought-provoking: ''Parents are a very important part of one's life and the structure of a family. This bereavement is faced by everyone, at some point in time, in varying intensities. The idea of the book is to establish a connect with the reader based on this universal emotion."

 

The author, who has been in India for the third time now, describes the feeling associated with the publishing of his book in a trilingual work as overwhelming and satisfying. "I credit this work to the translators, as they have done a great job in conveying the emotions and expressions concerned in a simple, yet touching manner, without losing or diluting the essence of the book."

 

Any messages for the reader? Yadav says, "The book requests a certain amount of disciplined reading. Reflection and introspection are very important to fully understand the book."

 

Prior to this, the trilingual edition was launched on World Poetry Day, at the Camoes - Portuguese Language Centre in Goa.

 

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Rascunho, Setembro 2015

21.09.15

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O Estado de S.Paulo, 7 Maio 2015

19.06.15

(texto abaixo)

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Em busca de um lugar para a dor e de sentido

 

José Luís Peixoto lança "Morreste-me", breve ficção sobre a morte de seu pai

 

Em 1996, o português José Luís Peixoto tinha 21 anos e estudava para ser professor de inglês e de alemão. Não sonhava que ganharia o Prêmio José Saramago, para jovens autores, e que em poucos anos construiria uma carreira literária internacional respeitada. Mas a morte de seu pai naquele ano, depois de um sofrido tratamento de saúde, e a experiência de voltar, de fato ou em pensamento, à casa da infância, vazia, mudaria seu destino. Nascia, ali, um escritor – não que ele tivesse consciência disso quando começou a escrever o que se tornaria, depois, Morreste-me, que só agora ganha edição no Brasil.

Foi então com esta narrativa em que o filho conversa com o pai “impossivelmente morto”, enquanto relembra os últimos momentos vividos em casa ou no hospital e fala sobre o presente, ou seja, o regresso “a esta terra cruel. A nossa terra, pai. E tudo como se continuasse”, que Peixoto estreou na literatura.

José João morreu em janeiro. José Luís começou a escrever sobre sua perda em maio. Achava que se tratava apenas um texto, mas ao terminar sentiu que tinha mais a dizer – e continuou. “Cada frase foi escrita com muita dificuldade. Lembro-me de passar muito tempo diante da folha e, no fim do dia, ter duas, três frases, não mais”, conta. Encerrado o processo que durou um ano, ainda não considerava que estava diante de um livro. “Foi só mais tarde, quando percebi que nunca poderia escrever algo que se lhe comparasse, que me apercebi do quanto se tratava de um texto único. Então, decidi publicá-lo.”

O primeiro capítulo saiu no suplemento juvenil do Diário de Notícias, em 1997. Depois, a versão integral seria incluída na Colectânea de Textos Jovens Criadores 98. Em 2000, Peixoto bancaria uma edição de autor porque não queria que a obra precisasse da aprovação de nenhum editor – e eles vieram com o tempo. Nesses 15 anos, foram 20 edições em Portugal, o que representa cerca de 80 mil exemplars vendidos. Morreste-me foi lançado também em françês, espanhol, catalão, inglês, italiano e croata. “Este livro tem se mantido sempre por demanda dos leitores. Não sou capaz de fazer uma avaliação fiel dos resultados, mas creio que tem muito a ver com a identificação que as pessoas que já perderam alguém encontram nessas páginas. Além disso, hoje em dia, não é fácil encontrar livros que não tenham medo de falar sobre a morte”, comenta.

Peixoto não teve medo de mergulhar nesse luto, de se apresentar menino diante de sua dor e de se mostrar homem diante da situação do pai: “Pai que nunca te vi tão vulnerável, olhar de menino assustado perdido a pedir ajuda. Pai, meu pequeno filho”. O autor tampouco tem medo de encarar esta sua primeira obra. Em 2012, ele fez uma leitura integral de Morreste-me e emocionou o public que lotou a Casa de Cultura de Paraty, numa programação paralela à Flip. E, desde a semana passada, viaja pelo País para divulgar o lançamento. Hoje, ele participa de dabate com a escritora Paula Fábrio, cujo próximo romace, Ponto de Fuga (título provisorio), tem temática similar.

Voltar ao livro, diz o autor, continua o emocionando. “Por mais tempo que passe, nunca me consigo alhear daquilo que aquelas palavras transportam. Ainda assim, essa relação está em constante mudança. Hoje, muitas vezes, quando digo “pai” sou eu o pai ou, às vezes, esse pai são os meus filhos. O amor, no entanto, é o mesmo. “ Um ano depois de perder o pai, nasceu João, o primogenitor de Peixoto. André, o caçula, tem 10 anos.

Para o autor, escrever, pensar e falar sobre a morte é, em primeiro lugar, uma forma de contribuir para uma reflexão sobre a vida e prestar atenção em temas fundamentais como o tempo e o amor, entre outros. “Vida e amor”, ele responde, é o que o interessa na literatura. “Para mim, a literature é cartografia invisível. Por meio dela, tentamos encontrar sentido, referências para não nos perdermos do essencial. Ela dá proporção, equilibra a memória, limpa o pensamento”, completa.

Depois de Morreste-me, Peixoto lançou Nenhum Olhar, venceu o Prêmio José Saramago e resolveu assumir que era escritor. Lançou, ainda, entre outros, Uma Casa na Escuridão, Cemitério de Pianos e Livro. “Existe um antes e um depois muito claros marcados pela escrita desta obra. Essa mudança acompanha a grande alteração que aconteceu na minha vida com a morte do meu pai. Ainda fico impressionado ao lê-lo e ao constatar como ele condensa muitos dos temas essenciais daquilo que tenho desenvolvido no que escrevo. Sinto muita alegria por ter escrito este livro nessa idade. Foi uma ajuda enorme e permitiu que me organizasse e clarificasse aquilo que me importa”, diz.

Nascido em 1974, em Galveias, Peixoto é um dos principais autores portugueses de sua geração. “ Tenho muita pena que o meu pai nunca tenha imaginado que, um dia, eu me tornaria escritor. Sempre que alcanço alguma realização com meus livros, sinto sempre essa falta”, confessa. E, a certa altura do livro, o narrador diz: “Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas palavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou”.

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O Tempo, 3 maio 2015

05.05.15

(texto abaixo)

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Convidado do Festival de Literatura de Poços de Caldas, que se encerra hoje, o autor português José Luis Peixoto , 40, comenta sobre a sua relação com a escrita e frisa o seu interesse em lidar com temas como a identidade e as relações familiares. Em Belo Horizonte nesta terça (5), ele aqui participa do evento Sempre Um Papo, no Museu das Minas e do Metal, às 19h30.

 

A infância é um tema destacado na Flipoços deste ano. Como você percebe a relação desse unvierso com o seu mais recente livro, “Galveias”?

Esse romance tem muita a ver com a memória da infância. Como já mostra o título, Galveias é o nome da cidade onde eu nasci, na região do Alentejo, no interior de Portugal. Ela tem cerca de um mil habitantes. Lá eu vivi até os 18 anos, quando saí para estudar fora. Para fazer o retrato da vida naquela comunidade, eu recorri muito ao que eu vivi lá. A história está localizada temporalmente em 1984, quando eu tinha 10 anos. Portanto, as minhas lembranças de infância estão ali muito presentes. Agora isso é algo que aparece em muitos livros meus. Desde o primeiro, que se chama “Morreste-me” e que acabou de ser publicado no Brasil. Tenho um outro também de poesia que se chama “A Criança em Ruínas” e que de certa forma fala justamente sobre a forma como a idade nos transforma e como há sempre uma criança dentro de nós, a partir da qual evoluímos, ou seja, ela é quase uma raiz a partir da qual crescemos.

Em “Galveias”, você disse que também homenageia as pessoas daquela cidade e revisita o local, especialmente, a partir da memória. Se compararmos o retrato que faz daquele lugar na ficção com a realidade dela hoje, o que encontramos no texto é a reconstrução de um ambiente que flerta mais com o imaginário?

O interior de Portugal sofreu grandes alterações nos últimos 30 anos e, por isso, a realidade tratada no livro, localizada em 1985, é bastante diferente da contemporânea. Outro aspecto interessante é a diferença e a transformação que sempre existe quando se trabalha um tema ou uma realidade que depois são abordados num formato literário. Em primeiro lugar, existe esse filtro que tudo muda que é a própria memoria. A memória de certa forma é uma narrativa, uma história que contamos a nos próprios e nessa medida todos somos de algum modo escritores. Todos escrevemos a nossa própria memória e para fazer isso partimos de nossa perspectiva e do que conhecemos, o que é sempre imperfeito e é uma das faces da realidade. Mas, por outro lado, existe também a própria transformação de colocar em palavras o que não é constituído apenas por palavras porque a realidade é multidimensional e surge das mais diversas formas. Construir um objeto de palavras que tente dizer aquilo que aconteceu é necessariamente transformar aquilo que aconteceu, é tentar sugeri-lo, por isso existe sempre uma diferença entre esses dois planos.

A questão da ruralidade, que há em “Galveias”, permeia também outros títulos seus, como “Nenhum Olhar” e “Livro”. O que o interesse nessa abordagem?

Eu acho que naquela ruralidade existe alguns elementos que fazem parte da matriz genética da cultura portuguesa e, em alguns aspectos, sinto que naquela imagem de ruralidade existe a condensação de algo que se consegue encontrar mesmo nos sinais mais urbanos do Portugal contemporâneo porque tem a ver com a identidade, com quem somos. Na primeira vez que vim ao Brasil, eu estive em Minas Gerais e a, partir daí, senti que havia uma certa facilidade na comunicação aqui neste Estado, em particular, justamente talvez por essa questão da ruralidade. Embora exista algumas especificidades, esse aspecto compartilha elementos que são trasnacionais. Tem a ver com a ligação e com a proximidade da natureza, com a vida na qual a natureza marca ciclos e marca até um ritmo que muitas vezes condiciona e molda a forma de pensar e ver o mundo, e isso é fundamental.

Em “Morreste-me”, seu primeiro romance, há o foco para as relações familiares e para aspectos relacionados à sua cidade natal, o que se nota em outros livros. A presença dessas memórias íntimas e do diálogo com a sua biografia é uma marca do seu trabalho ficcional?

Quando escrevi o livro “Morreste-me” nem tinha consciência de que estava a escrever um livro. O tema é muito sensível, escrevi esse livro após a morte do meu pai e o romance trata disso, de um filho que perde um pai. Mas muito facilmente aquela história também pode ser transposta para outras perdas porque no fundo é um livro sobre o luto. E é interessante pensar no livro à luz dessa questão da infância porque sinto que é um livro que fala sobre o fim da infância. O momento em que morre o pai e o filho se torna o próprio pai, assume esse papel, ganha esse estatuto de ter que tomar responsabilidade e ser adulto. Quando escrevi esse livro não tinha um projeto de escrita para o futuro, eu era jovem, estava entre os meus 21 e 22 anos. Eu escrevi sobre aquilo que naquele momento me era evidente. O assunto que naquele momento eu não podia fugir. A partir daí, o caminho que eu fiz na escrita acabou por, de alguma forma, sempre se ligar a esses temas. Por uma razão que eu não sei completamente explicar. Embora tenha também tentado de alguma forma me afastar desses temas, como através do meu último livro publicado no Brasil, “Dentro do Segredo”, e que fala de uma viagem à Coreia do Norte. A verdade é que mesmo a escrever sobre a Coreia do Norte, eu percebi que no fundo estava sempre a escrever sobre mim. Ou seja, estava quase a fazer um retrato desses mesmos temas quase que em negativo. Isso tem a ver com aquilo que se tem que dizer, porque é muito importante na hora de se escrever um livro colocar uma pergunta que é essencial, o que é que eu tenho pra dizer. E pra mim aquilo me trouxe sempre garantias que não estava a ser redundante, a repetir de uma forma o que outros já tinham dito antes de mim. A história da literatura é enorme, o patrimônio literário mundial é gigantesco, então, eu sempre quis escrever sobre aquilo que parecia que só eu sabia, e aquilo que só eu sabia é algo muito próximo de mim.

Antes de publicar livros, você tinha uma banda. Em que momento isso muda, e você deixa a música para se tornar escritor?

Eu nunca me considerei um músico. Eu tive uma banda na minha adolescência e há, aliás, uma banda de Belo Horizonte, Sepultura, que para mim é fundamental. Eu a vi em 1991 e foi incrível. Esse sempre foi o meu som. Aqui no Brasil não é muito comum encontrar escritores que preferem esse tipo de banda, como Ratos de Porão, e outras coisas assim. Mas efetivamente na minha adolescência esse tipo de música foi importante como uma afirmação da adolescência e, ao mesmo tempo, foi importante para mim porque vivendo numa pequena cidade do interior de Portugal, em que a realidade toda é rural, ter essa ponte para o mundo fez com que eu também ganhasse uma perspectiva e uma distância sobre essas duas realidades. Ou seja, o fato de eu olhar um pouco de fora toda essa ruralidade fez com que eu conseguisse ver esse lugar de uma forma diferente. Para mim caminhar com a guitarra elétrica por rebanhos de cabras é uma imagem que considero muito especial e tem muito a ver com aquilo que eu vivi ali.

Essa experiência com a música ficou só na adolescência?

Já mesmo depois de ter publicado meus primeiros livros tive alguns projetos ligados à música, mas não como músico. Mas, por exemplo, em 2003 publiquei um livro que se chama “Antídoto” e foi escrito ao mesmo tempo que uma banda, Moon Spell, que é o Sepultura português. Fizeram um disco que tem o mesmo nome do título, e cada tema dele corresponde a um conto desse livro. Isso foi algo muito fora do comum, pois não havia escritores portugueses a ter colaborações com bandas de heavy metal. Desde então, tenho tido vários colaboradores com bandas escrevendo textos para eles, sempre nesse gênero de colaboração, mas sempre como escritor, nunca como músico. Hoje em dia, em Portugal, também escrevo para outros tipo de músicos fadistas, por exemplo. Essa é uma área musical que sempre rejeitei, o fado na minha adolescência, sempre foi uma música que meus pais ouviam, e eu não gostava. Depois, na idade adulta, surgiram esses projetos, então eu fui descobrir o fado e fiquei surpreendido com o quanto a minha ignorância adolescente estava a me privar de um gênero musical incrível e que tem uma riqueza poética tão fascinante. Então, escrevo para muitos músicos portugueses, do fado, ao pop, ao metal.

“Dentro do Segredo” você concebeu a partir de uma viagem à Coreia do Norte, mas o livro não se constitui como um relato jornalístico. Como você percebe as relações que ele revela entre ficção e realidade?

A Coreia do Norte é um país muito fora do habitual, tem um sistema político único e com características que para nós são muito difíceis de aceitar. Ao mesmo tempo, é um país que tem uma realidade cultural e civilizacional bastante diferente da nossa, o que faz com que para um visitante ocidental seja quase  como um mistério por desvendar e interpretar. Ao mesmo tempo, contribui muito para esse mistério o fato de o governo dificultar muito o acesso à informação. Mesmo quando se visita o país, há sempre muita dificuldade de obter respostas, e aquilo que se vê, em muitos casos, são apenas insinuações feitas para nós. Então, por isso aquele livro, que retrata a viagem que eu fiz durante  semanas na Coreia do Norte, acaba por muitas vezes se deparando com essa dificuldade de aquilo que eu estava a ver não ser muito credível como realidade. Mas havia sim a sensação de se estar verdadeiramente dentro de uma ficção construída pelo aparelho de propaganda do estado norte-coreano. Nessa medida esse livro tem uma relação com a ficção, mas eu fiz uma questão que seja também factual e documental. Ou seja, quando faço uma afirmação lá, eu estou convicto de que ela é verdadeira.

Você também escreve poesia. Há características comuns identificadas entre essa seara e a sua prosa?

A minha poesia tem uma ligação muito grande com a minha prosa, em alguns casos isso é muito evidente. Esses temas que falamos aqui, como a família, a identidade geográfica, também estão presentes na minha poesia. Eu sinto, no entanto, que há alguns aspectos que diferenciam os dois segmentos. No meu caso particular, tenho uma perspectiva da poesia em que ela aspira uma certa ideia de pureza e de simplicidade. Curiosamente, muitas vezes, meus versos são mais simples do que  as frases dos meus romances. Há dois livros que foram publicados em 2003, de uma só vez. Um romance que já foi publicado aqui e se chama “Uma Casa na Escuridão” e um livro de poesia que se chama “Uma Casa, Escuridão”. Esses dois livros têm títulos próximos, tratam de temas afins e seguem a mesma estrutura, mas um é independente do outro.

Como você vê o cenário literário contemporâneo do seu país?

Portugal está atravessando um momento de muita vitalidade no que diz respeito a literatura de autores emergentes, embora haja uma boa quantidade de nomes que já ultrapassaram essa posição. São nomes confirmados e dos quais se espera um grande futuro e que boa parte deles são conhecidos aqui também no Brasil e são publicados e bem recebidos aqui. Eu vejo esta geração com muito otimismo e fico contente por fazer parte dela. Sinto que essa riqueza tem um pouco a ver com a herança que recebemos de grandes autores das gerações anteriores e, ao mesmo tempo, tem a ver com aspectos históricos que moldaram essa geração. No meu caso específico, eu nasci em 1974. Este é um ano importantíssimo porque marca o fim de uma ditadura de 48 anos em Portugal. Isso é algo muito importante para a geração atual de escritores. É a primeira que nasceu e cresceu numa democracia, sem censura e todos os entraves que existiam durante o período da ditadura. Acho que esse é um aspecto que realmente trouxe força e, de alguma forma, justifica o surgimento desse número de autores que começaram a publicar no início desse século e que realmente tem recebido um grande reconhecimento em Portugal e fora dali. Por exemplo, Valter Hugo Mãe, Gonçalo M. Tavares, Afonso Cruz, Dulce Maria Cardoso entre outros.

Em relação ao Brasil, há alguns autores com quem você tem uma afinidade maior?

O Brasil é uma fonte que me parece inesgotável de autores. Muitas vezes, em razão da dimensão enorme do país, parece que há até uma certa injustiça no que diz respeito ao reconhecimento mais nacional de alguns deles. Efetivamente, às vezes, encontram-se autores enormes que não conseguem ser lidos fora do seu Estado, e, por isso, cada viagem que faço ao Brasil encontro sempre muitas referências e fontes de inspiração. Mas se vamos falar da literatura brasileira de maneira geral, há autores de dimensão universal que eu realmente não poderia deixar de me referir como é o caso de Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Graciliano ramos e Machado de Assis para citar apenas quatro.

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O Globo, 18-4-2015

20.04.15

O SOL NEGRO

 

Por José Castello

 

          Perdi meu pai no ano de 1982. Um longo silêncio se estendeu diante de mim. Trinta e três anos depois, a sombra de meu pai retorna nas páginas de um livro: "Morreste-me", do português José Luís Peixoto (Dublinense). Leio a novela de Peixoto _ seu livro de estréia, lançado em Lisboa em 2000 _ com o coração apertado. Luz e escuridão se mesclam nessa narrativa de indisfarçável origem autobiográfica: ela é dedicada à memória de José João Serrano Peixoto, pai do escritor. Foi preciso que o pai morresse para que o escritor pudesse nascer. Hilda Hilst tinha uma explicação forte para isso: “Toda literatura nasce de uma tragédia familiar”.

          A caminho da casa do pai morto, o filho constata: “Parto para o que sobra de ti e tudo são resquícios do que foste” É uma viagem fosca, atravessada pela grande sombra da morte. “Viajo no escuro que deixaste e chego finalmente a ti”. Na verdade, é a si mesmo que o narrador chega _ o que já se expressa no belo título, "Morreste-me". A morte do pai é, também, a morte do filho. Daí a urgência do retorno ao passado, da volta a esses resíduos que, se não restauram uma existência, pelo menos a simulam. É noite. “O negro líquido da noite a mover-se, a acordar em figuras redondas de água”. É a primeira noite que o pai não viveu.

          A dor contamina todo o livro, derramando-se pelas frases e impregnando-se nas imagens tensas. O romance abre com três frases vigorosas: “Regressei hoje a esta terra agora cruel. A nossa terra, pai. E tudo como se continuasse”. As lembranças da agonia paterna se misturam à experiência de retorno, lançando o narrador em uma busca ainda mais atormentada. O pai se submeteu ao tratamento da doença _ um câncer incurável no abdômen _ sustentando a falsa esperança de sobreviver. Desde o início, a dor impôs à realidade a aparência de um teatro. Encenação cruel, ao fim da qual todos os cenários desabaram, restando só uma ausência.

          “Comigo, a casa estava vazia. (...) As várias sombras da sombra de mim, imóveis, passeavam-se de corpo para corpo, porque todos eles, todos meus, eram igualmente negros e frios”. O frio também se alastra pelas páginas de Peixoto e nos faz tremer. “Pensei: não poderiam os homens morrer como morrem os dias?” Ao cair da tarde, “pássaros cantam sem sobressaltos e a claridade líquida vítrea em tudo”. A brisa é leve, as folhas dançam, o mundo se move lentamente para a noite. Chega-se, então, ao “silêncio esperado, finalmente justo, finalmente digno”. Por que, na morte dos homens, ao contrário, são tantos os temores? Por que há tanto lamento e tanto alvoroço? Não poderiam os homens morrer como os dias?

          Em contraste com a voz muda do pai, reverberam alguns ecos. As coisas, mortas também, se tornam violentas. “Tudo o que te sobreviveu me agride”. As coisas são transpassadas por uma luz fina, “que agora és”. Esse pai transformado em luz persiste como um sol negro. Um sol detido em um intervalo do tempo, luz do que já não há. O que mais nela agride é a imobilidade. É ela, com sua colcha de mentiras, que faz o mundo doer. “Tudo quer e tenta ser igual”. Mas na barriga do mundo há agora um oco, vazio que “quer ser mundo ainda”. Não foi só o filho quem morreu com a morte do pai, a realidade morreu um tanto também.

          A linguagem de José Luís Peixoto é dançarina. Só essa linguagem inundada de poesia pode ainda aproximar pai e filho. As horas se embaralham e o filho se vê pequeno, sentado no carro do pai, espremido pelo cinto de segurança, a perguntar quanto tempo falta para chegarem a seu destino. Naquela época, ainda fazia sentido perguntar pelo tempo. Hoje pergunta alguma suporta mais a noção de passagem. Os dois estão retidos em uma zona fixa, na qual só as sombras ainda conseguem se movimentar.

          O filho passa a noite, sozinho, na casa vazia. O ar, então, se enche de perguntas. “Onde estiveste esta noite, pai? Procurei-te para lá da memória, nos cantos que só nós conhecemos, e não te vi”. No quarto, a cama está feita, a esperar o pai que não chegará. O rapaz remexe as gavetas, abre as portas do armário. Busca – o que? Em um impulso, veste as roupas do pai morto. Olha-se no espelho. “No reflexo, encontrei-te, vi-te passar a mão rapidamente pelo cabelo e alisar a roupa no corpo e acertar o colarinho da camisa”. O rapaz olha fixamente a própria imagem. Espanta-se: “Vi-me igual a ti, nas tuas feições firmes”. O pai morto renasce no filho vivo, que agora é seu pai também.

          Sem o pai, as coisas perderam a vida. Na mesa de cabeceira, o relógio de pulso ainda marca inutilmente os segundos, “mesmo depois de ti”. O tempo já não serve para nada, é só um traste que devemos carregar. Insistente, o filho coloca o relógio no pulso: “Ainda as marcas de suor, ainda tu”. Em tudo, o pai permanece como nódoa, o que não é suficiente para soprar vida às coisas. Aturdido, o rapaz permanece ancorado ao grande sol negro. “Passei a noite sozinho. Contigo. Perto do silêncio absoluto”.

          Resta ao narrador o “vazio que ficou dos gestos que não fazes, das palavras que não dizes, do olhar permanente que tinhas e já não poder ter”. É sobre o nada que o mundo agora se sustente. A noite: o lugar mais oco do mundo. O rapaz sente a morte do pai como um segredo que já não pode contar a ninguém. Nem a si mesmo. Percebe que a morte é o impronunciável. Que ela é algo que não se pode dizer. Se você diz, morto já não está. Só o silêncio contorna a morte.

          Logo que amanhece, trêmulo como um fugitivo, o filho deixa a casa paterna. “Ninguém se atreveu nas ruas da minha passagem, só a cal e o sol e as casas permaneceram no lugar onde as conhecemos tantos dias”. Parece já não haver mundo, também, para esse filho que, sob a luz do sol, encarna o pai morto. Esquiva-se como um fantasma. Volta ao cemitério. No mármore frio, resta o nome do pai. “Tem o teu nome, pai. O teu nome importante, pai. Escrito para sempre, como as nuvens, como as coisas que não morrem”. Perfilado diante da campa, o filho se deixa invadir, ele também, pela grande estrela negra, astro paradoxal a emitir uma luz que, se ilumina, também mata.

 

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Bolletino Università di Bologna I-II, 2005

15.05.14

Questra terra ora crudele

 

Di Silvia Cavalieri

 

José Luís Peixoto è ben contento che Questa terra ora crudele sia la sua prima opera perché è praticamente sicuro che da questo breve libretto, scritto a soli ventidue anni, non prenderà mai le distanze: «Tanti autori rinnegano i loro esordi letterari e fanno di tutto per farli dimenticare; io, invece, che se leggo un testo che ho scritto una settimana fa già non mi ci riconosco più del tutto, ancora oggi non aggiungerei né toglierei una riga a Questa terra ora crudele», diceva lo scrittore portoghese, durante un incontro a Bologna, l'11 maggio 2005.


Il segreto del «permanere intatta» di questa opera sarà forse l'estrema autenticità della sua ispirazione, quell'urgenza espressiva che il lutto spesso genera (ma che, al tempo stesso, ostacola, dando origine spesso a un balbettio impotente o a scritture-sfogo che non riescono a farsi letteratura) coniugata con un «periodo di decantazione» di circa quattro anni, prima che Peixoto prendesse la decisione di pubblicarla, nel maggio del 2000, in un'edizione da lui stesso finanziata, che ottenne un grande successo in Portogallo e si esaurì in poco tempo. Il libro verrà poi ripubblicato, nel febbraio 2001, dalla Temas e Debates, la casa editrice lisboneta con cui è uscita la maggior parte dell'opera di questo autore, dopo il grande successo del suo primo romanzo, Nessuno Sguardo, vincitore, fra l'altro, del prestigioso «Prémio Saramago».


Si tratta di un testo difficilmente classificabile secondo le scansioni canoniche, una sorta di lunga lettera al padre prematuramente scomparso, in cui si condensano il dolore straziante per questa perdita irreparabile e l'iniziazione del giovane autore alla vita adulta, l'assunzione su di sé dell'eredità morale che il padre gli ha lasciato e che lui si impegna a mantenere e a trasmettere. E la sovversione, nell'ordine delle traduzioni italiane, della cronologia reale delle opere di Peixoto fa sì che questo breve scritto - una sessantina di pagine scritte a caratteri grandi e righe rade che sembrano quasi un invito a soppesare ogni parola e trasmettono bene l'idea della cura con cui questo autore compone i suoi testi - si affacci sul panorama letterario nazionale come una conferma. Conferma non solo perché abbiamo la sensazione di trovarci davanti a una scrittura che debutta già matura, dotata dello stile inconfondibile che ha siglato uno dei successi più rapidi e repentini nella letteratura portoghese contemporanea, ma anche perché la promessa che il giovane figlio fa al padre defunto in Questa terra ora crudele, la promessa di non dimenticare e di riportare in vita il loro mondo («Lo porterò davvero, padre. Il mondo solare. Lo riconoscerò perché non l'ho dimenticato. E vi sarà di nuovo anche il tempo, e anche la vita. Senza di te e sempre con te.», p. 60), il lettore sa che è già stata mantenuta e che Peixoto ne rinnova l'adempimento con ogni suo scritto che vede la luce: il figlio diventa così «il ragazzo custode di vita che sempre hai voluto ch'io fossi» (p. 15) e lo fa con gli strumenti della letteratura, facendo della sua scrittura la testimonianza di un mondo in rovina, salvato dall'oblio del silenzio e riportato a nuova vita attraverso la parola. Lo scrittore allora, perduta la spensieratezza di un'infanzia felice e gonfia d'affetti, accetta la sua condizione di «bambino in rovina» e fa della sua scrittura una custode del passato, ribadendo la parentela stretta che intercorre fra letteratura e memoria, una memoria viva, carnale, «un miscuglio di carne e luce o ombra» (p. 16), dove luce e ombra, due elementi basilari nella poetica di Peixoto, non si elidono, ma si affiancano a delineare i tratti di un universo costituzionalmente ossimorico, dove le dicotomie astratte non esistono e tutto si fonde e si confonde in un caos che ricorda molto da vicino il mondo. E in effetti, la scrittura si allaccia, in questa prospettiva, sia alla vita (che nella sua versione più autentica è soprattutto amore) sia alla morte, come una trama di buio e di luce, che trova un'immagine molto poetica nel secondo romanzo di Peixoto, Una casa nel buio, in quella figura femminile che prende forma dentro al protagonista un giorno, a partire dai punti di luce che ci rimangono negli occhi quando li richiudiamo e continuiamo a vedere. La stretta relazione che intercorre fra questo personaggio e la scrittura è messa in evidenza lungo tutto il romanzo: lei è il testo, è il senso stesso delle parole, è attraverso la scrittura che il narratore le si avvicina fin quasi a sfiorarla ed è solo attraverso le parole da lui scritte che il loro amore è possibile. Lei stessa scomparirà tristemente a partire dal momento in cui il protagonista, crudelmente menomato delle braccia e delle gambe per opera dei soldati invasori, non potrà più scrivere. L'identificazione tra questa donna - la sola donna che il protagonista abbia mai veramente amato - e la scrittura è totale, come sottolinea anche Vincenzo Russo nella postfazione, ma vi è un particolare estremamente significativo che merita, a mio avviso, più attenzione: il momento in cui il narratore si reca al cimitero insieme al suo migliore amico, il principe di calicatri, per vedere il luogo in cui verrà sepolto il suo editore e rimane sconvolto davanti a una tomba con sopra la fotografia proprio della donna che lui ha dentro, con su stampata una data di morte che risale a molti anni prima (v. pp. 51-52). Questa scena trova una spiegazione plausibile proprio grazie alla parentela strettissima che intercorre tra la letteratura e la morte: la letteratura è frutto di un'indigenza ed è nel lutto che essa si genera. A partire da questo attraversamento del trauma prende vita e lei stessa si fa sostanza vivificante: la centralità della morte è evidente nel titolo portoghese di Questa terra ora crudele che è Morreste-me. La scelta di cambiare completamente il titolo, nella versione italiana, frutto forse anche, come sottolineava Paolo Nori durante l'incontro a Bologna, di una certa allergia della nostra editoria nei confronti della parola «morte», mi pare tuttavia condivisibile anche in virtù del fatto che una traduzione letterale come «Mi sei morto» perderebbe molta della densità che la particolare formazione del riflessivo in frase affermativa conferisce al portoghese: da un'unica sferzante parola a tre, con una notevole dispersione degli effetti. Il titolo scelto, estrapolato dalla prima frase dell'opera che ricorre altre volte nel corso del romanzo sempre in posizioni importanti, oltre ad avere un ritmo molto bello, ha il merito di porre al centro dell'attenzione il tema della crudeltà. Un tema cruciale nell'opera di questo autore, che si inserisce all'interno di una topica estremamente viva nell'ambito della letteratura portoghese, soprattutto contemporanea, che è quella della colpa: una colpa assurda e incontrastabile, un fardello che tutti gli uomini devono portare e di cui nessuno è veramente responsabile, come sottolineano le parole di Margaret Atwood che Peixoto ha scelto di mettere come epigrafe di Una casa nel buio e su cui scelgo di congedarmi:

Non dire così, dice lei. Non è colpa mia.
Neanche mia. Diciamo che ci tocca pagare
per i peccati dei nostri padri.
È inutilmente crudele, dice lei in tono freddo.
Quand'è che è utile la crudeltà? dice lui.
E in che quantità? Leggi i giornali
Non sono stato io a inventare il mondo.

 

José Luís Peixoto, Questa terra ora crudele, traduzione di Giulia Lanciani, Roma, La Nuova Frontiera, 2005

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inmayores, 2009

15.05.14

Los viejos de Peixoto

 

Historias de nuestra casa (Casa editorial HUM, Montevideo, 2009) compila veintidós cuentos y poemas del escritor portugués José Luís Peixoto (Galveias, 1974). En esta edición aparecen traducidos al castellano Morresteme (2000) y los cuentos y poemas publicados en Cal (2007), que incluyera además originalmente una obra teatral. El libro fue presentado por el autor en el Centro Cultural de España de Montevideo el 6 de octubre de 2009.

 

En estas historias se aborda la diversidad cotidiana de un pueblo. Los relatos transitan por los mundos afectivos y las vicisitudes de mujeres y hombres que envejecen. Este concierto humano testimonia tanto la variedad de vivencias de estos personajes como sus distintas maneras de desarrollar el proceso de envejecimiento; e integra a las edades jóvenes, que como las mayores, crecen, quieren vivir y mueren. Son tierras donde los campanarios dan todavía sus lentos toques fúnebres y las señoras mayores comprenden en ese aviso a quién le tocó partir.

 

El autor sigue el precepto de describir la aldea. Sus textos se elaboran, principalmente, sobre la vida en zonas semi-rurales del Portugal actual, haciendo de estos pagos de puertas sin trancar, el escenario principal de los relatos. Con referencias visuales o sonoras ubica el medio de vida, las huertas, los montes y caminos, la represa o las plantaciones de olivos y alcornoques. Mientras que los episodios de la historia de la comunidad son mojones en la biografía de los personajes. Desde los pequeños sucesos del pueblo, al acontecimiento nacional de la Revolución de los Claveles que puso fin, el 25 de abril de 1974, a la dictadura más larga del siglo XX europeo.

 

Algunos relatos tienen un fuerte carácter testimonial. Desarrollando los cursos afectivos que componen las relaciones entre las personas. La máxima cercanía del autor con sus personajes, se plantea en "Ver a mi abuela" o "Te me moriste", escrito en memoria de su padre. En ningún caso esto se agota en lo anecdótico del hecho, sino que oficia de punto de partida para la creación de la trama poética.

 

Sensible cronista de la cotidianidad, Peixoto utiliza en sus narraciones el despliegue de los distintos puntos de vista que pueden tener los personajes sobre los hechos. Así como lo que pueden llegar a pensar los actores de un relato sobre ese mismo relato. Un hombre acerca de quien ha escrito, se entera de tal cosa. Pasa las tardes en la plaza desde que dejó de trabajar en el campo. "El hombre que está sentado" explora la situación en primera persona de un hombre viejo a quien le fueron a contar que "el hijo de Peixoto" (p. 37) había escrito sobre él. La muchacha que le contó y tiene el libro probatorio, no puede explicarle a qué se debería tal cosa. Ese aparente sinsentido lo hace desconfiar, resistiéndose a que se lo lea. Ella -cuenta el hombre-, tiene estudios y por eso fue desde Lisboa a trabajar en la Junta local. Él no aprendió a leer. "Sabes que, en aquel momento, la gente podía hacerlo. Ese fue el gran disgusto de mi madre: nueve hijos, siete muchachas y dos muchachos, y ninguno pudo aprender a leer" (p. 37). El hombre se queda con el libro y la curiosidad acumulada de un día al otro, desembocará en la oportunidad de un nuevo encuentro.

 

A la transformación en la percepción y preferencias artísticas con el correr de los años, lo puede acompañar una reflexión que intente dar un sentido nuevo a los cambios vividos. "Por las noches releía libros que había leído hacía mucho tiempo. En las páginas de esas noches, existía la luna y era como si, a medida que los releía, reconociera lo que había leído un día en aquellas páginas. Había momentos, frases, en que pensaba y sentía exactamente lo que ya había sentido y que, al mismo tiempo, era como si fuera la primera vez" (p. 62).

 

Algunos de estos personajes que envejecen viven con sus familias. Otros, solos, van procesando duelos y volviéndose a enamorar. Un hombre que enviudó hace unos años comenta: "Durante meses no supe vivir. Después, muy despacio, como un vicio que se recupera, fui encontrando pedazos de mí" (p. 61). "Despacio, resucitaba, era viejo y nacía" (p. 62). Este hombre podrá luego escuchar las voces de otros amores, además de las de sus hijos y nietos. "Fue uno de esos días que conocí a Mariana. Su voz diciéndome: Mariana" (p. 62). Después: "Su voz diciéndome: Beatriz" (p.62). Y luego: "Una voz muy tímida: Susana" (p. 63). Los comentarios de los vecinos, claro, también podían escucharse.

 

En aquel entonces, una mujer: "Tenía más de ochenta años y esa es una edad de decisiones para toda la vida" (p. 9). Variaciones de este motivo estructuran "La edad de las manos". El movimiento del relato podrá hacer pensar que a cualquier edad las decisiones son nuevas orientaciones de la vida.

La relación entre las ancianas, con sus maneras, entreteje las tareas del día con las novedades públicas y privadas del pueblo: "En ocasiones, entra en la casa de las vecinas. Las puertas están abiertas. Las vecinas entran en su casa. Y se quedan a hablar. Bajan la voz cuando no quieren que nadie las oiga aunque estén solas, cuando hablan de alguien: sabes qué le pasó a, y dicen un nombre cualquiera. Tratarse de tú es la prueba inusitada de que, en otro tiempo, fueron jóvenes, fueron muchachas con ideas sobre lo que serían cuando tuvieran la edad que tienen" (p. 94).

 

La dimensión intergeneracional es mostrada con sus beneficios recíprocos. La relación del narrador con su abuela, es mutuo reflejo de sus vidas: "(...) me llama: mi José Luís. Su voz es delicada porque, como los objetos, es antigua. (...) Lo importante es que nos quedamos juntos por momentos, nos vemos. Damos sentido el uno al otro" (p. 96).

 

El libro no cae en una idealización de los lazos entre generaciones. La muchacha de "La vida junto al río" fue besada por un joven y transgredió en poco más de eso. La consecuencia lógica para su madre sádica es encerrarla. "(...) me agarraron el tobillo y lo atraparon en una esposa de hierro, que estaba atada a una cadena, que estaba atada a una pared, que estaba dentro de la pared. Cerraron la puerta. Me quedé tendida en el piso" (p. 105). La madre, durante algún tiempo, llevaba a cenar a los postulantes que estimaba convenientes. "Las criadas envejecieron. Mi madre envejeció. Yo envejecí. Dejaron de venir hombres a verme" (p. 106 ). Cuarenta años después, la madre muere y llega a término la condena. Nada quedaba entonces de aquel hermoso muchacho. Hasta el árbol viejo, donde la aguardaba su ausencia, había sido talado. Anciana y deforme, sale al mundo hablando con Dios. Hablaba con él hacía tiempo. "En una de esas tardes indistintas unas de las otras, Dios entró en el cuarto. Moví la pierna y las cadenas se movieron. Dios se sentó a mi lado. Sus ojos eran tristes. Dios me tomó la mano y lloramos" (p. 107). "Estoy vieja. También Dios está viejo. Nos sentamos juntos y pensamos. El tiempo es más leve. Ni yo ni Dios esperamos nada" (p. 108).

 

Con este tipo de vínculo situado entre la metafísica y el delirio, empieza y termina la primera parte del libro. Se inicia con la historia de Ana, quien convive con su niño de luz: el ángel.

 

Si bien en un comienzo "Ana, a veces, se sentía tan vieja como si hubiese nacido el primer día del mundo" (p. 12), este relato aborda en sus reglas de juego el tratamiento de la temporalidad con la reversibilidad del envejecimiento. Mientras que en "La mujer que soñaba" el transcurso del tiempo es elaborado por yuxtaposición. Dos épocas que aparecen alternativamente. La mujer en su vejez y juventud, una y otra vez. Sus sueños y sentimientos una vez despierta, se anticipan a un tiempo y son luego reminiscencias. Sobre el final del relato se presenta el máximo de tensión entre ambos tiempos, superponiéndose.

 

La narrativa que presenta José Luís Peixoto en este libro, aborda al envejecimiento y la vejez con acierto y fina mirada sobre la multiplicidad de situaciones y de formas de su desarrollo.

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La Reppublica, 2005

15.05.14

 Canto d'amore per un addio

 

Marco Lodoli

 

Il futuro dell' editoria come di qualsiasi iniziativa umana sta nell' entusiasmo e nella conoscenza: c' è un gran bisogno di persone che sappiano fare bene il loro lavoro e che ci investano energie giovani e appassionate. Un esempio è sicuramente "La Nuova Frontiera", piccola casa editrice romana specializzata in letteratura spagnola e portoghese, che ha già pubblicato autori ancora poco noti in Italia, ma molto interessanti. Uno di questi è José Luis Peixoto, classe 1974, poeta e romanziere, considerato l' enfant prodige della letteratura lusitana. La Nuova Frontiera ha stampato i suoi due romanzi, e ora ci propone il suo primo testo, Questa terra ora crudele, uno struggente canto d' amore per il padre scomparso. Fa piacere scoprire che non tutti i giovani scrittori del mondo sono iscritti all' albo dei giallisti sanguinari o dei postmoderni più artefatti, che c' è ancora qualcuno che sfugge alla morsa delle ipernarrazioni, fatte di mille piani, mille personaggi, mille inutili incastri e digressioni per guardare con sgomento dritto per dritto negli occhi scuri della vita, e reggere quello sguardo fino in fondo. Peixote è un narratore lirico, un poeta che distilla il mosto ribollente del cuore e ne trae una grappa concentratissima di parole, un liquore che ci prende la testa. Scrive Peixote: «Ho pensato non potrebbero gli uomini morire come muoiono i giorni? Così, con uccelli a cantare senza sussulti e la chiarità liquida vitrea in tutto e il fresco soave fresco, il mondo inerte o che si muove calmo e il silenzio che cresce naturale naturale, il silenzio atteso, finalmente giusto, finalmente degno?». Non potrebbe essere così ogni addio al mondo? E invece sono ospedali e cure, speranze e disperazioni, e mentre un padre se ne va nel dolore, un figlio rimane da solo a raccontarlo, con parole leggere e taglienti come pezzi di vetro, cercando inutilmente di ricomporre la finestra affacciata sui ricordi.

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Liberazione, 2005

15.05.14

José Luís Peixoto, il poeta "mettalaro"

 

Marco Peretti

 

C'è chi ha partecipato alle guerre coloniali come furiere-infermiere, chi è stato torturato dalla Pide - la polizia segreta salazarista -, chi ha vissuto l'infanzia assistendo alla fine del regime, chi è nato nell'anno della rivoluzione dei garofani: João de Melo, Mário de Carvalho, José Riço Direitinho, Benigno de Almeida Faria, José Luís Peixoto. Chiamarli una pattuglia sarebbe di cattivo gusto, perché non solo del passato e di guerra parlano i loro libri. Parliamo dell'avanguardia di scrittori portoghesi che si è affacciata di recente in Italia, in occasione della Fiera del libro di Torino. Merito - vale la pena ribadire - di piccole case editrici, come Passigli, Scrittura pura, Instar libri, Besa editrice, Aiep, La nuova frontiera, l'ultima arrivata Cavallo di ferro. In questo drappello di nuovi narratori figura anche il giovanissimo José Luís Peixoto, autore di Questa terra ora crudele (trad. di Giulia Lanciani, edizioni La Nuova Frontiera, euro 8,50) e con uno stravagante curriculum alle spalle. Qui, in questo volumetto, dal titolo originale Morreste-me, racconta i sentimenti di un figlio di fronte alla morte del padre. «Si tratta realmente della scomparsa di una persona, di questa regola naturale alla quale contrapponiamo l'illusione che per noi non si verifichi. In Portogallo diciamo "l'unica cosa certa è la morte" ed è così. Sapere che esiste la morte, è sapere che noi oggi siamo vivi e dobbiamo approfittare di questo periodo per fare qualcosa. La letteratura deve suggerire alle persone come prendere coscienza di questa realtà». Trent'anni, pearcing e maglietta scura con una scritta argentata che grida "stop the wars", José Luís comincia così. La sua è una letteratura che parla di morte, della decadenza della civiltà. «Sì, mi servo di queste idee perché sia il lettore stesso a trovare le risposte più concrete ai grandi temi della vita. In fondo la morte è la fine e la fine la troviamo in tutto, ma ogni fine è anche il principio di qualcosa. Mi interessano le storie delle persone, la morte come la fine e l'inizio dell'amore». Larga parte della critica portoghese intravede una scrittura nuova, inedita nelle capacità affabulatorie di Peixoto, ogni due settimane presente sul più importante giornale culturale del paese, Jornal de letras. Lui che proviene da una provincia tradizionale, l'Alentejo, dove è nato nell'anno in cui il Portogallo tornava alla democrazia. «Non ho mai vissuto sotto la dittatura, privato della libertà. Non mi si è mai posta la necessità di posizionarmi nei confronti di un regime. Certo ci sono autori che per me sono molto importanti nella mia formazione, che sicuramente non è ancora terminata: Fernando Pessoa il maggiore poeta portoghese del XX secolo o tra i contemporanei António Lobo Antunes, che è un virtuoso della lingua e nei suoi romanzi affronta temi molto delicati della storia più recente del Portogallo, il nostro premio Nobel José Saramago che per me è un autore di riferimento». Persino in Italia ci sono blogs di suoi ammiratori e tra questi gli appassionati di musica metallica. «E' per via del lavoro con la band dei Moonspell - spiega - le persone legate a una cultura libresca pensano che la musica heavy-metal sia fatta da gente che fa rumore e grida e d'altra parte molti giovani pensano alla letteratura come qualcosa di noioso, fatta da persone noiose. Personalmente non credo in nessuno dei due stereotipi e anche il gruppo con cui ho lavorato la pensa così. Abbiamo tentato di fare una cosa nuova: un libro e un disco che ha come tema la paura. Come questa spesso inibisce, mentre dobbiamo avanzare e cercare quello in cui più crediamo». Considerati i temi, qualcuno potrebbe vedere confermati gli stereotipi sul Portogallo. «Non credo che siamo malinconici più degli scrittori di altri paesi. C'è questa idea associata al fatto che abbiamo una musica tradizionale come il fado, ma penso che sia un'affermazione che non tiene conto del fatto che oltre questa sensibilità ne esistono altre. Ho molta difficoltà nei confronti della parola saudade che è "venduta" come un sentimento portoghese, perché penso che i sentimenti non hanno patria, paese o lingua, ma appartengono agli esseri umani di ogni parte. Per questo se esiste una saudade nei miei libri penso che sia la stessa che esiste nei libri italiani come in quelli giapponesi». Della tradizione vuole conservare poco - le radici sono importanti ma l'essenziale sono i fiori - e con un certo orgoglio rivendica di aver fatto parte fin dall'inizio del Bloco de esquerda che in questi giorni ha polemizzato con Sampaio per le sue non scelte sull'aborto. «Mi intristisce la decisione del Presidente della Repubblica. Comunque la maggioranza del popolo portoghese vuole questo cambiamento e quindi questa legge retrograda e criminalizzatrice verso le donne presto o tardi cambierà».

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El País, Babelia,10 Novembro 2007

05.04.14

 

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