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O Globo, Dezembro 2016

06.12.16

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O romance “Galveias”, do escritor português José Luís Peixoto, foi o grande vencedor do Oceanos — Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa, antigo Portugal Telecom, que desde o ano passado vem sendo viabilizado pelo Itaú Cultural. Outro romance, “A resistência”, de Julián Fuks, que acabou de ganhar o Prêmio Jabuti como Livro do Ano na categoria ficção, ficou em segundo lugar. A coletânea de poemas “O livro das semelhanças”, de Ana Martins Marques, ficou em terceiro lugar, e o escritor, jornalista e colunista do GLOBO Arthur Dapieve ficou em quarto com o livro de contos “Maracanazo e outras histórias”.

 

Várias rodadas de discussão

O anúncio dos melhores de 2015 foi feito ontem à noite, durante cerimônia de premiação no Auditório Ibirapuera, em São Paulo.

— Neste ano, tivemos um equilíbrio grande entre os dez finalistas, que se dividiram entre quatro romances, quatro livros de poesia e dois de contos. Prova disso foi a reunião do júri, muito difícil. Foram necessárias umas três ou quatro rodadas de discussões, e nem assim chegamos ao consenso. Tivemos que partir para votação mesmo. Mas os jurados estavam muito confortáveis porque, segundo eles, o conjunto dos finalistas era muito bom — disse Selma Caetano, criadora e curadora do prêmio em parceria com o crítico literário Manuel da Costa Pinto.

Dois romances levaram os primeiros lugares da premiação. Misto de memória e realismo fantástico, “Galveias” parte de um fiapo de história, a queda de um meteorito no vilarejo onde Peixoto nasceu, na região do Alentejo, para se desenvolver em uma narrativa que opõe tradição e modernidade. Fuks também garimpou na memória a premissa de “A resistência”, cujo narrador desconfia que seu irmão adotivo seja filho de ativistas desaparecidos no auge da ditadura argentina, em meados dos anos 1970.

Na terceira e na quarta colocações, um livro de poesia e outro de contos. Dividido em quatro partes, “O livro das semelhanças”, da mineira Ana Martins Marques, busca recuperar o mundo e as coisas por meio da palavra. “Maracanazo e outras histórias” reúne cinco contos em que Dapieve percorre diversos temas, que vão da música ao futebol, passando pelo cotidiano do Rio de Janeiro, sempre buscando o lado humano desses universos.

Com R$ 230 mil em prêmios, o Oceanos destina R$ 100 mil para o primeiro lugar, R$ 60 mil para o segundo, R$ 40 mil para o terceiro e R$ 30 mil para o quarto colocado.

Este ano, foram inscritos 740 livros em língua portuguesa publicados no país no ano passado. Os vencedores passaram por três etapas de avaliação, a primeira com 50 semifinalistas e a segunda com 10 finalistas. O júri final, que repetiu a formação do corpo de jurados da fase semifinal, foi formado pela professora e ensaísta Beatriz Resende, pelos escritores Cristovão Tezza, José Castello e Rodrigo Lacerda, além dos poetas Heitor Ferraz Mello e Sérgio Alcides.

 

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O Globo, 24 Março 2012

22.04.15

José Luís Peixoto: a desmistificação de um escritor

 

Fenômeno na Europa, autor português lança ‘Livro’ no Brasil e confirma ida à Flip

 

Ele tinha 25 anos quando publicou seu primeiro livro, “Morreste-me”, um monólogo sobre o luto, dirigido ao pai que perdera. A edição de autor, com letras pequenas para economizar páginas, foi feita para os amigos ou, se tanto, para ser vendida em consignação. No mesmo ano (2000), lançou “Nenhum olhar”, pelo qual levaria o Prêmio José Saramago, dado a jovens autores.

Doze anos e mais de dez livros depois, José Luís Peixoto, considerado um dos mais importantes escritores portugueses contemporâneos, voltará em julho à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) — onde esteve pela primeira vez em 2005 — para uma inédita leitura integral daquele primeiro despretensioso trabalho, que acabou tendo mais de 20 edições. O Brasil será só uma das paradas na maratona em que se transformou a rotina desse autor de 37 anos, que hoje trabalha a divulgação simultânea de três obras: “Livro”, de 2010, que chega ao Brasil agora, pela Companhia das Letras; “Abraço”, publicado em Portugal no fim de 2011; e seu primeiro infantil, “A mãe que chovia”, que estará em abril nas livrarias portuguesas. Em comum, o tom biográfico que levara ao extremo em “Morreste-me”.

'Livro' (Companhia das Letras) é lançado no Brasil“Livro”, embora menos melancólico, começa falando de solidão, ao descrever o tristíssimo abandono de um menino de 6 anos, para mais tarde entrar na trama em que de fato se apoia: a emigração de portugueses para a França nos anos 1960, vivida pelos pais de Peixoto. Uma segunda parte ajuda a explicar o título — voltando-se para si própria, a obra dá voz ao narrador da história inicial, chamado Livro, um personagem que confunde para depois esclarecer. Na entrevista abaixo, Peixoto fala sobre “Livro”, considerado seu trabalho mais maduro, e explica como concilia a intensa agenda de viagens com a rotina solitária de escritor.

 
Em “Livro”, o objeto do título conduz a narrativa e é tratado com reverência. Isso é um reflexo da importância do livro em sua vida?

Sendo escritor, os livros são objetos que, necessariamente, me dizem muito. Também por isso, dar esse título a um romance foi algo que me trouxe um acréscimo grande de responsabilidade e que, por si só, demonstra bem a ambição depositada na concepção dessas páginas. O título fez parte das ideias fundadoras do romance. Assim, existem múltiplos fatores a contribuírem para o título, um deles é esse objeto que vai atravessando a narrativa. E que, no fundo, contém tantas vidas.


Você já declarou que há em “Livro” experiências da sua família que o excluíam. Como foi o processo de pesquisa?

Os meus pais foram emigrantes para a França e regressaram a Portugal pouco antes de eu nascer. Passei a infância a ouvi-los falar com as minhas irmãs de tudo o que tinham vivido e que me excluía. Assim, desenvolver esse tema foi escrever sobre um tempo anterior a mim que, no entanto, não está completamente desligado de mim. Até porque percebi que aquilo que define a minha geração em Portugal é sobretudo o que não vivemos. Não vivemos a revolução, a ditadura, a guerra colonial, a emigração em massa. Ao escrever, percebi que esse aparente desprendimento podia ser uma vantagem, uma vez que me permitia escrever sem constrangimentos sobre temas que, ainda hoje, não são fáceis para os portugueses (e talvez por isso não existam outros romances a deterem-se diretamente neste tema que afetou milhões de portugueses). Assim, servi-me da minha experiência pessoal como alguém que nasceu numa pequena cidade do interior (Galveias) para descrever a vida pobre dos anos 1940, 50 e 60; servi-me de tudo o que ouvi sobre a emigração ilegal para a França nos anos 1960 e de tudo aquilo que pude ler.


As críticas a “Livro” que o narrador tece são uma defesa prévia das que poderiam surgir? Como lida com a crítica?

Não. A crítica ao próprio livro é uma forma de a narrativa se dobrar sobre si e criar uma espécie de nó que, nesse momento, tem a função de aprofundar a autorreferencialidade, um mecanismo importante a partir de certa altura do livro. Hoje, com quatro romances, três livros de poesia e quatro volumes de narrativa publicados, lido bem com a crítica. Interessa-me bastante a análise que fazem do que escrevo e, sempre que posso, leio.

As transformações causadas pelos e-readers contribuem para essa relação nostálgica com o livro? Você é um usuário de leitores eletrônicos?

Há uma reflexão no romance acerca do objeto livro e daquilo que o define. Será o livro um objeto ou o sentido daquilo que diz? Por vezes, leio livros em formato eletrônico, mas prefiro o convencional. Ainda assim, o que mais me preocupa não é a mudança. O que me incomoda é que traga alterações à forma de ler. Creio que isso já se sente. Espero que a leitura continue por anos a ser a imersão num mundo, e não um saltitar fragmentado, com déficit de atenção, ansioso por informação dita “útil”.

Você interage com os leitores por meio de ferramentas como o Facebook. Isso muda sua maneira de trabalhar?

Tudo aquilo que influencia a minha vida terá influência na minha maneira de trabalhar. O contato com as pessoas que leem o que escrevo é algo que acaba por ser bastante marcante. Procuro esse contato. Acredito na desmistificação do escritor e, ao mesmo tempo, acredito no papel principal que o leitor tem na construção da obra. Sem leitor, o texto é como aquela árvore que, no enigma zen, cai na floresta. Será que faz barulho? Meu palpite é que não.

As declarações recentes do secretário português Francisco José Viegas sobre a necessidade de alterações na reforma ortográfica causaram polêmica no Brasil. Na sua opinião, Portugal deve ou não respeitar o acordo?

Esse é um assunto que me interessa muito pouco. Os desafios que a escrita me coloca não são ao nível da ortografia. No Portugal contemporâneo, há assuntos mais importantes a debater. Continuo a escrever com a ortografia de sempre. Em algumas publicações onde colaboro, já se adotou a nova ortografia, permito que corrijam os textos, pouco me importa. Não sou agarrado ao “c” antes do “t”. Ainda assim, nos livros, onde tenho o poder de decisão, mantenho a ortografia original.

Como vê o futuro de Portugal? Há risco de a emigração em massa, um dos principais temas de “Livro”, voltar a ser um problema?

A emigração já é uma realidade em Portugal. Sobretudo entre os jovens, há muita gente a procurar noutros países o que não encontra aqui. Esse é um aspecto que me preocupa bastante. Não creio que seja assim que o país se reconstruirá. Somos um país com mais de oito séculos de história porque, nos momentos mais críticos, o povo português tem sido capaz de defender os seus interesses.

Você é um escritor-viajante, sempre ocupado com a promoção dos livros pelo mundo. Como concilia as viagens e o tempo para escrever?

Um ano após a publicação do meu primeiro romance começaram a surgir traduções dos meus livros. Depois, ganhei o Prêmio José Saramago, tive mais uma série de reconhecimentos e os meus livros começaram a ser publicados em muitos países. Hoje, tenho romances em 20 idiomas. Esse reconhecimento faz com que surja um grande número de convites para encontros ou leituras públicas. Tento organizá-los em dois períodos. Assim, há ocasiões em que faço muitas viagens e há outras em que fico em casa, a escrever e a pensar. Creio que as viagens e a escrita se alimentam: as viagens são-me úteis para a escrita, porque me permitem conhecer novas realidades, aumentar a minha visão do mundo, relativizar aquilo que poderia tomar proporções desmedidas; e a escrita é-me útil para as viagens na medida em que as proporciona e me ajuda a prestar a atenção devida aos detalhes de cada lugar. Ao mesmo tempo, é para mim muito gratificante chegar a países pela primeira vez e encontrar já muitos leitores. Na semana passada, fiz quatro apresentações na região da Bretanha, na França e, depois, uma leitura e duas apresentações em Luxemburgo. Já estive também em algumas das maiores feiras literárias do mundo, como a Flip. E fiz palestras em grande parte das universidades mais prestigiadas. Nada mau para um menino que nasceu numa pequena cidade do interior, com cerca de mil habitantes, e que viveu lá até os 18 anos.

Como será sua participação na Flip?

Farei uma leitura de “Morreste-me”, o primeiro livro que publiquei, em maio de 2000. Trata-se de um livro fundamental para mim. Escrevi-o após a morte do meu pai e trata, justamente, do amor entre filho e pai. É um texto curto, com cerca de 40 páginas, e, apesar de ser um livro de prosa, utiliza uma linguagem muito próxima da poesia, o que ajuda a condensação desse tema tão intenso. Esta será a primeira vez em que farei uma leitura completa desse livro. Acredito que será um momento muito intenso e espero ter a oportunidade de partilhá-lo com um grande público apaixonado pelas palavras. Tenho essa expectativa, porque já conheço a Flip e sei o quanto é especial o público que a frequenta.

E quais são os autores brasileiros que chamam a sua atenção?

Posso citar Guimarães Rosa ou Clarice Lispector como nomes que me marcaram de forma indelével ou, na contemporaneidade, Milton Hatoum e Bernardo Carvalho. Mas ficam a faltar muitos outros. A literatura brasileira passada e presente é muito rica.

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O Globo, 18-4-2015

20.04.15

O SOL NEGRO

 

Por José Castello

 

          Perdi meu pai no ano de 1982. Um longo silêncio se estendeu diante de mim. Trinta e três anos depois, a sombra de meu pai retorna nas páginas de um livro: "Morreste-me", do português José Luís Peixoto (Dublinense). Leio a novela de Peixoto _ seu livro de estréia, lançado em Lisboa em 2000 _ com o coração apertado. Luz e escuridão se mesclam nessa narrativa de indisfarçável origem autobiográfica: ela é dedicada à memória de José João Serrano Peixoto, pai do escritor. Foi preciso que o pai morresse para que o escritor pudesse nascer. Hilda Hilst tinha uma explicação forte para isso: “Toda literatura nasce de uma tragédia familiar”.

          A caminho da casa do pai morto, o filho constata: “Parto para o que sobra de ti e tudo são resquícios do que foste” É uma viagem fosca, atravessada pela grande sombra da morte. “Viajo no escuro que deixaste e chego finalmente a ti”. Na verdade, é a si mesmo que o narrador chega _ o que já se expressa no belo título, "Morreste-me". A morte do pai é, também, a morte do filho. Daí a urgência do retorno ao passado, da volta a esses resíduos que, se não restauram uma existência, pelo menos a simulam. É noite. “O negro líquido da noite a mover-se, a acordar em figuras redondas de água”. É a primeira noite que o pai não viveu.

          A dor contamina todo o livro, derramando-se pelas frases e impregnando-se nas imagens tensas. O romance abre com três frases vigorosas: “Regressei hoje a esta terra agora cruel. A nossa terra, pai. E tudo como se continuasse”. As lembranças da agonia paterna se misturam à experiência de retorno, lançando o narrador em uma busca ainda mais atormentada. O pai se submeteu ao tratamento da doença _ um câncer incurável no abdômen _ sustentando a falsa esperança de sobreviver. Desde o início, a dor impôs à realidade a aparência de um teatro. Encenação cruel, ao fim da qual todos os cenários desabaram, restando só uma ausência.

          “Comigo, a casa estava vazia. (...) As várias sombras da sombra de mim, imóveis, passeavam-se de corpo para corpo, porque todos eles, todos meus, eram igualmente negros e frios”. O frio também se alastra pelas páginas de Peixoto e nos faz tremer. “Pensei: não poderiam os homens morrer como morrem os dias?” Ao cair da tarde, “pássaros cantam sem sobressaltos e a claridade líquida vítrea em tudo”. A brisa é leve, as folhas dançam, o mundo se move lentamente para a noite. Chega-se, então, ao “silêncio esperado, finalmente justo, finalmente digno”. Por que, na morte dos homens, ao contrário, são tantos os temores? Por que há tanto lamento e tanto alvoroço? Não poderiam os homens morrer como os dias?

          Em contraste com a voz muda do pai, reverberam alguns ecos. As coisas, mortas também, se tornam violentas. “Tudo o que te sobreviveu me agride”. As coisas são transpassadas por uma luz fina, “que agora és”. Esse pai transformado em luz persiste como um sol negro. Um sol detido em um intervalo do tempo, luz do que já não há. O que mais nela agride é a imobilidade. É ela, com sua colcha de mentiras, que faz o mundo doer. “Tudo quer e tenta ser igual”. Mas na barriga do mundo há agora um oco, vazio que “quer ser mundo ainda”. Não foi só o filho quem morreu com a morte do pai, a realidade morreu um tanto também.

          A linguagem de José Luís Peixoto é dançarina. Só essa linguagem inundada de poesia pode ainda aproximar pai e filho. As horas se embaralham e o filho se vê pequeno, sentado no carro do pai, espremido pelo cinto de segurança, a perguntar quanto tempo falta para chegarem a seu destino. Naquela época, ainda fazia sentido perguntar pelo tempo. Hoje pergunta alguma suporta mais a noção de passagem. Os dois estão retidos em uma zona fixa, na qual só as sombras ainda conseguem se movimentar.

          O filho passa a noite, sozinho, na casa vazia. O ar, então, se enche de perguntas. “Onde estiveste esta noite, pai? Procurei-te para lá da memória, nos cantos que só nós conhecemos, e não te vi”. No quarto, a cama está feita, a esperar o pai que não chegará. O rapaz remexe as gavetas, abre as portas do armário. Busca – o que? Em um impulso, veste as roupas do pai morto. Olha-se no espelho. “No reflexo, encontrei-te, vi-te passar a mão rapidamente pelo cabelo e alisar a roupa no corpo e acertar o colarinho da camisa”. O rapaz olha fixamente a própria imagem. Espanta-se: “Vi-me igual a ti, nas tuas feições firmes”. O pai morto renasce no filho vivo, que agora é seu pai também.

          Sem o pai, as coisas perderam a vida. Na mesa de cabeceira, o relógio de pulso ainda marca inutilmente os segundos, “mesmo depois de ti”. O tempo já não serve para nada, é só um traste que devemos carregar. Insistente, o filho coloca o relógio no pulso: “Ainda as marcas de suor, ainda tu”. Em tudo, o pai permanece como nódoa, o que não é suficiente para soprar vida às coisas. Aturdido, o rapaz permanece ancorado ao grande sol negro. “Passei a noite sozinho. Contigo. Perto do silêncio absoluto”.

          Resta ao narrador o “vazio que ficou dos gestos que não fazes, das palavras que não dizes, do olhar permanente que tinhas e já não poder ter”. É sobre o nada que o mundo agora se sustente. A noite: o lugar mais oco do mundo. O rapaz sente a morte do pai como um segredo que já não pode contar a ninguém. Nem a si mesmo. Percebe que a morte é o impronunciável. Que ela é algo que não se pode dizer. Se você diz, morto já não está. Só o silêncio contorna a morte.

          Logo que amanhece, trêmulo como um fugitivo, o filho deixa a casa paterna. “Ninguém se atreveu nas ruas da minha passagem, só a cal e o sol e as casas permaneceram no lugar onde as conhecemos tantos dias”. Parece já não haver mundo, também, para esse filho que, sob a luz do sol, encarna o pai morto. Esquiva-se como um fantasma. Volta ao cemitério. No mármore frio, resta o nome do pai. “Tem o teu nome, pai. O teu nome importante, pai. Escrito para sempre, como as nuvens, como as coisas que não morrem”. Perfilado diante da campa, o filho se deixa invadir, ele também, pela grande estrela negra, astro paradoxal a emitir uma luz que, se ilumina, também mata.

 

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O Globo, 26 de agosto de 2014

28.08.14

 

 

 

TEXTO COMPLETO: 

 

José Luís Peixoto: ‘Na Coreia, os rádios só têm o botão de ligar e desligar’

 

“Tenho 40 anos, dois filhos e nasci em Galveias, Ponte de Sor. Um dia, quando estava em Korean Town, em Los Angeles, pensei em escrever sobre algo diferente da minha realidade e que não fosse literário. O próprio lugar me deu a resposta, e decidi ir para a Coreia do Norte, que era o mais diferente que eu conseguia imaginar”

 

Conte algo que não sei.

Na inauguração do primeiro e único campo de golfe norte-coreano, segundo a agência nacional de informação, o líder Kim Jong-Il acertou todos os buracos com uma só tacada em cada um deles sem nunca ter jogado golfe antes. No fim, disse que não voltaria a jogar porque era muito fácil. O feito se tornou indiscutível e foi testemunhado apenas por seguranças e generais.

 

A Coreia do Norte é um anacronismo no século XXI?

Já existiram muitas ditaduras na História, mas, com esse nível de sofisticação de controle dos cidadãos, não creio que já tenha existido. E ele é feito por meio da restrição da informação. Nós vivemos em uma sociedade de informação, o que faz a Coreia do Norte parecer um país fora do mundo.

 

Em sua experiência no país, foi possível separar o que é mentira e o que é verdade?

Ali, toda informação é propaganda do regime. Tentar entender a Coreia do Norte e os norte-coreanos é um exercício muito difícil. É muito complicado se colocar no lugar de uma pessoa que nasceu naquela cultura, com os pais defendendo um regime de ídolos e líderes sobre-humanos. Mas, apesar de viverem com regras severas e marciais — o país é o quarto no mundo em número de efetivos militares —, há momentos em que as pessoas se soltam.

 

Que momentos são esses?

A manifestação da individualidade é uma das coisas mais oprimidas no país. E ela é muito rara. Eles ganham a liberdade pelo soju, uma bebida tradicional que os deixa mais relaxados.

 

Qual foi a sua impressão da força militar do país?

A primeira das duas visitas que fiz, em 2012, coincidiu com os 100 anos do nascimento de Kim Il-sung, o principal líder histórico do país. É a partir do nascimento dele que é contado o calendário usado na Coreia do Norte. Assisti a um desfile militar em Pyongyang, e, até para quem não é especialista bélico, pareceu evidente que se tratava de material muito ultrapassado. Depois da passagem do aparato, o ar ficava irrespirável por causa da fumaça dos veículos muito antigos, queimando óleo.

 

Pelo seu relato, isso se aproxima muito do país fictício de Orwell em “1984”, não?

Sim. Não há um momento em que as pessoas minimamente mostrem algum descontentamento. É uma sociedade que vive sob acusação mútua. Todos observam tudo e todos. Esse discurso bélico está em toda parte. É uma ferramenta de propaganda para deixar o povo em suspensão, como que preparado permanentemente para uma guerra, com a impressão de estar sob ameaça constante dos seus principais inimigos.

 

O que você conseguiu conversar com a população?

São poucas as pessoas que falam outra língua além do coreano. As conversas com os guias geralmente têm um filtro do discurso oficial, e, às vezes, eles falam de uma realidade que claramente não existe, como, por exemplo, números extravagantes de produção em fábricas completamente obsoletas. Com os guias é quase impossível ter conversa sobre temas polêmicos. A Coreia do Norte é um país que só tem uma TV e um canal de rádio. Os aparelhos de rádio são vendidos só com o botão de ligar e desligar. Os norte-coreanos recebem lições inventadas de como é o mundo exterior, que os fazem acreditar que são o país mais desenvolvido do mundo.


No site de O GLOBO.

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O Globo, 2 Julho 2005

18.03.14

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