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Visão, 16 outubro 2014

21.10.14

(Texto abaixo)

 

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O apocalipse alentejano

 

“Entre todos os lugares possíveis, foi naquele ponto certo. O serão ia adiantado e sem lua, só estrelas geladas a romperem o opaco do céu, espetadas a partir de dentro. Galveias descaía lentamente para o sono, os pensamentos evaporavam-se.” Assim começa o novo livro de José Luís Peixoto, Galveias, romance elegíaco, alegórico, empático, delirante e neorrealista à vez. Grande fresco de personagens rurais, gente formada por tragicomédias e solidões de todo o tamanho, espécie de auto da barca do inferno em que todas as falhas e vaidades ficarão a nu, o romance é também uma homenagem às raízes familiares do escritor, há 40 anos nascido nesta vila alentejana do concelho de Ponte de Sor, em Portalegre. Um ínfimo ponto no vasto croché geoestratégico em que, atualmente, medimos as nossas vizinhanças, mas que, aqui, ganha ressonância universalista, caixa de Pandora de onde escapam pecados mais ou menos capitais. O autor amplifica acidentes e improbabilidades até elevá-los ao estatuto de parábolas ambiciosas – à maneira de Saramago. E os leitores enfrentarão esta sensação: “As certezas eram muito miúdas, tinham de ser catadas com a pontinha dos dedos.”

 

Retome-se a geografia: “Rodeada por campos negros, pelo mundo, Galveias agarrava-se à terra.” Mas, vinda do espaço, uma “coisa sem nome” vai sacudir a arrumação cósmica, a ordem terrena, a pacatez das Galveias: atmosfera rompida, cratera aberta nos campos, um cheiro “que tresandava a enxofre e a borregum”, uma esfera “imóvel, vaidosa, a exibir-se”, difundindo um calor ardente. A população fica “banzada”, e poucos dias passados – quase tantos quantos os que levou Deus a criar o mundo – o caos instala-se, libertando bíblicas luxúria, ira, fratricídio, gula, escatologia... Um a um, vão-se revelando os personagens desta Galveias ficcional: Catarino, dono da mota Famélia, às avessas com a memória paterna; Armindo Cabeça, figura temida numa família com muitas bocas para alimentar; o velho Justino que tem contas velhas de cinquenta anos a acertar; a professora Maria Teresa, cujos esforços pedagógicos são mal vistos pelos vizinhos; o padre Daniel, que afoga crises de fé no álcool; Rosa Cabeça que se vingará contra Joana Barrete... Um paroxismo à espera de redenção.

 

Mas aqui está também um retrato de um Alentejo à espera do futuro – uma outra redenção. Galveias começa num janeiro de 1984, quase uma década passada sobre o 25 de abril, tinha Peixoto também dez anos: por vezes, é o seu olhar de miúdo que sentimos. Descrevendo mistérios rudes e ancestrais como o de esfolar uma lebre, por exemplo. Ou no mapeamento das paisagens galveenses como um labirinto intemporal e familiar: umas quantas ruas, o jardim e o campo da bola, o Monte da Torre e a barragem da Fonte da Moura, o Vale das Mós e a herdade da Cabeça do Coelho. Mas, em 1984, há sinais de um futuro urbano, digamos assim: Madalena não descola os olhos da telenovela, a brasileira Isabella trabalha na boîte onde os homens amansam instintos; há os pais emigrados que trazem carros novos todos os anos...

 

Tudo isto, um universo e as suas poeiras, um apocalipse à escala regional, uma parábola civilizacional, um puzzle de memórias pessoais e de personagens indissociáveis, José Luís Peixoto condensa num retrato permeado pela sinceridade e, numa linguagem que deixa as idiossincrasias alentejanas “ameigarem-lhe” a mão.

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Visão, 2012

15.05.14

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15.05.14

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Visão, 16 Setembro 2010

18.03.14

 

Pedro Dias de Almeida

 

 

José Luís Peixoto diz-nos, sentado na esplanada de um jardim lisboeta: "sei o peso que tem chamarLivro a um romance." Dentro do próprio... livro aborda-se esta questão: "Livro sugere perigosamente olivro, artigo definido que esta sucessão de páginas, por mais encadernada, nunca merece", ler-se-á, a páginas tantas. Mas o escritor não hesitou em aceitar essa missão que se impôs a si próprio. E esteLivro é obra de uma enorme ambição.

 

Podemos dizer que o novo romance de José Luís Peixoto é sobre a vaga de emigração de portugueses para França nos anos 50/60 do século passado, mas não ficará tudo dito, longe disso.

 

 

"Um romance patriota"

 

O autor apanha-nos com a frase inicial - "A mãe pousou o livro nas mãos do filho" - e leva-nos pelas ruas, quelhas, fontes, becos e casas de uma vila - com geografia decalcada do mapa real das Galveias, reconhece o escritor que ali nasceu em setembro de 1974 - entre personagens com nomes como Ilídio, Adelaide, Josué, Cosme, Galopim, a velha Lubélia (pode o estilo de um escritor ser reconhecível até na escolha dos nomes para os seus personagens?).

Nessas andanças ainda não sabemos que o livro do título é muito mais do que "o livro nas mãos do filho" (mas esse episódio descansa o leitor, desde o primeiro momento, quanto à ousadia do título), ainda não sabemos que há mais livros dentro do livro.

 

Na primeira parte, que se estende por cerca de 200 páginas, é-nos apresentado um enredo bem urdido, uma narrativa clássica que nos suga lá para dentro, até estarmos às escuras, tropeçando pelos campos noturnos, ao lado de Ilídio e de Cosme, a caminho de uma França desconhecida, mítica, utópica; ou ao lado de Adelaide, exausta, em cima de um camião cheio de homens, cobertos por uma lona com cheiro "a borracha e a terra seca", a caminho dessa mesma França que só tinha a existência de sonho, sem imagens. Adelaide e Ilídio, um amor desencontrado, e nós a acompanhá-los, passo a passo, sem nada podermos fazer para os aproximar de novo. O Livro podia ser só esta primeira parte, assim, começando na vila e suas pequenas estórias, levando-nos com sacrifício para França, apresentando-nos, depois, as rotinas de Champigny e Saint-Denis, no momento em que Paris ganha estatuto de realidade espantosa para estas personagens. Podia ser só isto, e estava bem. Mas não.

 

Se, na primeira parte, há espaço para a descrição realista de uma matança de porco (José Luís Peixoto é o melhor dos jovens escritores portugueses a lidar com uma certa ruralidade) ou das sessões em que a população da vila se juntava na Casa do Povo para ouvir "telefonia", na segunda parte fala-se de Michel Houellebecq ou de Voyage au Bout de la Nuit, de Celine, fala-se de Sylvia Plath e cita-se Voltaire, em francês, sobre Shakespeare. Descobrimos, enfim, quem era o narrador que nos contava a história até esse momento. E a história, afinal, continua.

 

Sim, Livro é uma obra ambiciosa. "Não existia o romance que tratasse o tema da emigração portuguesa para França como eu achava que devia ser tratado", diz o escritor. "E, mal ou bem, era importante fazê-lo." O que torna este romance, centrado em acontecimentos do século passado, absolutamente contemporâneo, é sobretudo o lugar de onde se olha. José Luís Peixoto escolheu para protagonista (a tal personagem que, na segunda parte, se revela como narrador) alguém com quem se pudesse identificar, desde logo por uma questão geracional - ambos nasceram logo a seguir ao 25 de abril de 1974 - mas também, por exemplo, pelo interesse partilhado por literatura.

 

Uma das razões apontadas pelo escritor para a ausência de um romance como este, com esta temática, na literatura portuguesa, reside no facto de, nas famílias que atravessaram este processo, só a sua geração ter conquistado as ferramentas e as referências para o escrever. É com orgulho assumido que José Luís Peixoto recorda os seus avós que não sabiam ler nem escrever, ou os seus pais, que fizeram, como milhares de portugueses, esse percurso França-Portugal e "nunca imaginariam que o seu filho iria, um dia, ganhar a vida escrevendo livros."

 

"O protagonista do meu livro vai tentar saber de onde é que vem. Como ele, faço parte de uma geração que nasceu quase com uma orfandade de memória, crescemos a ouvir dizer que não vivemos a revolução, não vivemos a guerra colonial, não vivemos essa vaga de emigração..." José Luís Peixoto impressiona-se com as mudanças profundas que Portugal registou nas últimas décadas e talvez seja esse, afinal, o tema maior deste Livro - as investigações de António Barreto sobre essas mudanças foram, diz, uma fonte muito útil. Impressiona-o, sobremaneira, a passagem de um quadro de ruralidade para urbanidade, mesmo cosmopolitismo - passagem essa que ecoa na sua própria vida e que acontece, também, ao longo das 264 páginas deste romance. "Dizemos tantas vezes mal do nosso país, que, às vezes, esquecemos o sprint de Portugal nos últimos 40/50 anos - há uma diferença abissal nas condições de vida dos portugueses."

 

A vertente política é uma das novidades que o escritor reconhece ter acrescentado à sua obra anterior com este novo romance. Há um objectivo maior por detrás deste grande Livro? Há, mesmo que não tenha sido esse o farol que, desde o início, guiou os passos do escritor. José Luís Peixoto não hesita em falar de "heroicizar os portugueses, o povo português". Não hesita mesmo em dizê-lo com todas as letras: "É um romance patriota."

 

 

Leitor solitário

 

Por estes dias, José Luís Peixoto é uma das figuras da rentrée literária nacional. Uma posição que ocupa confortavelmente, mesmo sabendo que estes rituais podem ser tão efémeros como os foguetes lançados pelo barbeiro da vila. Na segunda parte, quando o tom muda, e encontramos o protagonista a dirigir-se a nós na primeira pessoa, podemos ler: "O título do último livro que terminei de ler foi Les Particules Élémentaires, de Michel Houellebecq. Já sei que é uma leitura tardia. Instalou-se a ideia de que romances destes têm de ser lidos na estação em que são publicados ou, pelo menos, nas semanas em que começam a ser defendidos por uns e arrasados por outros. (...) Acalento a imagem de leitor solitário, único leitor de páginas que as multidões já esqueceram." Este Livro, asseguramos nós, vai aguentar bem a passagem do tempo e pode ser lido, solitariamente, quando a rentrée de 2010 for só um conceito ultrapassado, absurdo e inútil.

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