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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto, in Público, setembro 2019

10.10.19

José Luís Peixoto e o peso do nome Saramago

TEXTO DE JOSÉ RIÇO DIREITINHO

 

Autobiografia é um romance que desafia o leitor ao diluir fronteiras entre o real e o ficcional, entre espaços e tempos, entre duas personagens de nome José, um jovem escritor e José Saramago. Este é provavelmente o melhor romance de José Luís Peixoto.

 

O título, Autobiografia, e a designação “romance” inscrita, logo abaixo, na capa do mais recente livro de José Luís Peixoto (n. 1974), parece querer alertar o leitor para o jogo de ilusões que aí vem. E a leitura das primeiras páginas confirma essa ideia: há um escritor José [Saramago] e um aprendiz de escritor também chamado José [Luís Peixoto, pode o leitor presumir]. Ao fim de algumas páginas, percebe-se que é um livro que desafia a atenção de quem o lê: o jogo com os nomes, a mudança abrupta de cenas, as fronteiras ténues entre narradores e personagens, e adivinha-se que também haja essa diluição de limites entre espaços e tempos. A estrutura pouco comum, quando comparada com as dos livros anteriores do autor, torna de imediato Autobiografia um livro singular na obra de José Luís Peixoto.

 

“Esse começo foi consciente no sentido de mostrar que o livro vai ser assim até ao fim”, confirma Peixoto em conversa com o Ípsilon. “É uma espécie de manifesto desta minha proposta narrativa. Este é um romance que exige tempo de envolvimento”. Com o prosseguir da narrativa, Autobiografia vai-se alargando em várias dimensões – até porque um dos assuntos do livro é a escrita de uma biografia de Saramago pelo jovem aprendiz de escritor, José. Biografia que, à semelhança da “proposta” autobiografia de Peixoto, se vai tornando também ela ficcional.

 

José Saramago surge neste romance como uma figura de ficção alicerçada no real. Como personagem origina o jogo (ou os jogos) a que o autor se propõe, assim divergindo do caminho de reconstituição biográfica (que talvez fosse o mais natural e esperado pelos leitores). José Luís Peixoto, que afirma que “foi um grande esforço escrever este livro, uma grande luta”, conta um pouco sobre as opções que teve de fazer ao longo do tempo em que o escreveu (pouco mais de um ano): “Ao longo do processo de escrita, o livro teve dois ou três momentos em que tive de reavaliar tudo, de reorganizar toda a narrativa. Um dos princípios que me pareceu que poderia defender o romance ao nível desta questão da presença da personagem Saramago era integrá-la num jogo. E fazer com que o livro se movimentasse nesse campo da construção literária e não tanto no da reconstituição histórica da sua vida. Contudo, a dimensão histórica também é importante, e por isso, para lá das questões do enredo, da forma como a narrativa flui, dos anacronismos, houve depois uma outra construção, a do autobiográfico e do ficcional. O possível conhecimento que os leitores têm da vida do José Saramago, e da minha, em maior ou menor grau, também contribui para a leitura do livro. O simples facto de saberem que eu me chamo José como uma das personagens, e que o título é Autobiografia, já direcciona para uma forma de leitura. Mas depois há outras. Se o leitor souber, por exemplo, que eu ganhei o ‘Prémio Saramago' próximo da idade daquele jovem escritor, e que o ganhei com o meu primeiro romance.” E Peixoto prossegue dizendo que todos os seus livros, de uma maneira ou de outra, nem sempre evidente, falam um pouco de si, que vai deixando dados autobiográficos por necessidade: “Este livro tem muito de mim porque essa era a minha proposta. Mas que pode não ser tão evidente como as pessoas pensam. Por vezes o que as pessoas julgam ser mais autobiográfico não o é assim tanto. Outras coisas, eventualmente mais excêntricas, podem por vezes ser decalcadas da minha realidade. Isto tem a ver com a forma como eu depois valorizo o meu trabalho. Preciso de deixar essas coisas escritas, essas informações, para depois sentir que ele me diz respeito.”

 

Pacheco

A questão do aproveitamento (neste caso de uma coincidência) dos nomes das personagens feito por Peixoto ao longo do livro, não é um facto novo. Já no seu primeiro romance, Nenhum Olhar, há uma história em duas gerações, com um pai e um filho de nome José; e, mais tarde, em Cemitério de Pianos, há várias gerações que se misturam no tempo da narrativa, e em que pais e filhos se chamam ‘Francisco’. O autor reconhece esse seu recurso estilístico: “Funciona aqui como um jogo, e compreendo que por vezes possa não ser muito claro e que possa mesmo gerar alguma confusão, mas essa é uma das propostas que quis que estivesse presente. Até ao final da narrativa há momentos em que as coisas mudam bastante, em que há anacronismos, uma espécie de rasteiras para um leitor que esteja mais habituado a leituras cronológicas.”

 

Uma história curiosa ainda sobre nomes: num anterior livro de José Luís Peixoto, Abraço, há um texto intitulado “Pacheco”. Esse texto fala das muitas vezes em que lhe trocaram o nome, e há nele uma fotografia de uma página autografada com uma dedicatória com a data de 1997: ‘Para José Luís Pacheco, com a simpatia do José Saramago’. Peixoto conta, com um sorriso: “Essa foi a primeira vez em que estive na presença do Saramago, em que lhe pedi para me autografar o Memorial do Convento”.

 

Fazer de José Saramago uma personagem nuclear de um romance, pode não ser uma tarefa fácil se a forma escolhida for a da ficção: dialogar com a sua figura, com tudo o que ela carrega como representação social e literária, com as expectativas dos leitores, com a complexidade de leituras da sua obra. José Luís Peixoto confessa que tudo isto tornou o livro bastante trabalhoso. E conta como chegou à ideia do romance: “Tudo começou a partir de um conto que publiquei numa revista. Era um conto que tomava a história de D. Pedro e de Inês de Castro como eixo. A partir de certa altura, pensei escrever outros contos que tivessem como centro algumas personagens importantes da História de Portugal. Comecei a listá-las. E já na contemporaneidade a personagem que me pareceu mais adequada foi o Saramago. Seria uma personagem diferente porque eu o tinha conhecido. A ideia foi crescendo, e acabei por abandonar esse livro de contos. Tinha nascido a ideia de escrever um romance que integrasse o José Saramago como personagem central, não quer dizer que seja a principal. Partindo dessa ideia tudo se foi construindo aos poucos. O título só apareceu a meio da escrita do livro.”

 

 

Normalmente quando se escrevem romances temos fantasmas, imagens na neblina, imagens dos leitores que o vão avaliar. Neste caso eu tinha o rosto da Pilar

José Luís Peixoto

 

 

A linguagem

Para além de Autobiografia ter um tipo de arquitectura narrativa pouco comum nos romances anteriores de Peixoto, também a linguagem revela um trabalho diferente, quase diria mais cuidado e apurado. Na preparação deste livro, o autor leu tudo o que lhe faltava ler na obra de José Saramago. Não admira, portanto, que algum do ritmo desses romances por vezes faça assomo em Autobiografia, como se houvesse ali um ajustamento a fazer, mas é sobretudo na atenção ao pormenor, como se o olhar se fosse aproximando do objecto ou da acção, que se nota a diferença. “Não páro de ler enquanto escrevo. Abraço até as influências que então me chegam. Escolho as leituras em função do que estou a escrever. Pode vir daí uma certa musicalidade que se procura. Agiliza as coisas”, diz José Luís Peixoto. “Com este livro decidi desde muito cedo não fazer um pastiche da escrita do Saramago. Ainda assim, há certas escolhas, certos princípios, certos valores da escrita, que dificilmente não são absorvidos.”

 

Mas há ainda mais a considerar: uma espécie de hierarquia que Peixoto estabelece para os seus livros, e que dessa forma definem o nível de exigência da escrita. “Não é uma hierarquia de importância, mas os romances são os pilares do caminho que eu tenho feito. Se eu tiver que pensar nalguma coisa da minha vida, eu localizo-a sempre em relação aos romances que publiquei, a pessoa que eu era quando os escrevi. Os romances têm para mim esse significado pessoal de exigência de evolução, e de uma tentativa de balanço. O que nem sempre acontece nos outros livros, que cumprem outras funções, e têm outras exigências que nem sempre são tão exigentes como as dos romances”. E acrescenta: “Há um caso engraçado com o livro No Teu Ventre. Eu fiz finca-pé na editora para que aquilo fosse considerado novela, e é isso que aparece na capa. Mas depois, à medida que as pessoas foram escrevendo sobre o livro, foram-se referindo a ele como romance. Hoje também já o considero um romance”.

 

Mas não é apenas a forma escolhida para a narrativa que influencia muito os livros de Peixoto. Também a proximidade ao assunto, a natureza das personagens, a distância entre realidade e ficção, entre o concreto e o imaginado. “Há coisas que fazem muita diferença. Por exemplo no livro Galveias: eu já tinha escrito sobre esse espaço, mas sem o nomear, usando um nome ficcional. Não se consegue escrever certas coisas se não se tiver lá aquele nome concreto. O facto de o nomear [ao lugar de Galveias, onde nasceu] provoca que eu escreva de maneira diferente sobre ele. Acho que se passou o mesmo com Autobiografia, o peso do nome Saramago como personagem fez-me também escrever de outra maneira, foi quase uma obrigação”.

 

Para José Luís Peixoto havia uma espécie de “sombra”, um fantasma, a pairar sobre a ideia de escrever um romance em que José Saramago entrasse como personagem. O seu nome era Pilar del Río. “A Pilar soube do livro antes de eu ter escrito a primeira palavra. Esse foi um lado muito sensível. Isso era para mim muito importante. Aliás, a própria Pilar é referida no romance como personagem. E há um aspecto curioso, pois no dia em que conheci o Saramago conheci também a Pilar. Eu tinha de saber gerir isso. Normalmente quando se escrevem romances temos fantasmas, imagens na neblina, imagens dos leitores que o vão avaliar. Neste caso eu tinha o rosto da Pilar. Para mim foi um alívio enorme quando ela leu o livro e se mostrou satisfeita. Ela sabia que o livro é um artefacto literário e que aquele Saramago é uma personagem, que apenas sugere uma possibilidade de Saramago”. Mas Peixoto não sente que em algum momento, o facto de vir a ter Pilar como leitora do livro, o tenha constrangido ou condicionado. Ela nunca lhe disse o que esperava do romance. “Só quando o terminei ela soube alguma coisa sobre o livro. Imprimi-o e entreguei-lho ainda antes de o enviar a quem quer que fosse”.

 

(Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto)

 

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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto

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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto, in Visão, julho 2019

30.09.19

Saramago duplicado no livro "Autobiografia", de José Luís Peixoto

TEXTO DE LUÍS RICARDO DUARTE
 

O Prémio Nobel da Literatura português transforma-se em personagem de um romance que também é uma homenagem. No livro "Autobiografia", de José Luis Peixoto, literatura com literatura se paga.

 

Ao receber o Nobel da Literatura, em 1998, José Saramago tornou-se inevitavelmente a grande referência das letras portuguesas, o que se traduziu em três grandes eixos: a celebração da liberdade do narrador, que não poucas vezes deriva para reflexões e assuntos paralelos; a vontade de contar uma boa história, presente na sua obra desde o primeiro romance; e o reencontro com uma certa portugalidade, menos épica do que humana. Para as novas gerações de escritores, a importância do autor de Memorial do Convento reforçou-se com o prémio a que deu nome, atribuído pela Fundação Círculo de Leitores. José Luís Peixoto recebeu-o na segunda edição, em 2001, e agora, no seu novo livro, presta-lhe tributo. Homenagem sem ser hagiografia; Autobiografia é literatura que se alimenta de literatura.

 

Essa dimensão de diálogo é o que, de início, mais se destaca no romance. Num entendimento da literatura enquanto jogo (no tempo, nos artifícios e nos símbolos), Autobiografia afirma-se como um labirinto de espelhos, no qual se refletem várias obras de José Saramago. Como nas pinturas cubistas, prestando atenção a determinados pormenores, identificamos claramente a essência de Todos os Nomes, Manual de Pintura e Caligrafia, O Homem Duplicado, Ensaio sobre a Cegueira ou História do Cerco de Lisboa. E não o dizemos só por o nome de todas as personagens ser retirado desses e de outros romances, mas porque se soube fixar o coração dessas obras e encadear os seus artifícios fundamentais num enredo que ganha vida própria. É uma leitura pessoal e original do legado saramaguiano, que se funde com o universo e as obsessões que, desde a estreia, com Morreste-me, José Luís Peixoto tem vindo a perseguir.

 

Autobiografia é, ainda, a revisitação de um célebre conto de Jorge Luís Borges. Como em O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam, um escritor mais velho depara com outro mais novo. A tarimba de um contrasta com a angústia do outro. Em Lisboa, no final dos anos 90, Saramago caminha para a consagração, enquanto o outro José não consegue acertar com o segundo romance. A convite do editor, aceita escrever uma biografia do futuro Prémio Nobel. Os seus destinos estão condenados a confundir-se. Ao refletir sobre os caminhos da criação, José Luís Peixoto recria igualmente os seus tempos de aspirante a escritor em Lisboa, convocando para a narrativa a sua geografia afetiva, dos Olivais a Cabo Verde, confundindo ainda mais as fronteiras sempre ténues entre realidade e ficção, vida e obra. E com isso talvez se perceba melhor o sentido do título, Autobiografia. Dentro deste livro vivem todos os escritores do mundo.

 
 
(Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto)
 

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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto

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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto, in Diário de Notícias julho 2019

30.09.19

Saramago cabe num romance? José Luís Peixoto fez a experiência

TEXTO DE JOÃO CÉU E SILVA

 

José Luís Peixoto tem novo romance, Autobiografia. Uma poderosa ficção em que o autor mergulha no universo de José Saramago e utiliza o escritor como coprotagonista.

erá que José Saramago cabe num romance? A pergunta pouco feita pelos escritores portugueses é respondida nesta sexta-feira por José Luís Peixoto, autor de Autobiografia, um romance em que o Nobel da língua portuguesa existe como personagem estruturada. Peixoto, que vem embalado pelo romance Galveias - uma narrativa bem regionalista que chegou ao Japão, onde foi traduzido recentemente, e é um sucesso no Brasil -, deixou-se de medos e captou numa história com dois Josés: um escritor e um pretendente à mesma profissão.

As trezentas páginas que enredam os dois coprotagonistas, o José aspirante a escritor e o José Saramago, surpreendem e José Luís Peixoto atinge o nível que seria exigível a um dos (demasiados?) autores da geração 2000.

Esta é uma poderosa ficção em que o autor mergulha no universo de José Saramago e utiliza o escritor como coprotagonista. Uma espécie daquilo que o Nobel fez com o heterónimo de Fernando Pessoa em O Ano da Morte de Ricardo Reis e que irá surpreender pela habilidade literária com que José Luís Peixoto puxa até ao fim o fio da história.

Um desafio que o próprio Saramago fizera ao afirmar que queria colocar o Convento de Mafra num livro e o fez em Memorial do Convento, a obra que, segundo Eduardo Prado Coelho, lhe aumentou a "base social de apoio" fora das crónicas, de atitudes ideológicas e romances à esquerda anteriores.

Peixoto faz o mesmo, pega em Saramago e usa-o num romance sem receio do desafio.

José Luís Peixoto tinha um problema: é que José Saramago sempre escreveu livros que surpreendiam pelo seu coração criativo. Ora quebrava a Península Ibérica ora cegava os habitantes do mundo. Eram histórias que o leitor não esperava nem concebia como possíveis.

Como contornar essa capacidade de Saramago? A leitura de Autobiografia mostrará que Peixoto se instala num dos romances do Nobel para levantar ao contrário o edifício: O Homem Duplicado. Tal como o protagonista desse romance, Tertuliano Máximo Afonso, irá ver convergir duas personalidades numa única. Mas O Homem Duplicado não passa de uma muleta invisível e logo esquecida quando se fecha a leitura de Autobiografia, porque as personagens de Peixoto têm vida própria. Apesar de o escritor piscar os olhos a alguns dos nomes que o Nobel tornou conhecidos na sua obra.

Personagens à linha nos romances de Saramago

Há em Autobiografia um editor chamado Raimundo Silva como o revisor de História do Cerco de Lisboa, uma Lídia como a de O Ano da Morte de Ricardo Reis, um Mau-Tempo como o de Levantado do Chão ou um Bartolomeu como o de Memorial do Convento. Há uma Rua de Macau como aquelas em que os pais de Saramago alugavam quartos no início da sua vinda para Lisboa e muitas outras referências ao universo Saramago. Peixoto descreve o escritor e a mulher, Pilar del Río, como se comportavam de verdade.

Recupera as outras duas mulheres, Ilda e Isabel, e justifica muito da existência delas com Saramago por breves e importantes momentos definidores da sua personalidade. Refaz alguns passos do escritor com muita realidade, como nas impagáveis viagens de avião. Contudo, é em quatro parágrafos no fim da página 61 e toda a 62 que capta o ser Saramago na sua plenitude, quando descreve a forma como o escritor acorda e vai esquecendo os pensamentos noturnos.

Peixoto evita semelhanças com as particularidades da escrita saramaguiana, mesmo que de vez em quando ceda para satisfazer aquela que poderá ser a vontade do leitor ao pegar neste livro: ler um pouco à Saramago. Mesmo que a ambiência do romance faça recordar frequentemente alguns dos tiques narrativos do escritor, bem como o modo como interrompia a ação para que o narrador repusesse a ordem, José Luís Peixoto divorcia-se de qualquer facilitismo e Autobiografia é apenas dele. Porque é capaz de se libertar do peso do Nobel e criar uma narrativa muito sua, que até rivaliza com a envolvência dos romances de Saramago.

A leitura de Autobiografia irá despertar nos leitores de Saramago muitas das memórias que têm sobre os seus romances e é essa virtualidade que também engrandece o romance de José Luís Peixoto.

Após Autobiografia valerá a pena perguntar: espera-se hoje por algum romance de um dos novos autores portugueses, os da geração 2000, como se aguardava por um José Cardoso Pires ou um António Lobo Antunes - falemos só destes dois - nas duas décadas anteriores à passagem do milénio? Com o leitor ansioso e a passar na livraria à espera de se confrontar com mais um mito literário. A resposta é não, afinal são poucos os novos autores capazes de preencher um romance com a arte exigida pelo leitor. A surpresa chega inesperadamente às livrarias nesta sexta-feira com o romance Autobiografia, de José Luís Peixoto.

Argumento de Autobiografia em poucas palavras

Para evitar desvendar totalmente o novo romance de José Luís Peixoto, deixa-se aqui a informação que a editora Quetzal já revelou sobre Autobiografia: "Um jovem escritor, José, é incumbido de escrever a vida do consagrado escritor, José. Este é o ponto de partida do livro que marca o regresso de José Luís Peixoto ao romance (...). Autobiografia é a história dentro da história, um romance que junta o autor ao mais reconhecido dos escritores portugueses, José Saramago (...). Na Lisboa de finais dos anos noventa, um jovem escritor em crise vê o seu caminho cruzar-se com o de um grande escritor. Dessa relação nasce uma história que mescla realidade e ficção, um jogo de espelhos que coloca em evidência alguns dos desafios maiores da literatura."

(Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto)

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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto

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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto, in Expresso, julho 2019

18.09.19

SOB O SIGNO DE SARAMAGO

Por José Mário Silva

O sétimo romance de José Luís Peixoto, lançado simultaneamente em Portugal e no Brasil, é um sofisticado jogo de espelhos em torno do Nobel da Literatura de 1998

 

José escreve mais um fragmento da vida de Saramago: o instante em que este termina de escrever, no início de julho de 1997, o romance “Todos os Nomes”. No centro desse livro está um funcionário do Registo Civil chamado José. E esse José é só o início de uma cascata de Josés, porque ele está a ser escrito por outro José (Saramago), por sua vez escrito por outro José (o protagonista de “Autobiografia”), escrito ainda por outro José (Luís Peixoto), o autor do romance em que esta espécie de boneca russa literária se vai modulando, por entre jogos de espelhos, intertextualidades e um ímpeto metaficcional que atinge o apogeu no capítulo 20, quando finalmente se revela e explica o segredo que aproxima um velho escritor de 75 anos, já consagrado mas à beira da glória maior do Nobel, e um jovem literato, ainda a dar os primeiros passos, mas já angustiado pela perspetiva de não conseguir escrever o seu segundo romance.

 

A encomenda de uma biografia de Saramago, por parte do seu editor, só traz mais caos à vida já muito caótica de José. Ele só consegue aproximar-se ficcionalmente desse autor que o intimida e paralisa, recriando episódios do seu percurso como se fossem cenas de um romance, enquanto os seus problemas pessoais se acumulam, do vício do jogo ao problema do alcoolismo, passando pela relação amorosa com Lídia, uma caboverdiana que vive num prédio degradado da Quinta do Mocho. A literatura invade tudo e não só as figuras com que se cruza ecoam nomes saídos de livros de Saramago — Lídia, de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”; Bartolomeu de Gusmão, de “Memorial do Convento”; Fritz, de “A Viagem do Elefante”; Raimundo Silva, de “História do Cerco de Lisboa” —, como há toda uma subtil rede de referências que estabelecem uma relação visceral entre o mundo em que José se movimenta e o universo literário do escritor que deve biografar. Um dos encontros entre José e Saramago, por exemplo, acontece no quarto do Hotel Bragança em que Ricardo Reis fica hospedado. E Fritz perde a visão de repente, ao viajar para Goa, como se fosse mais uma vítima da epidemia descrita em “Ensaio sobre a Cegueira”.

 

O principal risco de “Autobiografia” era esgotar-se no plano da mera homenagem engenhosa, mas Peixoto evitou essa armadilha, ao construir uma narrativa que se expande em várias direções, acumulando camadas de complexidade. Por um lado, cada personagem secundária surge com uma identidade forte e bem desenvolvida, como é o caso de Bartolomeu, “retornado” amargo que nunca perdoou as alegadas traições da descolonização. Por outro, traça-se, em pano de fundo, um retrato sociológico de Portugal nas vésperas da Expo-98, esse momento de ilusão quanto ao progresso efetivo do país depois da adesão à Europa.

 

Na véspera de partir para o Brasil, onde o livro está a ser lançado em simultâneo com a edição portuguesa, José Luís Peixoto falou ao Expresso deste seu sétimo romance, em que muitos detetarão eventualmente uma rutura estilística que o próprio se apressa a negar. “É um livro que não surge do nada. Várias das reflexões sobre a natureza da criação literária já estavam em livros anteriores. Acho que há muita continuidade com o que fiz antes.” Quanto ao título, propositadamente ambíguo, lembra que a questão autobiográfica está presente desde o primeiro livro, “Morreste-me”, sobre a figura do pai e o impacto brutal do seu desaparecimento num rapazinho de Galveias, aldeia próxima de Ponte de Sor que aparece recorrentemente na sua obra, como uma espécie de epítome de uma ruralidade desaparecida.

 

Numa das várias notas de rodapé com que José vai comentando a sua ficção de pendor biográfico sobre Saramago, pode ler-se que a literatura consiste em “contar-me a mim próprio através do outro e contar o outro através de mim próprio”. Peixoto admite que é essencialmente nisso que acredita, antes de acrescentar: “Na ficção procuro sempre uma troca, talvez impossível, entre eu e os outros. É nessa impossibilidade, mas também nesse desejo, que a literatura acontece.” E se a dimensão autobiográfica nunca está ausente, convém “calibrá-la” para que se torne eficaz: “Nem de mais nem de menos. Os elementos que vou buscar à minha própria experiência, e há vários neste livro (por exemplo, eu morei, como o José, num rés do chão nos Olivais), servem para garantir uma certa coerência, porque o real é sempre coerente. Esses elementos são como as rodinhas a mais na bicicleta, uma forma de evitar a queda em incongruências que podem quebrar o pacto estabelecido com o leitor.”

 

Há uma razão forte para que José Luís Peixoto tenha escolhido Saramago, e não outro escritor qualquer, para esta sua experiência de aproximação, e por vezes quase apropriação, de um universo literário alheio. O facto de o seu primeiro romance, “Nenhum Olhar” (2001), ter vencido o Prémio José Saramago como que se lhe colou à pele. “Ainda hoje, no estrangeiro, associam-me ao nome dele e isso assume um peso grande na forma como sou lido noutras línguas.” O facto de ter conhecido pessoalmente o escritor também foi determinante: “Aos 26 anos, via nele a personificação das minhas ambições. Era uma espécie de sonho andante.” No momento de escrever o livro, o respeito e a admiração podiam ser um entrave, mas não foram. “Para escrever um livro como este, era preciso assumir muito claramente que o Saramago que surge nestas páginas é uma personagem. O meu trabalho foi encontrar essa personagem, sabendo que nunca corresponderia completamente à pessoa real. E quis mostrar um Saramago humano, com dúvidas, com defeitos, com dilemas e aspetos menos positivos.” No fundo, olhou para ele sem reverências ou endeusamentos, tal como olha para as outras personagens. Para reconstituir alguns momentos da vida de Saramago, livremente narrados por José, leu todas as biografias disponíveis, as entrevistas longas e os livros de memórias sobre a infância. Mas sempre consciente dos limites estreitos em que se movia: “Quando eu nasci, já Saramago vivera mais de metade da sua vida. Aquilo de que tenho mais consciência é do tanto que me escapa do que foi a existência dele. Escapa-me a mim e acho que nos escapa a todos.”

 

Em “Autobiografia”, um aspeto que aproxima o José jovem do José consagrado é a forma como ambos vivem a angústia do segundo romance. No caso de Saramago, depois de “Terra do Pecado” (1947), levou seis anos a concluir “Claraboia”, um livro que se haveria de perder na editora em que o entregou, só sendo publicado postumamente. O trauma dessa experiência, a que se juntam outros romances iniciados mas não terminados, levou a uma espécie de travessia do deserto, de que só começaria a sair nos anos 60, antes da explosão do romancista, já nos anos 70. “Essa angústia do segundo romance fascina-me e fiz dela um dos temas centrais do livro. Uma angústia que também existiu para mim, claro. Depois do primeiro livro, já não está tudo em aberto e o caminho a seguir é sempre um dilema. No meu caso, a forma de o resolver foi um pouco extremada. Optei por escrever, quase de forma terrorista, um livro [“Uma Casa na Escuridão”] que fosse o mais radical possível.”

 

Se Saramago ainda fosse vivo, teria Peixoto coragem de escrever este livro? “Não sei. Acho que não. Para ser sincero, acredito que ele até poderia gostar do livro e não ficaria de certeza ofendido. Eu é que ficaria intimidado.” Quanto a Pilar del Río, que também surge como personagem, nomeadamente numa cena em que adormece ao lado de Saramago, na passagem de ano de 1997 para 1998, enquanto o escritor imagina o que o ano lhe trará (e sabemos que será o Nobel de Literatura), o problema era outro. “Foi complicado mostrar-lhe o livro, porque tive de domesticar, na minha cabeça, a especulação infinita sobre qual poderia ser a sua reação.” A reação pode ser lida numa das badanas e é uma espécie de aval entusiasmado. “Essa resposta tornou tudo mais fácil. Foi um grande alívio constatar que percebeu exatamente o que eu quis fazer. A Pilar entende, como poucos, o que é a literatura. E soube ver que este livro é só isso: literatura.”

 

(Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto)

 

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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto

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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto, in Jornal de Letras, julho 2019

28.07.19

UM NOTÁVEL TEMPO NARRATIVO

Miguel Real

 

 

No futuro, Autobiografia talvez se venha a constituir como o melhor romance de José Luís Peixoto (JLP) publicado até 2019, não por conter José Saramago e Pilar como personagens, não por inovar estilisticamente face à obra anterior, mas pelo notável trabalho sobre a categoria de tempo narrativo, que, deveras, ainda que firmado sobre o tempo real, especificado no texto com algum pormenor, assume a função maior de organização estrutural do romance.

 

De facto, o registo da escrita de JLP permanece igual: um cruzamento original entre um explícito realismo (nome de ruas, bairros, descrição física e psíquica de personagens, origem geográfica ou étnica destas, profissões, condições familiares…) e um lirismo descritor de situações sociais labirínticas que, contra a vontade das personagens, as arrastam para o fracasso, um fracasso descrito de um modo fatal, inevitável, ainda que com palavras suaves, como se fosse próprio do homem não realizar-se. O lirismo, em JLP, reside na impossibilidade de se realizar o que deveria ser realizado, lançando as personagens num jogo mental não trágico de compensação e substituição.

 

Bucelas, Bairro da Encarnação e Bairro das Colónias em Lisboa, Pangim-Goa, Santo Antão-Cabo Verde, Quinta do Mocho-Sacavém e Lanzarote constituem-se como as bases do realismo de Autobiografia. Saramago/Pilar, José/Lídia, Bartolomeu de Gusmão (lembram-se?), Fritz e os pais, Mãe de José são, com excepção do primeiro par, seres fracassados, que parecem arrastar-se num tempo de decadência das suas vidas (Bartolomeu, Fritz, Mãe de José), que igualmente aprisiona as personagens jovens (José, Lídia, Domingues), incapazes de criar um tempo realizador novo.

 

O tempo narrativo nasce da inter-relação entre os momentos da existência das personagens, formando um puzzle, no qual, porém, um novo momento temporal da narração não só condensa todos os momentos e factos narrados anteriormente como revela um sentido antes oculto à história narrada, como se, em cada capítulo, uma outra estória estivesse a acontecer e o romance avançasse por camadas sucessivas. Não se trata de cronologia, aqui totalmente subvertida, não se trata de continuidade ou de sucessividade narrativa (não existe um fio de ligação senão que são sempre as mesmas personagens, estas porém evidenciadas coleidoscopicamente, como se em cada capítulo brilhasse apenas uma vertente), mas de acumulação de acontecimentos, como se fossem estratos geológicos uns sobre os outros. A estrutura temporal de Autobiografia é, assim, um tempo de acumulação de acontecimentos cuja presumível unidade ou fil rouge só pode ser conferido pelo leitor. É a grande participação do leitor, prestar unidade ao que é mostrado multiplamente, detectar o todo onde só se vê partes. Autobiografia exige, assim, um leitor nada preguiçoso, aliás, convidado pelo narrador a participar, já que em certos momentos, fundem-se narração da realidade exterior e a própria realidade exterior, narrador e leitor.

 

Não é de admirar, portanto, que consoante o leitor privilegie uma personagem (por exemplo, Bartolomeu, retornado de Angola, Fritz de família com origem em Goa, depois Lourenço Marques, depois Viena de Áustria; ou Lídia, de Santo Antão, depois Quinta do Mocho…), assim tenha uma visão geral diferente do romance: o de um Império a desfazer-se (Fritz, que “cega” no retorno a Goa), a do “retornado” africano como um faz-tudo exilado em Portugal, capaz de reconstruir a vida, de enriquecer de novo a partir de diamantes trazidos enfiados no ânus; a de Lídia cabo-verdiana, serviçal dos portugueses, arrastada na miséria, sem nunca perder a doçura e a alegria; a de Domingos, cabo-verdiano que sobrevive pela violência…).

 

No centro desta teia, emerge Saramago e, acessoriamente, Pilar, representada de um modo passivo e não como o intenso amor maduro do escritor (e é pena!). No centro do romance está Saramago e no centro desta personagem está um segredo, que o une a José, o jovem escritor de um primeiro romance, que anseia por escrever o segundo. O editor  – Raimundo Benvindo Silva, que JLP eleva de revisor e autor a editor –, diferentemente, propõe-lhe escrever uma biografia de Saramago, que José aceita hesitantemente.

 

Não devemos revelar o “segredo”, nem devemos revelar se, afinal, José escreve ou não a biografia de Saramago, já que seria anular o efeito suspensivo que o autor imprimiu a Autobiografia – duas revelações só feitas perto do final. E, no caso do título, nem nós temos a certeza qual o verdadeiro autor de “autobiografia”, se Saramago, que assim teria inventado a personagem José para se auto-retratar, e todo o romance seria seu enquanto personagem, se de José, que assim escreveria um romance a narrar a terrível passagem entre o primeiro e o segundo romances. Quem é o autor implícito de Autobiografia, já que o explícito é JLP? A resposta a esta questão, que só pode ser pensada a partir da leitura dos momentos finais, decide a totalidade da interpretação e do sentido do romance. Comprovando a noção de tempo acumulativo (um momento sobre outro, mas não necessariamente um momento causado e derivado do anterior), da resposta que o leitor deduzir, decorrerá o sentido total de Autobiografia.

 

Não hesitamos em qualificar Autobiografia como o melhor romance português publicado até ao verão de 2019.

 

(Crítica do romance Autobiografia, de José Luís Peixoto)

 

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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto

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Excélsior, México

29.11.18

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José Luís Peixoto, el Magallanes de la literatura

“Me encanta escribir sobre lugares lejanos en la misma dimensión que me interesa escribir sobre lo más íntimo”, afirma en entrevista el novelista portugués

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PASCAL BELTRÁN DEL RÍO

El viaje y la aventura marcan la vida y la obra de José Luís Peixoto (1974), uno de los escritores portugueses contemporáneos más reconocidos. Nacido en el entorno rural del pequeño pueblo de Galveias, junto al mar, al que considera su fuente creativa y al que siempre regresa, al novelista le fascina recorrer nuevas y lejanas geografías e, incluso, puede confeccionar sus textos en los aeropuertos y hoteles de distintos países.

 

En entrevista con Excélsior, acepta que, de alguna manera, ha heredado el espíritu aventurero de sus paisanos, los célebres navegantes y exploradores Vasco de Gama (ca. 1460-1524) y Fernando de Magallanes (1480-1521), porque el viajar le permite descubrir al otro y, al mismo tiempo, a sí mismo.

 

“Me encanta escribir sobre lugares lejanos en la misma dimensión que me interesa escribir sobre lo más cercano, lo más íntimo. Muchas veces es importante mirar las cosas desde lejos, tener perspectiva, y compararlas”, comenta.

 

El autor de Dentro del secreto y El camino imperfecto, libros inspirados en sus viajes por Corea del Norte y Tailandia, respectivamente, afirma que en 2012 se percató de que había estado escribiendo acerca de temas como la familia, su pueblo y su realidad y le cautivó la idea de nutrirse “de algo tan lejano como estas naciones”.

 

De hecho, pondera el tema del turismo. “Te hace reflexionar sobre cómo miramos al otro, lo que esperamos del otro, lo que el otro hace. Todo ese mundo que al final es también una construcción cultural, además de una actividad económica potentísima que mueve a millones en todo el mundo. No es un tema muy romántico ni muy literario, pero, en la historia de la literatura, los nuevos temas siempre encontraron su lugar, porque ésta es un cuestionamiento de todo”.

 

El licenciado en Lenguas y Literaturas Modernas por la Universidad Nova de Lisboa detalla que sus novelas han tomado forma en diferentes partes del mundo. “Escribo mucho fuera de casa. Incluso, las habitaciones de hoteles me parecen un lugar perfecto para trabajar. Cuando viajo me gusta llevar conmigo algo que garantice mi estabilidad y eso es el trabajo que hago, un texto. Ahora estoy terminando una historia y algunas de sus páginas las hice en México, otras en Japón, en España y distintos países de Europa”.

 

Agrega que también las reflexiones para hacer sus novelas se han suscitado en diversos países. “Viajar es un estímulo constante. Supongo que para escribirlas hay que desarrollar una actividad intelectual íntima y mantenerla, pero cuando el entorno cambia, recibes estímulos y conocer personas; es un material rico”.

 

Quien obtuvo el Premio de Literatura José Saramago en 2001, por su primera novela, Nadie nos mira, piensa que, en una sociedad cuyo motor es internet, las fronteras no deben existir ni entre las naciones ni entre las manifestaciones artísticas, como la música y la literatura.

 

“La tecnológica es la más grande revolución que hemos tenido, desde la Industrial. Internet ha cambiado cosas tan importantes como la forma de consumir información, la manera como nos relacionamos, como nacen los movimientos sociales y las opiniones colectivas. Y eso es lo que está en juego.

 

“Si, por un lado, internet ha hecho que las relaciones sean más fluidas en una dimensión donde no hay fronteras, también es cierto que hay necesidades de identidad, de propiedad, que generan polémicas y problemas que tienen una repercusión tan concreta”, añade.

 

El autor de Cementerio de pianos admite que hay muchas dimensiones de este debate. “Pero me parece que el camino del mundo pasa por borrar las fronteras, no sólo por la cuestión de la economía. Sin embargo, los aspectos propios de cada cultura encontrarán la manera de sobrevivir”.

 

Entorno rural

 

A pesar de su fascinación por los viajes, Peixoto reconoce que su casa de Lisboa es su lugar preferido para trabajar y que el entorno rural que rodea a su pueblo natal, Galveias —que da título a otra de sus novelas—, es y será su fuente creativa. “Ha sido el escenario más sencillo y el primero en que pensé. Como ahí nací, crecí y viví hasta los 18 años, a la hora de escribir una novela, lo que tenía para decir venía de ese mundo. Y, desde entonces, supongo, porque todavía tengo cuestiones que están ubicadas ahí y me hacen pensar y son pertinentes, lo retomo con frecuencia”, indica.

 

Dice que vuelve siempre que puede, porque es como visitar la fuente. “Nunca tengo dudas de que ése es mi lugar. Cuando estoy en sitios lejanos, siempre sé que el centro de mi mundo se ubica en ese pueblo de poco más de mil habitantes. Viajando, no pasa un día en que no me acuerde de Galveias”, confiesa.

 

El narrador, cuya obra se ha traducido hasta hoy a 26 idiomas, evoca que fue en este lugar, enclavado en la región de Alentejo, donde se hizo lector, primero, y escritor después, gracias a una biblioteca ambulante que llegaba una vez al mes y se estacionaba en la plaza principal.

 

“Recuerdo que el bibliotecario, se llama doctor Dilis, a quien todavía tengo oportunidad de encontrar, me daba algunas sugerencias de lectura que me cambiaron la visión de lo que podría ser la literatura. Es una persona ya mayor, pero sigue con esa sabiduría que le encontraba. Esa biblioteca traía una gran cantidad de libros que eran pequeños mundos, y mis amigos y yo descubríamos cada mes”, señala.

 

En esta villa, el autor de Te me moriste también exploró, en plena adolescencia, su gusto musical por el heavy metal. “Aprendí a tocar la guitarra y el saxofón. A veces, en casa, solo, sigo tocando. Claro, ahora tengo 44 años y ya no soy tan radical para escuchar un solo género musical. Pero el heavy metal es como una vocación que tengo desde temprano”, especifica quien ha trabajado con varios grupos, tocando y escribiendo letras de canciones.

 

Por ello no cree en las fronteras entre las manifestaciones artísticas. “A mí me agradó que el cantautor Bob Dylan ganara el Nobel de Literatura, pues ha generado una polémica sobre las fronteras de lo literario. Y veo que estas fronteras tienen muchos policías viendo que estén bien definidas. Pero yo dudo que estén tan bien definidas. Todo eso me divierte”.

 

Tatuajes y alcornoques

 

También los tatuajes son importantes para este escritor que visita por segunda vez la Feria Internacional del Libro de Guadalajara, pues posee varios. “Los tatuajes son metáforas, siempre representan algo amplio, siempre son un símbolo, una marca. Y su significado cambia con el tiempo. Tienen ese aspecto definitivo. Los comparo mucho con la literatura, porque son algo que se queda. Son algo íntimo y personal”.

 

Quien nació en el año que estalló la Revolución de los Claveles —levantamiento militar del 25 de abril de 1974 que provocó la caída de la dictadura que dominaba Portugal desde 1926—acepta que la muerte es un tema recurrente en sus libros.

 

“Uno puede llevarse la vida buscando una respuesta y no encontrará una que se quede de manera definitiva. Nuestra relación con eso desconocido cambia, porque cambiamos nosotros, nuestra edad, nuestra perspectiva. Es un gran tema, porque pensar sobre la muerte es pensar sobre la vida, sobre cuáles son las cosas que quiero dejar hechas, cuáles son mis perspectivas. Es interesante desarrollarlo y, sobre todo, proponerlo a los lectores”.

 

Quien convivió con José Saramago, el único Nobel de Literatura luso, la última década de su vida —“lo miré como un ejemplo, me influyó no sólo a nivel literario, sino también humano y de postura social”—, termina la entrevista evocando el alcornoque, árbol que aparece en sus libros. “En mi pueblo es la más grande riqueza. Durante el tiempo que se saca el corcho de los árboles, en el verano, los hombres interrumpen sus trabajos y se van a sacar el corcho de los alcornoques. El material más noble. Es símbolo de mi región y un dato importante de mi memoria”, concluye.

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El Tiempo, Bogotá, Colômbia

26.04.18

El mundo particular de José Luís Peixoto

Peixoto es uno de los nombres más importantes de la actual literatura portuguesa. 

 

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 “Hasta mis 18 años viví en un pueblo de mil personas en la región rural del Alentejo. Ahí, durante mi niñez, cada mes, llegaba un coche lleno de libros. Se aparcaba en la plaza principal y yo tenía la oportunidad de llevarme cuatro o cinco libros que debía devolver el mes siguiente. De esa manera he leído a muchos de los más importantes escritores portugueses y también a autores esenciales de la literatura internacional. El motorista/bibliotecario era una persona muy interesante. Me daba consejos sobre lectura. En mi casa no teníamos muchos libros, pero mis padres sentían un respeto muy grande por ellos”.

 

Así fue el primer contacto de José Luís Peixoto con los libros y con la lectura. Nacido hace 43 años en Galveias, un pueblo pequeño del interior de Portugal, Peixoto es poeta, novelista, cuentista, dramaturgo. Ha sido traducido a más de veinte idiomas y cuenta con varios reconocimientos, entre ellos el premio José Saramago, que recibió en el 2001 por su primera novela, Nadie nos mira. “Es una de las revelaciones más sorprendentes de la literatura portuguesa reciente. No tengo ninguna duda de que es una promesa segura de un gran escritor”, dijo Saramago sobre él. Y en efecto: de promesa se ha convertido en realidad. Pero la lista de premios no es lo que más habla de José Luís Peixoto. O por lo menos no es lo más importante. Son sus propias palabras, las que ha dejado en libros como Te me moriste, Galveias, Cementerio de pianos o En tu vientre. Libros que hablan de la tierra, de la familia, de las ausencias, de las muchas formas del amor y también del dolor. Libros que dicen no solo con palabras, sino con silencios.

 

–Empezó escribiendo poesía. ¿Cómo nació su interés por ella?

–La relación con la poesía es muy importante en la narrativa portuguesa actual. Supongo que esa presencia tiene que ver con la gran tradición poética en mi país. ¿Cómo podríamos escribir en este idioma sin tener en consideración la obra de Fernando Pessoa? Pero hay otros grandes poetas portugueses cuya influencia es importante para mí. Hasta el momento he publicado tres libros de poesía y volveré a publicar otro muy pronto. No he dejado de escribirla. Desde un punto de vista formal y conceptual, tengo la impresión de que la poesía es una condensación de muchos de los principios que intentamos desarrollar en la narrativa.

 

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Prosa que también es poesía. Así es la obra de Peixoto, se trate de una novela o de una crónica de viajes. El primer libro que escribió, a los 21 años, nació después de la muerte de su padre. A partir de ese momento dejó claro la que sería una de las características de su obra: la presencia de lo autobiográfico. En Te me moriste (publicado en el 2000), Peixoto narra el regreso a la casa paterna, un camino que transita rodeado de recuerdos. “Es un texto que surgió de manera muy natural –dice–. Después de la muerte de mi padre, no tenía otro tema. Entonces, despacio, empecé a escribirlo, incluso como manera de entender lo que estaba pasando en mi vida. Luego de terminarlo, tardé cuatro años en percibir que se trataba de un texto muy distinto a los que podría escribir después. Ya había acabado mi primera novela cuando decidí publicarlo por mi cuenta. Estaba convencido de que nunca me arrepentiría de que ese fuera mi primer libro. Y sigo teniendo la misma idea. Lo veo como un libro muy importante para mí. En él está presente mucho de lo que sigo trabajando hoy”.


–Está marcado precisamente por la relación padre-hijo, que aparece en muchos de sus libros.

–Sí, de algún modo continué trabajando ese tema en mis primeras novelas. Me parecía que todavía tenía mucho que decir sobre ese asunto. Por un lado, mi experiencia personal, como hijo y como padre, me ha llevado ahí; por otro, me di cuenta de que la reflexión sobre esa relación me permite hablar de muchos otros asuntos, como la cuestión de las generaciones, de las edades, del paso del tiempo, de la mortalidad. También trae planteamientos muy importantes sobre la identidad, por ejemplo. Por algo en tantas religiones la relación entre padre e hijo es tan central y simbólica. 

 

Otro de los libros de Peixoto en el que esta temática está presente es Cementerio de pianos (2006). En él narra la historia de tres generaciones de una misma familia y tiene como uno de sus personajes al maratonista portugués Francisco Lázaro, el primero en su país en asistir a unos Juegos Olímpicos, en 1912. Lázaro, un deportista aficionado que en realidad era carpintero, murió durante su participación en el torneo. En Cementerio de pianos habla un padre y habla un hijo. El tiempo se mueve en todas las direcciones en esta obra, considerada la mejor novela extranjera publicada en España en el 2007. En sus páginas hay un taller de carpintería. Es un espacio importante no solo para la trama, sino para la vida de Peixoto: “Mi padre era carpintero. Pasé mi niñez entre madera. De algún modo, Cementerio de pianos es una continuación de Te me moriste. Uno habla del duelo, el otro habla del resultado del duelo, de cómo uno encuentra consuelo en la idea de hacer parte de algo que es mucho más grande que su propia vida”.

 

–Es frecuente encontrar en su obra el lugar donde nació. ¿Cómo recuerda su infancia en Galveias?
–Fue una infancia muy rica en estímulos, en presencias. Vivir en un pequeño pueblo te permite conocer mucha gente, más que en las ciudades. En los pueblos se sabe de todo el mundo. En Galveias, yo conocía a mil personas. Es mucha gente, son muchos personajes. Al mismo tiempo, la libertad absoluta que tenía me permitió enterarme de realidades a las que, de otra manera, tendría difícil acceso. Como ayudaba a mi padre, y después empecé a trabajar en distintos empleos durante el verano, la infancia me dio una buena resistencia al esfuerzo y al trabajo. Algo que ha sido muy útil en mi vida.

 

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–Esas historias que conoció en su pueblo, esas personas, se han convertido en tramas y personajes de sus novelas, entre ellas la primera que escribió, Nadie nos mira, y la que lleva su nombre, Galveias. ¿Cómo fue la escritura de estos libros? 
–Cuando escribí Nadie nos mira no estaba seguro de que podría escribir una novela. Creo que esa siempre será una duda importante para cualquier lector de grandes novelas. Pero, en ese tiempo, escribirla era una cuestión de sobrevivencia. Fue un periodo difícil de mi vida, y esa novela me ayudó mucho. La historia de Galveias, por su parte, me ha acompañado desde hace muchos años. Era una novela que quería escribir antes de morir, y me siento muy satisfecho de haberlo hecho ya. Las dos novelas conforman dos polos de una comparación importante. Nadie nos mira, sin tiempo y casi sin lugar; Galveias, que se desarrolla en 1984 y concretamente en ese pueblo. Esta novela da referencias precisas. Eso marca mucho la diferencia. Escribir es nombrar. 

 

–¿Cómo es hoy su relación con su pueblo?
–Es una relación sagrada. Galveias es mi piel. Hay mucho que solo siento allí.

 

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JOSE LUÍS PEIXOTO nació en 1974, un año que marcó la historia de su país y prácticamente partió en dos la vida de Portugal: el año de la Revolución de los Claveles, del levantamiento militar que puso fin a la dictadura de António de Oliveira Salazar, que controló durante décadas el destino de los portugueses. Haber nacido en ese año tampoco fue un hecho menor para el escritor: “Esa es una de las influencias más grandes de mi literatura y de mi vida. Me parece, incluso, que es la gran marca que junta a los escritores portugueses de mi generación. La literatura nunca es ajena a la historia”. Peixoto creció en un mundo de libertad que no conocieron las generaciones anteriores. Empezó a alimentarse de influencias culturales que por fin cruzaban las fronteras y llegaban a su país. Entre ellas la música. Y una en especial: el heavy metal. Es un serio aficionado a este género musical y ese interés lo ha llevado a escribir un libro de cuentos, Antídoto, en el que cada relato tiene conexión directa con canciones de Moonspell, la banda de metal más conocida de Portugal. “Supongo que el heavy metal ha representado durante muchos años mis ganas de llegar a otras realidades y, al mismo tiempo, la afirmación de mi identidad. Hoy es una de las marcas de mi entusiasmo adolescente, una señal de intensidad. Esos valores siguen siendo muy influyentes en lo que escribo, aunque no siempre sean visibles”.

 

–Algo que se ve a simple vista es el tatuaje que lleva en uno de sus brazos, con el nombre del condado imaginario de William Faulkner: Yoknapatawpha...
–Ese es un tatuaje que me recuerda mucho la obra de Faulkner. Y también otras cosas que tienen que ver con mi historia, con la persona que intento ser cada día. 

–Hay un aspecto en común entre su obra y la de Faulkner, a quien usted ha citado siempre como una de sus influencias: lo rural. ¿Por qué el interés en narrar el mundo del campo, la comunidad alejada de las grandes ciudades y del “gran desarrollo”?

–Mi historia personal me ha dado la oportunidad de percibir que el modelo de desarrollo que seguimos no es el mejor camino, en muchos aspectos. La literatura tiene la oportunidad de contribuir en la reflexión sobre los rumbos que tomamos. En este tiempo de avances tecnológicos acelerados, hay cuestiones que tenemos que considerar antes de seguir ciegamente ciertos horizontes. En el mundo rural continúa existiendo una relación más próxima con la naturaleza. Nosotros somos parte de la naturaleza, somos seres naturales. Es importante no perder esa noción. La necesitamos. Así como necesitamos poder mirarnos, poder sentir el tiempo. Respirar.

 

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HAY UN POEMA de José Luís Peixoto que se llama A la hora de poner la mesa éramos cinco. Así dice, en su traducción al español:

A la hora de poner la mesa, éramos cinco:
mi padre, mi madre, mis hermanas
y yo. después, mi hermana mayor
se casó. después, mi hermana pequeña se casó. después, mi padre murió. hoy, a la hora de poner la mesa, somos cinco,
menos mi hermana mayor que está
en su casa, menos mi hermana
pequeña que está en su casa, menos mi padre, menos mi madre viuda. 
cada uno de ellos es un lugar vacío en esta mesa en la que como solo. 
pero estarán siempre aquí.
a la hora de poner la mesa, seremos siempre cinco.
mientras uno de nosotros esté vivo, seremos siempre cinco.

 

–Ahí está en buena parte la esencia de su obra, ¿no es así?
–Ese es un poema muy especial. Lo publiqué en mi primer libro de poesía y, algunos años después, hice que un personaje de Cementerio de pianos lo leyera. Esa fue una manera de volverlo a publicar. El poema habla por sí mismo: habla de la familia, de la identidad y del paso del tiempo. Temas centrales de mis libros. De cierto modo creo que ese poema es el pequeño corazón de todo lo que he escrito hasta hoy. 

–¿Cómo es su método a la hora de escribir? 
–Es un método un poco obsesivo. Necesito estar muy concentrado. Escribo muchísimo antes de la versión definitiva. Leo muchos libros de otros autores mientras escribo. No tengo ningún problema con las influencias, incluso las busco. Y escucho mucha música también. Heavy metal casi siempre.

 

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Concentrado como ha estado siempre en lo más cercano, en sus realidades más próximas, llegó el momento en que Peixoto sintió la necesidad de mirar hacia algo más lejano. De entender realidades que no le eran familiares. Fue cuando tomó rumbo a un país que siempre le había parecido interesante, precisamente por el misterio que lo acompaña: Corea del Norte. Le interesaba escudriñar la vida cotidiana de esa nación, y también probarse en la literatura de no ficción, en la escritura documental. Así nació Dentro del secreto (2014), en el que describe los detalles grandes y pequeños de este país conocido por los excesos del mandato totalitario de Kim Jong-un. Para Peixoto –que estuvo cinco veces en Corea del Norte y varias más en Corea del Sur–, esa fue una experiencia que cambió su vida. Y ahí no se detuvo: recorrió también Tailandia y publicó después su visión en el libro O Caminho Imperfeito, en el que hace un retrato detallado de este país.

Su novela más reciente se titula En tu vientre y tiene como contexto la aparición de la Virgen de Fátima, un hecho fundamental para los portugueses, sean creyentes o no. La obra tiene como protagonista a Lucía, la niña que dijo haber visto a la Virgen, junto a los otros dos pastores, Jacinta y Francisco. También está presente en la historia la madre de Lucía –que no cree lo que su hija dice–, la madre del narrador –que se vuelve un personaje omnipresente y poderoso–, y por supuesto: la madre bíblica. Todas son fundamentales en el desarrollo de la novela. Porque En tu vientre, más que buscar definir si fue real o no el milagro de la aparición de la Virgen, tiene otro propósito: hablar de la maternidad. “Es cierto –dice Peixoto–. Este libro tiene como primera referencia la aparición de la Virgen de Fátima, pero a un nivel más profundo trata de las madres en general. Ese aspecto está relacionado con la importancia del culto mariano en el catolicismo portugués. Desde esa perspectiva, la veo también como una novela sobre la identidad portuguesa”. Y en ella se siente el mismo tono poético de todos sus libros. Cada frase en Peixoto cumple su propósito.

 

–¿Cómo es trabajo con las palabras, cómo se relaciona con ellas?
–En mis novelas no hay una sola palabra que no haya sido elegida, que no esté ahí después de haber buscado alternativas. Cada palabra tiene que ganarse el derecho de estar. Lo más importante al escribir es la conciencia. Escribir literatura es escribir despacio.

 

 

Por: María Paulina Ortiz

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El Espectador, Bogotá, Colômbia

24.04.18

José Luís Peixoto: "Pessoa y Saramago abrieron las puertas que aún usamos"

 

El escritor portugués José Luís Peixoto, una de las plumas más destacadas de su generación, está convencido de que la literatura lusa vive un buen momento en España y América Latina gracias a las puertas que abrieron Fernando Pessoa o José Saramago y que su compañeros, dice a Efe, "aún" usan.

 

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Es parte de la llamada "herencia recibida" de la que gozan contemporáneos como él que, sostiene, cuentan con referencias ante las cuales se debe "estar a la altura" y "puertas abiertas" en todo el mundo que "aún son utilizadas" por escritores de su generación.

 

"Siento que algo común a esta generación de autores es no gritar una ruptura con lo anterior, no 'asesinar al padre', porque siento que estamos cómodos con esa herencia", agrega en una entrevista con Efe en Funchal, capital del archipiélago luso de Madeira, durante el Festival Literario que se celebra en la isla. (Lea: El evangelio según Saramago)

 

Allí, el autor de "Galveias" o "Te me moriste" ha participado en una charla sobre los objetivos de la literatura, actividad que a su juicio "tiene siempre una dimensión política social".

 

Peixoto (Galveias, 1974) ha dado constantes muestras de ello en sus novelas, frecuentemente ambientadas en el mundo rural portugués y con abundantes elementos biográficos, pues él mismo no llegó a la ciudad hasta los 18 años, cuando se marchó a estudiar a Lisboa. Su interés por el interior del país le ha valido un buen número de premios -llegó a ser el vencedor más joven de la historia del Premio José Saramago por "Nadie nos mira"-, y una suerte de fama como retratista de las aldeas lusas, a las que solo ha apartado para abordar desde la "no-ficción" Corea del Norte o Tailandia.

 

Pero ahora Peixoto, que se resiste entre risas a aceptar que sea considerado el sucesor de Saramago ("entiendo esas palabras como un gran elogio, pero sé que nunca podría ser efectivamente su continuador") se siente impelido a regresar a la ficción.

 

"Estoy escribiendo una novela en que la ficción está más presente, aunque como en otros libros también me gusta y me parece interesante jugar con la autobiografía", comenta Peixoto, que se niega a desvelar nada más.

 

El escritor comenzó con la poesía, se pasó a la narrativa y, tras su inmersión en la no ficción (que fue todo un "desafío"), concluye que es "bueno atravesar fronteras" entre lo biográfico -y por tanto real- y la ficción, tendencia que considera "muy contemporánea".

 

En cualquier caso, también es relevante ejercer el "compromiso social", algo con lo que se siente muy identificado este autor, que emplea un tono sereno y tiene siempre la risa pronta a surgir.

 

"Cualquier escritor cuando escribe está ejerciendo su compromiso social porque está colocando en el texto gran cantidad de convicciones, incluso formales, que son también un mensaje, una idea transmitida a los otros que tiene su impacto y sus consecuencias", subraya.

 

El tema sobre el que él ejerce presión son las relaciones de familia y los roles dentro de ella, pero también "la ruralidad", un asunto que lejos de ser exclusivo de Portugal es "un problema incluso en cierta medida ibérico".

 

"He escrito bastante sobre el mundo rural, tiene mucha importancia escoger ese tema. Creo que los autores pueden llamar la atención para un determinado tema, y creo que es muy relevante hablar de eso en Portugal. Existen desequilibrios muy importantes en diversos aspectos de ese territorio", sostiene.

 

Lo sucedido el año pasado en el interior de Portugal, donde murieron más de 100 personas en incendios, "fue muy traumático" para el país, apunta Peixoto, que cree necesaria una visión a largo plazo no solo para reconstruir, sino para afrontar los retos de la zona.

 

Mientras, sus novelas, que hablan de la vida en Galveias o reconstruyen las relaciones madre e hija en torno a la aparición de la Virgen de Fátima hace un siglo, viven su mejor momento de expansión, con varias publicaciones el año pasado en México, Perú o Venezuela. Peixoto planea publicar pronto también Cuba.

 

El periplo se completa con su presencia en la próxima edición de la Feria del Libro de Bogotá, tras haber publicado tres novelas en Colombia. "Para mí es fantástico, porque siento que hay un interés y curiosidad por la literatura portuguesa contemporánea en esos países, que es muy sorprendente para mí, pero que creo que tiene que ver con la forma en que fueron abiertas las puertas por Saramago, un autor que era y continua siendo muy leído en esos países", sugiere.

 

Es también un indicador, dice, de cómo Portugal tiene "muchas veces más identificación con América Latina que dentro de la propia Europa, de la cual supuestamente formamos parte".

 

Por: Cynthia de Benito 

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El Universal, México

08.02.18

“La literatura tiene mucho que aprender de la música”

 

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 Como una de las figuras centrales de la actual literatura portuguesaJosé Luís Peixoto traza en esta entrevista un mapa de las nuevas voces de la narrativa en su lengua, y habla de las pulsiones en su propia obra: los viajes y el heavy metal.

 

POR ALMA DELIA MIRANDA

 

Chamarra y jeans negros, cuerpo atlético de quien corre todos los días sin importar la ciudad en la que se encuentre, José Luís Peixoto camina con paso decidido y bien dispuesto por lo pasillos que conducen afuera de la Biblioteca Central de la UNAM, donde el fotógrafo le ha pedido posar. Con entusiasmo, trata de explicarle a Patrícia, su mujer, qué es el chicharrón y lo bueno que sabe. Él llegó el día anterior de Brasil y ella de Lisboa, es su primera vez en México y la segunda para él. Diez años han pasado desde su visita en 2008, cuando venía arropado por el Premio José Saramago que había ganado en 2002 por su novela Nenhum olhar (Nadie nos mira) y por el propio Nobel, con quien cultivó amistad. Es otoño del 2017 y José Luís Peixoto constituye uno de los pilares de las letras portuguesas contemporáneas. Nacido en 1974 en un pequeño pueblo de la región de Alentejo, en donde no había bibliotecas locales, Peixoto se moldeó una personalidad vivaz cuya escritura no conoce límites. Su obra abarca la narrativa, la poesía, la crónica de viajes, la literatura infantil y colaboraciones con grupos musicales portugueses, la más ambiciosa hasta ahora con Moonspell, banda de heavy metal. En 2003 realizó con ellos un proyecto en conjunto: el grupo publicaría su disco The Antidote y Peixoto escribiría las narraciones de Antídotoinspirado en el espíritu del disco de la banda. Dentro del secreto (2012) recoge las experiencias del autor en Corea del Norte y O Caminho Imperfeito (2017) traza una mirada poco turística sobre Tailandia. Peixoto, quien viajó a México para participar en la edición 2017 de la FIL, mantuvo un encuentro de casi tres horas con la comunidad de Letras Portuguesas de la UNAM. Antes de firmar y dedicar varias decenas de libros, y conversar cordialmente con cada uno de los estudiantes que esperaron pacientemente en la fila, el portugués respondió a las siguientes preguntas de Confabulario.

 

Cómo lector, ¿cómo fue su encuentro con literatura?

Yo soy originario de una región del sur de Portugal, no muy lejos de la frontera con España, y ahí los libros no eran un bien muy común. Por eso, la primera conexión con la literatura, lo que cambió mi mirada, fueron las bibliotecas itinerantes. Llegaba una vez al mes a la plaza principal del pueblo y nos llevábamos los libros y los devolvíamos al mes siguiente. En esos tiempo empecé leyendo mucha literatura juvenil, como Los cinco de Enid Blyton, pero después las cosas me llevaron directamente hacia la escritura cuando descubrí la poesía. Es muy común que la poesía sea un género que les dice mucho a los adolescentes. Es una edad en la que la gente pasa por muchos cambios y por muchas cosas que son a veces difíciles de explicar o comprender y la poesía permite una reflexión y un desahogo. Para mí fue muy evidente que la poesía me permitió el descubrimiento de un lenguaje distinto al de todos los días, de una nueva manera de mirar las palabras y el mundo en general.

 

¿Y entonces cuándo se dio cuenta de que era escritor?

Eso fue sólo después de algún tiempo. Tenía entonces un respeto muy grande por los escritores. Al mismo tiempo veo ahora que era una distancia, una idea de que los escritores eran de una materia distinta y eran personas que existían en otra dimensión, pero después, cuando empecé a hacer experimentos de escritura y empecé a publicarlos en un periódico donde los jóvenes podían hacerlo, me di cuenta de que tal vez los escritores son como los otros y los distingue sólo el hecho de escribir y eso me liberó para seguir escribiendo y tener la escritura como ambición.

 

Usted estudió Letras. ¿De qué manera su paso por la universidad modificó su relación con la literatura?

Elegí Letras porque me gustaba mucho la literatura, la escritura en general. Me gustaba mucho escribir. Incluso elegí estudiar literatura en inglés y alemán, porque esas competencias ya me eran muy útiles para buscar una expresión cada vez más fiel a lo que deseaba decir y, claro, me parece que todo el conocimiento que uno pueda recoger es útil para la escritura. Si es conocimiento en él área misma de las Letras, entonces es imprescindible, se trata de tener conciencia, tener criterios y elementos que están presentes en el texto. Si no tenemos esta conciencia, no podemos buscar maneras de controlarlos o trabajarlos.

 

¿Usted nunca quiso dar clases?

Di clases en Cabo Verde y en Portugal, pero sólo durante cuatro años, porque después, en 2001, mi vida cambió mucho después de que Nadie nos mira ganó el premio José Saramago. Eso me dio la posibilidad de vivir de la escritura y es lo que he venido haciendo.

 

Usted es un viajero, ¿por qué viaja?

No es una pregunta sencilla de contestar. Es un lugar común hacer la comparación de la vida con un viaje, pero me parece que es una comparación que tiene realmente mucho que ver y ese ánimo de buscar lo que es distinto, de buscar al otro, de intentar conocerlo, me parece que es sinónimo de pulsiones elementales, fundamentales, de la vida misma. De algún modo, lo que me lleva a viajar no es tan distinto de lo que me lleva a escribir o a vivir.

 

¿Y por qué escribe sobre sus viajes?

Desde hace unos años me ha interesado mucho la escritura que tiene como base la experiencia. Desde el punto de vista de quien escribe, la experiencia hace una diferencia muy grande. Para mí, con la conciencia que intento tener de todo el gran patrimonio que ya existe de la literatura mundial, tener esa ambición de escribir algo que pueda añadir algo de nuevo a todo lo escrito es muy difícil. Por eso, sí tengo algo por seguro: la individualidad de mi experiencia, de mi mirada, de mi posición, de mi historia personal, por eso mis libros hasta el momento siguen mucho esas ideas desde hace unos años. El libro que publiqué en 2012 sobre Corea del Norte (Dentro del secreto), o el más reciente sobre Tailandia (O Caminho Imperfeito), pero desde antes, otros libros estaban conectados con mis experiencias personales, mi vida, es una literatura que dialoga con la autobiografía.

 

¿Cómo ser un viajero en tiempos del turismo?

Es un tema muy interesante, porque es un tema de hoy, es una cuestión que refleja mucho de la situación del mundo, del punto al que llegamos, de cómo miramos las cosas, cómo hacemos planes para la vida, de cómo organizamos nuestras ambiciones. Las expectativas que tenemos. Es una industria nueva que tiene por detrás una gran cantidad de equívocos y elementos que son interesantes de analizar, por eso me parece importante mirar ese aspecto.

 

En 2003 usted participó en un proyecto literario y discográfico con el grupo de heavy metal Moonspell, fuera del ámbito del metal, ¿cómo es su relación con la música?

La música tiene una importancia muy grande para la literatura. Me parece que la poesía, por ejemplo, tiene en su naturaleza misma la aspiración de llegar a ser música y, desde algunas perspectivas, la poesía es música. Y el texto literario tiene elementos musicales importantes, por eso hay que ponerles atención porque la forma y el sentido son inseparables. A mí personalmente me interesa mucho la música, por lo que aprendo de ella y por lo que la música expresa de la experiencia humana y de aspectos que muchas veces son difíciles de nombrar con palabras, pero que, sin embargo, son expresivos y cuya comprensión es importante y yo tengo algunas conexiones con el metal por mi experiencia de proyectos pasados, pero también he trabajado con otros géneros musicales y músicos de distintas áreas y con todos he aprendido mucho y espero seguir buscando esas lecciones, porque, como dije, la literatura tiene mucho que aprender de la música, porque en muchos aspectos la literatura también es música.

 

¿Estaría dispuesto a volver a tener proyectos de metal?

Ahora mismo tengo uno con un grupo pequeño de metal portugués para el cual estoy escribiendo todas las letras de un disco, eso me anima, porque es un género con el que tengo relaciones desde mi adolescencia, pero también porque es una oportunidad de trabajar con otras personas y hacer un objeto expresivo de otra naturaleza que no es sólo texto, tiene otras dimensiones. Personalmente me parece muy interesante, porque hoy en día además miramos muchos ejemplos de proyectos multidisciplinarios y cómo logran expresiones propias. Para mí mismo como escritor son una oportunidad de desarrollo y aprendizaje. Al mismo tiempo es un terreno muy poco explotado entre escritores y ese género. Me atrae porque me parece importante que uno busque la novedad.

 

Es notable en usted una gran necesidad de expresarse de diversas maneras.

Sí. Me parece que, en primer lugar, hay que buscar qué decir; luego, cuando uno lo encuentra, hay que buscar las maneras de decirlo y ahí personalmente no tengo fronteras, o mejor, siempre busco ensanchar las fronteras de esa expresión, siempre busco crear y sorprenderme a mí mismo.

 

Se refiere con mucho afecto a Saramago, ¿qué otras presencias portuguesas han sido importantes para usted?

Como dije, estudié literatura inglesa y alemana, pero muchas de las experiencias más fuertes que he tenido como lector en mi juventud han estado en la literatura portuguesa, entre ellos muchos poetas. No podría ignorar a Fernando Pessoa, me parece incluso que en portugués no puede escribirse lo que sea ignorando una obra como la de Pessoa, que es tan impactante y fuerte, pero también muchos otros, como Herberto Helder, Ruy Belo, Sophia de Mello Breyner Andresen y otros contemporáneos míos. Autores de prosa, como Miguel Torga, autores del neorrealismo portugués. Son autores importantes para mí, porque nací después de la Revolución de los Claveles, que fue un momento en el cual se publicaron muchos autores que habían estado prohibidos durante la dictadura. Por eso tuve un acceso importante a esos autores, muchos de ellos hablaban de un ambiente rural que a mí me decía mucho porque nací en un pequeño pueblo.

 

¿Cuáles son algunos de los autores portugueses que usted recomendaría que se conocieran en México?

Bien, hay muchos nombres que creo que sería bueno que llegaran. Tengo la esperanza de que con Portugal como invitado de honor a la FIL del año que viene algunas de esas lecturas puedan llegar y ser más conocidos. Una gran referencia en Portugal, un autor que no es tan sencillo de traducir y quizá por ello no sea tan conocido es Aquilino Ribeiro, o Vergílio Ferreira, Miguel Torga. Me acuerdo también de una gran autora, aún viva, pero ya muy mayor, Agustina Bessa-Luís. Y claro, generaciones más jóvenes, gente de mi edad como Afonso Cruz, Valter Hugo Mãe, Dulce Maria Cardoso. Los poetas, entre ellos hay nombres muy importantes. Los que ya nombré, Helder, Ruy Belo.

 

¿Y el teatro?

El teatro sufre de dificultades de difusión en el ámbito de la propia lengua y que provocan que no exista tanto conocimiento. Por ejemplo, no conocemos tanto del teatro que se escribe en Brasil, y ellos tampoco de lo que se hace de teatro en Portugal. La traducción del teatro portugués es aún más difícil. Eso muchas veces tiene que ver con cuestiones de mercado. Se considera que no son muy comerciales los textos de teatro y las editoriales no los publican tanto.

 

Por último, como lector, ¿cuál es la recepción de la literatura latinoamericana en Portugal?

La literatura latinoamericana circula razonablemente bien. Hay autores muy conocidos que son grandes referencias, pero se podría conocer más. A veces la literatura se queda varada en ciertas referencias, autores muy grandes que atraen toda la atención y que tienen la ventaja de abrir puertas, pero muchas veces no permiten que un público más amplio tenga oportunidad de conocer autores que no sean tan vistosos. En relación con México, se ha hecho mucho en los últimos años. Pero por ejemplo, un autor tan importante como Juan Rulfo tuvo una buena traducción apenas hace unos diez años. Con él otros autores llegarán también. Hay editores que tienen relaciones personales con México y eso es bueno porque pueden llevar la literatura. Y con la literatura va toda la cultura. La literatura tiene esa calidad, que lleva toda la cultura dentro.

 

 

En la imagen, el autor, en la Ciudad de México. / Yadin Xolalpa / EL UNIVERSAL

 

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Kúltura Pravda, Janeiro 2018

31.01.18

Kniha týždňa: Sonáta večnej rodiny

Katarína Mihalkovičová

 

 

Za posledné tri roky sa na slovenskom knižnom trhu objavili tri diela súčasných portugalských autorov (ale aj preklady poviedok či po portugalsky píšucich klasikov).

 

V roku 2015 vydal Tatran titul Maliar pod kuchynským drezom od Afonsa Cruza, imaginatívne rozprávanie inšpirované historickými udalosťami s náhľadom na Portugalsko v čase druhej svetovej vojny.

 

V tom istom roku vyšla v edícii portugal_sk Portugalského inštitútu ochutnávka hravej prózy oceňovaného autora Gonçala M. Tavaresa (dvojjazyčné vydanie jeho troch diel Pán Valéry a logika, Pán Henri a encyklopédia, Pán Juarroz a myslenie pod spoločným názvom Pán/O Senhor Valéry/Henri/Ju­arroz), a v roku 2017 nasledoval v tej istej edícii román Josého Luísa Peixota Cintorín klavírov v preklade Lenky Cinkovej.

 

Ide o generáciu autorov narodených v prvej polovici 70. rokov: vyrástli po revolúcii a ich literárne dospievanie sprevádzala dominancia Josého Saramaga, ktorá vyvrcholila jeho Nobelovou cenou za literatúru v roku 1998. Prvé diela, prozaické, básnické i dramatické, publikovali po roku 2000 a každý z nich svojsky nadväzuje na južanský lyricko-magický a realisticko-melancholický charakter portugalskej literárnej tvorby.

 

Peixoto je najmladší z troch menovaných a už za svoj debutový román Nenhum Olhar získal Cenu Josého Saramaga. Saramago ho vtedy ohodnotil slovami: „Peixoto je jedným z najprekvapi­vejších objavov v portugalskej literatúre. Tento chlap vie písať a bude pokračovateľom veľkých spisovateľov.“

 

Zlomový kontakt so smrťou

 

Peixoto prišiel v máji 2017 knihu osobne uviesť do Bratislavy. Jeho zjav – potetovaný svalnáč, ktorý v minulosti písal texty pre heavymetalovú skupinu – je v sympatickom protiklade s hĺbavým, ba až nežným tónom rozprávania v jeho knihe. Úvodným impulzom k napísaniu Cintorína klavírov bola smrť jeho otca pred dvadsiatimi rokmi. Skonal len hodinu nato, ako sa mu narodilo vnúča.

 

Peixoto zbieral materiál ďalších desať rokov, alebo ho skôr nechal v sebe dozrievať (kniha vyšla v Portugalsku v roku 2006). Okrem autobiografických prvkov použil meno a okolnosti smrti maratónskeho bežca Francisca Lázara, jeho život a úlohu v rodinnej kronike však len voľne dotvoril.

 

Zo stolárskej dielne svojho otca urobil cintorín hudobných nástrojov – miesto, kde sa uchovávajú a opravujú staré klavíry – no treba vopred konštatovať, že potenciál klavíra ako inštrumentu, ktorý má svoju hodnotu a rozmer a môže, ale aj nemusí byť prístupný všetkým, využil minimálne. Klavír občas zaznie a potom zase stíchne, no aspoň v názve vypovedá viac, a tu čitateľovi ponúkam túto interpretáciu: jemným dôkazom o portugalskej túžbe po kráse a vyššom umeleckom cítení je, že tam, kde by sa napríklad slovenský román volal možno Stolárski majstri, Peixoto predstavuje Cintorín klavírov.

 

Meditatívny rozbor narodenia a smrti, hĺbkový profil vzťahu muža a ženy, od vzplanutia až po rozklad lásky, vrchol a kríza existencie rodiny, to sú hlavné témy jeho trojgeneračnej prózy. Na začiatku je pokojná rodina, zomknutá v očakávaní neodvratných udalostí, a dva telefonáty: prvý oznamuje narodenie vnúčaťa, druhý smrť starého otca.

 

Konštrukčný hlavolam

 

Slovami autora: táto kniha sa nebude páčiť ľuďom, ktorí majú radi veci pod kontrolou. Je neusporiadaná a nedá sa vždy vyvodiť súvislosť medzi jednotlivými postavami a udalosťami. Otázne je aj to, či súvislosti, ktoré sa vyvodiť dajú a sú koniec koncov logické, boli zamýšľané tak, aby do seba zapadali, alebo išlo skôr o spontánny popud a zámer dosiahnuť podobnosť opakujúceho sa cyklu.

 

Repetícia je slovo, ktoré sa vám pri čítaní neraz vynorí v myšlienkach. Peixoto totiž experimentuje. Opakuje slová, vety, časti viet, vracia sa k situáciám, nie nutne s tými istými postavami, práve naopak, vyžíva sa v tom, že čitateľ miestami netuší, kto príbeh rozpráva.

 

Prvým „ja“ v príbehu je mŕtvy otec a starý otec, ktorého hlas je odkázaný na spomienky a pozorovanie rodiny ako vo výklade pred sebou.

 

Ďalšie „ja“ je ešte tajomnejšie, pretože takmer až do polovice knihy sa zdá, že ide o mladšiu verziu toho istého ja, ktorým je mŕtvy otec a starý otec. V bode, kedy je už nemožné roztriediť rozprávanie na kôpky s jednotlivými niťami príbehu, sa z neho vykľuje vnuk.

 

Tretím „ja“ je bežec Francisco, syn mŕtveho otca a starého otca a otec ešte nenarodeného vnuka, ktorého asociatívny sled myšlienok sa odohráva s ubiehajúcimi kilometrami maratónu.

 

Máte v tom zmätok? Vedzte, že Peixoto sa absolútne nenamáha meniť štýl alebo jednotlivé úseky rozprávania od seba oddeľovať inak než prázdnym riadkom či spomínaným počtom kilometrov. Paralelne rozohráva viaceré ľúbostné vzťahy členov rodiny, od zoznámenia cez prvé dotyky po tehotenstvo, a to všetko sa svojím melancholickým tónom nápadne podobá na kontemplatívny nádych jeho ľútosti nad neskoršou surovosťou a smrťou. Zámerne narúša akýkoľvek náznak chronológie a do vnútra svojich postáv i do okolia nahliada buď spomalenou optikou, alebo vo vlastnej alternatívnej časovej rovine. "Čakal som v čase, v ktorom som starol len ja.“ „Čas o mne nebude vedieť. Budem iný.“

 

 

Ženy

 

Táto naoko nedbalá rozhádzanosť môže byť vnímaná aj ako systém komunikácie s čitateľom, správou o tom, ako zakaždým ide o návrat späť, o rovnaké chyby, opakované emócie, nemožnosť odvolať svoje hriechy, a napokon, nemožnosť sa zmeniť. Muži sa postupne z príbehu vytrácajú a čoraz prítomnejšie sú ženy. Jedna je romantická, druhá priberá pod ťarchou manželovej nevery, tretia je vášnivá, štvrtá chladná, no všetky majú „oči, hlas a sny“.

 

Matka – „moja žena“ – trpiteľsky znáša buchnáty od manžela, vyhnanie poloslepého syna (ktorý je, mimochodom, najzaujímavejšou postavou, hoci jeho vnútorný svet nám ostáva skrytý), smrť muža a trápenie dcér, až kým sa sama bezmyšlienkovite nedopustí zlomu svojho uhladeného držania, čo je pre ňu zároveň aktom pomsty voči strate citov a snov.

 

Domáce násilie je do rodinných vzťahov schválne zapracované ako ich neoddeliteľná súčasť. Stereotypný výjav popudlivého muža opojeného alkoholom a naštartovaného tichým ženiným pohŕdaním strieda kajúcnosť a sebatrýznivé spytovanie svedomia. Príkladom interaktívnosti textu je dialóg mŕtveho starého otca s trojročnou vnučkou, ktorá mu vyčíta, že sa čitateľom ukazuje v dobrom svetle, no jeho rodina si ho takého nepamätá. Jednou z Peixotových hier je aj ľúbostný trojuholník jedného z rozprávačov s dvoma ženami bez mena, pretože takto je v spleti milovaní v cintoríne klavírov, tehotenstiev a svadieb v príbehu ešte zložitejšie určiť, o ktorý zo vzťahov v skutočnosti ide.

 

A je tu vôbec nejaká skutočnosť? „Keď budeš umierať, bude sa ti snívať, že žiješ. A kto môže povedať, či si mŕtva a sníva sa ti, že ešte žiješ, alebo či ešte žiješ a iba sa ti sníva, že si zomrela?“

 

Peixoto napísal oduševnenú „rozkladačku“ ľudského života a chce, aby sme premýšľali spolu s ním. Ak sa zhodneme na tom, že človek je na svete preto, aby sa narodil, miloval a zomrel, potom je jeho román o človeku. Ak usúdime, že narodenie, láska a smrť majú zmysel len vtedy, keď si človek uvedomuje, čo je medzi tým, potom je jeho román o tom, čo je medzi tým.

 

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