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Expresso, Agosto de 2016

28.09.16

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10 Perguntas a...

  1. As palavras gastam-se?

Não creio. Somos nós que nos gastamos. Ou, melhor, somos nós que, se não estamos atentos, nos deixamos gastar.

 

  1. Vários erros ortográficos podem dar cabo de um romance?

Há erros ortográficos feios. Ainda assim, existem os revisores e, nalguns casos, as segundas edições.

 

  1. Como nas canções com que chorámos, também a dor é mais rentável nos livros?

Não sei dizer. Aquilo que me parece desejável é que, sendo a literatura uma realização humana, não se iniba de produzir reflexão sobre algo tão humano como são os sentimentos. Acreditar que a inteligência é isenta de sentimentos é irracional, não é inteligente.

 

  1. Em Portugal temos mais dificuldade em lidar com o sucesso ou essa 'condenação' é universal?

Em Portugal ou noutros países, não me parece que exista uma condenação do sucesso. O sucesso é sempre valorizado. Mas, claro, o sucesso é bastante relativo, o que faz com que uns condenem aquilo que outros valorizam e vice-versa.

 

  1. O que te fez continuar (mais importante do que começar)?

Quando há alguma consciência, continuar é um início permanente. Ainda assim, mesmo alimentando esse desejo de consciência, não me é fácil identificar em poucas linhas tudo o que me dá energia para viver.

 

  1. Na escola devíamos aprender que os homens também choram?

Sem dúvida. Incomoda-me a superficialidade do debate "homens vs. mulheres" e a atribuição de características masculinas ou femininas. Acredito que as diferenças são biológicas e que a diferenciação é incutida socialmente.

 

  1. Qual foi o primeiro livro que te fez sentir especial?

Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano, foi um livro que li na adolescência e que me marcou muito. Foi um dos primeiros que me chamou a atenção para a escrita.

 

  1. A um filho teu lês Sophia ou Camões?

Desde que os meus filhos sabem ler que não tenho hábito de lhes ler livros. Para grande satisfação minha, os meus filhos são ótimos leitores. Eles próprios decidem o que querem ler.

 

  1. Combates o estatuto de pop star da literatura portuguesa?

Não creio que esse estatuto seja real. Trata-se de uma ideia que é referida periodicamente em entrevistas como esta. No entanto, é certo que acredito na importância e na necessidade do leitor - a obra depende dele; também é certo que sempre preferi divertir-me e agir naturalmente do que fazer planos rígidos acerca da imagem que projeto para os outros.

 

  1. Ainda fazes piercings?

Há 14 anos que não tenho piercings novos.

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Ponto Final, Julho 2016

19.07.16

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“É muito difícil escrever se não fizer um exercício de empatia”

 
 
E foi a empatia por uma certa e persistente ruralidade que levou José Luís Peixoto a debruçar-se sobre as aparições marianas de Fátima, num livro que tem sido qualificado pela crítica como o melhor de quantos lançou até ao momento. “Em teu ventre” foi ontem apresentado na Livraria Portuguesa, numa sessão que contou com a presença do autor. Em Macau pela terceira vez, o escritor, de 41 anos, regressou ao território para gravar um programa para a RTP, no âmbito de um périplo de um mês pela China, país que deverá começar a publicar as suas obras a partir do próximo ano. José Luís Peixoto em discurso directo.
 
 
 

PONTO FINAL: Terceira vinda a Macau e Terceira vinda por motivos muito distintos. Depois da participação no Festival Literário “Rota das Letras”, uma visita quase de médico e agora um segundo regresso para dar a conhecer Macau como destino turístico. A que préstimos se presta esta terceira vinda?

José Luís Peixoto: Para mim, estas oportunidades de vir a Macau são todas bem-vindas. Desde a primeira vez que fiquei com muito boa impressão. É claro que Macau é sempre um destino muito especial para os portugueses e confirmei isso nessa altura. Todas as visitas têm aprofundado um pouco essa minha primeira impressão. Neste momento, esta visita acaba por ser para mim num papel que me é pouco comum e que, para mim, é uma experiência inédita, mas que também por isso é bastante agradável e que tem que ver com um programa de televisão associado à revista “Volta ao Mundo”, que é uma revista de viagens que se publica já há mais de vinte anos em Portugal e na qual tenho colaborado regularmente nos últimos sete anos e que agora tem este programa que passa na RTP3 – e que neste momento está acessível internacionalmente através da Internet – mas que esperamos também que possa chegar aos canais internacionais da RTP brevemente. No mês de Novembro, esse programa vai ter a sua edição dedicada a Macau. No fundo o que vamos fazer são quatro episódios, que vão ser apresentados semanalmente durante o mês de Outubro.

 

Aproveitaram para matar dois coelhos de uma cajadada, digamos assim …

J.L.P: Sim. Estando aqui tão perto de Hong Kong, chegamos com uma semana de antecedência para também fazer uma visita aos lugares mais simbólicos do ponto de vista do visitante internacional, nomeadamente do possível visitante português e, ao mesmo tempo, desta forma tentar criar um retrato de Hong Kong que possa ser cativante, porque efectivamente, apesar de serem nomes que as pessoas ouvem com muita frequência sinto que ainda há muito desconhecimento quer sobre Hong Kong, quer sobre Macau. Todos estes contributos para que as pessoas se possam abeirar, de alguma forma, um pouco mais destas realidades acho que são válidos. No caso de Macau, a ligação é ainda mais relevante devido a alguns aspectos particulares, que advêm da nossa relação histórica …

 

Esta empreitada que nasce de um périplo mais largo pela China. Está há um mês neste lado do mundo …

J.L.P: Sim. É verdade.

 

Esteve na República Popular da China, num encontro de poesia. É um país que já se habituou a conhecer melhor …

J.L.P: Todas estas viagens acabaram por ficar concentradas numa só porque não faria sentido chegar a Portugal e regressar a este lado do mundo, uma vez que todos estes destinos eram relativamente próximos. Efectivamente cheguei duas semanas antes e uma parte desse período, passei-o na província de Sichuan, num festival de poesia, que para mim foi muito interessante pela oportunidade de contactar com poetas chineses, pela possibilidade de dar a conhecer o meu trabalho ao público chinês. Estive antes disso em Pequim, onde falei com os estudantes da Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim, naquilo que foi uma experiência muito agradável, também pela surpresa que para mim constituiu encontrar estudantes chineses a falar português, com tanta perfeição e com um vocabulário tão vasto. Aos mesmo tempo, também foi uma oportunidade para desenvolver alguns contactos no âmbito de projectos futuros que espero ter já no próximo ano, com a China, nomeadamente a edição de livros meus, que é algo que neste momento tenho já muito garantido de que irá acontecer já no próximo ano…

 

Já era possível, de resto, encontrar alguns trabalhos de José Luis Peixoto em chinês. Poemas, sobretudo …

J.L.P: Sim, sim. Tem acontecido algumas publicações, mas não é muito fácil na medida em que se trata de universos muito distintos. O mundo editorial da Europa e o mundo editorial chinês têm particularidades próprias e a comunicação não é particularmente fluída. De certa forma, esse trabalho de aproximação, no âmbito da literatura, eu parece-me que acaba quase por se ter de ultrapassar uma barreira civilizacional, porque a literatura acaba por transportar uma grande quantidade de valores que estão muito ligados à história, que estão muito ligados à cultura mais visceral de um povo. Por isso, este tem sido um caminho mais ou menos longo, que no meu caso já passou por edições em mandarim na Internet. Houve, durante um período, um projecto de três estudantes de Pequim, que alimentavam um blogue com traduções de textos meus em mandarim, o que meu deu muito prazer. Ao mesmo tempo, também permitiu encontrar alguns leitores dispersos, mas que acabou por ser uma janela pequena para esse mundo imenso que é o universo dos novecentos e tal milhões de falantes de mandarim, mas agora, neste momento, está em perspectiva aquilo que eu acho que é a ambição de qualquer escritor e que é ver um livro seu publicado, impresso em papel neste universo gigantesco.

 

Era uma lacuna? Para um escritor com uma faceta cada vez mais internacionalizada, como é o caso do José Luís Peixoto, é importante chegar ao público chinês …

J.L.P: Bem, eu nunca senti isso como uma lacuna, na medida em que não é possível, acho eu, para um autor ocidental – seja europeu ou de outro rincão do dito Ocidente – contar com uma edição na China. A China é de tal forma uma outra realidade dentro deste âmbito literário que, realmente, nem se imagina uma tal possibilidade. Agora, uma coisa é certa: é muito recompensador. É um prémio, de certa maneira. Eu se calhar nem devia falar tanto. É muito pouco oriental falar assim de uma coisa que ainda não aconteceu, mas efectivamente eu sou português.

 

Todas estas viagens que o José Luis Peixoto tem feito ao longo destes últimos anos, mudaram alguma forma o modo como escreve o rapazinho que nasceu nas Galveias?

J.L.P: Seguramente. Não tenho qualquer dúvida disso. Efectivamente, aquilo que muda a nossa maneira de ver, que muda a nossa maneira de pensar, acaba necessariamente de ter reflexos na nossa maneira de escrever, que é a nossa maneira de nos exprimirmos e que é o fruto daquilo que vemos e daquilo que pensamos. Ainda assim, tendo em conta que eu vou acompanhando com uma certa atenção esses meus processos individuais, porque a escrita também o exige, eu creio que efectivamente há aqui uma dicotomia que é muito intensa nos dois âmbitos e que tem que ver com a ligação a um espaço muito concreto, que para mim é uma ligação muito presente. Ainda hoje, aqui em Macau, sonhei com as Galveias. Também há, no entanto, uma necessidade muito grande da minha parte de me afastar das Galveias e de ir para outros lugares que, em certa medida, são – pode-se mesmo dizer – antagónicos a essa realidade. É paradoxal, não tenho uma resposta muito completa que explique essas duas pulsões e essas duas realidades, mas é um facto que as duas estão muito presentes na minha vida e eu não rejeito nenhuma delas. Muitas vezes sinto que o meu trabalho é dar notícias das Galveias ao mundo e dar notícias do mundo às Galveias. Às vezes estou a fazer uma dessas tarefas e às vezes estou a fazer a outra.

 

Durante a sua primeira passagem por Macau, em 2012, mostrou-se fascinado com este mundo dos casinos, pela estética dos casinos, pela própria forma como os casinos brincam com a noção de tempo. Isto é algo que ainda exerce sobre si algum apelo? Ou aquilo que era uma novidade na altura sumiu-se?

J.L.P: Neste momento já não sou capaz de recordar muito concretamente daquilo que disse nessa ocasião, até porque já passou algum tempo e já não sei exactamente qual era a minha intenção na altura. Sei, no entanto, de uma coisa: a minha postura perante a realidade nunca é de rejeição ou de fechar os olhos ou de construir tabus. No que diz respeito a Macau, os casinos muitas vezes, sob uma certa perspectiva, são um incómodo no que diz respeito ao discurso que se tem sobre Macau e eu isso acho pouco interessante, na medida em que os casinos são uma realidade importantíssima de Macau. Retratar Macau sem os casinos não é retratar Macau, porque eles estão aqui e são, em muitos aspectos, o motor daquilo que Macau é hoje em dia. É claro que, se calhar – e não sei se era a isso que me referia há quatro anos nessa intervenção – para um romancista, para alguém que escreva romances, os mundos são muito atraentes, assim como é atraente a ideia de se encontrar um mundo. Nos casinos, efectivamente, existe ali um mundo que constrói uma grande quantidade de paredes artificiais em relação ao outro mundo. Falo não só das paredes físicas, mas também de todas essas paredes de fantasia que pretendem edificar aquela quimera para quem sonha com fortuna. Isso é muito interessante. Não rejeito isso. Não é a minha realidade, mas eu também não me interesso só pela minha realidade. Muitas vezes até são as realidades mais distantes da minha que mais me cativam.

 

Se se interessasse apenas pela sua realidade, não tinha porventura visitado a Coreia do Norte. É um país que o ilude? Ou que o desilude?

J.L.P: Neste momento, em que já tive a oportunidade de regressar à Coreia do Norte, é um país que me fala de uma maneira muito particular, na medida em que também, e com o passar do tempo, já desenvolvi algumas relações pessoais até com a própria realidade daquele espaço e que também é uma realidade muito inusitado e muito distante da minha. Agora, penso sobretudo que é um país que me ilude, mais do que desiludir, até porque eu não tive nenhuma ilusão em relação à Coreia do Norte. Sinto, também, que me ilude bastante na medida em que, quanto mais tento aprofundar o meu conhecimento, mais dúvidas tenho. Quanto mais vou dando como certo em relação a esse país, mais me apercebo da quantidade de aspectos para os quais não encontro qualquer resposta.

 

Nesse sentido, estamos perto ou longe de ter a Coreia do Norte como protagonista de um qualquer trabalho seu?

J.L.P: Não sei dizer. Neste momento não penso nisso. Também é verdade que, de modos que, muitas vezes só eu é que consigo identificar, a Coreia do Norte vai entrando aqui e ali. Como dizia há pouco, tudo aquilo que muda a maneira de ver e de pensar, depois tem reflexos.

 

Apresentou ontem, na Livraria Portuguesa, “Em Teu Ventre”, aquela que tem sido louvada como a sua obra mais completa até ao momento. Neste livro aborda aquele que foi, provavelmente, o maior acontecimento da história do século XX português, mais até do que a independência das antigas colónias ou outras vicissitudes políticas. É um acontecimento que deixou e continua a deixar uma marca indelével sobre Portugal, mesmo cem anos depois. Porquê Fátima? Porque as aparições da Cova da Iria? Porque arriscar o seu nome com um tema que é, por si mesmo, um tema polémico?

J.L.P: É curioso porque uma das minhas principais intenções ao escrever o livro era que ele não fosse polémico, o que é um pouco fora do habitual, mas no caso deste tema parecia importante porque aquilo que é mais fácil, parece-me a mim, em relação à questão das aparições de Fátima é entrar em polémicas e, efectivamente, com uma única frase acho que seria fácil criar uma provocação que, eventualmente, fosse polémica e para mim, uma parte dos objectivos a que me propunha, era evitar sempre essa frase, na medida em que em relação a Fátima sentia – e ainda sinto – que existe muita dificuldade de tratar o tema. Existem alguns discursos que estão já mais ou menos estabelecidos e que são muito maniqueístas: um é a favor e outro é contra. Um crê e o outro é céptico ou mesmo descrente e eu sentia a falta de um terceiro discurso que, pura e simplesmente, não tivesse necessidade de se definir sobre essa bitola, mas que ao mesmo tempo trouxesse alguma informação pertinente e que pudesse também contribuir para um esclarecimento e para um debate sobre o assunto. Foi nessa perspectiva que eu me propus a tratar este tema, tendo em conta que havia diversos aspectos nele que me atraíam e que não passavam apenas pela questão religiosa. Interessava-me também o próprio retrato de Portugal que fica presente naquela história. Senti que um tema como este tem uma vertente bastante importante subjectiva, ainda que seja inegável que também tem uma vertente inescapável objectiva e,  nesse sentido, a minha escolha – para além de alguns aspectos que acabam por ser, de certo modo, necessários num texto de ficção e que acabam por ser subjectivos – sob o ponto de vista do tratamento histórico da questão o meu interesse foi deter-me em dados e em elementos que são objectivos. Tirando uma pequena minoria que alimenta diversas versões alternativas do que aconteceu e que alimenta múltiplas especulações, de um modo geral os crentes e os não-crentes estão juntos na aceitação de uma série de dados históricos que no fundo são a relação que o livro estabelece com esse acontecimento histórico e isso é muito interessante. Para mim, foi muito interessante. Por um lado, permitiu-me desenvolver uma reflexão que eu já desenvolvi noutros livros e que me continua a funcionar por múltiplos motivos e que tem a ver com esse Portugal rural, esse Portugal eu quase diria condensado, do campo…

 

Este Portugal rural caminha quase para a extinção. O interior está abandonado, quem lá mora são sobretudo idosos. A ruralidade reinventou-se de alguma forma? As aldeias e o campo estão a morrer, as cidades crescem, mas mantém-se um certo provincialismo, passe a expressão. De que forma é que Portugal se tem reinventado em termos de costumes? Isso é algo que tenta também perceber nos seus livros?

J.L.P: Já estou nos quarentas e já sinto uma certa necessidade de me entregar a algumas reflexões mais profundas. No que diz respeito a essa questão, eu sinto que esse Portugal rural, ele não poderá extinguir-se realmente, na medida em que ele é responsável por uma série de coisas que são necessárias à sobrevivência e não me refiro apenas à agricultura e à alimentação, que são questões que têm a si imanentes a necessidade de manter um vínculo profundo à terra. Refiro-me a uma série de outras questões que, nos podemos afastar delas, mas que tarde ou cedo havemos de voltar a elas, porque precisamos delas para viver com qualidade. Refiro-me a coisas como, por exemplo, o tempo, um ritmo mais humano, uma forma de estar que seja um pouco mais desvinculada de certos valores que a meu ver se colocam às vezes que não é o deles. Eu acho que não é por acaso que muitas vezes, as pessoas quando chegam aquelas idades mais avançadas, em que já podem dispor do seu tempo de uma maneira mais livre, regressam à terra, regressam a esses espaços. É porque, efectivamente, há ali qualquer coisa que é vital e que não pode ser comprada. Ainda assim, é claro, existem evoluções, existem diferenças, mas aquilo que são as questões essenciais, aquilo que é o mais central da ruralidade acho que vai continuar a existir em certa medida no futuro da mesma maneira que hoje em dia nós nos apercebemos de que ela existe na distância espacial. Os elementos rurais na China, na América do Sul, em África ou na Europa partilham uma série de características que são transnacionais, apesar das características próprias que depois existem em cada lugar e que depois advêm das condições e da realidade de cada um. São muitas vezes esses valores que estão presentes em Portugal, até no mundo urbano e que são aquilo que nos distingue. Da mesma maneira que Macau se distingue de Hong Kong pelo seu passado e pela sua relação com Portugal, nós, enquanto portugueses, distinguimo-nos dos outros países da Europa em função das nossas características específicas e que têm que ver com aquilo que preservamos da nossa história, apesar das mudanças que também existem e que advêm da mudança de regime em 74, de uma abertura ao mundo sob o ponto de vista da cultura de massas. Nessa medida, eu sinto que enquanto portugueses é importante estarmos de bem com esse nosso lado, aceitá-lo e ao mesmo tempo valorizá-lo e em certa medida preservá-lo, uma vez que nós somos esse Portugal. Uma parte de nós é esse Portugal e estarmos de bem connosco próprios é essencial para estarmos de bem em absoluto.

 

Voltando ao seu último livro… Porque escolher a vidente que mais viveu, a mais documentada e a que deixou também um legado biográfico mais vasto? Há alguma forma de fugir aquilo que Lúcia de Jesus legou?

J.L.P: Sob o ponto de vista histórico não há dúvidas de quem é a protagonista ali. Lúcia foi quem viveu mais anos, aquela história que é comummente contada é uma simplificação daquilo que foram os dados que ela própria comunicou e, por isso, não há que fugir do testemunho dela quando se trata deste assunto, até porque muitas vezes há um detalhe que muitas vezes não é referido e que tem que ver com o facto de os dois primos de Lúcia terem tido uma experiência de vidência menos completa. Jacinta não falava e Francisco não falava nem ouvia Nossa Senhora e isso é aceite por toda a gente, não é nenhuma descoberta de ontem. Isso é muito interessante. Pequenos detalhes como esse, que normalmente ficam de fora de uma narração mais superficial desta história são muito interessantes e, efectivamente, ninguém tem interesse em esconde-los, embora, muitas vezes, contando esta história em dois minutos, eles não sejam incluídos. Sinto que, inclusivamente, mesmo para os crentes e para as pessoas para quem esta história é importante – e muitas vezes é muito importante mesmo – a simplificação deturpa porque, ao se retirar e ao se omitir certos detalhes, fica-se com uma ideia bastante diferente exactamente do que pode ter sido. Uma das reacções mais interessantes que tenho tido a este livro é, justamente, a reacção por parte daqueles que têm essa fé nas aparições de Fátima porque efectivamente ali, naquele livro – e no que diz respeito a esse aspecto do livro, porque o livro também tem outras nuances – mas no que diz respeito a esse aspecto acho que encontrou um retrato que tenta ser realista em relação aquilo que toca e aquilo que descreve efectivamente. O livro nunca descreve as aparições. Se fizesse alguma descrição das aparições estaria sempre a tomar uma posição e o meu grande objectivo era justamente conseguir descrever todo este tema sem cair na necessidade de escolher um lado.

 

Se o livro ainda não foi criticado pela Igreja Católica, é porque conseguiu …

J.L.P: Tenho tido boas críticas em órgãos da Igreja Católica.

 

Ajudou-o, de certa forma, a compreender melhor ou até a aceitar este fenómeno de Fátima, o facto de ter trabalhado neste livro?

J.L.P: Sim. Eu para mim é muito difícil escrever se não fizer um exercício de empatia. É muito importante colocar-me na posição de todas as personagens para humaniza-las, para elas não serem só uma sombra e poderem ter a ambição de algo próximo de uma pessoa. As pessoas são de outro nível e de outra dimensão, mas ainda assim esse exercício de empatia é muito importante e efectivamente, em nenhum momento, quer a escrever o livro ou, mais tarde, em entrevistas como esta – ou em apresentações do livro – de dar a minha sensibilidade em relação a esta questão na medida em que sinto que, num caso ou no outro, é sempre uma posição pessoal, porventura até uma posição íntima que me parece completamente inusitado que alguém opine sobre isso. Será sempre uma questão de fé. Quem não esteve lá a 13 de Outubro de 1917 terá sempre de exercer o seu próprio discernimento para dar uma posição sobre se existiu esse dito milagre ou não. Isso pode acontecer com respeito. Todos estão no seu direito de acreditar ou de não acreditar. Se existir respeito, não vejo nenhum motivo para uns ou outros se sentirem incomodados com a posição seja de quem for.

 

Uma última questão, de certa forma da praxe… Depois de este “Em Teu Ventre”, o que podemos esperar de José Luís Peixoto?

J.L.P: Eu neste momento estou a trabalhar num livro que tem uma viagem também. Penso que essa será a minha próxima publicação. Não vai ser este ano. Este ano de 2016 vai ser um ano em que não creio que vá publicar alguma coisa. Publiquei um livro infantil há alguns meses, mas um livro desses que realmente representa um degrau no meu caminho, acho que não vai acontecer porque este ano tenho estado ocupado com outras coisas, a viajar por exemplo.

 

Essa circunstância de progredir um degrau, é algo que lhe pesa, digamos assim? As críticas a este livro têm sido boas, de uma forma geral. A obra é louvada por muita e boa gente como o seu melhor livro até ao momento. Isto é, de certa forma, uma responsabilidade?

J.L.P: É claro que a crítica tem muita importância, porque a literatura precisa de um olhar que a analise e que a coloque no seu lugar. Acho até que o autor é o primeiro grande crítico do seu próprio trabalho, ainda que a reacção dos outros tenha também muita importância. Ainda assim, não é algo previsível. No momento em que se está a trabalhar num determinado projecto, não é fácil – e eu até diria que não é sequer possível – ter realmente a noção de como é que ele vai ser visto a esse nível. Há sempre um horizonte, no momento em que se está a escrever sobre o que os outros poderão ler naquelas palavras, mas isso não pode ser visto como determinante, até porque escapa muito a todos os planos que se possam fazer. Nessa medida, sem querer fugir a isso, a realidade é que o grande desafio é sempre pessoal e isso não é pouca coisa, porque o crítico mais severo, o mais exigente acaba por ser o próprio e efectivamente a superação tem que ser medida pelo próprio. Muitas vezes é aí que reside a dificuldade de tudo o que advém deste tipo de projectos e é claro que eles, em certa medida, são cada vez mais exigentes e são cada vez mais ambiciosos, até porque há essa necessidade. Se não for assim, pessoalmente não me sinto a evoluir, não sinto o desafio cumprido. É sempre importante que exista uma meta e que essa meta fique um pouco além do que já se alcançou e que chegue um momento em que se consiga acreditar que se alcançou esse objectivo, embora tudo isto seja mais fácil de dizer do que fazer, porque há muitas dúvidas e há muitas questões, mas se isso acontecer, depois, na hora de publicar, sejam quais for as reacções está-se preparado para elas porque também se tem uma consciência mais ou menos fiel daquilo que se fez.

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Correio Braziliense, 15 dezembro 2015

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Jornal de Letras, 11 Novembro 2015

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Jornal i, 14 Novembro 2015

14.11.15

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A obra de José Luís Peixoto é, como todos os trabalhos que essa pequena palavra designa, uma construção em transformação permanente. De livro para livro vai-se diversificando e criando pontos de ligação que dão forma ao conjunto. 

Prova disso é o lançamento quase simultâneo do livro “Em Teu Ventre” e do de viagens e receitas culinárias, “A Viagem do Salmão”, feito em parceria com o chefe Henrique Sá Pessoa. Mas dos dois é o primeiro que tem dado que falar. Depois de “Dentro do Segredo – Uma Viagem na Coreia do Norte” e de “Galveias”, o escritor lança-se num novo território, apresentando uma reflexão sobre um tema que seria difícil antever. “Em Teu Ventre” fala sobre as aparições de Fátima, entre Maio e Outubro de 1917, cruzando a dimensão histórica dos acontecimentos com outras questões que acabam por revelar traços de identidade mais profundos e colectivos. É também uma reflexão sobre Portugal, o país que leva consigo para onde quer que vá, seja para a Coreia do Norte, para o olhar que lança sobre o mundo que observa e regista no seu iPhone, seja para os seus livros ou para o contacto com o outro.

Quando estava a ser fotografado foi abordado por uma leitora. É algo que lhe acontece com frequência?

Acontece com alguma frequência, porque a minha exposição é grande a diversos níveis, e é quase sempre positivo. Para mim também é uma alegria. Acho que é um sinal de que a comunicação foi efectiva e isso parece-me que em certa medida é um dos objectivos de quem escreve: que aquelas palavras cheguem a alguém e despertem alguma coisa.

Mas muitos escritores, porque já se expõem através da escrita, evitam por vezes esse tipo de contacto. Não parece ser o seu caso.

Eu já fui tímido, mas fui deixando essa timidez num lugar que preservo dentro de mim, porque as circunstâncias que procurei levaram-me a entender a escrita como algo que tem uma outra dimensão e que não se abstém do contacto directo com as pessoas, que para mim acaba por acontecer aos mais diversos títulos. Mais que na rua, normalmente acontece nas apresentações dos meus livros.

E o que lhe costumam dizer quando o abordam?

Normalmente, quando as pessoas se me dirigem é para falar sobre aspectos daquilo que escrevi e de alguma posição que tomei em relação a alguns assuntos, e eu encaro isso como um sinal de generosidade dessas pessoas, porque partilharem isso comigo carrega uma boa energia e dá-me alento para continuar o meu trabalho.

Pelo que percebi, também procuram conhecer as novidades literárias, o que anda a fazer. Agora tem este livro, “Em Teu Ventre”, lançado recentemente e baseado nas aparições de Fátima. Porque decidiu tratar este tema?

Pelos constrangimentos que o próprio tema oferece. Entendi-o como um desafio e a delicadeza do tema requereu uma atenção redobrada e estratégias para conseguir construir o livro que queria fazer, sem sucumbir a questões que a meu ver desvirtuavam a minha proposta. Ao mesmo tempo é a atracção por uma história fascinante, que tem uma repercussão imensa não só no século xx português, mas dentro de uma certa vivência católica no quotidiano de milhares de pessoas. Pareceu-me que é uma história em relação à qual existe uma versão, que é a mais disseminada apesar de bastante imperfeita, e que muitas vezes ignora uma série de circunstâncias e dados reveladores, porque para lá do seu aspecto de crença e fé também tem uma dimensão histórica que é muitíssimo importante e que hoje em dia, na maior parte dos aspectos, é inequívoca. Foi esse lado que me seduziu. Ao mesmo tempo também senti que toda esta história me dava condições interessantes para tratar uma questão que está entre as grandes questões da natureza humana e que é a maternidade. E aí as questões da nossa origem, da nossa identidade mais profunda.

No livro, paralelamente à narrativa, vai aparecendo de resto uma voz materna...

Sim, e aparece também um outro narrador
que acaba por cruzar esses dois planos,
o da religiosidade e o da maternidade,
e que tem essa forma em versículos

e também está dividida em capítulos, como
na Bíblia, e que de certa forma ali se apresentaria como um narrador…

Deus?

É assinalado como sendo Deus, o que por um lado é curioso porque também revela outra figura que está ali indirectamente e que é a do próprio criador do texto. Existe também uma mãe, que de certa maneira se apresenta como a mãe do autor, porque fala para quem está a escrever e comenta aquilo que está a ser escrito, muitas vezes com alguma dureza e sentido crítico, e que pretende representar a mãe que sempre permanece em nós e fiscaliza os nossos gestos, as nossas ideias.

E que muitas vezes é incompreendida, como o livro também mostra.

Sim, mas a partir de certa altura acaba por se desdobrar num paradoxo porque é sempre uma voz criada pelo próprio autor. Nunca é efectivamente a voz da mãe, e isso tenta exprimir um pouco a questão que é a relação com os progenitores, seja ela qual for, mas também o quanto essas figuras têm uma dimensão que é supra-humana e transcendente. Quando nascemos as nossas mães já estavam cá, habituámo-nos a que elas nos garantissem uma quantidade de coisas no momento em que éramos indefesos e não tínhamos possibilidade de as garantir. Só mais tarde começamos a perceber que as nossas mães são humanas e têm outra dimensão para lá daquilo que é mais evidente para nós, porque há muitos aspectos dessas vidas que normalmente escapam aos filhos mas existem e é importante ter em consideração se as quisermos amar como elas são, como mulheres e como pessoas.

“Em Teu Ventre” também não procura julgamentos sobre os acontecimentos e realça-os sob o olhar das crianças, com ênfase em Lúcia.

Isso tem a ver com essa escolha de tratar o assunto pelo seu lado histórico. Obviamente, há sempre um aspecto interpretativo daquilo que são factos, mas depois também existem os próprios factos. Por muito que olhemos para as crianças e possamos ver-lhes características já adultas, a verdade é que eram crianças e de uma idade bastante tenra. Ao mesmo tempo, também me parece que interessante trazer alguma clareza sobre aquilo em que não há dúvidas, porque quanto à fé não me parece que haja argumentos que sejam absolutamente inquestionáveis e permitam dizer que as aparições foram ou não efectivas. Isso terá sempre de ser uma escolha que parta da sensibilidade de cada um, da forma como vê o mundo e das questões do transcendente e do divino. Estamos a referir-nos a acontecimentos que tiveram lugar numa época que não testemunhámos, o que temos são relatos e relatos que, contrariando a natureza, põem as coisas nesse ponto. A minha forma de lidar com isso no livro foi não descrever esses momentos, porque ao descrevê-los iria sempre tomar partido. E neste caso vou tendo as minhas próprias convicções e sensibilidades mas não me parece interessante estar a impô-las aos outros. Ao fazê-lo iria mutilar o livro da sua intenção principal, que é fomentar a reflexão sobre um assunto que está presente com muita frequência mas é pouco aprofundado e ao longo do tempo foi ganhando diversas conotações.

Este era um tema de que se falasse em sua casa, em família?

Não é um assunto particularmente próximo por essa via, embora a minha educação tenha sido toda católica. Andei na catequese, fiz a primeira comunhão, tive sempre contacto com esse mundo. Mas sinto que, em relação a esta história em particular, a forma como ela me foi contada quando era criança ainda é aquela que se utiliza para a contar à maioria dos adultos hoje em dia. Uma versão infantil e infantilizada, algo grosseira, que distorce elementos importantes da história real. Enquanto adultos que nos interessamos por conhecer a realidade que nos rodeia, é importante que exista uma tentativa de a contar de uma forma mais realista. Obviamente, isto é um livro de ficção, não é um manual histórico sobre esses acontecimentos, mas sinto que existe também uma certa procura de realismo. Fiquei muito contente por perceber que os católicos e as instâncias católicas mais ciosas desta história, de um modo geral, têm aceitado que se trata de uma reflexão.

Como tem sido o feedback da Igreja a este livro?

Não tive uma reacção exacta por parte de nenhuma hierarquia, mas tive alguns sinais que me deixaram muito contente. A primeira apresentação do livro foi feita em Fátima e na presença de figuras bastante ligadas ao culto mariano e até com algumas responsabilidades. Ao mesmo tempo, a primeira entrevista sobre este livro foi para a Rádio Renascença, a emissora católica portuguesa. E isso deixa-me muito contente. Em nenhum momento quis que este livro fosse uma provocação ou agressão à fé em relação a Fátima ou à Igreja. Houve até alguns aspectos que mostram isso, um deles tem a ver com as fontes que escolhi para seguir e construir esta narrativa.

 

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Arcadia, Abril 2013

01.09.15

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Un antídoto desde la muerte

José Luís Peixoto, uno de los escritores con mayores ventas en Portugal, podría estar a un paso de convertirse en una figura imprescindible del panorama literario contemporáneo.

 


José Luís Peixoto casi muere la tarde que quedamos de encontrarnos. “Ha sido el peor accidente de mi vida. No entiendo cómo nadie salió lastimado. Mi carro quedó en pérdida total. Con eso te digo todo”, me dijo por teléfono esa noche cuando explicó por qué no pudo llegar a la entrevista que teníamos programada.

El accidente fue en la autopista que lleva del suburbio de Cascais a Lisboa. Una de las llantas hizo un movimiento anómalo en una curva y el escritor perdió el control del vehículo. “Luego choqué contra otro auto, comencé a dar trompos, y así, dando vueltas, fui a dar al otro lado de la autopista. Es el tipo de accidentes en los que alguien muere”, dijo al día siguiente, cuando finalmente pudimos encontrarnos.

Entonces se me vino a la mente un episodio de Te me moriste, su primer libro, que Peixoto comenzó a escribir pocos meses después de la muerte de su padre: “Me enseñabas. Serio, porque seria era la lección, me señalabas cada paso con la vista y decías mete la primera, coge bien el volante, ve soltando el embrague. Tus gestos, la forma de tus manos al tomar el volante; la forma de mis manos, el volante, mis gestos. Las cosas y yo se mecen, se dislocan todas”.

Te me moriste es un poema en prosa hipnotizante, con imágenes caleidoscópicas, que permeó de alguna u otra manera casi toda la conversación que Peixoto y yo sostuvimos en el café Vértigo: un lugar que como tantos en Lisboa juega con la frontera entre vanguardia y tradición. Nuestra mesa era una antigua máquina de coser, los asientos eran de hierro y nos rodeaban colores densos: violeta en telas de colgadura, verde oliva en las paredes, piso de madera oscura. Olía a té.

“Lo comencé a escribir a los veintiún años y fue en una situación muy personal, muy intensa, que fue la muerte de mi padre”, dijo este escritor de treinta y ocho años, que publicó la edición portuguesa de Te me moriste en el año 2000. En agosto del 2012 se imprimió su decimosegunda edición.

“Ese libro marcó todo. Lo que escribí después siempre fue un camino que parte de ahí. No estaba escribiendo una confesión. Tenía ideas literarias importantes. Lo digo sin modestia pero con sinceridad, aunque la fuente de donde llegaban las palabras venía directamente de una experiencia que para mí era muy transformadora como persona. Ese texto yo lo considero un libro a pesar de ser tan corto, por la importancia que tiene en la construcción de mi obra”.

Y su obra es desafiante, tanto para el lector como para los límites entre narrativa y poesía, pasado y presente, la vida y la muerte. Peixoto diluye estas fronteras meciendo al lector en anáforas, y su prosa desencaja el velo que separa a un mundo del otro haciendo que ceda, ceda, por la insistencia con que repite ciertas palabras.

“Una parte grande de lo que escribo tiene esa preocupación, de recordar que vamos a morir. Es tan importante hablar de eso, porque vivimos en sociedades donde hoy en día la muerte es más tabú que cualquier otra cosa; más que el sexo, que está en todas partes. Sin la muerte, la vida perdería sus cualidades más elementales. Es la muerte la que marca el tiempo. Sin muerte no tendríamos consciencia de la existencia del tiempo”.

“Disculpa, hoy estoy un poco esotérico”, me dijo.

 

Una carrera en ascenso

Fue José Saramago, su mentor, quien le insistía en que se preocupara por su obra: “Es algo que tuve mucha oportunidad de hablar con él. Fue la persona que siempre me dijo: presta atención a la obra, hay que construir una obra, y yo siempre tuve esa idea desde el principio”.

Es un escritor sorprendentemente prolífico. En los trece años que han transcurrido desde la publicación de Te me moriste, José Luís Peixoto ha lanzado cuatro novelas, tres libros de cuentos, tres de poesía, uno de crónicas, otro que reúne cuentos y una obra de teatro, y su último libro, Dentro del secreto: un viaje a Corea del Norte. En este, narra a manera de crónica el viaje que hizo hace un año al hermético país asiático.

No he visto un libro similar a Dentro del secreto, porque casi nadie ha hecho un viaje turístico a Corea del Norte. El de Peixoto fue por una oportunidad única: la conmemoración del centenario del nacimiento de Kim Il-sung, el padre de la nación. El tour se llamaba Kim Il-sung 100th birthday Ultimate Mega Tour (Ultimate Option). Tal cual.

El valor del libro es algo que en otra aproximación habría sido una debilidad: Peixoto no es un experto en Corea del Norte, sencillamente se obsesionó con el país como cualquiera lo haría con un hobby. Así, mientras recorre Pyongyang y sus alrededores en el Ultimate Mega Tour, al describir este secreto geográfico, político y social, su voz está tan extrañada como lo estaríamos nosotros.

Fue lanzado en noviembre del 2012 y desde entonces no ha dejado de estar en la lista de los diez libros más vendidos en las principales librerías portuguesas: “Yo no imaginaba que fuera a tener tanta repercusión comercial. En Portugal todos hablan de la crisis económica y Corea del Norte es una realidad muy lejana. Pensé que iba a generar interés entre la prensa, pero no entre los lectores, y felizmente me engañé”, dijo Peixoto.

En sus novelas, la columna vertebral de su obra, la evolución de una madurez literaria es clarísima. Nadie nos mira (2000) está compuesta por las historias entrelazadas de personajes que se desgastan y erosionan en una aldea rural de la región natal de José Luís Peixoto, el Alentejo. La segunda novela, Una casa en la oscuridad (2002) es una historia de horror en torno a la relación de un hijo con su madre. Cementerio de pianos (2006) experimenta con un estilo que recuerda a Antonio Lobo Antunes, porque el espacio-tiempo narrativo se define según la memoria subjetiva, caprichosa y no siempre fiable de sus protagonistas, entre los cuales el principal es Francisco Lázaro, el célebre corredor olímpico portugués que falleció en 1912, mientras participaba en los juegos Olímpicos de Estocolmo.

Finalmente, Libro, publicada en Portugal en el 2010, es la mejor lograda. Reúne las obsesiones habituales de Peixoto, y las lleva en otra dirección. La primera parte toma como escenario el familiar espacio aldeano del sur de Portugal, pero en pocos capítulos nos arroja sobre una historia de amor desencontrado en los barrios de inmigrantes portugueses y en las bibliotecas de París. Luego, en la segunda parte, la novela se canibaliza en un juego que podría describirse con el tipo de palabra compuesta que entusiasmaba a los críticos literarios de finales de siglo XX (metaliteratura, postnarrativa).

Por desgracia, lo más probable es que pasen años antes de que en América Latina se puedan leer sus novelas, pues su distribución está atascada en España. La editorial que las imprime en español, Aleph, hace tirajes tan bajos y con miras a suplir únicamente el mercado español, que el viaje intercontinental multiplica el precio de sus libros.

“Es un poco triste. Es una situación que tengo que revisar porque si mis novelas llegan a México, Argentina, Colombia, es con precios horribles. Estuve una vez en la Feria de Guadalajara y su valor era tan alto que yo le dije a las personas que robaran los libros, y fue muy bueno porque robaron como treinta libros”, dijo Peixoto riendo.

El problema no es solo de Peixoto. España, además de ser el mercado de habla hispana más importante para los escritores portugueses, también impide una distribución más amplia de sus libros. Las editoriales de autores que no tienen el renombre internacional de Saramago o Lobo Antunes, compran los derechos de distribución en español para todo el mundo pero solo imprimen para España.

“Cuando se trata de autores grandes, España ayuda mucho porque las editoriales que los distribuyen tienen sedes en América Latina, pero cuando son autores menos conocidos España es una barrera”, dijo Peixoto.

Pero habrá una excepción con motivo de esta Feria del Libro, y se venderá un libro doble editado en Colombia, que reúne dos de sus obras: Te me moriste y Antídoto.

 

Antídoto desde la muerte

José Luís Peixoto tiene pinta de rockero y Antídoto es el libro en el que más se permite mezclar su gusto por la música con su voz literaria. Antídoto en realidad es dos obras paralelas. Una es el libro que se reedita con motivo de la Feria del Libro, y el otro es el disco que lanzó, también en el 2003, la banda de metal más famosa de Portugal: Moonspell.

“Tuvimos que confrontar a los fans de heavy metal, que se quedaron sorprendidos con la ligación a un escritor, y también con las personas del medio literario, que no imaginaban que un escritor se fuera a ligar con un grupo de metal”, dijo Peixoto. “Curiosamente creo que el prejuicio del lado de la literatura fue más fuerte”.

Cada uno de los diez cuentos que compone Antídoto corresponde a una de las canciones del disco de Moonspell, aunque los dos son plenamente independientes. “Hay lectores que gustan de mis cuentos, que si escucharan las canciones que inspiraron a algunos de ellos, quedarían horrorizados”, dice Peixoto con una sonrisa.

Los cuentos tienen un ambiente oscuro y algunos juegan con ser poemas en prosa. Su hilo conductor es el miedo, la pérdida y el aislamiento. Sus personajes son mujeres sobrenaturales que no tienen piel que cubra su cuerpo, aldeanos desencantados de la vida, dioses nocturnos; y también está, omnipresente, la muerte, ese fenómeno que para José Luís Peixoto constituye el antídoto contra la desmemoria y la incomprensión del paso del tiempo.

 

 

http://www.revistaarcadia.com/impresa/especial/articulo/un-antidoto-desde-muerte/31580

 

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O Globo, 24 Março 2012

22.04.15

José Luís Peixoto: a desmistificação de um escritor

 

Fenômeno na Europa, autor português lança ‘Livro’ no Brasil e confirma ida à Flip

 

Ele tinha 25 anos quando publicou seu primeiro livro, “Morreste-me”, um monólogo sobre o luto, dirigido ao pai que perdera. A edição de autor, com letras pequenas para economizar páginas, foi feita para os amigos ou, se tanto, para ser vendida em consignação. No mesmo ano (2000), lançou “Nenhum olhar”, pelo qual levaria o Prêmio José Saramago, dado a jovens autores.

Doze anos e mais de dez livros depois, José Luís Peixoto, considerado um dos mais importantes escritores portugueses contemporâneos, voltará em julho à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) — onde esteve pela primeira vez em 2005 — para uma inédita leitura integral daquele primeiro despretensioso trabalho, que acabou tendo mais de 20 edições. O Brasil será só uma das paradas na maratona em que se transformou a rotina desse autor de 37 anos, que hoje trabalha a divulgação simultânea de três obras: “Livro”, de 2010, que chega ao Brasil agora, pela Companhia das Letras; “Abraço”, publicado em Portugal no fim de 2011; e seu primeiro infantil, “A mãe que chovia”, que estará em abril nas livrarias portuguesas. Em comum, o tom biográfico que levara ao extremo em “Morreste-me”.

'Livro' (Companhia das Letras) é lançado no Brasil“Livro”, embora menos melancólico, começa falando de solidão, ao descrever o tristíssimo abandono de um menino de 6 anos, para mais tarde entrar na trama em que de fato se apoia: a emigração de portugueses para a França nos anos 1960, vivida pelos pais de Peixoto. Uma segunda parte ajuda a explicar o título — voltando-se para si própria, a obra dá voz ao narrador da história inicial, chamado Livro, um personagem que confunde para depois esclarecer. Na entrevista abaixo, Peixoto fala sobre “Livro”, considerado seu trabalho mais maduro, e explica como concilia a intensa agenda de viagens com a rotina solitária de escritor.

 
Em “Livro”, o objeto do título conduz a narrativa e é tratado com reverência. Isso é um reflexo da importância do livro em sua vida?

Sendo escritor, os livros são objetos que, necessariamente, me dizem muito. Também por isso, dar esse título a um romance foi algo que me trouxe um acréscimo grande de responsabilidade e que, por si só, demonstra bem a ambição depositada na concepção dessas páginas. O título fez parte das ideias fundadoras do romance. Assim, existem múltiplos fatores a contribuírem para o título, um deles é esse objeto que vai atravessando a narrativa. E que, no fundo, contém tantas vidas.


Você já declarou que há em “Livro” experiências da sua família que o excluíam. Como foi o processo de pesquisa?

Os meus pais foram emigrantes para a França e regressaram a Portugal pouco antes de eu nascer. Passei a infância a ouvi-los falar com as minhas irmãs de tudo o que tinham vivido e que me excluía. Assim, desenvolver esse tema foi escrever sobre um tempo anterior a mim que, no entanto, não está completamente desligado de mim. Até porque percebi que aquilo que define a minha geração em Portugal é sobretudo o que não vivemos. Não vivemos a revolução, a ditadura, a guerra colonial, a emigração em massa. Ao escrever, percebi que esse aparente desprendimento podia ser uma vantagem, uma vez que me permitia escrever sem constrangimentos sobre temas que, ainda hoje, não são fáceis para os portugueses (e talvez por isso não existam outros romances a deterem-se diretamente neste tema que afetou milhões de portugueses). Assim, servi-me da minha experiência pessoal como alguém que nasceu numa pequena cidade do interior (Galveias) para descrever a vida pobre dos anos 1940, 50 e 60; servi-me de tudo o que ouvi sobre a emigração ilegal para a França nos anos 1960 e de tudo aquilo que pude ler.


As críticas a “Livro” que o narrador tece são uma defesa prévia das que poderiam surgir? Como lida com a crítica?

Não. A crítica ao próprio livro é uma forma de a narrativa se dobrar sobre si e criar uma espécie de nó que, nesse momento, tem a função de aprofundar a autorreferencialidade, um mecanismo importante a partir de certa altura do livro. Hoje, com quatro romances, três livros de poesia e quatro volumes de narrativa publicados, lido bem com a crítica. Interessa-me bastante a análise que fazem do que escrevo e, sempre que posso, leio.

As transformações causadas pelos e-readers contribuem para essa relação nostálgica com o livro? Você é um usuário de leitores eletrônicos?

Há uma reflexão no romance acerca do objeto livro e daquilo que o define. Será o livro um objeto ou o sentido daquilo que diz? Por vezes, leio livros em formato eletrônico, mas prefiro o convencional. Ainda assim, o que mais me preocupa não é a mudança. O que me incomoda é que traga alterações à forma de ler. Creio que isso já se sente. Espero que a leitura continue por anos a ser a imersão num mundo, e não um saltitar fragmentado, com déficit de atenção, ansioso por informação dita “útil”.

Você interage com os leitores por meio de ferramentas como o Facebook. Isso muda sua maneira de trabalhar?

Tudo aquilo que influencia a minha vida terá influência na minha maneira de trabalhar. O contato com as pessoas que leem o que escrevo é algo que acaba por ser bastante marcante. Procuro esse contato. Acredito na desmistificação do escritor e, ao mesmo tempo, acredito no papel principal que o leitor tem na construção da obra. Sem leitor, o texto é como aquela árvore que, no enigma zen, cai na floresta. Será que faz barulho? Meu palpite é que não.

As declarações recentes do secretário português Francisco José Viegas sobre a necessidade de alterações na reforma ortográfica causaram polêmica no Brasil. Na sua opinião, Portugal deve ou não respeitar o acordo?

Esse é um assunto que me interessa muito pouco. Os desafios que a escrita me coloca não são ao nível da ortografia. No Portugal contemporâneo, há assuntos mais importantes a debater. Continuo a escrever com a ortografia de sempre. Em algumas publicações onde colaboro, já se adotou a nova ortografia, permito que corrijam os textos, pouco me importa. Não sou agarrado ao “c” antes do “t”. Ainda assim, nos livros, onde tenho o poder de decisão, mantenho a ortografia original.

Como vê o futuro de Portugal? Há risco de a emigração em massa, um dos principais temas de “Livro”, voltar a ser um problema?

A emigração já é uma realidade em Portugal. Sobretudo entre os jovens, há muita gente a procurar noutros países o que não encontra aqui. Esse é um aspecto que me preocupa bastante. Não creio que seja assim que o país se reconstruirá. Somos um país com mais de oito séculos de história porque, nos momentos mais críticos, o povo português tem sido capaz de defender os seus interesses.

Você é um escritor-viajante, sempre ocupado com a promoção dos livros pelo mundo. Como concilia as viagens e o tempo para escrever?

Um ano após a publicação do meu primeiro romance começaram a surgir traduções dos meus livros. Depois, ganhei o Prêmio José Saramago, tive mais uma série de reconhecimentos e os meus livros começaram a ser publicados em muitos países. Hoje, tenho romances em 20 idiomas. Esse reconhecimento faz com que surja um grande número de convites para encontros ou leituras públicas. Tento organizá-los em dois períodos. Assim, há ocasiões em que faço muitas viagens e há outras em que fico em casa, a escrever e a pensar. Creio que as viagens e a escrita se alimentam: as viagens são-me úteis para a escrita, porque me permitem conhecer novas realidades, aumentar a minha visão do mundo, relativizar aquilo que poderia tomar proporções desmedidas; e a escrita é-me útil para as viagens na medida em que as proporciona e me ajuda a prestar a atenção devida aos detalhes de cada lugar. Ao mesmo tempo, é para mim muito gratificante chegar a países pela primeira vez e encontrar já muitos leitores. Na semana passada, fiz quatro apresentações na região da Bretanha, na França e, depois, uma leitura e duas apresentações em Luxemburgo. Já estive também em algumas das maiores feiras literárias do mundo, como a Flip. E fiz palestras em grande parte das universidades mais prestigiadas. Nada mau para um menino que nasceu numa pequena cidade do interior, com cerca de mil habitantes, e que viveu lá até os 18 anos.

Como será sua participação na Flip?

Farei uma leitura de “Morreste-me”, o primeiro livro que publiquei, em maio de 2000. Trata-se de um livro fundamental para mim. Escrevi-o após a morte do meu pai e trata, justamente, do amor entre filho e pai. É um texto curto, com cerca de 40 páginas, e, apesar de ser um livro de prosa, utiliza uma linguagem muito próxima da poesia, o que ajuda a condensação desse tema tão intenso. Esta será a primeira vez em que farei uma leitura completa desse livro. Acredito que será um momento muito intenso e espero ter a oportunidade de partilhá-lo com um grande público apaixonado pelas palavras. Tenho essa expectativa, porque já conheço a Flip e sei o quanto é especial o público que a frequenta.

E quais são os autores brasileiros que chamam a sua atenção?

Posso citar Guimarães Rosa ou Clarice Lispector como nomes que me marcaram de forma indelével ou, na contemporaneidade, Milton Hatoum e Bernardo Carvalho. Mas ficam a faltar muitos outros. A literatura brasileira passada e presente é muito rica.

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Sol, 6 novembro de 2014

24.02.15

Vestido de negro e ouvinte de música pesada era olhado com estranheza pelos habitantes de Galveias, a vila alentejana onde nasceu há 40 anos. Desde então, José Luís Peixoto mudou-se para Lisboa, onde fez a faculdade, participando activamente nos movimentos estudantis, e começou a escrever. Recebeu o Prémio Saramago em 2001 pelo seu primeiro romance, 'Nenhum Olhar', e tornou-se um dos mais destacados e bem-sucedidos autores da sua geração. Conhece meio mundo, por onde tem viajado com os livros e em reportagem mas regressou às origens e acaba de lançar 'Galveias', o seu quinto romance

 

Desde 2010, com 'Livro', que não publicava um romance. Acaba de lançar 'Galveias', sobre a terra onde nasceu. Como surgiu?

Penso muito em termos de romances. Tenho outros projectos pelo meio mas os pilares do que faço são os romances. E quatro anos tem sido o tempo entre eles. O tema aqui tratado já o foi noutros livros e textos que escrevi. Tem que ver com a região e com a vida de uma pequena comunidade rural. Realidade que estava presente tanto em Livro como em Nenhum Olhar, mas de forma diferente, com outra perspectiva e outras cores, porque o tema central era outro. A partir de certa altura surgiu a ideia de fazer algo diferente: nomear e concretizar. O título talvez tenha sido a minha primeira ideia. Depois veio o resto. Galveias tenta ser universal sendo particular. Tudo é nomeado. Foi fazer o caminho inverso. Em Nenhum Olhar nem o Alentejo nem Portugal são nomeados.

 

Lançou o romance em Galveias. Como foi a reacção das pessoas?

Óptima. Galveias é um local pouco noticiado, as pessoas gostam de ver as referências que lhe faço. Com um livro que lhe é exclusivamente dedicado, com Galveias no título, esse impacto foi maior. O lançamento foi um momento inesquecível para mim. Foi muito tocante ver todas as pessoas que constituem o mundo da minha infância e adolescência ali reunidas. E foi tocante fazer o que tinha antecipado enquanto escrevia o romance: oferecê-lo a Galveias. É um livro com a ambição de poder ser lido por qualquer pessoa em qualquer lugar. Mas vai sempre ser lido de maneira diferente ali, pelas pessoas que conhecem as ruas e as gentes.

 

Como foi crescer em Galveias?

Na adolescência não foi fácil. Na infância foi um enorme privilégio. Tinha total liberdade, todas aquelas ruas e campos estavam disponíveis para brincar. E eu utilizava-os com os meus amigos. Tinha acesso a experiências que hoje são difíceis de ter, como o contacto com a natureza. Naquele tempo íamos roubar fruta e os donos ficavam zangados e perseguiam-nos. Hoje a fruta cai das árvores sem que ninguém a colha. Os donos pedem às pessoas para a levar. Na altura os campos não tinham vedações. Hoje estão todos vedados. Entrávamos em qualquer propriedade e fazíamos todo o tipo de brincadeiras. O meu pai era carpinteiro e tinha uma serração de madeiras. Fazíamos brinquedos com pedaços de madeira e andávamos por lá. No Verão podíamos andar na rua até tarde, sem supervisão. Hoje, mesmo em Galveias, os pais vão levar as crianças à escola. Eu ia sozinho desde os seis anos.

 

Começa o livro dizendo que é filho do Peixoto da serração e da Alzira Pulguinhas. Era assim que era conhecido?

Essa é uma pergunta muito vulgar: 'De quem és filho?'. Hoje sou eu que a faço quando vou lá porque não conheço as crianças (ainda há algumas, ainda existe escola). Às vezes até lhes consigo identificar as parecenças mas, para as identificar, pergunto de quem são filhas. Era uma pergunta que me faziam muitas vezes. Uma resposta que também podia ser dada a essa pergunta seria: eu sou filho de Galveias.

 

Passava os dias com os seus amigos ou com os seus irmãos?

Tenho duas irmãs mais velhas, uma com mais oito anos, outra com mais 13 anos. Elas já eram crescidas, eu era um rapaz. Brincava com os amigos das ruas onde vivia. Nessa altura as ruas estavam cheias de crianças. Mesmo cheias. Jogávamos à bola na rua com as balizas feitas de pedras ou num campo com uma árvore no meio, a Azinhaga do Espanhol, que hoje já tem casas.

 

O mundo descrito no livro era o seu?

Sim. Nessa altura quando saía em excursão se alguém de fora me perguntava de onde eu era, respondia que era das Galveias, convencido de que toda a gente conhecia Galveias. Não tinha outro mundo. Até que na adolescência começou a custar-me estar lá, tinha perspectivas e interesses muito distantes daquela realidade. Desde o início da adolescência que tenho grande vocação para a música pesada. E nessa altura fiz uma banda chamada Hipocondríacos. O que foi chocante para as pessoas de lá. E comecei a deixar crescer o cabelo, a minha mãe tinha um desgosto de eu ter o cabelo comprido. Eu tinha que lidar com os olhares dos velhos nas carroças quando ia para os ensaios com a banda, com a guitarra eléctrica… Hoje percebo que se não tivesse sido assim tudo teria sido diferente e o interesse pela escrita talvez nunca tivesse surgido.

 

Porquê?

Porque um dos aspectos fundamentais de uma infância e de uma adolescência em Galveias é a aprendizagem do tempo. Foi dela que veio a disponibilidade, a contemplação, a reflexão. Noutro lugar seria diferente. Mas, já se sabe, é sempre assim: se o passado não tivesse acontecido como aconteceu, o presente seria de outra maneira.

 

Onde fez o liceu?

Em Ponte de Sor, a 12 km. Foi uma abertura para outro mundo, ainda que com diferenças grandes em relação ao que é a vida em Lisboa. Mesmo na Escola Secundária não passava de meia dúzia o número de pessoas que escutavam música pesada. Fui criando o meu espaço e habitando esse espaço de interesses que faziam parte do meu pequeno mundo, como a música, a literatura e as artes em geral.

 

Cresceu numa casa com livros?

Em comparação com as casas dos meus amigos, a minha casa tinha livros. Estamos a falar de casas onde não existia nenhum livro. Nenhum. E, se existiam, eram os da escola. Na minha casa existiam alguns livros, não só por interesse dos meus pais, mas pelas minhas irmãs mais velhas. Por influência delas comecei a ter muito interesse por livros e fui lendo o que havia. A minha mãe tinha algumas colecções que conseguiu quando a sua irmã trabalhou na Bertrand. E mais tarde ia à biblioteca itinerante da Gulbenkian. O que foi uma grande libertação, porque tinha acesso a muitos livros. Escolhia com apoio da minha irmã e do bibliotecário, que era o meu dentista, em Abrantes, e que me dava sugestões avançadas para a minha idade, como poetas portugueses contemporâneos, como Nuno Júdice e Herberto Helder.

 

Que idade tinha quando os leu?

Onze, doze anos. Na altura também tive uma grande enfatuação pela Florbela Espanca, uma autora que me dizia muito porque era muito dramática, muito trágica e, ao mesmo tempo, se referia ao Alentejo. Era a minha realidade. Também sentia grande empatia pelo Urbano Tavares Rodrigues e outros autores do neo-realismo. Eram os livros que eu tinha em casa para ler. Aquele que considero o primeiro livro que li foi os Esteiros, do Soeiro Pereira Gomes.

 

Vestido de negro, cabelo comprido, fã de heavy metal, agarrado aos livros. Era olhado com estranheza?

Completamente. Foi uma boa aprendizagem para a vida. Enfrentar os olhares dos colegas na Escola Secundária deu-me calo para lidar com os olhares dos outros. Até tenho uma certa necessidade adolescente de provocar e enfrentar esses olhares. Confesso que me dá prazer, até por ser tão fácil provocá-los… Uma pequena coisa como um piercing ou uma tatuagem já é impressionante. Como se tivesse importância.

 

As pessoas referiam-se a si como o escritor dos piercings e das tatuagens. Isso já mudou?

Sim. Hoje ter piercings ou tatuagens é comum. Não é assim tão subversivo quanto isso. É uma coisa minha. Fiz os primeiros piercings aos 25 anos, as tatuagens aos 30. E tenho vontade de fazer mais.

 

Aos 18 anos entra na Universidade Nova, em Lisboa. Foi um grande choque?

Foi. Se bem que eu já estava a preparar isso. O 12.º ano foi o ano em que eu mais estudei e me apliquei. Não queria perder a possibilidade de entrar na faculdade. E sempre pensei em Lisboa, era o exemplo que eu tinha das minhas irmãs. Uma estudou na Faculdade de Letras, outra no Técnico. Cresci a vir visitá-las. E quando vim para Lisboa já tinha relações aqui estabelecidas por via da banda. Tínhamos gravado duas demotapes e trocávamos cassetes com outras bandas punk e hardcore da zona de Lisboa. Fiz grandes amizades. E aprendi muito, era uma área que privilegiava o 'faça você mesmo'. Em Galveias gravámos duas cassetes e distribuímo-las internacionalmente. Trocávamo-las pelo correio. Tínhamos um sistema em que reaproveitávamos os selos infinitamente… Existiam publicações ligadas a esse pequeno mundo. Anos depois ainda chegavam pedidos de cassetes da Polónia, da Suíça, do Brasil, dos EUA, da Escandinávia…

 

 

Era guitarrista?

Sim. O que atesta um pouco a qualidade da banda: eu não sei tocar guitarra.

 

E escrevia as letras das canções?

Algumas, partilhava isso com o vocalista. Eram letras simples, reivindicativas, politizadas, contra ou a favor de algo. Tive um empenhamento político forte e radical. Estava ligado a grupos anarquistas.

 

O que fazia?

Todo o tipo de coisas. Existia um movimento estudantil forte, com uma grande contestação ao financiamento do Ensino Superior. Se não estou em erro, as propinas passaram de 1.400 escudos para 40 contos anuais. Envolvi-me muito nisso e entrei na Associação de Estudantes. Participava activamente em todos os movimentos do associativismo estudantil, manifestações, cartazes, publicações, panfletos. Com dois amigos, criei uma associação chamada MATA, um movimento anti-tradição académica, que se insurgia contra as praxes. Propúnhamos alternativas e éramos bastante interventivos. Conheci pessoas pelas quais, ainda hoje, tenho uma admiração imensa. Algumas continuaram na área da política, como o Rui Tavares, outros são jornalistas.

 

E a escrita?

Ia publicando os meus textos no DN Jovem e, na faculdade, coordenava o suplemento literário da revista da associação de estudantes. E escrevia. A escrita estava já completamente entranhada na minha vida. Mas não tinha expectativas de vir a ser um escritor profissional. Ainda estava na faculdade quando comecei a escrever o meu primeiro livro, o Morreste-me, embora só o tenha publicado quatro anos depois.

 

Nesse livro fala sobre a morte do seu pai, figura muito presente na sua obra…

Ele tinha acabado de fazer 57 anos e eu 20. Durante três anos estivemos à espera de que ele morresse, os médicos tinham-lhe dado apenas três meses de vida. 'Morreste-me' marca a minha idade adulta na escrita e acompanha a entrada na idade adulta na vida. Mas a relação com o meu pai é complexa, tem muitas nuances, que noutros livros também estão presentes, mesmo quando não são evidentes.

 

Ao acabar a faculdade foi dar aulas?

Sim. Tive o meu primeiro filho quando acabei o curso e fui dar aulas. Primeiro na Lousã, depois perto de Oliveira do Hospital. Depois dei aulas em Cabo Verde um ano. Foi lá que acabei de escrever o meu primeiro romance, 'Nenhum Olhar', na Cidade de Praia. Com 'Morreste-me' ganhei o prémio dos Jovens Criadores. E fui participar numa Bienal de Jovens Criadores da CPLP em Cabo Verde. Foi impressionante e quis voltar para dar aulas. Fui e encontrei logo um lugar para dar aulas com estatuto de professor cabo-verdiano. Foi um ano muito intenso. Dava dois horários completos, 50 horas semanais, a turmas a partir do 10.º ano, com mais de 40 alunos, com um alto nível de maturidade. Muitos já eram pais. Não existia o desafio nem a provocação constante que se sente nas escolas portuguesas. Os alunos tinham consciência de que estar ali era uma oportunidade.

 

Foi a primeira experiência fora do país?

Sim, nunca voltei a estar tanto tempo sem vir a Portugal. Quando voltei tinha o meu primeiro romance escrito e a convicção de que o queria publicar. De forma humilde comecei a enviar o livro pelo correio para editoras. Felizmente foi lido pela Maria do Rosário Pedreira, que estava na Temas e Debates a formar uma colecção de autores portugueses. O 'Nenhum Olhar' foi um dos primeiros livros dessa colecção. Teve uma recepção impressionante ao nível da crítica e um ano depois ganhou o Prémio Saramago. E iniciou-se este caminho.

 

Tudo isso surpreendeu-o?

E ainda surpreende. Fiquei assoberbado com o que estava a acontecer. Eram muitas solicitações e eu gosto de dizer que sim. Foi muito mais do que estava à espera. Hoje, quase 15 anos depois, já faço uma melhor gestão de tudo.

 

Como foi lidar com o sucesso?

Estava a experimentar com responsabilidades associadas. Tinha uma peça de teatro com estreia marcada no teatro da Bastilha, em Paris, e nunca tinha escrito uma peça de teatro. Músicos pediam-me letras e eu nunca tinha escrito uma letra. No ano passado convidaram-me para escrever um guião ['Entre As Mulheres'] e passados poucos meses estava a passar na RTP. Exige sangue-frio. Mas não tenho razão de queixa. Todo este caminho tem sido feito de privilégios. Só posso estar grato por tudo o que me tem acontecido. A situação em que me encontro é incrível e muito melhor do que alguma vez poderia ter imaginado. Posso escrever os livros que quero. Tenho leitores com vontade de os ler. Viajo com esses livros e encontro leitores em lugares que nunca imaginei. É fascinante.

 

Deixou de dar aulas ao primeiro livro?

Sim. No princípio de uma forma arriscada, colaborava apenas nalguns meios da imprensa. Mas a partir do momento em que recebi o Prémio Saramago, um prémio monetário substancial, criei a possibilidade de conquistar um espaço profissional. Mas trata-se de um percurso independente, não tenho uma entidade patronal. Tive de o construir. Hoje os meus livros são bem recebidos em Portugal e noutros países, o que me permite viver deles. Mas nas Galveias, onde as pessoas não conhecem outros escritores, e mesmo fora, as pessoas pensam que, economicamente, a minha vida é muito mais desafogada do que realmente é. Acham que quem aparece na televisão tem uma vida que corresponde a esse glamour. Essa não é a realidade. Nem para mim, nem para muita gente. Posso garantir a educação e a vida dos meus filhos e a minha própria. O que já não é mau, se pensarmos que isso vem da escrita, área que a maioria das pessoas deste país não está habituada a valorizar economicamente.

 

Em que sentido?

É constante o número de solicitações e pedidos para fazer as mais determinadas tarefas sem qualquer espécie de pagamento. E se alguém falar nisso é logo tido como um mercenário. Como se os canalizadores ou os polícias não recebessem pelo seu trabalho. Ir falar a algum lado sobre um tema escolhido por outros não é propriamente um prazer. É trabalho. Tal como escrever sobre um tema que me propõem. Mas ainda ontem escrevi dois textos nessas condições. E tenho muitos lá em casa à espera de serem escritos.

 

E por que aceita?

Porque nem tudo é dinheiro. Há muitos trabalhos que não são remunerados mas que recompensam ao nível de satisfação. Este ano participei num projecto que consistiu numa grande exposição no aeroporto de Lisboa, em parceria com o ilustrador Hugo Makarov. Tivemos trabalho, estivemos várias vezes no aeroporto e, no entanto, não fomos remunerados. O que é que ganhámos com isso? O prazer de saber que aquele trabalho é visto por milhares de pessoas que nunca iriam contactar com nada do que fazemos. Se estivermos a falar de convites de escolas e bibliotecas, então aí não há nenhuma espécie de remuneração. Fica o prazer.

 

Foi dos primeiros autores em Portugal a ter a cara num cartaz publicitário. Há quem diga que é um fenómeno de marketing. Isso incomoda-o?

Não. Cada um tem direito à sua opinião. Mas a minha obra fala por si própria. Fico surpreendido com os milhares de exemplares que os meus livros vendem. E os meus livros são intrinsecamente anticomerciais, na medida em que pela sua estrutura, tema e trabalho não têm nada que ver com thrillers ou literatura de fácil absorção. Portugal, em função da sua tradição, tem hábitos de leitura com uma certa elevação. O país deu um imenso salto em termos de educação nestas décadas. Temos uma classe média intelectual com um excelente nível e que não deve nada a ninguém, avalia por si e faz a sua leitura. Naturalmente que tenho a minha confiança e auto-estima muito elevada em relação à qualidade do que faço porque os meus livros têm críticas altamente elogiosas no suplemento Babelia do El País, no Times Literary Supplement, no Guardian, no Independent, na Folha de São Paulo, no New York Times, no Le Monde, no Figaro, no La Repubblica. O meu último romance foi finalista do Prémio Femina, em França, um dos mais prestigiados prémios para autores estrangeiros na Europa. E ainda não tinha 40 anos quando isso aconteceu. Não tenho nada a provar.

 

É um meio literário pequeno, o português?

Não. Queixamo-nos das nossas dimensões mas são elas que nos salvam. Existe coesão, tem um tamanho humano. É como Lisboa em comparação com outras cidades do mundo. É uma grande cidade à nossa escala mas tem uma dimensão humana, não é São Paulo, não é Deli. O meu trabalho integra-se na literatura portuguesa contemporânea, tenho consciência dela. Mas acho que quem escreve tem de manter distanciamento desse meio, envolver-se é criar uma teia de relações que não ajuda a algo fundamental: a independência e isenção. O grande compromisso tem que ser com a literatura. Não com o meio literário.

 

Está traduzido em 19 idiomas. O seu livro mais traduzido é o 'Nenhum Olhar'. Há uma universalidade naquele Alentejo?

Há um certo paradoxo. Acho que quanto mais se especifica, quanto mais se fala do que é nosso, mais tocamos no que também é dos outros. Com o 'Nenhum Olhar' tive oportunidade de assistir a um aspecto fascinante: o carácter transnacional da ruralidade. A ruralidade do Alentejo tem muitas especificidades, como a roupa tradicional. No entanto, a ruralidade da Roménia, com as suas especificidades, tem elementos muito semelhantes. Ou a ruralidade da Índia. Ou do Brasil. Ou dos EUA. Há aspectos que têm quer ver com questões que estão para lá dessa roupagem: há uma maior proximidade com a natureza, o céu está mais presente, as estações do ano estão mais presentes, a morte está mais presente. Uma pequena comunidade em Portugal partilha imensas características com uma pequena comunidade na China. Há aspectos que têm que ver com a nossa natureza. Esse é o centro da literatura, que trata aquilo que não muda. A literatura diz:isto já era assim e vai continuar a ser assim.

 

 

Vai levar 'Galveias' ao mundo...

Já está a ser traduzido para búlgaro. Vou receber um olhar de grande surpresa. Falar deste livro na Escandinávia convoca, para aquelas pessoas, uma realidade muito exótica. No Brasil faz sentido, conheço pessoas de lá que o leram e o entenderam à luz da sua realidade. É fantástico. Diz muito sobre a relação entre os dois países.

 

É no Brasil que tem a maior parte dos leitores fora de Portugal?

Os países onde os meus livros são mais lidos, fora de Portugal, são o Brasil, a Espanha, a Itália e a França. Depois há fenómenos, um livro que inexplicavelmente funciona bem num certo lugar. A primeira edição do Nenhum Olhar, nos EUA, vendeu logo 40 mil exemplares. Claro que nos EUA os números são diferentes. Para nós 40 mil exemplares é imenso, nos EUA não, os bestsellers ultrapassam o milhão de exemplares. Mas para um autor de quem nem conseguem pronunciar o nome…

 

Passa metade do ano a viajar, com os livros e para a Volta ao Mundo. Como é este salto de Galveias para o mundo?

Vejo Galveias com um olhar mais limpo do que se vivesse lá. O olhar é fundamental para um escritor. Tem de estar afinado e limpo. A riqueza da viagem dá-me património para traçar contrastes. Nessa medida acho que escrevo e vivo melhor. Viajar e ver outras realidades ajuda-me a sentir grato pelo que tenho.

 

Mas neste seu romance decidiu não retratar a realidade actual. Por que decidiu situar a acção em 1984?

Uns aspectos já não condizem com o presente, outros mantêm-se. Uma das razões que me levou a escolher 1984 foi justamente a de suscitar essa comparação. Parece-me que o presente perde. O romance fala de um tempo em que Galveias tinha crianças, esperança, perspectivas de futuro. Hoje essa não é a realidade do interior de Portugal, com escolas a fechar e infra-estruturas essenciais a deixarem de existir. Além disso, quis mostrar um interior que não fosse estereótipo de si próprio.

 

Em que sentido?

Em 1984 a realidade local já era tocada por elementos do mundo urbano. Não retrato um lugar em que todas as personagens andam de burro ou de carroça ou em que todas as casas são brancas… A realidade não é essa, é um lugar onde as personagens andam de motorizada, vêem telenovelas, há casas forradas de azulejos. O interior não pode ser um parque temático onde temos a expectativa de encontrar imagens rústicas e idílicas ou que, então, não nos interessa. E 1984 foi um momento próximo de uma viragem na vida do interior, com a entrada de  Portugal na CEE e tudo o que daí adveio. Além disso, em 1984 eu tinha dez anos, ao escrever pude recorrer à minha memória para caracterizar personagens, espaços e situações.

 

Não perguntou coisas à sua mãe?

A minha mãe é a minha grande fonte na escrita de um romance como este, tem uma memória melhor do que a minha e, apesar de o presente do romance se situar em 1984, há várias histórias que vêm dos anos 60 e outros períodos que não vivi. Mas trata-se de um romance muito ligado à minha experiência. Há elementos que ainda hoje são assim, como a ligação à terra das personagens e alguns constrangimentos sociais que nas pequenas povoações ainda existem. E há os aspectos ligados à vida de uma pequena comunidade, como as pessoas se conhecerem todas umas às outras, o que origina uma maior valorização do indivíduo mas também uma certa fiscalização da vida uns dos outros. O livro tenta retratar um pequeno mundo que pode ser transposto até para a vida nas cidades em Portugal. As cidades portuguesas também são compostas por comunidades onde estas formas de relação são replicadas, na medida em que se tratam pessoas que, elas próprias ou na geração anterior, chegaram deste meio e trouxeram esta forma de se relacionar. Por isso sinto que estas Galveias são, em certa medida, um pequeno Portugal.

 

O livro fala sobre muitas personagens e as suas histórias. São reais ou imaginadas?

A história de um lugar é a história das pessoas que o compõem. O lugar está presente porque estão lá as pessoas, que são quem o formou, quem o constitui e de quem a vida nesse espaço depende. As histórias têm múltiplas fontes. Algumas podem ter essa raiz autobiográfica. Mas o que cose todas estas personagens é ficcional, faz parte de uma intenção efabulatória de construir um objecto narrativo.

 

O que lhe disseram as pessoas, estavam com medo de se verem retratadas?

Não, não é a primeira vez que menciono Galveias, fica sempre claro que são textos ficcionais. Sinto que, tendo em conta a situação em que está Galveias neste momento, existir alguém que se lembre de apontar o foco para ali e mostrar aquela realidade é visto com bons olhos. Porque a sensação de quem está lá é a de que existe um esquecimento e um abandono daquela parte do país. Isto é o que eu posso dar a Galveias. O próprio facto de estarmos aqui a falar sobre essa realidade é importante. É uma forma de convidar as pessoas a conhecerem o espaço. Esta é uma questão nacional. Estamos a deixar o país evoluir de uma forma desequilibrada e mais cedo ou mais tarde vamos pagar essa opção.

 

Não há futuro em Galveias?

Eu quero acreditar que existe. Mas se as coisas continuarem como estão Galveias vai extinguir-se. No ano passado morreram 40 pessoas e nasceram duas. E passam-se muitos anos em que não nasce ninguém. Mas há sempre muita gente a morrer porque é uma população envelhecida. Desde 1984, a população de Galveias passou para metade, de 2 mil para mil pessoas. Se não se fizer nada vai continuar a diminuir. Há outros lugares do país à beira de ficar sem ninguém e outros que já não têm ninguém. O caminho que está a ser seguido não traz futuro. Nem tem futuro. Mas quero acreditar que se pode reverter isso. Galveias é um lugar com séculos de história. É mais velho que Nova Iorque. Espero que possa retomar o seu caminho. Porque também é um lugar com orgulho de si próprio, com cultura, com identidade. Este livro é, ele próprio, uma afirmação de identidade. Diz às pessoas: eu sou daqui, eu sou isto. E recusa o complexo em relação ao nosso passado e à nossa identidade rural, isolada da Europa e menos cosmopolita. Essa identidade é uma parte fundamental do que somos. E é uma riqueza. Estou optimista. Há uma geração que já não é tão tocada por esses complexos que recupera essa tradição, actualizando-a e dando-lhe novas roupagens.

 

Que relação têm os seus filhos com Galveias?

Passo lá algumas temporadas com eles. E tento-lhes mostrar e explicar como era a minha infância ali, como era a minha vida. A minha vida de hoje é radicalmente diferente. E a vida deles também.

 

Imagina-se a regressar a Galveias?

É difícil. Tenho a certeza de que quero sempre viver em Portugal. Mas com a vida que tenho agora, feita de muitas viagens, não me é fácil viver em Galveias. A relação é eterna. Mas agora não consigo imaginar isso a acontecer. Talvez no futuro.

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Diário de Notícias, 15 outubro 2014

21.10.14

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Visão, 2012

15.05.14

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