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Sobre Almoço de Domingo, in Jornal de Negócios, março 2021

19.03.21

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Enquanto povo, precisamos de trabalhar a consciência coletiva

Rui Nabeiro, fundador do império dos cafés Delta, vai completar 90 anos a 28 de março. Para celebrar a data convidou José Luís Peixoto para escrever a sua biografia. A proposta foi recusada. O autor preferiu escrever um romance biográfico e o empresário aceitou o desafio “na hora”, diz. O resultado está em “Almoço de Domingo”, um livro editado pela Quetzal, que chega às bancas a 25 de março. É uma das duas obras que o escritor lançou durante a pandemia. A primeira foi um livro de poesia. O confinamento acabou por ser um tempo produtivo, mas trouxe-lhe um sentimento de claustrofobia, que só desvaneceu com a dedicação ao trabalho. Peixoto sente falta de estar com os leitores porque eles “contaminam os outros”, fazem circular ideias. E os portugueses precisam de trabalhar a sua capacidade de análise e debate.

 

O comendador Rui Nabeiro convidou-o para escrever a sua biografia. Porque não aceitou?

Uma biografia tem um compromisso com a realidade histórica e factual. Sou um grande leitor de biografias. Tenho imensas. Mas não tenho muito interesse em escrever biografias, porque é um trabalho mais do âmbito da História. Já o romance é uma narrativa com outras regras. Existe uma subtileza que tenho vindo a trabalhar há algum tempo, que é a ficção ter uma ligação com os factos. O romance permite certas subjetividades. É como se a biografia fosse uma filmagem e a literatura fosse a nossa memória. Sinto-me mais vocacionado para trabalhar a literatura. Quando expus a ideia do romance, o senhor Nabeiro aceitou na hora. E comecei logo a trabalhar. Recolhi uma quantidade enorme de material em Campo Maior. Pouco tempo depois, já nos estávamos a encontrar.

 

Não é arriscado escrever um romance biográfico sobre alguém que ainda está vivo? Corre o risco de a pessoa dizer que não se revê na obra.

É muito complicado e tem detalhes sensíveis que podem sempre ser difíceis de gerir. Mas o senhor Nabeiro entendeu a minha explicação. Esta abordagem está presente em praticamente todos os livros que escrevi até hoje. Primeiro numa vertente autobiográfica, ou seja, trabalhando as minhas próprias memórias e, gradualmente, afastando-me delas. O meu romance anterior, “Autobiografia”, tem como personagem central o José Saramago e toca a sua vida também de uma forma muito literária. Este romance “Almoço de Domingo”, a meu ver, vai um passo mais à frente nessa proposta, ao ter um protagonista que está vivo e que tem as suas memórias como um grande património pessoal. Fiquei muito seduzido por esta ideia de lidar com um homem, que na altura tinha 88 anos, e de ele partilhar comigo as suas memórias. Isso é uma matéria realmente privilegiada e, ao mesmo tempo, muito sensível. Aceitar escrever algo que ensaia uma espécie de síntese daquela vida é intenso. É uma proposta bastante ambiciosa. Essa ambição também me seduziu. Por outro lado, escrever sobre o senhor Rui Nabeiro é uma maneira de escrever sobre mim. Há certos aspetos em que coincido muito diretamente com ele. Por exemplo, na ligação às origens. Esse vínculo inquebrável que existe no senhor Rui Nabeiro também sinto que existe em mim. Ou, por exemplo, a questão da família. O próprio título do livro- “Almoço de Domingo”- tem que ver com uma imagem familiar. O livro passa-se em três dias- 26, 27 e 28 de março de 2021. O domingo (28 de março) é o dia do aniversário do Rui Nabeiro. E no aniversário existe o encontro com a família.

 

Foi o romance “Autobiografia” que levou Rui Nabeiro a convidá-lo a escrever este livro?

Sim, O senhor Nabeiro viu-me numa entrevista na televisão, quando estava a fazer promoção do livro, e foi a partir daí que pediu para falar comigo. Fui a Campo Maior para falar com ele e nem sabia do que se tratava quando ia no caminho.

 

Como é que se preparou para escrever este romance?

Primeiro li muito material de imprensa, participações do senhor Nabeiro em livros, vídeos...Mas, para descrever situações concretas precisava de falar com ele. Este é um livro que tem dimensões muito pessoais das suas memórias de criança, adolescente e já adulto. Só que para marcarmos os nossos encontros era complicadíssimo. Ele tem uma agenda com dias todos marcados. Quando estávamos a conversas, o telefone estava constantemente a receber mensagens. Tem uma vida muito cheia. E, tendo em conta que daqui a uns dias faz 90 anos, isso é muito impressionante. Nessas conversas, chegou a dar-me matrículas de carros. Incluí, por exemplo, a matrícula do primeiro carro que teve nos anos 1950 ou detalhes como os locais onde passou a lua de mel. Ele lembra-se de tudo. São memórias que têm um potencial narrativo extraordinário. É uma vida de 90 anos muito particular, com uma história muito marcante a muitos níveis. Tem elementos muito fortes para fazer um livro. Apesar de ser um livro de ficção e de eu ter tentado descrevê-lo com essa dimensão literária, pretende ser também exemplar de um homem de 90 anos. Eu já tinha feito algo parecido. O romance “Galveias”, que é o nome da aldeia onde nasci, passa-se num lugar muito concreto, que existe. Ao mesmo tempo, também pretende ser uma aldeia exemplar do interior de Portugal. É claro que a história do senhor Rui Nabeiro é bastante específica- o contrabando, Campo Maior, a sua vida empresarial, a família... Mas, numa certa dimensão, pode ser considerada como uma vida exemplar. Quis que o livro também pudesse ser lido assim.

 

Impôs-lhe alguma regra para o deixar escrever um romance sobre a sua vida?

Não, nenhuma. Quando lhe fiz a proposta do romance, garanti que iria respeitar a sua visão. Mas também lhe deixei muito claro que as pessoas são constituídas por múltiplas facetas. Portanto, é claro que este livro também tem momentos de insucesso, coisas que correram melhor e outras que representam fracassos e dissabores. Isso faz parte da vida de toda a gente. O senhor Nabeiro foi acompanhando a progressão do livro e ia apontando certas imprecisões. Eram detalhes que eu tinha entendido mal ou questões que faltavam.

 

O comendador já leu o livro? O que lhe disse?

Sim, já leu. O senhor Nabeiro é um pouco comedido. E, ao mesmo tempo, é modesto nas suas avaliações, na medida em que não se sente à-vontade para fazer algumas considerações literárias. Está sempre a dizer que não tem essa capacidade. Disse-me mais ou menos isto: “O que eu possa dizer já você sabe, e o que eu não sei também não lhe posso dizer.” (risos) O que para mim é importante é que ele se reconheça naquelas memórias. Não está ali exatamente o que viveu, mas o livro não desvirtua a sua vida.

 

Depois de lerem o sue romance, os leitores vão conhecer melhor Rui Nabeiro?

Espero que sim. Acho que a literatura humaniza porque é o mesmo do domínio humano. É feita com palavras, com conceitos que partilhamos, com ideias que são de certa forma identificadas por um ser humano e que depois são também interpretadas por outros seres humanos. A literatura, de certa forma, tenta aprofundar. É inimiga do estereótipo, da generalização. E, neste caso, é disso que se trata. O livro tenta interpretar aquele homem. Perceber, por um lado, o que é que na sua história o levou a seguir o caminho que seguiu, mas também qual é a sua natureza, quais são as suas visões do mundo. Estamos a falar de um homem do mundo empresarial, dos negócios, e nesse mundo normalmente o foco é outro. Aqui estamos a falar de outra dimensão, do outro lado. Muitas das histórias que estão no livro são desconhecidas, até mesmo para as pessoas de Campo Maior. Por isso, espero que seja interessante para os leitores.

 

O lançamento do livro teve de ser adiado por causa das livrarias estarem fechadas?

Não. Eu publiquei dois livros durante a pandemia. primeiro publiquei um livro de poesia- “Regresso a Casa”- e agora este. Queria que o romance estivesse publicado na data em que o senhor Nabeiro faz 90 anos. Tenho muita dificuldade em compreender porque é que as livrarias estiveram fechadas. Infelizmente, não são espaços onde haja grandes aglomerações. E sei que o mundo editorial, como muitas outras áreas, tem atravessado problemas graves. No ano passado, conseguiu-se fazer a Feira do Livro em Lisboa e no Porto, e isso acabou por ajudar bastante as editoras. Mas as livrarias, que são outro lado deste mundo, tiveram bastantes quebras e dificuldades. Sinto que é uma área que tem viabilidade económica e avalio-a como muito importante a níveis que muitas vezes não são considerados. Nós, enquanto povo, também precisamos de trabalhar a nossa consciência coletiva. Precisamos de trabalhar a nossa capacidade de análise, de debate. E, mesmo que os livros não sejam tão discutidos como o futebol, as ideias circulam. Vão circulando. Os leitores contaminam os outros, os não leitores. Acredito que a leitura tem um papel estruturante na sociedade e, nessa medida, não concordei com essa decisão. Não acredito que as livrarias tivessem sido determinantes no agravamento da situação sanitária.

 

Como foi o período do confinamento para si? Foi bom para se concentrar a escrever ou impediu a escrita de fluir?

Houve um momento inicial que foi um pouco difícil. A casa ficou cheia de gente, porque os miúdos deixaram de ir para a escola. Eu tinha estado num encontro literário com o escritor Luis Sepúlveda que tinha covid-19. Foi o último debate em que participou em vida. Foi muito complicado. Tive de lutar contra uma certa claustrofobia. Ainda assim, a partir de certa altura, o trabalho foi uma maneira de me evadir e de lidar com tudo isto. Ajudou-me bastante a lidar com tudo isto. Ajudou-me bastante a lidar com a própria situação. Acabei por produzir bastante mais do que se estivesse na minha rotina habitual, em que tinha de conciliar tudo isto com outras atividades que ficaram comprometidas, nomeadamente viagens, algo que fazia muito. Escrevi o livro de poesia entre março e junho. Quando terminei, já estava mais ambientado com esta vida de confinamento e avançou o romance.

 

Tem falado com outros escritores? Qual é o estado de espírito no meio?

Há pessoas mais animadas, outras menos. Umas refugiam-se no trabalho, outras não conseguem trabalhar. Tenho a sensação de que o balanço geral não é positivo. A maioria das pessoas não consegue produzir como se tivesse liberdade, porque esses estímulos também são necessários. tudo isto que estamos a viver nos constrange. Fazemos aquele passeio higiénico que não chega para espairecer absolutamente. A melhor expressão que encontro para definir é uma certa claustrofobia. E depois há muitos projetos que estão na gaveta, à espera. Isso é um pouco desesperante. Quando a pessoa publica, liberta-se e fica disponível para trabalhar outros projetos. Quando não existe essa libertação, há alguma coisa por cumprir.

 

De acordo com a APEL, os portugueses compram em média um livro e meio por ano. Isto não é conjuntural, é estrutural. Como é que se muda o cenário?

Tenho muita dificuldade em responder. Em certos aspetos, sou até um pouco otimista porque comparo esses números com os de há 20, 30, 40 anos, e vejo que é uma diferença astronómica. Quando nasci, nos anos 1970, compravam-se muitos menos livros do que agora. Havia muito mais analfabetismo. Sinto que, apesar de tudo, fizemos um longo caminho ao nível da educação, que é um passo importante para que as pessoas se interessem pela leitura. Mas também vejo que hoje em dia existe muita competição com a leitura, nomeadamente os computadores, os telefones, as redes sociais..., são muitas coisas a competirem pela nossa atenção e, às vezes, de uma forma “desleal”. Como eu dizia, acredito na leitura como um valor. Acredito que os leitores, apesar de não serem maioritários, têm uma importância enorme no estruturamento ao nível da consciência e ao nível intelectual de toda a sociedade. Temperam o clima. Mas sinto que o trabalho de modificar esses números passa pelo acesso mais facilitado aos livros. Não me refiro a haver mais pontos de venda, mas sim a um reconhecimento, a nível institucional, da importância dos livros e de existir alguma facilidade concedida a esse setor. Eu dizia que sou otimista porque não antevejo o fim da leitura. Por mais Netflix ou Facebook que haja, não antevejo o fim dos livros. Todas essas formas de consumir informação são diferentes da leitura e oferecem um produto diferente. Não oferecem aquela espécie de meditação que também fazemos quando lemos um romance, e que pode não ser imediata, mas que a níveis profundos, nos faz bem.

 

É possível viver em Portugal só da escrita de livros?

pode-se viver exclusivamente da escrita, mas tem de se vender muitos livros. No meu caso, vivo também de múltiplas atividades relacionadas com a escrita. Desde que a pandemia começou, estou a fazer oficinas de escritas de poesia online, numa iniciativa com o município de Oeiras. Depois, tenho também as colaborações. Escrevo uma crónica num jornal em Macau e tenho um pequeno programa de rádio na Antena 1. Também contribui para o meu orçamento a participação em certas atividades, como colóquios, conferências, participações em universidades. Neste confinamento, por exemplo, escrevi as letras de um disco do músico açoriano Luís Bettencourt. Mas, claro, recebo sempre os meus direitos de autor dos livros e ainda tenho também os direitos de autor das edições internacionais, que acabam por ser uma boa ajuda.

 

Ainda não sabemos se este ano a Feira do Livro se irá realizar. Esse tipo de eventos em que há um contacto direto com o público é importante para os escritores?

Para mim, é. Não esqueço como é para mim, enquanto leitor, estar com autores que admiro. Tenho muitos livros autografados. Ganhei sempre alguma coisa quando encontrei autores que admirava, mesmo que possa não ter tido a melhor experiência nesses encontros.

 

Já aconteceu ficar desiludido quando conheceu pessoalmente um escritor que admirava?

Aconteceu. Mas tento ultrapassar isso. Sinto que pode ter sido do momento. Às vezes é difícil avaliarmos as pessoas em cinco ou dez minutos. Mas nunca deixei de ler alguém por ter tido uma experiência menos positiva. Acho que isso depende muito das expectativas de cada um. Se calhar às vezes temos expectativas irrealistas em relação aos outros. Mas eu, enquanto escritor, quero conhecer os leitores. Gosto de falar com eles, porque depois passo muito tempo sozinho a escrever. Muitas vezes são as memórias dessas pessoas que encontro nos mais diversos lugares que me alimentam. recentemente fiz uma publicação numa rede social em que pedi às pessoas para me dizerem onde é que nos tínhamos encontrado ao vivo. Foi incrível. Houve pessoas que eu tinha encontrado em Caracas, Macau, África do Sul, Portimão, Chaves, Porto... Isso também é um património. Não tenho capacidade de conhecer todas as pessoas que leem os meus livros. Mas acho que não me faz mal nenhum conhecer essas pessoas e ter uma ideia sobre elas. Não escrevo necessariamente para lhes agradar. A questão é que quando se escreve temos de considerar a existência do outro. Pelo menos, na escrita que me interessa fazer. Se eu não considerar a existência do outro, não faz sentido sequer escrever e muito menos publicar. Publicar é entregar ao outro. E a um outro que pode ser qualquer pessoa. Não sei quem é esse outro. Pode ser o meu vizinho ou podem ser netos meus que vão nascer e que já não vou conhecer.

 

Filipa Lino

Bruno Colaço

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