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Sobre A Montanha, in Público, novembro 2025

07.11.25

Não há, para mim, uma fronteira entre o escrito e o vivido

 
 
Criado a partir de seis histórias reais, A Montanha é um romance que tenta humanizar o cancro, ao mesmo tempo que aprofunda temas presentes na obra do escritor desde a sua estreia com Morreste-me.
 
 
 
A palavra: cancro. No seu novo romance, A Montanha, José Luís Peixoto faz questão de a escrever, de a repetir e, até, de a destacar. Assim: cancro. “É uma palavra muito forte”, reconhece o escritor. “Só com este livro me apercebi de que nunca a tinha usado antes. E se agora o faço, e a negrito, é para me obrigar (e obrigar a quem lê) a um confronto com a palavra, a vê-la assim que se olha para a página”. Sem rodeios, nem eufemismos.
 
Escrever ou dizer “cancro”, com ou sem negrito, sibilina ou sonoramente, é uma forma de quebrar tabus que permanecem na sociedade portuguesa. Na semente deste romance, que acaba de chegar às livrarias com a chancela da Quetzal, esteve precisamente essa vontade. “Felizmente, fala-se cada vez mais de cancro e promovem-se várias campanhas de sensibilização, mas há muitos aspectos da doença que continuam na sombra”. Quem o diz agora é Gonçalo Paupério, 43 anos, médico especialista em cirurgia cardiotorácica. Desde a sua primeira operação, ainda em Coimbra, em 2009, e mais intensamente no IPO do Porto, onde trabalha há mais de uma década, já lhe passaram inúmeros pacientes pelas mãos. Em todos encontrou uma história que merece ser contada.
 
E porque não contá-las? Foi o que Gonçalo Paupério pensou, por volta de 2019. Frequentava um mestrado em oncologia e numa cadeira de psicologia ouviu um episódio que nunca mais esqueceu. “Era o testemunho de um homem atormentado por uma dor crónica que, desesperado, decide atirar-se de uma ponte, não conseguia aguentar mais. Mas nesse preciso momento recebe um telefonema do filho a perguntar se podia ir brincar com os netos à tarde. Nesse momento, consegue, pela primeira vez, partilhar a dor com a família, ir a um hospital, receber o diagnóstico oncológico e, devidamente tratado, prosseguir a vida”, conta-nos, como o fez na primeira sessão de lançamento de A Montanha, no auditório do IPO do Porto, no passado mês de Outubro.
 
Porque não encontrar mais histórias como esta? Com a ajuda de Eunice Silva, psicóloga há muitos anos ligada à mesma instituição, Gonçalo Paupério imaginou um livro que reunisse 12 testemunhos, relatados por 12 escritores, com o objectivo de “mostrar que há pessoas a passar pela mesma situação” e, acima de tudo, “que não há duas vivências do cancro iguais, cada uma tem a sua especificidade e forma de lidar com a doença”.
 
José Luís Peixoto foi um dos primeiros escritores contactados e aceitou logo, embora a chegada da pandemia, em 2020, tenha impedido a concretização do projecto. “Era uma oportunidade para quebrar tabus sobre este assunto, de dar-lhe alguma naturalidade. Parece-me muito injusto para com os doentes que exista um mal-estar acerca de algo que os toca, que os fragiliza, um tema do qual não podem e não devem fugir”, sublinha.
 
O escritor, no entanto, agarrou-se à ideia. “Mantive sempre o contacto, uma vez que percebi que a escrita de um romance que incluísse a história de pacientes do IPO do Porto seria interessante para mim”, revela. “Ao terminar Almoço de Domingo, em 2021, reatei esses contactos e dei todos os passos necessários para avançar com o projecto, incluindo várias reuniões e o parecer positivo da Comissão de Ética do hospital”.
 
Nos corredores do IPO do Porto confrontou-se novamente com temas que percorrem a sua obra, como a doença e a finitude, assim como a possibilidade de aprofundar “as múltiplas perplexidades que envolvem a escrita biográfica, autobiográfica e ficcional”. Vinte cinco anos depois de Morreste-me, também viu a hipótese de regressar literariamente à morte do pai.
 
 
Vontade e convicção
 
A palavra: metástase. Daniel Rodrigues, 43 anos, nunca se imaginou como personagem de um romance, mas também nunca pensou que viria a ser visita regular do IPO do Porto. Foi um dos seis doentes que aceitaram falar com José Luís Peixoto, num projecto que, da ideia inicial, se transformou radicalmente. Passou a estar tudo entregue ao escritor, às suas ideias e imaginações. Porém, a metodologia manteve-se: conversas mediadas pela psicóloga e partilhas até aonde se quisesse.
 
“Foi bom poder falar da minha experiência e da maneira como tenho lidado com a doença”, garante Daniel Rodrigues. “Tem sido um processo difícil, pois começamos por levar uma grande chapada e, contudo, temos de continuar”. Filho de portugueses emigrados na Venezuela, vive em Portugal desde os 11, numa mudança importantíssima na sua vida. “Descobri que podia brincar na rua, andar de bicicleta, estar com os meus amigos”, recorda. Daí ao desporto e ao andebol foi um pequeno passo. Só que, um dia, já nos balneários depois do treino, descobriu um nódulo. “De um momento para o outro, tudo deixou de estar bem”, afirma.
 
Foi Gonçalo Paupério que o recebeu no IPO do Porto. “Nunca fumei, mas o cancro da pele que tenho está constantemente a criar metástases no pulmão”, revela Daniel Rodrigues. “Este é, infelizmente, o cancro mais comum”, explica o médico. Passados 10 anos e outras tantas operações, a caminhada de Daniel Rodrigues, que tanto impressionou José Luís Peixoto, prossegue.
 
Além de Daniel, o escritor conheceu Alice, Filipe, João, Jorge e Fátima. Bem recebido por todos, recebeu verdadeiras dádivas, a partilha do que, para cada um, era o mais relevante num momento tão crítico das suas vidas. “Sempre foi claro para mim o quanto as histórias destas pessoas eram importantes para elas. O que mais me custou foi a responsabilidade que assumi”, afirma o escritor. “Queria muito que o texto as honrasse. Essa responsabilidade foi, em si, muito marcante, uma vez que acrescentou um nível bastante intenso à vivência da escrita, levantando exponencialmente a ambição do texto. A minha esperança é de que essa intensidade também chegue à leitura.”
 
Mais simples foi apresentar a sua vontade, pois cedo percebeu que queria escrever um romance. “Quando comecei a falar com os pacientes do IPO já tinha a decisão tomada”, adianta. Alguns dos pacientes, aliás, chegaram a pesquisar a biografia do escritor, outros já conheciam o seu percurso ficcional. “Não tive dificuldade em explicar que ia escrever a partir do que me era contado e que o que escrevesse não seria isento de subjectividade. Suponho que soubessem bem que seria impossível reproduzir literalmente o que passaram, ninguém o poderia fazer, talvez nem eles próprios”.
 
Não é a primeira vez que o escritor transforma em ficção um convite com estas características, sendo o exemplo mais próximo o romance anterior, Almoço de Domingo, desenvolvido a partir da vida de Manuel Rui Nabeiro, fundador do grupo Nabeiro-Delta Cafés. “Creio que isso acontece, principalmente, porque é o que sinto que consigo fazer e, só depois, embora com igual importância, porque é o que quero fazer. Tal como a entendo, a literatura só faz sentido se partir da vontade e da convicção.”
 
 
Amor doce, doce amor
 
A palavra: pai. Ela está presente em toda a obra de José Luís Peixoto, desde o seu primeiro livro, Morresteme. Com este romance, regressa com mais força e intimidade. O seu pai, José João Serrano Peixoto, carpinteiro com oficina própria, um dos seus orgulhos, morreu aos 57 anos. Durante o internamento no IPO de Lisboa, recebeu várias visitas do filho. Algumas dessas memórias, já presentes na obra de estreia, voltaram agora.
 
“Quando o meu pai ficava internado no hospital, guardava as caixinhas de doce para me dar. Nesse tempo, essas caixinhas de plástico não eram comuns, estávamos a vê-las pela primeira vez”, descreve o narrador de A Montanha. “Quando lhe serviam essas caixinhas para o pequeno-almoço, para o lanche, o meu pai não as comia, guardava-as. Depois, à hora da visita, doente e fraco, pedia-me para abrir a gaveta de ferro da mesinha de cabeceira. Dizia: leva, são para ti.”
 
De novo num IPO, agora no Porto, a ligação a Morreste-me, lançado há precisamente 25 anos, impôs-se como uma inevitabilidade. “Ao recordar o lançamento de Morreste-me lembro principalmente da pessoa que era nesse tempo. Hoje, muitas vezes, essa lembrança continua a ser um paradigma que me orienta”, afirma. “Na minha vida, não quero chegar nunca a sentir que me perdi completamente da pessoa que escreveu esse livro, que continua a ter uma vida extraordinária junto dos leitores.”
 
A dificuldade, contudo, mantevese. Há uma dimensão do cancro, como em qualquer outra doença, que ultrapassa o poder da escrita. “As principais memórias que guardo do meu pai, nas visitas ao hospital, e em outros momentos, são indescritíveis, por mais que escreva não acredito que algumas eu consiga exprimi-las de forma absoluta. Lembro-me do seu rosto, do seu olhar, da sua voz”, sublinha. “Naturalmente que, para mim, hoje, trazer o meu pai ao texto é algo que tem muitas diferenças em relação ao que era fazê-lo pouco depois da sua morte. Mas continua a ser uma tentativa de lhe dar mais alguma vida. É, acima de tudo, amá-lo.”
 
É também ao amor que Daniel Rodrigues se agarra. E à família. Conheceu Sílvia, de 37 anos, há quase duas décadas e desde então têm partilhado tudo. Alegrias, desafios e aqueles momentos em que tudo se conjuga. Casaram-se há 15 anos e viram nascer o primeiro filho na mesma altura em que se iniciaram as visitas ao hospital. “É verdade que o cancro me tirou muitos sonhos, mas temos de o integrar na vida e na rotina, assumi-lo em todos os momentos, até perante as crianças”, diz Daniel Rodrigues. O filho de ambos, agora com 10 anos, já pergunta se pode visitar o pai quando está internado, tal como José Luís Peixoto visitou o seu, e há períodos, quando a doença não se manifesta, em que por momentos a vida parece normal.
 
Mas a impossibilidade dos sonhos, alguns tão simples e comuns, volta sempre. “Se ainda não se fala o suficiente do cancro, menos se fala das suas consequências em todos os aspectos da vida”, salienta Gonçalo Paupério. “Temos de defender o direito ao esquecimento, porque há pessoas tratadas, apenas em vigilância, com uma probabilidade de recidiva muito baixa, que por exemplo não conseguem obter um empréstimo.”
 
É justamente o caso de Daniel Rodrigues. Não tem casa própria, nem emprego, depois de anos a trabalhar na área da manutenção de frigoríficos e de outros sistemas industriais de frio. Reformado por invalidez, vive com o apoio inexcedível dos pais, sogros e cunhados. Aprendeu a ir à procura de “outros sonhos”. Como o de ter um dia bom, ver o filho crescer, passear, conduzir em silêncio, ler a sua história num livro. Como escreve José Luís Peixoto em A Montanha: “Os doentes com cancro ainda são quem eram antes de terem cancro.”
 
 
Relatos fragmentados
 
A palavra: diagnóstico. E a especificidade de cada um: gastrectomia, carcinoma, neoplasia, corte transumeral, amputação. “É realmente quando entramos aqui pela primeira vez que tudo muda, tudo se quebra. É muito difícil receber o diagnóstico e dizer pela primeira vez a palavra cancro”, garante Daniel Rodrigues. “Cancro não é um sinónimo de morte, mas esse equívoco é demasiado comum. E é sempre um confronto com a efectiva finitude”, acrescenta José Luís Peixoto. “Sabemos que vamos morrer, mas não acreditamos verdadeiramente nisso. O diagnóstico não permite a maioria das ilusões que alimentamos, transforma toda a realidade.”
 
Para um médico é também o momento mais delicado. Gonçalo Paupério reconhece que não há formação específica para esse momento, apenas a experiência e o bom senso. “Temos de apresentar o diagnóstico mas também o modo como se pode combater o cancro, numa decisão que é do paciente. A função do médico é esclarecer e apresentar os riscos e os benefícios de cada tratamento.”
 
É também pelo diagnóstico que A Montanha começa, desdobrando-se depois em algumas fases da doença. O desafio, para José Luís Peixoto, começou na sua linguagem técnica: “Por vezes, a linguagem do cancro dá novos significados a algumas palavras que usamos noutros contextos, como estágio, progressão ou massa. Mas, em certos termos, também se afasta da fala mais quotidiana da maioria das pessoas. Foi interessante trabalhar esse material de um ponto de vista plástico.”
 
Mais importante foi a opção de moldar o romance nas ambiguidades do relato autobiográfico do narrador e, sobretudo, na ideia de fragmento. Ao correr das páginas, salta-se da experiência de Daniel para a de Alice, da de Jorge para a do João, da do Filipe para a da Fátima, com muitas interrupções pelo meio, incluindo as que se reportam a um “Escritor” que tem um livro, este romance, para escrever.
 
A opção foi natural, quer pela diversidade de pessoas, transformadas em personagens, com quem falou, quer pela apetência para esse registo. “A um nível difícil de explicar, creio que tenho uma certa vocação para a narrativa fragmentária. Quase todos os livros que escrevi até hoje assentam nessa estrutura”, afirma. “Além disso, a fragmentação seduzme porque a encontro em toda a parte, em especial no mundo tecnológico em que vivemos”.
 
Cada fragmento, no entanto, sugere sempre uma “unidade”. Aqui é tecida no cruzamento das várias histórias de vida e nas inquietações do narrador. E se encontramos este narrador no IPO do Porto, a descrever as conversas com os pacientes, também o fixamos em contínua viagem, em geografias que se confundem com as do próprio José Luís Peixoto. “Foi muito apelativo trazer algumas imagens desse mundo, escrever sobre festivais literários, apresentações e outras sessões de um modo que nunca tinha feito e, também, que nunca tinha lido”, adianta. “Trata-se de algo que tem muita prresença na minha vida e que, por enquanto, continuo a apreciar. Sinto que me tenho desenvolvido muito a partir dessas experiências.” As viagens também contribuem para a construção, aos olhos do leitor, de uma “quase inequívoca dimensão autobiográfica” que depois, ao longo do romance, “é minada e praticamente destruída”.
 
Foram estes elementos, assim com as passagens mais surrealistas, iniciadas quando entra em cena um tal de Björn Alepson e a sua montanha (eco da de Thomas Mann e de outras doenças), que mais cativaram Gonçalo Paupério. “Apesar de ter partilhado algumas ideias comigo, ler o resultado final foi surpreendente. Consegue ser hiper-realista e onírico, directo e belo, recriando memórias e histórias pessoais. Senti que estava a viver pela segunda vez, de uma forma radicalmente diferente e original, as experiências que conheci enquanto médico”.
 
 
Escrito e vivido
 
A palavra: vida. Aquela que Daniel Rodrigues conquista todos os dias. Há momentos em que pensa: “O que farei quando já não tiver mais pulmão para tirar?” Noutros em que concorda: “Estamos aqui, continuamos aqui, há tanta esperança no mundo.” Para quem atravessa o cancro, a missão principal é encontrar um sentido para tudo o que se vive e acontece. “A procura de sentido é fundamental. Todos queremos que a nossa vida tenha valido a pena, que tenha tocado os outros”, afiança José Luís Peixoto. “Creio que procurar um sentido é sinónimo de reflectir sobre a vida, contemplar as escolhas que se fez. É olhar com tempo para aquilo que, na vertigem do quotidiano e das solicitações, não recebeu a devida atenção. É em nós próprios que encontramos a nossa identidade e, com ela, o nosso sentido.”
 
“Esperança” é a palavra central, assegura Gonçalo Paupério. “Não podemos ser exageradamente optimistas ou pessimistas. Mas os números são animadores. Há cada vez mais pessoas curadas ou que vivem muitos anos com a doença. E, outras, que conseguem reconfigurar completamente a vida, perseguindo o que mais desejam. Aproveitam cada dia porque a vêem a morte mais perto.”
 
Ao ler A Montanha estamos dentro e fora do cancro, no que acontece na vida e na cabeça do escritor, no que é real e no que é imaginado, num jogo ficcional sem limites. “Não há, para mim, uma fronteira entre o escrito e o vivido. Nesses dois planos existe a mesma vida, ambos convocam quem somos. Os elementos que constituem a matéria dos livros existem em todos os momentos, também fora dos livros, são o nosso entendimento”, sublinha José Luís Peixoto. E se o mistério da vida, e do cancro, escapa-nos sempre, o escritor acredita que vale a pena persegui-lo. “Fazê-lo é viver plenamente. E o meu principal objectivo é esse: misturar escrita e vida.”
 
 
Luís Ricardo Duarte (Texto)
 
Nelson Garrido(Fotografia)
 
 

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Sobre A Montanha, in Jornal de Notícias, novembro 2025

05.11.25

 

"Estamos mais interligados do que por vezes imaginamos"

 

"A Montanha”, novo romance do escritor, relata a história de seis pacientes do IPO e dos seus esforços de combate à doença

 

Durante quatro anos, José Luís Peixoto fez do Porto a sua segunda casa, deslocando-se com. regularidade ao Instituto Português de Oncologia para ouvir o testemunho de seis pessoas de origens distintas, de Oliveira de Azeméis à Venezuela e Moçambique, no seu processo de luta contra a doença. A partir desses relatos, mas também das suas próprias memórias familiares, o autor de “Nenhum olhar” construiu “A montanha”, romance que assinala o regresso à ficção, quatro anos depois de “Almoço de domingo”.

 

Escrever este livro equivaleu a subir a uma montanha?

A grande montanha é a vida que temos que subir. Escrever este livro foi similar. A escrita trouxe-me dificuldades que ainda não tinha encontrado. É o que acontece quase sempre. Tentamos subir um pouco a ambição de livro para livro.

 

A consciência de que estava a escrever sobre pessoas concretas fez parte dessas dificuldades?

Senti uma grande responsabilidade para com essas histórias. A maneira que encontrei para contá-las foi confrontá-las comigo próprio. Ao escrever, senti uma consciência da finitude e da mortalidade que nunca tinha sentido antes. Na teoria, claro que sabemos que vamos morrer um dia, mas tudo muda a partir do momento em que recebemos o diagnóstico de cancro. É aí que tudo se torna real.

 

Em que sentido conseguir imaginar a vida dos outros a partir da sua própria tornou menos difícil o processo de escrita do livro?

No quotidiano, nem sempre nos damos conta de uma evidência: aquilo que achamos que os outros são acaba por ser apenas a nossa interpretação, não abarca toda a complexidade do ser humano. O livro parte dos testemunhos de pessoas que existem, todavia deixei sempre presente que se tratava da minha compreensão a partir do que me foi contado e não de um registo direto.

 

É possível escrever um livro destes saindo ileso, ou seja, sem criar um vínculo com as pessoas que conheceu?

É muito difícil. Lidei com pessoas que enfrentaram momentos de fragilidade. Senti que tinha que estar à altura das expectativas que foram colocadas por parte dessas pessoas e das suas famílias. Escrever com esse peso não é fácil.

 

Embora o cancro seja uma doença prevalecente na sociedade, há um tabu que o rodeia, como se nos esforçássemos por não o ver. É um paradoxo?

É uma palavra que até evitamos pronunciar. Eu próprio dei-me conta de que nunca a tinha utilizado num livro meu. O peso da palavra é injusto para os doentes que têm cancro, porque se veem confrontados com toda essa escuridão sozinhos. Falar sobre este tema difícil ajuda a que lhe tiremos peso sem que estejamos a tirar seriedade.

 

Há uma frase repetida ao longo do livro, quase como um mantra: “eu sou porque nós somos”. É uma divisa que o acompanha cada vez mais?

Essa ideia acaba por fazer sentido à luz do texto, focado num grupo de pessoas que são indivíduos, mas têm uma unidade entre si. Na verdade, estamos mais interligados do que por vezes imaginamos.

 

Quer “A Montanha” quer o romance anterior chegaram até si sob a forma de propostas de outros. Aprecia cada vez mais essas possibilidades?

Não tenho muita dificuldade em deixar-me seduzir por uma ideia vinda de outra fonte, mas também é verdade que ambos os romances representavam uma oportunidade. Ter ao meu dispor histórias de vida para trabalhar narrativamente era uma oportunidade valiosa.

 

Quer sejam sobre um empresário de sucesso, como Rui Nabeiro, ou sobre pessoas em luta contra o cancro?

Sim, sim. As múltiplas vidas que possam existir. Na história de uma vida vai também a história de um país, de uma comunidade. Vão muitas reflexões.

 

A “vida esteve fora ou esteve dentro”, como lhe chama no livro, ao longo da escrita?

Está fora e dentro ao mesmo tempo. Construir um livro é construir um mundo inteiro. E esse mundo tem relações diretas com o que nos rodeia, mas também é um mundo em si. Há realidades que ele contém e só existem ali, acabando por ser povoadas pelas pessoas que o leem. São elas que dão carne àquela realidade. No fundo, é um reflexo do que existe na nossa perceção do mundo, entre o que é exterior e o que é interior a nós. São dimensões inseparáveis.

 

O livro é também uma homenagem ao seu pai. Entre “Morreste-me”, marcado pela emoção em carne viva, e este, de que forma esse sentimento se transformou?

Há diferenças enormes. Num momento do livro escrevo que me transformei no meu pai. E esse é o sentimento que tenho hoje. Falar do meu pai é falar de mim próprio. Falar da pessoa que ele era, do que aprendi com ele, é falar da pessoa que eu sou. E isso é um dos elementos da narrativa da filiação, quer tenhamos consciência ou não. Trazer o meu pai para o livro foi uma forma de me trazer também, mais até do que outros elementos aparentemente autobiográficos. Ao evocar o meu pai, quis que o eu ficasse ao mesmo nível das seis personagens e encontrar uma ligação com elas. Os temas essenciais do livro, como a procura de sentido e a consciência da finitude, não são só daquelas pessoas. São de todos. Dos autores, dos narradores, dos leitores.

 

Os capítulos do livro correspondem a fases de tratamento da doença. Houve muito de terapêutico na escrita?

Existe sempre. Quando nos propomos a escrever um romance, há um confronto. Isso traz uma forma diferente de ver as coisas. Claro que, falando de cancro e de finitude, também acontece essa reflexão. Sinto que foi importante para mim. Sou uma pessoa diferente da que era antes de ter escrito este livro, mas para bem. Foi uma evolução. É um privilégio escolher temas que nos dão essa possibilidade.

 

É um escritor em trânsito. Como faz para que essas viagens constantes ainda lhe acrescentem algo?

É preciso que haja um esforço para vermos sempre alguma coisa diferente. Aprender algo. Mais uma vez, é um privilégio. É verdade que nos habituamos a tudo, até mesmo aquilo que achávamos impensável, mas tem que haver sempre uma tentativa de procura. Às vezes, as viagens competem com a própria escrita. Tiram-me tempo, tiram-me foco e uma certa perturbação, mas, muitas vezes, contribuem com conhecimentos e perspetivas novas. “A Montanha” trouxe-me isso.

 

Apesar da mundividência acumulada, o lugar de origem continua a ter a mesma importância para si?

Uma das vontades que tenho é a de voltar a escrever sobre esse universo. Para se regressar a um lugar é preciso partirmos e para sentirmos falta temos que estar longe. Livros como “A Montanha” e outros têm criado essa vontade, por sentir que me tenho afastado um pouco.

Sérgio Almeida

 

"Ao escrever este livro, senti uma consciência da mortalidade e da finitude que nunca tinha sentido anteriormente"

 

"O peso da palavra ‘cancro’ é injusto para os doentes, porque se veem confrontados com toda essa escuridão sozinhos"

 

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