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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto, in Público, setembro 2019

10.10.19

José Luís Peixoto e o peso do nome Saramago

TEXTO DE JOSÉ RIÇO DIREITINHO

 

Autobiografia é um romance que desafia o leitor ao diluir fronteiras entre o real e o ficcional, entre espaços e tempos, entre duas personagens de nome José, um jovem escritor e José Saramago. Este é provavelmente o melhor romance de José Luís Peixoto.

 

O título, Autobiografia, e a designação “romance” inscrita, logo abaixo, na capa do mais recente livro de José Luís Peixoto (n. 1974), parece querer alertar o leitor para o jogo de ilusões que aí vem. E a leitura das primeiras páginas confirma essa ideia: há um escritor José [Saramago] e um aprendiz de escritor também chamado José [Luís Peixoto, pode o leitor presumir]. Ao fim de algumas páginas, percebe-se que é um livro que desafia a atenção de quem o lê: o jogo com os nomes, a mudança abrupta de cenas, as fronteiras ténues entre narradores e personagens, e adivinha-se que também haja essa diluição de limites entre espaços e tempos. A estrutura pouco comum, quando comparada com as dos livros anteriores do autor, torna de imediato Autobiografia um livro singular na obra de José Luís Peixoto.

 

“Esse começo foi consciente no sentido de mostrar que o livro vai ser assim até ao fim”, confirma Peixoto em conversa com o Ípsilon. “É uma espécie de manifesto desta minha proposta narrativa. Este é um romance que exige tempo de envolvimento”. Com o prosseguir da narrativa, Autobiografia vai-se alargando em várias dimensões – até porque um dos assuntos do livro é a escrita de uma biografia de Saramago pelo jovem aprendiz de escritor, José. Biografia que, à semelhança da “proposta” autobiografia de Peixoto, se vai tornando também ela ficcional.

 

José Saramago surge neste romance como uma figura de ficção alicerçada no real. Como personagem origina o jogo (ou os jogos) a que o autor se propõe, assim divergindo do caminho de reconstituição biográfica (que talvez fosse o mais natural e esperado pelos leitores). José Luís Peixoto, que afirma que “foi um grande esforço escrever este livro, uma grande luta”, conta um pouco sobre as opções que teve de fazer ao longo do tempo em que o escreveu (pouco mais de um ano): “Ao longo do processo de escrita, o livro teve dois ou três momentos em que tive de reavaliar tudo, de reorganizar toda a narrativa. Um dos princípios que me pareceu que poderia defender o romance ao nível desta questão da presença da personagem Saramago era integrá-la num jogo. E fazer com que o livro se movimentasse nesse campo da construção literária e não tanto no da reconstituição histórica da sua vida. Contudo, a dimensão histórica também é importante, e por isso, para lá das questões do enredo, da forma como a narrativa flui, dos anacronismos, houve depois uma outra construção, a do autobiográfico e do ficcional. O possível conhecimento que os leitores têm da vida do José Saramago, e da minha, em maior ou menor grau, também contribui para a leitura do livro. O simples facto de saberem que eu me chamo José como uma das personagens, e que o título é Autobiografia, já direcciona para uma forma de leitura. Mas depois há outras. Se o leitor souber, por exemplo, que eu ganhei o ‘Prémio Saramago' próximo da idade daquele jovem escritor, e que o ganhei com o meu primeiro romance.” E Peixoto prossegue dizendo que todos os seus livros, de uma maneira ou de outra, nem sempre evidente, falam um pouco de si, que vai deixando dados autobiográficos por necessidade: “Este livro tem muito de mim porque essa era a minha proposta. Mas que pode não ser tão evidente como as pessoas pensam. Por vezes o que as pessoas julgam ser mais autobiográfico não o é assim tanto. Outras coisas, eventualmente mais excêntricas, podem por vezes ser decalcadas da minha realidade. Isto tem a ver com a forma como eu depois valorizo o meu trabalho. Preciso de deixar essas coisas escritas, essas informações, para depois sentir que ele me diz respeito.”

 

Pacheco

A questão do aproveitamento (neste caso de uma coincidência) dos nomes das personagens feito por Peixoto ao longo do livro, não é um facto novo. Já no seu primeiro romance, Nenhum Olhar, há uma história em duas gerações, com um pai e um filho de nome José; e, mais tarde, em Cemitério de Pianos, há várias gerações que se misturam no tempo da narrativa, e em que pais e filhos se chamam ‘Francisco’. O autor reconhece esse seu recurso estilístico: “Funciona aqui como um jogo, e compreendo que por vezes possa não ser muito claro e que possa mesmo gerar alguma confusão, mas essa é uma das propostas que quis que estivesse presente. Até ao final da narrativa há momentos em que as coisas mudam bastante, em que há anacronismos, uma espécie de rasteiras para um leitor que esteja mais habituado a leituras cronológicas.”

 

Uma história curiosa ainda sobre nomes: num anterior livro de José Luís Peixoto, Abraço, há um texto intitulado “Pacheco”. Esse texto fala das muitas vezes em que lhe trocaram o nome, e há nele uma fotografia de uma página autografada com uma dedicatória com a data de 1997: ‘Para José Luís Pacheco, com a simpatia do José Saramago’. Peixoto conta, com um sorriso: “Essa foi a primeira vez em que estive na presença do Saramago, em que lhe pedi para me autografar o Memorial do Convento”.

 

Fazer de José Saramago uma personagem nuclear de um romance, pode não ser uma tarefa fácil se a forma escolhida for a da ficção: dialogar com a sua figura, com tudo o que ela carrega como representação social e literária, com as expectativas dos leitores, com a complexidade de leituras da sua obra. José Luís Peixoto confessa que tudo isto tornou o livro bastante trabalhoso. E conta como chegou à ideia do romance: “Tudo começou a partir de um conto que publiquei numa revista. Era um conto que tomava a história de D. Pedro e de Inês de Castro como eixo. A partir de certa altura, pensei escrever outros contos que tivessem como centro algumas personagens importantes da História de Portugal. Comecei a listá-las. E já na contemporaneidade a personagem que me pareceu mais adequada foi o Saramago. Seria uma personagem diferente porque eu o tinha conhecido. A ideia foi crescendo, e acabei por abandonar esse livro de contos. Tinha nascido a ideia de escrever um romance que integrasse o José Saramago como personagem central, não quer dizer que seja a principal. Partindo dessa ideia tudo se foi construindo aos poucos. O título só apareceu a meio da escrita do livro.”

 

 

Normalmente quando se escrevem romances temos fantasmas, imagens na neblina, imagens dos leitores que o vão avaliar. Neste caso eu tinha o rosto da Pilar

José Luís Peixoto

 

 

A linguagem

Para além de Autobiografia ter um tipo de arquitectura narrativa pouco comum nos romances anteriores de Peixoto, também a linguagem revela um trabalho diferente, quase diria mais cuidado e apurado. Na preparação deste livro, o autor leu tudo o que lhe faltava ler na obra de José Saramago. Não admira, portanto, que algum do ritmo desses romances por vezes faça assomo em Autobiografia, como se houvesse ali um ajustamento a fazer, mas é sobretudo na atenção ao pormenor, como se o olhar se fosse aproximando do objecto ou da acção, que se nota a diferença. “Não páro de ler enquanto escrevo. Abraço até as influências que então me chegam. Escolho as leituras em função do que estou a escrever. Pode vir daí uma certa musicalidade que se procura. Agiliza as coisas”, diz José Luís Peixoto. “Com este livro decidi desde muito cedo não fazer um pastiche da escrita do Saramago. Ainda assim, há certas escolhas, certos princípios, certos valores da escrita, que dificilmente não são absorvidos.”

 

Mas há ainda mais a considerar: uma espécie de hierarquia que Peixoto estabelece para os seus livros, e que dessa forma definem o nível de exigência da escrita. “Não é uma hierarquia de importância, mas os romances são os pilares do caminho que eu tenho feito. Se eu tiver que pensar nalguma coisa da minha vida, eu localizo-a sempre em relação aos romances que publiquei, a pessoa que eu era quando os escrevi. Os romances têm para mim esse significado pessoal de exigência de evolução, e de uma tentativa de balanço. O que nem sempre acontece nos outros livros, que cumprem outras funções, e têm outras exigências que nem sempre são tão exigentes como as dos romances”. E acrescenta: “Há um caso engraçado com o livro No Teu Ventre. Eu fiz finca-pé na editora para que aquilo fosse considerado novela, e é isso que aparece na capa. Mas depois, à medida que as pessoas foram escrevendo sobre o livro, foram-se referindo a ele como romance. Hoje também já o considero um romance”.

 

Mas não é apenas a forma escolhida para a narrativa que influencia muito os livros de Peixoto. Também a proximidade ao assunto, a natureza das personagens, a distância entre realidade e ficção, entre o concreto e o imaginado. “Há coisas que fazem muita diferença. Por exemplo no livro Galveias: eu já tinha escrito sobre esse espaço, mas sem o nomear, usando um nome ficcional. Não se consegue escrever certas coisas se não se tiver lá aquele nome concreto. O facto de o nomear [ao lugar de Galveias, onde nasceu] provoca que eu escreva de maneira diferente sobre ele. Acho que se passou o mesmo com Autobiografia, o peso do nome Saramago como personagem fez-me também escrever de outra maneira, foi quase uma obrigação”.

 

Para José Luís Peixoto havia uma espécie de “sombra”, um fantasma, a pairar sobre a ideia de escrever um romance em que José Saramago entrasse como personagem. O seu nome era Pilar del Río. “A Pilar soube do livro antes de eu ter escrito a primeira palavra. Esse foi um lado muito sensível. Isso era para mim muito importante. Aliás, a própria Pilar é referida no romance como personagem. E há um aspecto curioso, pois no dia em que conheci o Saramago conheci também a Pilar. Eu tinha de saber gerir isso. Normalmente quando se escrevem romances temos fantasmas, imagens na neblina, imagens dos leitores que o vão avaliar. Neste caso eu tinha o rosto da Pilar. Para mim foi um alívio enorme quando ela leu o livro e se mostrou satisfeita. Ela sabia que o livro é um artefacto literário e que aquele Saramago é uma personagem, que apenas sugere uma possibilidade de Saramago”. Mas Peixoto não sente que em algum momento, o facto de vir a ter Pilar como leitora do livro, o tenha constrangido ou condicionado. Ela nunca lhe disse o que esperava do romance. “Só quando o terminei ela soube alguma coisa sobre o livro. Imprimi-o e entreguei-lho ainda antes de o enviar a quem quer que fosse”.

 

(Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto)

 

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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto

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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto, in Visão, julho 2019

30.09.19

Saramago duplicado no livro "Autobiografia", de José Luís Peixoto

TEXTO DE LUÍS RICARDO DUARTE
 

O Prémio Nobel da Literatura português transforma-se em personagem de um romance que também é uma homenagem. No livro "Autobiografia", de José Luis Peixoto, literatura com literatura se paga.

 

Ao receber o Nobel da Literatura, em 1998, José Saramago tornou-se inevitavelmente a grande referência das letras portuguesas, o que se traduziu em três grandes eixos: a celebração da liberdade do narrador, que não poucas vezes deriva para reflexões e assuntos paralelos; a vontade de contar uma boa história, presente na sua obra desde o primeiro romance; e o reencontro com uma certa portugalidade, menos épica do que humana. Para as novas gerações de escritores, a importância do autor de Memorial do Convento reforçou-se com o prémio a que deu nome, atribuído pela Fundação Círculo de Leitores. José Luís Peixoto recebeu-o na segunda edição, em 2001, e agora, no seu novo livro, presta-lhe tributo. Homenagem sem ser hagiografia; Autobiografia é literatura que se alimenta de literatura.

 

Essa dimensão de diálogo é o que, de início, mais se destaca no romance. Num entendimento da literatura enquanto jogo (no tempo, nos artifícios e nos símbolos), Autobiografia afirma-se como um labirinto de espelhos, no qual se refletem várias obras de José Saramago. Como nas pinturas cubistas, prestando atenção a determinados pormenores, identificamos claramente a essência de Todos os Nomes, Manual de Pintura e Caligrafia, O Homem Duplicado, Ensaio sobre a Cegueira ou História do Cerco de Lisboa. E não o dizemos só por o nome de todas as personagens ser retirado desses e de outros romances, mas porque se soube fixar o coração dessas obras e encadear os seus artifícios fundamentais num enredo que ganha vida própria. É uma leitura pessoal e original do legado saramaguiano, que se funde com o universo e as obsessões que, desde a estreia, com Morreste-me, José Luís Peixoto tem vindo a perseguir.

 

Autobiografia é, ainda, a revisitação de um célebre conto de Jorge Luís Borges. Como em O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam, um escritor mais velho depara com outro mais novo. A tarimba de um contrasta com a angústia do outro. Em Lisboa, no final dos anos 90, Saramago caminha para a consagração, enquanto o outro José não consegue acertar com o segundo romance. A convite do editor, aceita escrever uma biografia do futuro Prémio Nobel. Os seus destinos estão condenados a confundir-se. Ao refletir sobre os caminhos da criação, José Luís Peixoto recria igualmente os seus tempos de aspirante a escritor em Lisboa, convocando para a narrativa a sua geografia afetiva, dos Olivais a Cabo Verde, confundindo ainda mais as fronteiras sempre ténues entre realidade e ficção, vida e obra. E com isso talvez se perceba melhor o sentido do título, Autobiografia. Dentro deste livro vivem todos os escritores do mundo.

 
 
(Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto)
 

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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto

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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto, in Diário de Notícias julho 2019

30.09.19

Saramago cabe num romance? José Luís Peixoto fez a experiência

TEXTO DE JOÃO CÉU E SILVA

 

José Luís Peixoto tem novo romance, Autobiografia. Uma poderosa ficção em que o autor mergulha no universo de José Saramago e utiliza o escritor como coprotagonista.

erá que José Saramago cabe num romance? A pergunta pouco feita pelos escritores portugueses é respondida nesta sexta-feira por José Luís Peixoto, autor de Autobiografia, um romance em que o Nobel da língua portuguesa existe como personagem estruturada. Peixoto, que vem embalado pelo romance Galveias - uma narrativa bem regionalista que chegou ao Japão, onde foi traduzido recentemente, e é um sucesso no Brasil -, deixou-se de medos e captou numa história com dois Josés: um escritor e um pretendente à mesma profissão.

As trezentas páginas que enredam os dois coprotagonistas, o José aspirante a escritor e o José Saramago, surpreendem e José Luís Peixoto atinge o nível que seria exigível a um dos (demasiados?) autores da geração 2000.

Esta é uma poderosa ficção em que o autor mergulha no universo de José Saramago e utiliza o escritor como coprotagonista. Uma espécie daquilo que o Nobel fez com o heterónimo de Fernando Pessoa em O Ano da Morte de Ricardo Reis e que irá surpreender pela habilidade literária com que José Luís Peixoto puxa até ao fim o fio da história.

Um desafio que o próprio Saramago fizera ao afirmar que queria colocar o Convento de Mafra num livro e o fez em Memorial do Convento, a obra que, segundo Eduardo Prado Coelho, lhe aumentou a "base social de apoio" fora das crónicas, de atitudes ideológicas e romances à esquerda anteriores.

Peixoto faz o mesmo, pega em Saramago e usa-o num romance sem receio do desafio.

José Luís Peixoto tinha um problema: é que José Saramago sempre escreveu livros que surpreendiam pelo seu coração criativo. Ora quebrava a Península Ibérica ora cegava os habitantes do mundo. Eram histórias que o leitor não esperava nem concebia como possíveis.

Como contornar essa capacidade de Saramago? A leitura de Autobiografia mostrará que Peixoto se instala num dos romances do Nobel para levantar ao contrário o edifício: O Homem Duplicado. Tal como o protagonista desse romance, Tertuliano Máximo Afonso, irá ver convergir duas personalidades numa única. Mas O Homem Duplicado não passa de uma muleta invisível e logo esquecida quando se fecha a leitura de Autobiografia, porque as personagens de Peixoto têm vida própria. Apesar de o escritor piscar os olhos a alguns dos nomes que o Nobel tornou conhecidos na sua obra.

Personagens à linha nos romances de Saramago

Há em Autobiografia um editor chamado Raimundo Silva como o revisor de História do Cerco de Lisboa, uma Lídia como a de O Ano da Morte de Ricardo Reis, um Mau-Tempo como o de Levantado do Chão ou um Bartolomeu como o de Memorial do Convento. Há uma Rua de Macau como aquelas em que os pais de Saramago alugavam quartos no início da sua vinda para Lisboa e muitas outras referências ao universo Saramago. Peixoto descreve o escritor e a mulher, Pilar del Río, como se comportavam de verdade.

Recupera as outras duas mulheres, Ilda e Isabel, e justifica muito da existência delas com Saramago por breves e importantes momentos definidores da sua personalidade. Refaz alguns passos do escritor com muita realidade, como nas impagáveis viagens de avião. Contudo, é em quatro parágrafos no fim da página 61 e toda a 62 que capta o ser Saramago na sua plenitude, quando descreve a forma como o escritor acorda e vai esquecendo os pensamentos noturnos.

Peixoto evita semelhanças com as particularidades da escrita saramaguiana, mesmo que de vez em quando ceda para satisfazer aquela que poderá ser a vontade do leitor ao pegar neste livro: ler um pouco à Saramago. Mesmo que a ambiência do romance faça recordar frequentemente alguns dos tiques narrativos do escritor, bem como o modo como interrompia a ação para que o narrador repusesse a ordem, José Luís Peixoto divorcia-se de qualquer facilitismo e Autobiografia é apenas dele. Porque é capaz de se libertar do peso do Nobel e criar uma narrativa muito sua, que até rivaliza com a envolvência dos romances de Saramago.

A leitura de Autobiografia irá despertar nos leitores de Saramago muitas das memórias que têm sobre os seus romances e é essa virtualidade que também engrandece o romance de José Luís Peixoto.

Após Autobiografia valerá a pena perguntar: espera-se hoje por algum romance de um dos novos autores portugueses, os da geração 2000, como se aguardava por um José Cardoso Pires ou um António Lobo Antunes - falemos só destes dois - nas duas décadas anteriores à passagem do milénio? Com o leitor ansioso e a passar na livraria à espera de se confrontar com mais um mito literário. A resposta é não, afinal são poucos os novos autores capazes de preencher um romance com a arte exigida pelo leitor. A surpresa chega inesperadamente às livrarias nesta sexta-feira com o romance Autobiografia, de José Luís Peixoto.

Argumento de Autobiografia em poucas palavras

Para evitar desvendar totalmente o novo romance de José Luís Peixoto, deixa-se aqui a informação que a editora Quetzal já revelou sobre Autobiografia: "Um jovem escritor, José, é incumbido de escrever a vida do consagrado escritor, José. Este é o ponto de partida do livro que marca o regresso de José Luís Peixoto ao romance (...). Autobiografia é a história dentro da história, um romance que junta o autor ao mais reconhecido dos escritores portugueses, José Saramago (...). Na Lisboa de finais dos anos noventa, um jovem escritor em crise vê o seu caminho cruzar-se com o de um grande escritor. Dessa relação nasce uma história que mescla realidade e ficção, um jogo de espelhos que coloca em evidência alguns dos desafios maiores da literatura."

(Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto)

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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto

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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto, in Expresso, julho 2019

18.09.19

SOB O SIGNO DE SARAMAGO

Por José Mário Silva

O sétimo romance de José Luís Peixoto, lançado simultaneamente em Portugal e no Brasil, é um sofisticado jogo de espelhos em torno do Nobel da Literatura de 1998

 

José escreve mais um fragmento da vida de Saramago: o instante em que este termina de escrever, no início de julho de 1997, o romance “Todos os Nomes”. No centro desse livro está um funcionário do Registo Civil chamado José. E esse José é só o início de uma cascata de Josés, porque ele está a ser escrito por outro José (Saramago), por sua vez escrito por outro José (o protagonista de “Autobiografia”), escrito ainda por outro José (Luís Peixoto), o autor do romance em que esta espécie de boneca russa literária se vai modulando, por entre jogos de espelhos, intertextualidades e um ímpeto metaficcional que atinge o apogeu no capítulo 20, quando finalmente se revela e explica o segredo que aproxima um velho escritor de 75 anos, já consagrado mas à beira da glória maior do Nobel, e um jovem literato, ainda a dar os primeiros passos, mas já angustiado pela perspetiva de não conseguir escrever o seu segundo romance.

 

A encomenda de uma biografia de Saramago, por parte do seu editor, só traz mais caos à vida já muito caótica de José. Ele só consegue aproximar-se ficcionalmente desse autor que o intimida e paralisa, recriando episódios do seu percurso como se fossem cenas de um romance, enquanto os seus problemas pessoais se acumulam, do vício do jogo ao problema do alcoolismo, passando pela relação amorosa com Lídia, uma caboverdiana que vive num prédio degradado da Quinta do Mocho. A literatura invade tudo e não só as figuras com que se cruza ecoam nomes saídos de livros de Saramago — Lídia, de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”; Bartolomeu de Gusmão, de “Memorial do Convento”; Fritz, de “A Viagem do Elefante”; Raimundo Silva, de “História do Cerco de Lisboa” —, como há toda uma subtil rede de referências que estabelecem uma relação visceral entre o mundo em que José se movimenta e o universo literário do escritor que deve biografar. Um dos encontros entre José e Saramago, por exemplo, acontece no quarto do Hotel Bragança em que Ricardo Reis fica hospedado. E Fritz perde a visão de repente, ao viajar para Goa, como se fosse mais uma vítima da epidemia descrita em “Ensaio sobre a Cegueira”.

 

O principal risco de “Autobiografia” era esgotar-se no plano da mera homenagem engenhosa, mas Peixoto evitou essa armadilha, ao construir uma narrativa que se expande em várias direções, acumulando camadas de complexidade. Por um lado, cada personagem secundária surge com uma identidade forte e bem desenvolvida, como é o caso de Bartolomeu, “retornado” amargo que nunca perdoou as alegadas traições da descolonização. Por outro, traça-se, em pano de fundo, um retrato sociológico de Portugal nas vésperas da Expo-98, esse momento de ilusão quanto ao progresso efetivo do país depois da adesão à Europa.

 

Na véspera de partir para o Brasil, onde o livro está a ser lançado em simultâneo com a edição portuguesa, José Luís Peixoto falou ao Expresso deste seu sétimo romance, em que muitos detetarão eventualmente uma rutura estilística que o próprio se apressa a negar. “É um livro que não surge do nada. Várias das reflexões sobre a natureza da criação literária já estavam em livros anteriores. Acho que há muita continuidade com o que fiz antes.” Quanto ao título, propositadamente ambíguo, lembra que a questão autobiográfica está presente desde o primeiro livro, “Morreste-me”, sobre a figura do pai e o impacto brutal do seu desaparecimento num rapazinho de Galveias, aldeia próxima de Ponte de Sor que aparece recorrentemente na sua obra, como uma espécie de epítome de uma ruralidade desaparecida.

 

Numa das várias notas de rodapé com que José vai comentando a sua ficção de pendor biográfico sobre Saramago, pode ler-se que a literatura consiste em “contar-me a mim próprio através do outro e contar o outro através de mim próprio”. Peixoto admite que é essencialmente nisso que acredita, antes de acrescentar: “Na ficção procuro sempre uma troca, talvez impossível, entre eu e os outros. É nessa impossibilidade, mas também nesse desejo, que a literatura acontece.” E se a dimensão autobiográfica nunca está ausente, convém “calibrá-la” para que se torne eficaz: “Nem de mais nem de menos. Os elementos que vou buscar à minha própria experiência, e há vários neste livro (por exemplo, eu morei, como o José, num rés do chão nos Olivais), servem para garantir uma certa coerência, porque o real é sempre coerente. Esses elementos são como as rodinhas a mais na bicicleta, uma forma de evitar a queda em incongruências que podem quebrar o pacto estabelecido com o leitor.”

 

Há uma razão forte para que José Luís Peixoto tenha escolhido Saramago, e não outro escritor qualquer, para esta sua experiência de aproximação, e por vezes quase apropriação, de um universo literário alheio. O facto de o seu primeiro romance, “Nenhum Olhar” (2001), ter vencido o Prémio José Saramago como que se lhe colou à pele. “Ainda hoje, no estrangeiro, associam-me ao nome dele e isso assume um peso grande na forma como sou lido noutras línguas.” O facto de ter conhecido pessoalmente o escritor também foi determinante: “Aos 26 anos, via nele a personificação das minhas ambições. Era uma espécie de sonho andante.” No momento de escrever o livro, o respeito e a admiração podiam ser um entrave, mas não foram. “Para escrever um livro como este, era preciso assumir muito claramente que o Saramago que surge nestas páginas é uma personagem. O meu trabalho foi encontrar essa personagem, sabendo que nunca corresponderia completamente à pessoa real. E quis mostrar um Saramago humano, com dúvidas, com defeitos, com dilemas e aspetos menos positivos.” No fundo, olhou para ele sem reverências ou endeusamentos, tal como olha para as outras personagens. Para reconstituir alguns momentos da vida de Saramago, livremente narrados por José, leu todas as biografias disponíveis, as entrevistas longas e os livros de memórias sobre a infância. Mas sempre consciente dos limites estreitos em que se movia: “Quando eu nasci, já Saramago vivera mais de metade da sua vida. Aquilo de que tenho mais consciência é do tanto que me escapa do que foi a existência dele. Escapa-me a mim e acho que nos escapa a todos.”

 

Em “Autobiografia”, um aspeto que aproxima o José jovem do José consagrado é a forma como ambos vivem a angústia do segundo romance. No caso de Saramago, depois de “Terra do Pecado” (1947), levou seis anos a concluir “Claraboia”, um livro que se haveria de perder na editora em que o entregou, só sendo publicado postumamente. O trauma dessa experiência, a que se juntam outros romances iniciados mas não terminados, levou a uma espécie de travessia do deserto, de que só começaria a sair nos anos 60, antes da explosão do romancista, já nos anos 70. “Essa angústia do segundo romance fascina-me e fiz dela um dos temas centrais do livro. Uma angústia que também existiu para mim, claro. Depois do primeiro livro, já não está tudo em aberto e o caminho a seguir é sempre um dilema. No meu caso, a forma de o resolver foi um pouco extremada. Optei por escrever, quase de forma terrorista, um livro [“Uma Casa na Escuridão”] que fosse o mais radical possível.”

 

Se Saramago ainda fosse vivo, teria Peixoto coragem de escrever este livro? “Não sei. Acho que não. Para ser sincero, acredito que ele até poderia gostar do livro e não ficaria de certeza ofendido. Eu é que ficaria intimidado.” Quanto a Pilar del Río, que também surge como personagem, nomeadamente numa cena em que adormece ao lado de Saramago, na passagem de ano de 1997 para 1998, enquanto o escritor imagina o que o ano lhe trará (e sabemos que será o Nobel de Literatura), o problema era outro. “Foi complicado mostrar-lhe o livro, porque tive de domesticar, na minha cabeça, a especulação infinita sobre qual poderia ser a sua reação.” A reação pode ser lida numa das badanas e é uma espécie de aval entusiasmado. “Essa resposta tornou tudo mais fácil. Foi um grande alívio constatar que percebeu exatamente o que eu quis fazer. A Pilar entende, como poucos, o que é a literatura. E soube ver que este livro é só isso: literatura.”

 

(Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto)

 

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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto

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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto, in Jornal de Letras, julho 2019

28.07.19

UM NOTÁVEL TEMPO NARRATIVO

Miguel Real

 

 

No futuro, Autobiografia talvez se venha a constituir como o melhor romance de José Luís Peixoto (JLP) publicado até 2019, não por conter José Saramago e Pilar como personagens, não por inovar estilisticamente face à obra anterior, mas pelo notável trabalho sobre a categoria de tempo narrativo, que, deveras, ainda que firmado sobre o tempo real, especificado no texto com algum pormenor, assume a função maior de organização estrutural do romance.

 

De facto, o registo da escrita de JLP permanece igual: um cruzamento original entre um explícito realismo (nome de ruas, bairros, descrição física e psíquica de personagens, origem geográfica ou étnica destas, profissões, condições familiares…) e um lirismo descritor de situações sociais labirínticas que, contra a vontade das personagens, as arrastam para o fracasso, um fracasso descrito de um modo fatal, inevitável, ainda que com palavras suaves, como se fosse próprio do homem não realizar-se. O lirismo, em JLP, reside na impossibilidade de se realizar o que deveria ser realizado, lançando as personagens num jogo mental não trágico de compensação e substituição.

 

Bucelas, Bairro da Encarnação e Bairro das Colónias em Lisboa, Pangim-Goa, Santo Antão-Cabo Verde, Quinta do Mocho-Sacavém e Lanzarote constituem-se como as bases do realismo de Autobiografia. Saramago/Pilar, José/Lídia, Bartolomeu de Gusmão (lembram-se?), Fritz e os pais, Mãe de José são, com excepção do primeiro par, seres fracassados, que parecem arrastar-se num tempo de decadência das suas vidas (Bartolomeu, Fritz, Mãe de José), que igualmente aprisiona as personagens jovens (José, Lídia, Domingues), incapazes de criar um tempo realizador novo.

 

O tempo narrativo nasce da inter-relação entre os momentos da existência das personagens, formando um puzzle, no qual, porém, um novo momento temporal da narração não só condensa todos os momentos e factos narrados anteriormente como revela um sentido antes oculto à história narrada, como se, em cada capítulo, uma outra estória estivesse a acontecer e o romance avançasse por camadas sucessivas. Não se trata de cronologia, aqui totalmente subvertida, não se trata de continuidade ou de sucessividade narrativa (não existe um fio de ligação senão que são sempre as mesmas personagens, estas porém evidenciadas coleidoscopicamente, como se em cada capítulo brilhasse apenas uma vertente), mas de acumulação de acontecimentos, como se fossem estratos geológicos uns sobre os outros. A estrutura temporal de Autobiografia é, assim, um tempo de acumulação de acontecimentos cuja presumível unidade ou fil rouge só pode ser conferido pelo leitor. É a grande participação do leitor, prestar unidade ao que é mostrado multiplamente, detectar o todo onde só se vê partes. Autobiografia exige, assim, um leitor nada preguiçoso, aliás, convidado pelo narrador a participar, já que em certos momentos, fundem-se narração da realidade exterior e a própria realidade exterior, narrador e leitor.

 

Não é de admirar, portanto, que consoante o leitor privilegie uma personagem (por exemplo, Bartolomeu, retornado de Angola, Fritz de família com origem em Goa, depois Lourenço Marques, depois Viena de Áustria; ou Lídia, de Santo Antão, depois Quinta do Mocho…), assim tenha uma visão geral diferente do romance: o de um Império a desfazer-se (Fritz, que “cega” no retorno a Goa), a do “retornado” africano como um faz-tudo exilado em Portugal, capaz de reconstruir a vida, de enriquecer de novo a partir de diamantes trazidos enfiados no ânus; a de Lídia cabo-verdiana, serviçal dos portugueses, arrastada na miséria, sem nunca perder a doçura e a alegria; a de Domingos, cabo-verdiano que sobrevive pela violência…).

 

No centro desta teia, emerge Saramago e, acessoriamente, Pilar, representada de um modo passivo e não como o intenso amor maduro do escritor (e é pena!). No centro do romance está Saramago e no centro desta personagem está um segredo, que o une a José, o jovem escritor de um primeiro romance, que anseia por escrever o segundo. O editor  – Raimundo Benvindo Silva, que JLP eleva de revisor e autor a editor –, diferentemente, propõe-lhe escrever uma biografia de Saramago, que José aceita hesitantemente.

 

Não devemos revelar o “segredo”, nem devemos revelar se, afinal, José escreve ou não a biografia de Saramago, já que seria anular o efeito suspensivo que o autor imprimiu a Autobiografia – duas revelações só feitas perto do final. E, no caso do título, nem nós temos a certeza qual o verdadeiro autor de “autobiografia”, se Saramago, que assim teria inventado a personagem José para se auto-retratar, e todo o romance seria seu enquanto personagem, se de José, que assim escreveria um romance a narrar a terrível passagem entre o primeiro e o segundo romances. Quem é o autor implícito de Autobiografia, já que o explícito é JLP? A resposta a esta questão, que só pode ser pensada a partir da leitura dos momentos finais, decide a totalidade da interpretação e do sentido do romance. Comprovando a noção de tempo acumulativo (um momento sobre outro, mas não necessariamente um momento causado e derivado do anterior), da resposta que o leitor deduzir, decorrerá o sentido total de Autobiografia.

 

Não hesitamos em qualificar Autobiografia como o melhor romance português publicado até ao verão de 2019.

 

(Crítica do romance Autobiografia, de José Luís Peixoto)

 

Crítica Miguel Real Autobiografia.png

Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto

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