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Sobre A Montanha, in Jornal de Notícias, novembro 2025

05.11.25

 

"Estamos mais interligados do que por vezes imaginamos"

 

"A Montanha”, novo romance do escritor, relata a história de seis pacientes do IPO e dos seus esforços de combate à doença

 

Durante quatro anos, José Luís Peixoto fez do Porto a sua segunda casa, deslocando-se com. regularidade ao Instituto Português de Oncologia para ouvir o testemunho de seis pessoas de origens distintas, de Oliveira de Azeméis à Venezuela e Moçambique, no seu processo de luta contra a doença. A partir desses relatos, mas também das suas próprias memórias familiares, o autor de “Nenhum olhar” construiu “A montanha”, romance que assinala o regresso à ficção, quatro anos depois de “Almoço de domingo”.

 

Escrever este livro equivaleu a subir a uma montanha?

A grande montanha é a vida que temos que subir. Escrever este livro foi similar. A escrita trouxe-me dificuldades que ainda não tinha encontrado. É o que acontece quase sempre. Tentamos subir um pouco a ambição de livro para livro.

 

A consciência de que estava a escrever sobre pessoas concretas fez parte dessas dificuldades?

Senti uma grande responsabilidade para com essas histórias. A maneira que encontrei para contá-las foi confrontá-las comigo próprio. Ao escrever, senti uma consciência da finitude e da mortalidade que nunca tinha sentido antes. Na teoria, claro que sabemos que vamos morrer um dia, mas tudo muda a partir do momento em que recebemos o diagnóstico de cancro. É aí que tudo se torna real.

 

Em que sentido conseguir imaginar a vida dos outros a partir da sua própria tornou menos difícil o processo de escrita do livro?

No quotidiano, nem sempre nos damos conta de uma evidência: aquilo que achamos que os outros são acaba por ser apenas a nossa interpretação, não abarca toda a complexidade do ser humano. O livro parte dos testemunhos de pessoas que existem, todavia deixei sempre presente que se tratava da minha compreensão a partir do que me foi contado e não de um registo direto.

 

É possível escrever um livro destes saindo ileso, ou seja, sem criar um vínculo com as pessoas que conheceu?

É muito difícil. Lidei com pessoas que enfrentaram momentos de fragilidade. Senti que tinha que estar à altura das expectativas que foram colocadas por parte dessas pessoas e das suas famílias. Escrever com esse peso não é fácil.

 

Embora o cancro seja uma doença prevalecente na sociedade, há um tabu que o rodeia, como se nos esforçássemos por não o ver. É um paradoxo?

É uma palavra que até evitamos pronunciar. Eu próprio dei-me conta de que nunca a tinha utilizado num livro meu. O peso da palavra é injusto para os doentes que têm cancro, porque se veem confrontados com toda essa escuridão sozinhos. Falar sobre este tema difícil ajuda a que lhe tiremos peso sem que estejamos a tirar seriedade.

 

Há uma frase repetida ao longo do livro, quase como um mantra: “eu sou porque nós somos”. É uma divisa que o acompanha cada vez mais?

Essa ideia acaba por fazer sentido à luz do texto, focado num grupo de pessoas que são indivíduos, mas têm uma unidade entre si. Na verdade, estamos mais interligados do que por vezes imaginamos.

 

Quer “A Montanha” quer o romance anterior chegaram até si sob a forma de propostas de outros. Aprecia cada vez mais essas possibilidades?

Não tenho muita dificuldade em deixar-me seduzir por uma ideia vinda de outra fonte, mas também é verdade que ambos os romances representavam uma oportunidade. Ter ao meu dispor histórias de vida para trabalhar narrativamente era uma oportunidade valiosa.

 

Quer sejam sobre um empresário de sucesso, como Rui Nabeiro, ou sobre pessoas em luta contra o cancro?

Sim, sim. As múltiplas vidas que possam existir. Na história de uma vida vai também a história de um país, de uma comunidade. Vão muitas reflexões.

 

A “vida esteve fora ou esteve dentro”, como lhe chama no livro, ao longo da escrita?

Está fora e dentro ao mesmo tempo. Construir um livro é construir um mundo inteiro. E esse mundo tem relações diretas com o que nos rodeia, mas também é um mundo em si. Há realidades que ele contém e só existem ali, acabando por ser povoadas pelas pessoas que o leem. São elas que dão carne àquela realidade. No fundo, é um reflexo do que existe na nossa perceção do mundo, entre o que é exterior e o que é interior a nós. São dimensões inseparáveis.

 

O livro é também uma homenagem ao seu pai. Entre “Morreste-me”, marcado pela emoção em carne viva, e este, de que forma esse sentimento se transformou?

Há diferenças enormes. Num momento do livro escrevo que me transformei no meu pai. E esse é o sentimento que tenho hoje. Falar do meu pai é falar de mim próprio. Falar da pessoa que ele era, do que aprendi com ele, é falar da pessoa que eu sou. E isso é um dos elementos da narrativa da filiação, quer tenhamos consciência ou não. Trazer o meu pai para o livro foi uma forma de me trazer também, mais até do que outros elementos aparentemente autobiográficos. Ao evocar o meu pai, quis que o eu ficasse ao mesmo nível das seis personagens e encontrar uma ligação com elas. Os temas essenciais do livro, como a procura de sentido e a consciência da finitude, não são só daquelas pessoas. São de todos. Dos autores, dos narradores, dos leitores.

 

Os capítulos do livro correspondem a fases de tratamento da doença. Houve muito de terapêutico na escrita?

Existe sempre. Quando nos propomos a escrever um romance, há um confronto. Isso traz uma forma diferente de ver as coisas. Claro que, falando de cancro e de finitude, também acontece essa reflexão. Sinto que foi importante para mim. Sou uma pessoa diferente da que era antes de ter escrito este livro, mas para bem. Foi uma evolução. É um privilégio escolher temas que nos dão essa possibilidade.

 

É um escritor em trânsito. Como faz para que essas viagens constantes ainda lhe acrescentem algo?

É preciso que haja um esforço para vermos sempre alguma coisa diferente. Aprender algo. Mais uma vez, é um privilégio. É verdade que nos habituamos a tudo, até mesmo aquilo que achávamos impensável, mas tem que haver sempre uma tentativa de procura. Às vezes, as viagens competem com a própria escrita. Tiram-me tempo, tiram-me foco e uma certa perturbação, mas, muitas vezes, contribuem com conhecimentos e perspetivas novas. “A Montanha” trouxe-me isso.

 

Apesar da mundividência acumulada, o lugar de origem continua a ter a mesma importância para si?

Uma das vontades que tenho é a de voltar a escrever sobre esse universo. Para se regressar a um lugar é preciso partirmos e para sentirmos falta temos que estar longe. Livros como “A Montanha” e outros têm criado essa vontade, por sentir que me tenho afastado um pouco.

Sérgio Almeida

 

"Ao escrever este livro, senti uma consciência da mortalidade e da finitude que nunca tinha sentido anteriormente"

 

"O peso da palavra ‘cancro’ é injusto para os doentes, porque se veem confrontados com toda essa escuridão sozinhos"

 

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